Com combustíveis em disparada, Hanói transforma a crise geopolítica em movimento concreto de soberania energética.
O primeiro-ministro do Vietnã, Pham Minh Chinh, viajou a Moscou para tentar proteger a economia do país dos choques provocados pela guerra no Oriente Médio.
A visita oficial, iniciada no domingo e prevista até quarta-feira, tem no centro a assinatura de acordos de cooperação energética com a Rússia.
O movimento ocorre depois de uma forte alta nos combustíveis, que atingiu em cheio um dos principais polos manufatureiros da Ásia.
Segundo o South China Morning Post, a gasolina de 95 octanas subiu 50 por cento no Vietnã desde que a guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã se intensificou em fevereiro. No mesmo período, o diesel avançou 70 por cento, pressionando custos logísticos, produção e consumo.
Esses números ajudam a explicar a urgência da agenda em Moscou. Para Hanói, o risco já não é apenas de encarecimento pontual, mas de desorganização mais ampla do abastecimento em um momento de turbulência global.
O governo vietnamita informou que a viagem terá foco no aprofundamento dos laços com a Rússia. Comércio, investimentos e energia aparecem no topo da pauta, com ênfase especial na segurança do suprimento.
Um comunicado oficial divulgado no sábado antecipou o teor das negociações. Segundo o texto, “durante esta visita, uma série de acordos importantes relacionados a projetos de usinas nucleares, bem como cooperação em energia e petróleo e gás serão assinados”.
O mesmo comunicado detalhou que a cooperação em petróleo e gás será ampliada “em todos os campos de comércio, exploração, extração e treinamento de recursos humanos”. Ou seja, não se trata apenas de comprar combustível em meio à crise, mas de estruturar uma parceria mais profunda e duradoura.
A escolha da Rússia como parceiro estratégico, neste contexto, está longe de ser casual. Ela revela uma tentativa de reduzir vulnerabilidades diante de um mercado internacional cada vez mais exposto a guerras, sanções e especulação.
Para um país que depende de estabilidade energética para sustentar sua base industrial, a volatilidade atual representa ameaça direta ao crescimento. O Vietnã se tornou um importante centro manufatureiro global, e qualquer choque prolongado no custo do diesel e da gasolina se espalha rapidamente por toda a economia.
A guerra no Oriente Médio funciona, nesse sentido, como acelerador de uma mudança geopolítica mais ampla. Ao expor a fragilidade das cadeias de abastecimento e a dependência de rotas e mercados submetidos à pressão do Atlântico Norte, o conflito empurra países do Sul Global a buscar alternativas mais seguras.
Hanói parece ter entendido esse recado com clareza. Em vez de esperar a normalização de um cenário cada vez mais instável, decidiu agir para reforçar reservas, diversificar cooperações e aproximar-se de um grande produtor de energia.
Há também um componente político evidente nessa movimentação. Ao aprofundar relações com Moscou em plena escalada de tensões internacionais, o Vietnã sinaliza que sua política externa seguirá orientada por interesse nacional, e não por alinhamentos automáticos.
Esse cálculo ganha ainda mais peso porque a relação entre os dois países não nasce agora. A parceria com a Rússia tem base histórica, e as sanções ocidentais contra Moscou acabaram abrindo espaço para que laços já existentes avancem em novas frentes.
O item nuclear, citado nos comunicados oficiais, é especialmente relevante. Ele sugere uma cooperação de longo prazo, intensiva em tecnologia e planejamento, muito além de uma resposta emergencial ao encarecimento do petróleo.
Na prática, o Vietnã tenta construir um colchão estratégico contra choques futuros. Se conseguir combinar fornecimento de petróleo e gás com projetos estruturantes na área de energia, reduzirá parte da exposição a crises externas que hoje chegam ao país em forma de inflação e pressão produtiva.
A visita a Moscou ocorre poucos dias depois de o Vietnã receber o presidente chinês Xi Jinping. A sequência dos dois movimentos ajuda a desenhar com nitidez a estratégia de Hanói de estreitar relações com dois polos centrais da ordem multipolar em formação.
Isso não significa rompimento automático com Washington. O Vietnã mantém relações com os Estados Unidos, mas a crise atual parece reforçar a percepção de que depender de uma arquitetura global atravessada por guerras e disputas hegemônicas cobra um preço alto demais.
Para a Rússia, a visita também tem peso simbólico e prático. Em meio ao cerco ocidental, Moscou demonstra que continua capaz de ampliar relações internacionais e de se afirmar como fornecedor essencial de energia, tecnologia e cooperação estratégica.
O episódio oferece uma lição que vai além do Sudeste Asiático. Para o Brasil e para outros países do Sul Global, a dependência de cadeias energéticas e financeiras centradas no dólar e sujeitas às guerras dos Estados Unidos aparece cada vez mais como risco concreto, e não como debate abstrato.
Por isso, a diversificação de parcerias e instrumentos de comércio deixa de ser bandeira retórica. Ela passa a ser uma necessidade de sobrevivência econômica para países que não querem ver seu crescimento refém de conflitos decididos fora de suas fronteiras.
A crise aberta pela guerra contra o Irã mostra exatamente isso. Um confronto em região estratégica pode elevar custos, desorganizar mercados e estrangular economias a milhares de quilômetros de distância.
A resposta vietnamita é pragmática e merece atenção. Em vez de discurso vazio, Hanói aposta em acordos, reservas, cooperação energética e planejamento de longo prazo para construir resiliência.
Quando o diesel sobe 70 por cento e a gasolina avança 50 por cento, diplomacia deixa de ser cerimônia e vira instrumento de proteção nacional. A viagem de Pham Minh Chinh a Moscou é, nesse sentido, menos um gesto protocolar do que uma operação de defesa econômica.
No fundo, o que está em jogo é soberania. Ao buscar energia, tecnologia e previsibilidade fora do circuito mais vulnerável às guerras e sanções do Ocidente, o Vietnã tenta proteger sua população e seu projeto de desenvolvimento.
É por isso que a visita tem significado maior do que aparenta à primeira vista. Ela sinaliza como países do Sul Global começam a responder, com ações concretas, às convulsões de uma ordem internacional em transformação acelerada.


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