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Israel sente o peso da guerra em casa e o preço de sua impunidade

A resposta iraniana expôs uma vulnerabilidade que Israel preferia tratar como mito intocável. Os mísseis iranianos que atingiram Arad e Dimona no sábado romperam a imagem de invulnerabilidade que sustenta a doutrina de segurança israelense. Pela primeira vez em décadas, a guerra que Israel costuma impor para fora de suas fronteiras foi sentida de forma […]

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A resposta iraniana expôs uma vulnerabilidade que Israel preferia tratar como mito intocável.

Os mísseis iranianos que atingiram Arad e Dimona no sábado romperam a imagem de invulnerabilidade que sustenta a doutrina de segurança israelense.

Pela primeira vez em décadas, a guerra que Israel costuma impor para fora de suas fronteiras foi sentida de forma aguda e massiva dentro de casa.

Com ao menos 180 feridos e a evacuação de centenas de pessoas nas proximidades de uma sensível instalação nuclear, o ataque recolocou no centro uma pergunta estratégica que Tel Aviv já não consegue evitar.

A própria reportagem da Al Jazeera, base para a leitura deste novo momento do conflito, descreve uma fase mais letal e mais arriscada da confrontação entre Irã e Israel. A resposta iraniana veio após um ataque israelense, com participação dos Estados Unidos, à instalação nuclear de Natanz.

A mensagem enviada por Teerã foi direta e difícil de contornar. Se instalações estratégicas iranianas podem ser atingidas, alvos sensíveis no coração de Israel também podem entrar no raio de resposta.

Isso representa uma ruptura importante na lógica de segurança israelense. Durante décadas, essa lógica se apoiou numa superioridade militar esmagadora e na capacidade de deslocar para outros povos, sobretudo os palestinos, os custos humanos mais brutais da guerra.

Enquanto Gaza sofre um genocídio com armamento de última geração, o território israelense vinha sendo preservado como uma bolha de segurança relativa. O que ocorreu em Arad e Dimona sugere que essa bolha começou a rachar.

Analistas citados na cobertura original lembram que o programa de mísseis do Irã é o maior e mais diversificado do Oriente Médio. Construído ao longo de décadas de sanções, cerco e isolamento, esse programa compensou a ausência de uma força aérea de última geração com uma ampla variedade de vetores.

O arsenal iraniano inclui mísseis balísticos de curto e médio alcance, como variantes das famílias Fateh e Shahab. Também inclui mísseis de cruzeiro terrestres e antinavio, como Soumar e Hoveyzeh, mostrando uma evolução tecnológica consistente.

Depois da guerra de 12 dias em junho, o líder supremo iraniano, aiatolá Khamenei, removeu o limite autoimposto de 2.200 quilômetros para o alcance dos mísseis. O gesto foi mais do que simbólico, porque sinalizou disposição para ampliar a capacidade de dissuasão em meio à escalada regional.

Mas o elemento que mais pressionou a defesa antiaérea israelense, conhecida como Domo de Ferro, foi outro. Segundo a reportagem, o problema central esteve no uso de ogivas de fragmentação, as chamadas cluster munitions.

O especialista israelense Uzi Rubin explicou à Media Line o mecanismo dessas armas. Em vez de uma única carga explosiva, a ogiva se abre perto do alvo e espalha dezenas de pequenas bombas.

Na prática, isso transforma um único ponto de interceptação em múltiplos alvos simultâneos. Qualquer sistema de defesa passa a operar sob sobrecarga, porque precisa lidar não com um míssil, mas com uma nuvem de ameaças menores.

O porta-voz militar israelense admitiu que as defesas falharam em interceptar parte dos mísseis que atingiram Arad e Dimona. Ao mesmo tempo, afirmou que o armamento empregado “não é especial ou desconhecido”, enquanto uma investigação tenta esclarecer as razões da falha.

A contradição é evidente. Se o armamento não era desconhecido, a incapacidade de neutralizá-lo revela um problema mais profundo do que um simples acidente operacional.

A dificuldade técnica ajuda a explicar o tamanho do abalo. Para interceptar um míssil com ogiva de fragmentação, é preciso destruí-lo antes da abertura da carga; depois da dispersão, a interceptação se torna praticamente inviável.

Foi essa realidade que forçou uma mudança de postura em Israel. O Times of Israel informou que a Força Aérea israelense começará a economizar interceptadores, numa admissão implícita de que não será possível barrar tudo.

A justificativa apresentada por oficiais é reveladora e sombria. Segundo eles, as bombas de fragmentação iranianas “provavelmente não causarão danos significativos se as pessoas estiverem abrigadas”.

Traduzindo para a linguagem estratégica, Israel passa a priorizar alvos e a aceitar que alguns impactos ocorrerão. É uma mudança importante para um Estado que construiu sua narrativa interna e externa sobre a promessa de segurança quase absoluta dentro de suas fronteiras.

Essa admissão tácita de vulnerabilidade tem peso político e simbólico. Pela primeira vez em muito tempo, a sociedade israelense é confrontada com cálculos de risco e gestão de perdas que palestinos e libaneses conhecem há décadas.

Há ainda uma camada jurídica e moral que torna o episódio mais áspero. O uso de munições de fragmentação é condenado pelo direito internacional humanitário e proibido por uma convenção de 2008, embora nem Irã nem Israel sejam signatários.

A ironia amarga é que esse tipo de armamento, já usado de forma desproporcional por Israel no Líbano, volta agora ao centro do conflito como fator de desestabilização para o próprio aparato militar israelense. O que antes era instrumento de imposição regional reaparece como ameaça concreta dentro do território do agressor.

O risco maior, porém, está no precedente que se consolida. O ataque israelense a Natanz e a resposta iraniana contra áreas próximas ao complexo nuclear de Dimona ajudam a normalizar ataques a instalações nucleares, algo especialmente perigoso numa região já saturada de tensões militares.

Também não se trata mais de um confronto indireto ou por procuração. O que está em curso é uma guerra direta, de alta intensidade, entre o Irã e o eixo formado por Estados Unidos e Israel, com potencial de arrastar infraestrutura energética, rotas marítimas e cadeias globais de abastecimento.

O Irã já demonstrou capacidade de afetar a economia mundial ao fechar o estratégico Estreito de Hormuz e ao mirar infraestrutura energética em países do Golfo. Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, ameaçou retaliar caso o estreito não seja reaberto.

A mudança de paradigma é profunda. A potência regional que se acostumou a agir com impunidade, protegida pelo guarda-chuva estratégico norte-americano, vê sua superioridade ser contestada por um país do Sul Global que investiu em tecnologia própria sob cerco.

Para o Brasil e para um mundo cada vez mais multipolar, a lição é estratégica e política. O episódio enfraquece a aura de invencibilidade tecnológico-militar do Ocidente e mostra que autonomia defensiva, capacidade industrial e vontade política podem impor limites até mesmo a atores acostumados a operar sem freios.

A crise também expõe os limites da estratégia de máxima pressão e da política de isolamento. Longe de se comportar como um pária impotente, o Irã respondeu com precisão e força suficientes para redefinir os termos do confronto.

O custo da aventura militar israelense, antes pago quase exclusivamente por palestinos e libaneses, começa a retornar ao seu ponto de origem. A pergunta agora já não é se o Irã pode responder, mas qual será o próximo movimento de um Estado que descobriu, da forma mais dura, que sua invencibilidade era menos uma realidade do que um mito sustentado pela desproporção de força.

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