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Conflito EUA-Israel-Irã faz África pagar o preço da instabilidade

O ataque ao Irã não para no Oriente Médio: ele encarece comida, energia e empurra a conta para os países mais vulneráveis do Sul Global. A guerra de agressão conduzida por Estados Unidos e Israel contra o Irã já produz efeitos muito além do campo de batalha e ameaça desestabilizar economias africanas inteiras. O alerta […]

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O ataque ao Irã não para no Oriente Médio: ele encarece comida, energia e empurra a conta para os países mais vulneráveis do Sul Global.

A guerra de agressão conduzida por Estados Unidos e Israel contra o Irã já produz efeitos muito além do campo de batalha e ameaça desestabilizar economias africanas inteiras.

O alerta foi feito por David Owiro, fundador do African Development Think Tanks, em entrevista à Al Jazeera.

Para Owiro, países africanos que já enfrentam seca, insegurança alimentar e fragilidade econômica estão entre os mais expostos aos choques provocados pela escalada militar.

Os riscos não são abstratos. Eles aparecem no aumento do petróleo e do gás, na ruptura de cadeias de suprimento e na fuga de capitais para mercados considerados mais seguros.

O problema é agravado por vulnerabilidades anteriores. Muitas nações africanas dependem fortemente da importação de trigo, fertilizantes e combustíveis, o que as torna especialmente sensíveis a qualquer turbulência no Golfo Pérsico.

A crise, portanto, não nasce do zero. Ela se instala sobre economias que já operam no limite e têm pouca capacidade de absorver choques externos dessa magnitude.

A guerra no Oriente Médio funciona como multiplicador de crises. Países que já sofrem com escassez de água podem ver sua produção agrícola encolher ainda mais, enquanto populações submetidas à fome passam a enfrentar preços de alimentos ainda mais altos.

Governos com orçamentos apertados ficam diante de uma escolha cruel. Para manter importações essenciais e evitar colapso no abastecimento, acabam cortando subsídios e comprimindo gastos sociais.

Owiro resumiu esse quadro de forma direta ao afirmar que se trata de países já pressionados por seca, dificuldades alimentares ou problemas econômicos. Segundo ele, esses fatores ampliam a crise muito além das fronteiras do conflito original.

É essa combinação que torna o impacto tão perigoso para a África. O continente volta a ser atingido por uma guerra que não provocou, mas cujos custos pode ser obrigado a pagar em inflação, escassez e instabilidade política.

O mecanismo dessa transmissão é conhecido e rápido. As sanções contra o Irã, um grande produtor de energia, reduzem a oferta global e pressionam os preços internacionais.

Ao mesmo tempo, ataques militares elevam o risco sobre a navegação no Estreito de Ormuz. A passagem é estratégica para o comércio mundial e por ela circula um quinto do petróleo do planeta.

Para países importadores de combustíveis na África Subsaariana, isso significa consumir reservas cambiais escassas apenas para manter serviços básicos em funcionamento. Recursos que poderiam ir para infraestrutura, saúde ou investimento produtivo acabam desviados para pagar uma conta energética inflada pela guerra.

A alta dos alimentos é outro canal de contágio econômico. O mercado global já vinha tensionado desde a guerra na Ucrânia, dado o peso de Rússia e Ucrânia na oferta de trigo e fertilizantes.

Com uma nova frente de instabilidade no Golfo, o risco é de pressão adicional sobre rotas marítimas e sobre o comércio de insumos essenciais. Para países dependentes de importação, isso se traduz em comida mais cara, produção agrícola mais custosa e deterioração ainda maior da segurança alimentar.

O resultado pode ser a amplificação de fraturas sociais já abertas. Protestos contra o custo de vida, vistos em diversos países nos últimos anos, tendem a se tornar mais frequentes e mais intensos quando energia e alimentos disparam ao mesmo tempo.

Em contextos de democracia frágil e baixa margem fiscal, esse tipo de choque pode corroer rapidamente a governabilidade. A rua reage primeiro ao preço do pão, do transporte e do combustível, e depois cobra do sistema político inteiro.

Há, portanto, uma dimensão econômica imediata e uma dimensão geopolítica mais profunda. A arquitetura de segurança global, ainda concentrada nas decisões de uma única potência e de seus aliados, mostra mais uma vez sua incapacidade de impedir que conflitos regionais se convertam em crises globais assimétricas.

Na prática, a violência se concentra em um ponto do mapa, mas seus custos são exportados para as periferias do sistema. O centro preserva seus interesses estratégicos, enquanto o Sul Global absorve inflação, escassez e instabilidade.

A África volta a ocupar o lugar de vítima colateral de um jogo de poder que não a consulta. A segurança energética da Europa e os interesses hegemônicos dos Estados Unidos no Oriente Médio seguem tratados como prioridade, enquanto a segurança alimentar de milhões de africanos aparece apenas como dano secundário.

Esse desequilíbrio ajuda a explicar por que o alerta de Owiro vai além da economia. Sua análise expõe a forma como a interdependência global, em vez de proteger os mais vulneráveis, frequentemente os transforma em amortecedores de crises produzidas por outros.

A crise alimentar de 2022, agravada pela guerra na Ucrânia, já havia mostrado a velocidade com que conflitos armados desorganizam a vida de países distantes. Uma nova guerra no Golfo pode aprofundar esse padrão e empurrar milhões para uma situação ainda mais crítica.

Por isso, a discussão não é apenas regional. O que está em jogo é a capacidade de impedir que o planeta normalize a ideia de que certas regiões podem funcionar como zonas permanentes de sacrifício.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas, paralisado e seletivo, tem se mostrado incapaz de responder à altura desse tipo de escalada. E, enquanto os mecanismos multilaterais falham, são os povos do Sul Global que pagam a conta mais pesada.

Nesse cenário, cresce a urgência de uma ordem internacional mais equilibrada, em que África, América Latina e Ásia tenham peso real nas decisões sobre guerra e paz. Sem isso, a tendência é a repetição de crises em que poucos decidem e muitos sofrem.

O Brasil, como voz relevante do Sul Global, tem papel importante nesse debate. Defender o fim imediato das hostilidades e a retomada da via diplomática não é apenas uma posição moral, mas uma necessidade concreta para proteger economias emergentes de choques produzidos por aventuras militares.

A estabilidade africana interessa ao mundo inteiro. Trata-se de um continente jovem, com enorme potencial de crescimento, inovação e transformação econômica, que não pode seguir condenado a ciclos de instabilidade importada.

Ignorar o alerta de David Owiro seria aceitar como inevitável um sistema internacional que distribui guerra para uns e segurança para outros. E essa é precisamente a verdade mais dura desta crise: na era da globalização, não existem guerras realmente localizadas quando seus estilhaços atingem a comida, a energia e a sobrevivência de centenas de milhões de pessoas.

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