A campanha de assassinatos contra o Irã expõe menos a fragilidade de Teerã do que o fracasso de uma estratégia que tenta substituir política por eliminação física.
A sequência de assassinatos de altas autoridades iranianas não produziu o colapso prometido por Washington e Tel Aviv.
De Qassem Soleimani, morto por um drone dos Estados Unidos em 2020, a cientistas nucleares e comandantes da Guarda Revolucionária, a ofensiva foi intensa e contínua.
Mas o que ela revelou, até aqui, foi a capacidade do Estado iraniano de absorver perdas, reorganizar comandos e seguir operando.
Uma reportagem da Al Jazeera, baseada em debate com analistas internacionais, questiona justamente a premissa central dessa estratégia. Eliminar figuras-chave, argumentam os participantes, não tem se mostrado um caminho eficaz para derrubar a República Islâmica.
A razão está no desenho institucional do sistema iraniano desde 1979. Sua estrutura foi concebida para ser maior do que qualquer indivíduo e para manter continuidade mesmo sob pressão extrema.
No topo está o Líder Supremo, cargo vitalício hoje ocupado pelo aiatolá Ali Khamenei. Abaixo dele funciona uma rede de conselhos, órgãos clericais e forças armadas paralelas que se interligam, se supervisionam e preservam a linha estratégica do regime.
O Conselho de Discernimento, a Assembleia de Especialistas e o Conselho dos Guardiães aparecem, nesse arranjo, como pilares de estabilidade. Esses órgãos influenciam desde a elegibilidade de candidatos até as grandes diretrizes políticas e institucionais do país.
Quando uma peça importante é removida, a sucessão não depende de improviso. Um mecanismo quase automático entra em ação, como se viu na rápida nomeação de um novo comandante para a Força Quds poucos dias após a morte de Soleimani.
Para Hamid Reza Gholamzadeh, diretor do think tank House of Diplomacy, esse ponto é decisivo para entender a resiliência iraniana. Segundo ele, o sistema prioriza ideologia e instituições, e não o culto a personalidades específicas.
Isso não significa que as perdas sejam irrelevantes. Significa, porém, que a eliminação de um general, por mais simbólico e influente que seja, não paralisa a máquina estatal nem interrompe automaticamente a agenda regional de Teerã.
As políticas de apoio a grupos aliados no Líbano, na Síria, no Iêmen e na Palestina continuaram. A linha estratégica sobreviveu aos assassinatos, o que enfraquece a narrativa de um regime decapitado e desorientado.
Ali Vaez, diretor do Iran Project no International Crisis Group, oferece uma leitura mais crítica e mais precisa sobre os efeitos reais dessas operações. Para ele, os assassinatos não desmontam o Estado, mas impõem um custo estratégico profundo ao eliminar experiência acumulada e canais de comunicação únicos.
Figuras como Soleimani tinham relações pessoais complexas com lideranças regionais que não podem ser simplesmente reproduzidas por decreto. A substituição institucional é rápida, mas a reposição de capital político e de confiança construída ao longo de anos é muito mais difícil.
Ainda assim, esse custo não tem levado à rendição. Segundo Vaez, o efeito político tende a ser o oposto do desejado por seus adversários, porque endurece a posição da liderança iraniana e reforça a percepção de que a diplomacia com o Ocidente é inútil.
Nesse ambiente, a mensagem absorvida em Teerã é simples e brutal. Se a sobrevivência depende de força, dissuasão e capacidade de resposta, então o incentivo para moderar posições diminui em vez de crescer.
Do ponto de vista militar, o analista de defesa Tim Ripley descreve a disputa como um jogo de gato e rato em constante evolução. Israel aperfeiçoa inteligência, infiltração e ataques de precisão, enquanto o Irã responde com dispersão de ativos, descentralização de decisões e investimento em retaliação assimétrica.
A guerra, portanto, não se limita a explosões pontuais ou operações clandestinas de alto impacto. Ela se espalha pelo ciberespaço, pelas rotas marítimas e por uma disputa permanente de adaptação entre ataque e sobrevivência.
O ataque israelense ao consulado iraniano em Damasco, em abril de 2024, elevou esse confronto a um novo patamar. Ao matar comandantes iranianos em uma instalação diplomática, a operação ampliou o risco regional e pressionou Teerã a responder de forma mais aberta.
A resposta veio com um ataque direto e sem precedentes com mísseis e drones contra Israel. Mais do que o resultado militar imediato, o episódio teve peso político porque indicou que a lógica dos assassinatos sem consequências pode estar se esgotando.
O recado iraniano foi claro. O regime sinalizou disposição para correr riscos maiores a fim de impor custos ao adversário e alterar o cálculo de quem apostava em ataques cirúrgicos sem resposta proporcional.
Para o Sul Global, o caso iraniano tem importância que vai além do Oriente Médio. Ele funciona como estudo concreto de soberania sob ataque, mostrando como um país não alinhado pode ser submetido a uma campanha multifacetada de desgaste institucional, militar e econômico.
Os métodos variam, mas apontam na mesma direção. Vão de sanções econômicas estranguladoras a operações clandestinas de eliminação física, sempre sob a justificativa de segurança e sempre com o efeito adicional de pressionar a governança interna do país-alvo.
O objetivo final raramente é admitido de forma frontal. Ainda assim, a ideia de mudança de regime favorável aos interesses ocidentais permanece como pano de fundo de toda essa estratégia.
É por isso que a resiliência iraniana não pode ser tratada como detalhe burocrático. Cada substituição rápida de comando, cada recomposição institucional e cada continuidade de política regional funcionam como demonstração de que o projeto estatal não se rende facilmente à intimidação.
A pergunta recorrente sobre quem realmente governa o Irã costuma partir de uma premissa limitada. Ela supõe que o poder reside apenas em indivíduos carismáticos ou chefes militares visíveis, quando o caso iraniano mostra um poder distribuído em estruturas muito mais profundas e duráveis.
A consequência política dessa leitura errada pode ser grave para os próprios autores da campanha de assassinatos. Ao tentar enfraquecer o sistema por meio da eliminação de figuras-chave, Washington e Tel Aviv podem estar reforçando o cerco mental que unifica a elite governante em torno da defesa do regime.
Há também um empobrecimento estratégico evidente nessa escolha. Na ausência de engajamento diplomático sério ou de aceitação de uma ordem mais multipolar, sobra a tentativa de remover peças do tabuleiro como substituto de política.
O Irã continua cercado por contradições internas, disputas de poder e desafios econômicos reais. Mas a guerra silenciosa travada contra seu aparato dirigente ainda não produziu o colapso anunciado, e talvez esteja produzindo justamente o contrário.
A lição observada em várias capitais do Sul Global é direta. Em um século marcado por guerra híbrida, sanções e operações encobertas, a arquitetura institucional de um Estado pode se tornar seu escudo mais eficiente.
Por isso, a história central não é a de um regime à beira do fim. É a de um sistema que, sob ataque contínuo, segue se adaptando e transformando sobrevivência em estratégia.

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