A Uber decidiu voltar ao jogo dos carros autônomos com uma aposta bilionária em um veículo que nem saiu da fábrica, enquanto a Nvidia avança para controlar o cérebro dessa nova indústria.
A Uber resolveu voltar com força à disputa pelos carros autônomos ao investir pesado na Rivian e reservar uma frota que ainda nem existe.
A empresa anunciou um aporte inicial de 300 milhões de dólares na montadora e uma encomenda de 10 mil robôtaxis totalmente autônomos.
O detalhe que transforma o acordo em aposta de alto risco é simples: o modelo escolhido, o utilitário esportivo elétrico R2, ainda não começou a ser produzido.
As primeiras entregas estão previstas para 2028, com operações iniciais em São Francisco e Miami. O contrato ainda dá à Uber a opção de comprar mais 40 mil unidades a partir de 2030.
No total, o negócio pode alcançar 1,25 bilhão de dólares. A frota será exclusiva da rede da Uber, numa guinada agressiva da empresa de mobilidade de volta ao centro da corrida pela autonomia.
O movimento marca uma mudança clara de estratégia depois de 2020, quando a Uber vendeu sua unidade interna de desenvolvimento de carros autônomos, a Uber ATG. Desde então, a companhia passou a apostar em alianças com empresas de tecnologia autônoma em vários mercados.
Mas o acordo com a Rivian foge do padrão dessas parcerias. Segundo a análise original publicada pela TechCrunch, esta é a primeira vez que a Uber fecha um arranjo com uma empresa que reúne, ao mesmo tempo, a fabricação do veículo e o desenvolvimento do sistema de direção autônoma.
Isso concentra na Rivian praticamente toda a responsabilidade técnica e industrial do projeto. E é justamente aí que o risco salta aos olhos.
A Rivian ainda não produz o R2. Também não tem um sistema de robôtaxi pronto, e a fábrica na Geórgia onde os veículos seriam montados segue em construção.
A montadora já admitiu que o esforço para avançar na área de autonomia vai impedi-la de atingir sua meta de lucratividade até 2027. Em outras palavras, está trocando equilíbrio financeiro de curto prazo por uma chance de ocupar posição relevante no mercado do futuro.
Fontes próximas às empresas disseram à TechCrunch que as negociações foram longas. A pergunta feita por um insider, citada na análise, foi quase uma provocação sobre o horizonte estratégico do presidente executivo da Rivian, RJ Scaringe, e a resposta implícita era que ele não está pensando no curto prazo.
Para a Uber, a lógica é igualmente dura. Quem controlar uma frota autônoma em escala terá vantagem decisiva no próximo ciclo da mobilidade urbana.
A empresa sabe que não pode assistir de fora à reorganização do setor. Depois de abandonar o desenvolvimento próprio, agora tenta voltar por meio de uma aliança que combina fabricação, software e acesso imediato à sua base global de usuários.
Enquanto a Uber corre atrás do veículo, a Nvidia avança sobre a camada mais valiosa do negócio: o cérebro das máquinas. Durante sua conferência GTC, a fabricante de chips anunciou novos acordos ou a expansão de parcerias com grandes montadoras.
BYD, Geely, Hyundai e Nissan vão usar a plataforma Drive Hyperion, da Nvidia, para desenvolvimento de veículos autônomos. General Motors, Mercedes-Benz e Toyota já estavam entre as parceiras da empresa.
O presidente executivo da Nvidia, Jensen Huang, afirmou que o “momento ChatGPT dos carros autônomos chegou”. Segundo ele, a tecnologia já provou ser capaz de dirigir carros com sucesso.
A frase não é apenas marketing. Ela indica que uma parte importante da indústria passou a tratar a barreira tecnológica central como algo em grande medida superado, deslocando a disputa para escala, regulação, custo e integração industrial.
As quatro novas montadoras parceiras da Nvidia produzem 18 milhões de veículos por ano. Isso ajuda a explicar por que a empresa tenta se consolidar não apenas como fornecedora de chips, mas como infraestrutura completa de hardware e software para a próxima geração do transporte.
O resultado é uma guerra em duas frentes. De um lado, a batalha pelo carro físico, pela frota e pela operação; de outro, a disputa pelos chips, pelos sistemas e pela inteligência artificial que comandará tudo.
A aposta entre Uber e Rivian tenta justamente unir essas duas pontas numa única aliança operacional. Se funcionar, pode criar um polo integrado com grande capacidade de escala; se falhar, pode aprofundar a fragilidade financeira da Rivian e atrasar de novo os planos da Uber.
Há ainda um componente geopolítico importante nessa reorganização. A Uber vem fechando acordos com empresas chinesas para lançar robôtaxis na Europa e no Oriente Médio, numa estratégia global e multipolar que busca tecnologia onde ela estiver.
Esse movimento contrasta com a postura de outros grupos americanos mais concentrados em soluções domésticas. A Uber parece partir do diagnóstico de que a liderança em mobilidade autônoma será definida em um tabuleiro internacional, e não apenas dentro dos Estados Unidos.
O restante do setor também mostra o tamanho da febre em torno da autonomia e da inteligência artificial. A startup australiana Advanced Navigation levantou 110 milhões de dólares, com participação do fundo de reconstrução nacional do país.
A Amazon adquiriu a Rivr, startup suíça de robôs de entrega capazes de subir escadas. Ao mesmo tempo, Jeff Bezos estaria levantando 100 bilhões de dólares para um fundo voltado à compra e modernização de empresas industriais com inteligência artificial.
Até Trevor Milton, fundador da fracassada Nikola e perdoado pelo ex-presidente Donald Trump, tenta captar 1 bilhão de dólares para aviões movidos a inteligência artificial. O capital continua correndo para o setor, atraído tanto por promessas reais quanto por oportunistas de ocasião.
Mas o entusiasmo não elimina os riscos concretos. A investigação da segurança viária dos Estados Unidos sobre o sistema Full Self-Driving da Tesla foi elevada ao nível mais alto de análise, etapa final antes de um possível recall obrigatório.
Outro sinal de alerta veio de um ciberataque a uma empresa de bafômetros veiculares nos Estados Unidos, que deixou motoristas sem conseguir ligar seus carros. Quanto mais o transporte depende de software, conectividade e automação, maior também é a superfície de vulnerabilidade.
A corrida pelo carro autônomo já deixou de ser uma discussão abstrata sobre futuro distante. Ela está reorganizando alianças empresariais, pressionando balanços, fortalecendo fornecedores estratégicos como a Nvidia e empurrando empresas como a Uber para apostas cada vez mais ousadas.
É esse o tamanho da jogada anunciada agora. A Uber está comprando um futuro que a Rivian ainda precisa construir, e o sucesso ou fracasso dessa aposta pode virar referência para toda a indústria.


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