O conflito entrou numa fase em que energia, água e vida urbana viraram alvos declarados de uma escalada sem freio.
Estados Unidos e Israel ampliaram neste fim de semana os ataques aéreos contra o Irã, atingindo Teerã, Isfahan e províncias no oeste e no norte do país.
Em resposta ao ultimato de Donald Trump sobre o Estreito de Hormuz, autoridades iranianas prometeram retaliar contra a infraestrutura energética de toda a região.
O resultado é uma nova etapa da guerra, na qual usinas, redes elétricas e a própria normalidade civil passam a ser tratadas como instrumentos de pressão militar.
Segundo a Al Jazeera, os bombardeios também parecem ter incluído tentativas de assassinato de altos comandantes militares. Ataques de precisão atingiram unidades residenciais em pequenas cidades das províncias de Gilan e Mazandaran.
Autoridades locais confirmaram várias mortes, mas sem divulgar detalhes adicionais. Na imprensa israelense e americana, circula a especulação de que um alto comandante iraniano ligado à área de drones possa ter sido eliminado.
A escalada ocorreu em meio a um ultimato direto de Trump. O presidente dos Estados Unidos deu 48 horas para que o Irã reabrisse o estratégico Estreito de Hormuz, principal rota de exportação de energia do mundo, sob ameaça de bombardear as usinas de energia do país.
A reação de Teerã foi imediata e calculada para produzir efeito regional. Autoridades políticas e militares prometeram responder com ainda mais força contra instalações energéticas espalhadas pelo Golfo.
A agência Mehr, ligada aos Guardiães da Revolução, divulgou um mapa ilustrativo com usinas de energia nos Emirados Árabes, na Arábia Saudita, no Qatar e no Kuwait que poderiam ser atacadas. A mensagem que acompanhava a imagem era direta e brutal: “Digam adeus à eletricidade!”.
Essa formulação não é apenas retórica de guerra. Ela explicita uma mudança perigosa, porque transforma infraestrutura civil crítica em alvo declarado, com potencial para interromper a vida de milhões de pessoas em vários países ao mesmo tempo.
Do lado iraniano, a narrativa oficial insiste em resistência, controle e vitória próxima. O presidente do parlamento e ex-comandante dos Guardiães da Revolução, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou que um “novo estágio da batalha” começou.
Ele se referia ao ataque de mísseis iranianos contra a cidade israelense de Dimona, onde ficam instalações nucleares estratégicas. “Os céus de Israel estão indefesos”, proclamou Ghalibaf, numa tentativa de responder ao discurso de Washington e Tel Aviv sobre superioridade aérea total.
A mesma linha foi reforçada por Majid Mousavi, comandante aeroespacial dos Guardiães da Revolução, em uma postagem na rede X. A televisão estatal iraniana exibiu apoiadores do regime agitando bandeiras e entoando palavras de ordem para que Mousavi atacasse Dimona novamente.
Israel relatou mais de 180 feridos nos ataques a Dimona e à cidade vizinha de Arad. O dado ajuda a medir o alcance da escalada, que já não se resume a demonstrações simbólicas de força.
Enquanto isso, o chefe de polícia iraniano, Ahmad-Reza Radan, citado pela mídia israelense como alvo de uma tentativa de assassinato, fez em Teerã um discurso provocativo. Ele ironizou a União Europeia e os Estados Unidos, sugerindo que o Irã poderia “preservar” a Groenlândia caso os europeus não conseguissem mantê-la.
Os gracejos públicos seguem a linha adotada pelo aparato estatal nos últimos dias. Uma declaração escrita atribuída a Mojtaba Khamenei, supostamente escolhido como Líder Supremo após o assassinato de seu pai, afirma que os inimigos do Irã estão sendo “derrotados” e que existe uma “unidade particular” entre os apoiadores do establishment teocrático.
Mas a realidade no terreno é bem menos triunfalista. Na semana passada, entre os mortos estavam o principal oficial de segurança do país, comandantes da força paramilitar Basij, o ministro da inteligência e vários outros militares e integrantes da área de segurança.
O governo também relata que um grande número de edifícios residenciais, hospitais, escolas e outras instalações civis foi atingido ao longo da guerra. Ao mesmo tempo, apoiadores do Estado ocupam ruas, praças e mesquitas em várias cidades para conter possíveis protestos antigoverno.
Para a população comum, a ameaça às usinas e aos sistemas de energia produz um medo muito mais concreto do que a retórica oficial. Um morador de Teerã, que pediu anonimato por razões de segurança, disse à Al Jazeera que bombardear as principais usinas seria catastrófico.
“Não seria apenas uma breve interrupção; poderia parar o fluxo de tudo, desde água até gás”, afirmou. “Seria tolice punir a população dessa forma”.
A fala resume o centro do problema. Quando a energia entra na mira, o alvo real deixa de ser apenas o adversário militar e passa a ser toda a infraestrutura que sustenta a vida urbana.
Esse clima de luto e apreensão também apareceu fora da política institucional. O ex-jogador Ali Daei, uma das figuras mais respeitadas do país, publicou no Instagram uma mensagem pelo Nowruz, o Ano Novo persa, dizendo que as celebrações deste ano são diferentes porque o Irã está de luto por seu povo morto na guerra.
“Desejando um Irã próspero e livre, longe da guerra e do derramamento de sangue, tudo sobre bem-estar e calma”, escreveu. A mensagem, pacifista e sem ataque explícito aos Estados Unidos, foi suficiente para atrair críticas de veículos estatais ligados aos Guardiães da Revolução.
Como se não bastasse a guerra militar, os iranianos enfrentam também um apagão informativo. A internet segue cortada para mais de 92 milhões de pessoas pelo 23º dia consecutivo, no mais longo desligamento já registrado na história do país.
Nesse ambiente, a mídia estatal concentra sua cobertura nos ataques bem-sucedidos dos Guardiães da Revolução e apresenta o Irã como um país prestes a ser reconhecido como potência mundial. Já os danos causados pelos ataques americanos e israelenses, quando mencionados, aparecem minimizados ou simplesmente omitidos.
O quadro que emerge é o de uma guerra em duas camadas. Há a guerra real, com mortos, destruição e ameaça direta à infraestrutura, e há a guerra narrativa, em que cada lado tenta impor a imagem de controle enquanto a população paga a conta.
O ponto mais explosivo dessa fase está no Golfo Pérsico. Se a ameaça iraniana de uma “guerra energética” sair do plano da intimidação e atingir usinas ou redes de distribuição, o impacto poderá ultrapassar fronteiras nacionais e atingir o coração econômico da região.
Por isso, a resposta de Teerã ao ultimato de Trump sobre Hormuz tem peso muito maior do que um simples gesto de desafio. Ela pode definir se o conflito continuará como confronto militar concentrado ou se avançará para uma estratégia de desorganização regional em larga escala.
A postura iraniana mistura bravata pública, propaganda interna e ameaça concreta de reciprocidade absoluta. É uma aposta arriscada, porque tenta projetar força para fora e coesão para dentro num momento em que a vida cotidiana dos iranianos já está suspensa entre o medo, o luto e a escassez de informação.
No fim, a guerra deixou de ser apenas disputa por território, prestígio ou capacidade militar. Ela agora ameaça diretamente a eletricidade, a água, o gás e a estabilidade social de uma região inteira.