A briga pela comissão sobre o caso do banco público expõe menos zelo com a apuração e mais disputa pelo controle político do escândalo.
A tentativa de instalar uma comissão parlamentar de inquérito sobre o caso envolvendo o Banco de Brasília e o Banco Master virou, na Câmara Legislativa do Distrito Federal, uma disputa aberta pelo comando da própria investigação.
Sem acordo entre blocos rivais, o Partido Liberal passou a defender um requerimento chamado de neutro para atrair assinaturas da direita, do centro e até de setores da esquerda.
O impasse revela que, antes mesmo de começar, a eventual comissão já se tornou peça de uma guerra política em torno de um escândalo que desgastou o governador Ibaneis Rocha, do Movimento Democrático Brasileiro.
Segundo informações publicadas pela Folha de S.Paulo, nenhum dos pedidos apresentados até agora conseguiu reunir as oito assinaturas mínimas exigidas para protocolo. E a barreira é ainda maior porque, para furar a fila de outros dois requerimentos já apresentados sobre temas diferentes, seriam necessárias 13 assinaturas.
Na prática, isso significa que a comissão só avança com uma composição política ampla. É nesse ponto que entra a manobra do Partido Liberal, que tenta formular um texto mais palatável e menos identificado, de saída, com a oposição bolsonarista ou com a frente formada por partidos de centro e esquerda.
Hoje, circulam três iniciativas distintas. Uma delas foi apresentada por Partido dos Trabalhadores, Partido Socialismo e Liberdade, Partido Socialista Brasileiro e Partido da Social Democracia Brasileira, e chegou a sete assinaturas, ficando a um nome do mínimo necessário.
Outra proposta é patrocinada por Partido Liberal e Partido Renovação Democrática, mas soma apenas quatro apoiadores. A terceira foi protocolada pela deputada distrital Paula Belmonte, do Partido da Social Democracia Brasileira, sem conseguir adesão de colegas.
O problema, porém, não é apenas matemático. Há uma disputa direta pela autoria do requerimento porque, historicamente, quem puxa a iniciativa costuma ganhar força na definição da presidência ou da relatoria da comissão.
Esse detalhe ajuda a explicar a desconfiança que cerca a ofensiva do Partido Liberal. Parlamentares de outras legendas veem no discurso de neutralidade uma tentativa de assumir o controle político da investigação e transformar o desgaste do governo local em ativo eleitoral.
A discussão deve ganhar novo capítulo em reunião entre os distritais marcada para terça-feira, dia 24. Até lá, o tabuleiro segue aberto, com cada grupo tentando impedir que o adversário transforme a comissão em palanque.
O caso ganhou peso porque envolve o Banco de Brasília, banco público do Distrito Federal, e uma operação que provocou forte repercussão política. O episódio ficou ainda mais sensível depois da aprovação de um projeto que autoriza a entrega de imóveis públicos do Distrito Federal para socorrer o banco.
Foi justamente nessa votação que o Partido Liberal rompeu com a base de Ibaneis Rocha no início do mês. O gesto não teve apenas dimensão administrativa ou legislativa, mas também um cálculo político mais amplo.
O partido tenta se reposicionar diante do desgaste do governador e já mede como o escândalo pode contaminar a disputa de 2026 no Distrito Federal. A crise do banco, nesse contexto, deixou de ser apenas um problema de governança e passou a funcionar como instrumento de rearranjo no campo da direita local.
Em Brasília, o Partido Liberal é comandado pela deputada federal Bia Kicis, um dos nomes mais identificados com o bolsonarismo no Distrito Federal. Ela aparece como possível candidata ao Senado em uma corrida que pode ter também Michelle Bolsonaro, vista como favorita para uma das vagas.
Esse cenário ajuda a entender por que o partido quer distância de um governo em baixa sem abrir mão de explorar politicamente o caso. A estratégia é delicada: romper com o desgaste de Ibaneis Rocha, mas preservar para si o protagonismo de uma bandeira de investigação.
Relatos mencionados pela Folha indicam que Bia Kicis já avisou Michelle Bolsonaro de que o Partido Liberal pode até abandonar o palanque da vice-governadora Celina Leão, do Progressistas, na disputa pelo governo distrital. A avaliação seria simples: se Celina herdar a rejeição de Ibaneis Rocha, sua candidatura pode perder competitividade.
O cálculo é revelador porque mostra uma direita local já operando em modo de contenção de danos. O discurso de unidade continua útil em público, mas, nos bastidores, a lógica dominante é a de sobrevivência eleitoral.
A fidelidade a alianças antigas cede espaço ao pragmatismo mais cru. Quando um nome passa a carregar peso demais, a tendência é o descarte rápido, mesmo que isso atinja parceiros até ontem considerados estratégicos.
Celina Leão tem proximidade política e pessoal com Michelle Bolsonaro. Em 2022, as duas circularam pelo país em atos de campanha para Jair Bolsonaro ao lado da senadora Damares Alves.
Ainda assim, nem essa relação parece suficiente para blindá-la de uma eventual revisão de rota do Partido Liberal. O partido quer preservar capital político e evitar ser arrastado por um escândalo com alto potencial de desgaste.
No plano institucional, a dificuldade para instalar a comissão expõe um traço recorrente da política brasileira. Quando uma investigação ameaça interesses relevantes, o debate sobre transparência costuma ser atravessado por cálculos de comando, narrativa e sucessão eleitoral.
Em vez de uma convergência imediata em torno da apuração, o que aparece é uma disputa sobre quem vai controlar os holofotes. Isso enfraquece a credibilidade do Legislativo local e reforça a percepção de que comissões parlamentares de inquérito muitas vezes são tratadas como arma de facção.
Ao mesmo tempo, o interesse público no caso é evidente. O Banco de Brasília é um banco estatal, ligado ao patrimônio da população do Distrito Federal, e qualquer operação que envolva socorro, uso de ativos públicos ou decisões de alto risco precisa ser examinada com rigor.
Não se trata apenas de um embate entre governo e oposição. Trata-se de saber como recursos e instrumentos públicos estão sendo mobilizados, com quais justificativas e sob quais salvaguardas.
Para a esquerda distrital, apoiar uma comissão faz sentido como resposta institucional a um episódio de grande repercussão. Mas há resistência em entregar ao Partido Liberal a primazia de uma investigação que pode ser usada como plataforma eleitoral da extrema direita.
Para o Partido Liberal, por sua vez, interessa posar como defensor da apuração e, ao mesmo tempo, usar o caso para se descolar de Ibaneis Rocha e reorganizar o campo conservador. O requerimento neutro aparece, assim, menos como gesto de conciliação e mais como jogada para ampliar adesões sem perder protagonismo.
O desfecho dependerá da capacidade dos distritais de separar interesse público de conveniência partidária. Se a comissão sair, poderá iluminar decisões relevantes sobre o Banco de Brasília e suas conexões políticas.
Se fracassar, ficará a imagem de um parlamento travado justamente quando deveria oferecer uma resposta clara a um caso de forte impacto institucional. E, nesse vazio, quem ganha não é a transparência, mas o cálculo miúdo de uma elite política acostumada a disputar o controle até da investigação.


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