Gaza segue sob fogo, fome e tortura enquanto a diplomacia ocidental vende ao mundo a ficção de um cessar-fogo.
Quatro palestinos foram mortos por ataques aéreos israelenses na Faixa de Gaza neste domingo, apesar de um cessar-fogo oficialmente em vigor.
A informação foi divulgada por autoridades palestinas e reportada pela Al Jazeera.
O episódio expõe, mais uma vez, a distância brutal entre a linguagem diplomática e a realidade concreta de uma população que continua sendo bombardeada.
Três dos mortos eram integrantes da polícia local e foram atingidos dentro de um veículo no campo de refugiados de Nuseirat, no centro de Gaza. Outras dez pessoas ficaram feridas no mesmo ataque.
Em uma ação separada, no bairro de Sheikh Radwan, no norte do território, uma figura sênior de um grupo armado ligado ao Fatah também foi assassinada. O exército israelense não comentou os incidentes.
Não se trata de desvio pontual nem de exceção operacional. Trata-se da continuidade de uma política de força letal mantida mesmo sob a cobertura verbal de uma trégua.
Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, pelo menos 680 palestinos foram mortos por fogo israelense desde que o chamado cessar-fogo entrou em vigor, em outubro. No mesmo período, Israel reportou a morte de quatro soldados.
A desproporção dos números não é detalhe estatístico. Ela revela a estrutura profundamente assimétrica de um confronto em que uma população sitiada segue submetida a ataques constantes, deslocamento forçado e colapso humanitário.
O quadro geral é ainda mais devastador. Desde outubro de 2023, a guerra de Israel contra Gaza já matou mais de 72 mil palestinos, entre eles dezenas de milhares de mulheres e crianças.
Pesquisadores independentes sustentam que o total real pode ser significativamente maior. Em guerras de destruição prolongada, os mortos soterrados, os desaparecidos e as vítimas indiretas da fome, da doença e da falta de atendimento médico costumam escapar das contagens imediatas.
É nesse contexto que a palavra cessar-fogo perde qualquer densidade moral. Ela passa a funcionar menos como descrição da realidade e mais como instrumento de gestão política da percepção internacional.
A trégua, na prática, não interrompeu a violência. Apenas a reorganizou em ataques seletivos, operações localizadas e um regime permanente de pressão militar sobre uma sociedade exausta.
Na quinta-feira, ataques de drones no bairro de Zeitoun, em Gaza City, mataram pelo menos três palestinos. A cadência dos episódios mostra que o padrão não é de suspensão das hostilidades, mas de adaptação tática.
A imprensa, os governos ocidentais e os organismos multilaterais seguem usando a linguagem da contenção diplomática. No terreno, porém, a população palestina continua vivendo sob ameaça diária de morte.
A violência tampouco se limita a Gaza. Na Cisjordânia ocupada, a escalada de deslocamentos forçados e ataques de colonos avança em paralelo, ampliando o mapa da expulsão palestina.
Na semana passada, a Organização das Nações Unidas informou que Israel deslocou à força mais de 30 mil palestinos nessa área apenas no último período. O dado reforça a percepção de que a ofensiva não é localizada, mas parte de um processo mais amplo de transformação demográfica e territorial.
Os números de 2026 ajudam a medir a aceleração. Desde o início do ano, mais de 1.500 palestinos já foram desalojados por ataques de colonos israelenses e por restrições de acesso, o equivalente a 95% de todo o total registrado em 2025.
Isso indica uma dinâmica deliberada de aprofundamento da pressão sobre comunidades palestinas. Enquanto Gaza concentra a atenção do noticiário mundial, a expansão colonial e a remoção de famílias na Cisjordânia avançam com menos escrutínio e grande eficácia política.
Em Gaza, a crise humanitária segue como parte central desse mecanismo de destruição. A maior parte da população permanece deslocada, comprimida em abrigos improvisados e submetida a uma escassez extrema de comida, água e atendimento médico.
A Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados Palestinos, a UNRWA, vem alertando para o crescimento das necessidades humanitárias. O problema não é apenas a magnitude da emergência, mas o bloqueio sistemático à sua mitigação.
Israel mantém um estrangulamento logístico que a própria Organização das Nações Unidas descreve como severo. A passagem de Karem Abu Salem, conhecida como Kerem Shalom, é o único ponto de entrada de carga operacional entre Israel e Gaza.
Quando toda a sobrevivência de uma população depende de um único corredor controlado pelo poder ocupante, a ajuda deixa de ser garantia humanitária e passa a ser instrumento de dominação. O gargalo burocrático se converte, assim, em mecanismo de produção de fome, doença e desespero.
Por isso, a catástrofe em curso não pode ser tratada como efeito colateral inevitável da guerra. A destruição das condições mínimas de vida aparece como método, não como acidente.
Essa leitura ganhou novo peso com o relatório apresentado na semana passada por Francesca Albanese, relatora especial da Organização das Nações Unidas para os territórios palestinos ocupados. Segundo o documento, Israel tortura detidos palestinos em uma escala sem precedentes.
Os métodos descritos incluem espancamentos, violência sexual e privação sistemática de alimentos. Desde outubro de 2023, mais de 18.500 palestinos foram presos, entre eles ao menos 1.500 crianças.
A gravidade desses dados impede qualquer tentativa de reduzir o problema a abusos isolados. O que emerge do relatório é a imagem de um sistema de detenção usado para esmagar corpos, humilhar comunidades e disseminar terror social.
A tortura, nesse quadro, não aparece como desvio disciplinar de alguns agentes. Ela surge como prática inserida em uma lógica mais ampla de guerra contra a sociedade palestina.
Diante de tudo isso, a passividade internacional deixa de ser mera omissão e passa a integrar o problema. Os Estados Unidos, apresentados como fiadores de negociações e tréguas, seguem sendo também o principal fornecedor de armas e cobertura política para Israel.
A Europa responde com fórmulas previsíveis de preocupação e apelos abstratos à moderação. Já as instituições multilaterais produzem relatórios cada vez mais duros, mas incapazes de gerar consequências proporcionais à gravidade dos crimes denunciados.
O resultado é uma ordem internacional que fala em direitos humanos de forma seletiva. Ela mobiliza linguagem jurídica e indignação moral quando isso convém ao centro do poder, mas recua quando o aliado estratégico é o autor da devastação.
Para o Brasil e para o Sul Global, a lição é dura e incontornável. A Palestina se tornou o teste mais claro do valor real do direito internacional quando ele colide com interesses geopolíticos das grandes potências.
Por isso, a causa palestina ultrapassa sua dimensão nacional imediata. Ela se conecta diretamente ao debate sobre soberania, multipolaridade e igualdade entre as nações.
Não haverá ordem internacional minimamente justa enquanto populações inteiras puderem ser bombardeadas, famintas e torturadas sob proteção diplomática das potências centrais. E não haverá multipolaridade digna desse nome se a Palestina continuar sendo tratada como exceção permanente ao direito, à humanidade e à própria ideia de justiça.


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