Mísseis iranianos atingem Dimona e abalam o mito da segurança nuclear israelense.

O ataque iraniano nas proximidades de Dimona expõe a vulnerabilidade do ponto mais sensível de Israel e empurra o Oriente Médio para uma fase mais perigosa do confronto.

Pela primeira vez no confronto entre Irã e Israel, mísseis iranianos atingiram áreas dentro do perímetro defensivo da zona mais sensível do aparato nuclear israelense.

O ataque de sábado alcançou as comunidades de Dimona e Arad, no deserto do Negev, deixou dezenas de feridos e destruiu edifícios a poucos quilômetros do Centro de Pesquisas Nucleares de Dimona.

Mais do que um episódio militar, o impacto foi simbólico e estratégico, porque rompeu o tabu da inviolabilidade do território israelense em torno de sua instalação mais protegida.

A ofensiva iraniana ocorreu horas depois de a principal usina de enriquecimento de urânio do país, em Natanz, ser atingida por um ataque de sabotagem. Israel negou responsabilidade, mas a sequência dos fatos reforça a percepção de uma guerra clandestina que já não consegue mais se esconder.

O Pentágono se recusou a comentar o incidente em solo iraniano. O silêncio americano, nesse contexto, alimenta a leitura de que Washington segue profundamente implicado no teatro regional, ainda que evite assumir publicamente cada movimento.

A geografia do ataque ajuda a medir o alcance político da mensagem enviada por Teerã. A cidade de Dimona fica a cerca de 20 quilômetros a oeste de Arad, enquanto o Centro de Pesquisas Nucleares está a poucos quilômetros ao sul da cidade.

Israel é amplamente reconhecido como a única potência nuclear do Oriente Médio, com estimativas que variam entre 80 e 400 ogivas nucleares. Ainda assim, o país jamais admitiu oficialmente possuir esse arsenal e preserva uma política de ambiguidade calculada, que lhe garante margem de manobra e proteção diplomática.

Foi justamente essa camada de intocabilidade que o ataque iraniano perfurou. Ao atingir áreas tão próximas de Dimona, Teerã mostrou que mesmo o núcleo mais sensível da dissuasão israelense não está fora de alcance.

A reação internacional também revelou o tamanho do risco. A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Maria Zakharova, afirmou que ataques desse tipo representam um "risco real de desastre catastrófico em todo o Oriente Médio".

O alerta não é retórico. Um impacto direto sobre o reator ou sobre áreas de armazenamento de material nuclear poderia abrir caminho para contaminação radioativa em larga escala, com efeitos muito além das fronteiras de Israel.

Até o momento, a Agência Internacional de Energia Atômica informou não ter recebido relatos de danos ao centro nuclear nem de níveis anormais de radiação. Isso reduz o risco imediato, mas não elimina a gravidade do precedente criado pelo ataque.

O significado estratégico do episódio vai além da proximidade física com Dimona. O fato de os sistemas de defesa aérea israelenses, incluindo o Iron Dome e outras camadas de interceptação, não terem impedido o impacto nessa área específica altera a percepção regional sobre a capacidade de proteção de Israel.

Durante décadas, a superioridade militar israelense foi apresentada como um dado incontestável, sustentado por tecnologia de ponta e apoio financeiro e militar maciço dos Estados Unidos. O ataque iraniano não destrói essa superioridade, mas a submete a uma dúvida nova e politicamente corrosiva.

Essa mudança não surgiu do nada. Ela é resultado de anos de investimento iraniano em capacidades assimétricas, como mísseis balísticos e de cruzeiro, desenvolvidas sob sanções severas e sob pressão permanente de Washington.

A política de "pressão máxima" dos Estados Unidos tampouco produziu o efeito prometido. Em vez de conter o avanço tecnológico-militar do Irã, o cerco pode ter acelerado a busca de Teerã por meios mais sofisticados de dissuasão e resposta.

Para o mundo árabe e muçulmano, o episódio tem peso histórico. Israel nunca assinou o Tratado de Não-Proliferação Nuclear e jamais abriu Dimona a inspeções internacionais, apesar de ser amplamente tratado como potência nuclear de fato.

Ao mesmo tempo, o programa nuclear civil iraniano permanece submetido a um nível extremo de vigilância, pressão e sabotagem. Essa assimetria alimenta, há anos, a acusação de que a ordem internacional aplica critérios diferentes conforme o alinhamento geopolítico do país em questão.

O ataque também ilumina a natureza do confronto regional patrocinado e administrado pelas grandes potências. Washington fornece armas, inteligência e cobertura política a Israel, enquanto o embate com o Irã se desdobra por meio de alianças, pressões e operações indiretas em vários pontos do Oriente Médio.

Agora, porém, essa guerra por procuração entrou em uma zona mais aberta e mais perigosa. A escalada tem raízes em uma longa cadeia de eventos, entre eles o assassinato do general iraniano Qassem Soleimani por um drone americano no Iraque, sob ordem de Donald Trump.

Desde então, o conflito se espalhou por ataques a navios no Golfo, sabotagens a instalações nucleares iranianas e assassinatos de cientistas atribuídos a Israel. A resposta de Teerã, descrita no rascunho como medida, mas precisa, indica que o cálculo iraniano mudou e que novos ataques não ficarão sem resposta proporcional.

Para o Brasil e para o Sul Global, o episódio é um sinal de alerta concreto. Uma escalada maior no Oriente Médio teria efeitos diretos sobre a economia mundial, pressionando preços de energia, cadeias logísticas e segurança alimentar.

A reação europeia também expõe um problema político mais amplo. Governos do continente condenam rapidamente a retaliação iraniana, mas costumam silenciar diante da agressão inicial ou da opacidade em torno do arsenal israelense, o que enfraquece ainda mais a credibilidade da chamada "ordem internacional baseada em regras".

Evitar uma catástrofe regional exigiria enfrentar o tema que quase sempre é varrido para debaixo do tapete. Isso inclui discutir a proliferação nuclear israelense e retomar seriamente a proposta de uma zona livre de armas nucleares no Oriente Médio.

Sem esse debate, a diplomacia continuará operando sobre uma ficção conveniente. E, enquanto os Estados Unidos insistirem em tratar o Irã apenas como um pária a ser estrangulado, a espiral de violência tende a se aprofundar.

O ataque nas proximidades de Dimona não foi apenas uma ação militar. Foi um recado geopolítico de alto impacto, porque mostrou que o monopólio da força exercido por Israel e respaldado por seus aliados ocidentais está sendo desafiado de forma cada vez mais direta.

Se esse desafio abrirá caminho para negociação ou para uma guerra ainda mais ampla, ninguém pode afirmar com segurança. O que já mudou é a percepção de invulnerabilidade que cercava o coração nuclear israelense, e isso por si só redesenha o tabuleiro regional.

A reportagem foi baseada em informações da Al Jazeera e de agências internacionais.

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