A fala de Scott Bessent expõe uma doutrina que vende força, mas pode entregar choque do petróleo, guerra regional e descontrole global.
Scott Bessent, secretário do Tesouro dos Estados Unidos, defendeu publicamente uma tática militar de altíssimo risco contra o Irã ao afirmar, em entrevista à NBC, que pode ser necessário “escalar para desescalar” o conflito.
A declaração veio no rastro de ameaças contraditórias de Donald Trump, que em curto intervalo saiu do discurso de “encerrar” a guerra para prometer “obliterar” instalações energéticas iranianas.
A aposta apresentada por Bessent é simples na formulação e explosiva nas consequências: atacar com mais força para forçar Teerã a recuar, sob a justificativa de que essa seria “a única língua que os iranianos entendem”, segundo reportagem do South China Morning Post.
O problema é que essa doutrina é vista há décadas como uma rota clássica para erro de cálculo e guerra ampliada. Ela depende da suposição de que o adversário reagirá de modo previsível diante de uma demonstração de força esmagadora.
No caso iraniano, essa premissa parece especialmente frágil. O histórico de Teerã aponta mais para resistência e retaliação proporcional do que para submissão sob ameaça.
A ameaça específica de Trump atinge o centro nervoso da economia iraniana e, ao mesmo tempo, um dos pontos mais sensíveis da estabilidade global. O presidente americano condicionou o ataque à abertura do Estreito de Ormuz, passagem vital para o fluxo mundial de petróleo.
Cerca de um quinto do suprimento global de gás e petróleo passa por essa rota marítima, o que transforma qualquer interrupção relevante em gatilho imediato para um choque energético internacional. Se o estreito for afetado, os preços podem disparar em cadeia, pressionando inflação, transporte, indústria e alimentos em vários continentes.
É aí que a retórica bélica de Washington esbarra na realidade material dos mercados. Paradoxalmente, o próprio governo americano tomou uma medida para aliviar a pressão sobre a energia ao suspender temporariamente sanções sobre petróleo iraniano e russo que já estava a bordo de navios.
A decisão busca evitar uma disparada de preços que atingiria a economia mundial e também a popularidade de Trump dentro de casa. Mas o gesto abre uma contradição política imediata: ao mesmo tempo em que ameaça destruir a infraestrutura energética iraniana, Washington reduz barreiras para evitar que o petróleo suma do mercado.
Críticos observam que essa flexibilização injeta recursos no regime iraniano em pleno ambiente de confronto. O governo americano fica, assim, preso entre duas urgências incompatíveis: sustentar a pose de força e impedir que o custo econômico dessa pose exploda no bolso do eleitor.
A fórmula de “escalar para desescalar” não nasceu agora. Ela remonta a teorias da Guerra Fria e já apareceu em outros contextos, sempre cercada pelo mesmo risco colossal de produzir o oposto do que promete.
Aplicá-la ao Irã, porém, significa ignorar a estrutura real de poder no Oriente Médio. Teerã não é um alvo isolado, mas um ator central de uma rede de alianças, influência regional e capacidade de retaliação assimétrica que ultrapassa em muito o Golfo Pérsico.
Grupos aliados no Iraque, na Síria, no Líbano e no Iêmen podem responder a um ataque americano de grande escala. Isso abriria múltiplas frentes simultâneas, ampliando o conflito para além de uma troca direta entre Washington e Teerã.
Nesse cenário, a ideia de uma operação cirúrgica com efeito disciplinador parece mais fantasia estratégica do que cálculo sólido. O risco concreto é uma conflagração regional difícil de conter, com impactos militares, energéticos e diplomáticos em cascata.
A retórica de Trump e Bessent também revela outra camada do problema: a política externa submetida ao calendário político interno dos Estados Unidos. A combinação de ameaças maximalistas com recuos táticos sugere uma busca por imagem de força sem o custo integral de uma guerra aberta.
Só que o mundo real raramente respeita roteiros eleitorais. Quando a principal potência militar do planeta flerta com ataques a uma peça central do sistema energético global, o efeito não fica restrito à propaganda doméstica.
Para o Sul Global, a escalada é uma ameaça direta. Países em desenvolvimento tendem a absorver de forma mais brutal os efeitos de uma alta do petróleo, seja pela pressão sobre combustíveis, seja pelo encarecimento do frete, da produção industrial e do custo de vida.
O Brasil não estaria fora dessa onda de choque. Mesmo com capacidade energética relevante, o país sentiria os efeitos de uma turbulência internacional prolongada sobre preços, câmbio, inflação e planejamento econômico.
Por isso, a crise no Golfo não é um assunto distante. Ela toca interesses concretos de segurança energética, estabilidade macroeconômica e soberania estratégica para países que não participam da escalada, mas pagam a conta dela.
A comunidade internacional precisaria, nesse contexto, agir para frear a aventura unilateral americana antes que ela se transforme em fato consumado. O problema é que a arquitetura de segurança coletiva já chega a esse momento enfraquecida, com baixa capacidade de conter ações de força quando partem de Washington.
Esse desgaste corrói ainda mais o direito internacional e a própria ideia de mediação multilateral. No lugar da diplomacia, entra a lógica da intimidação; no lugar da negociação, a ameaça de destruição.
Há ainda um efeito político frequentemente subestimado. Cada ameaça pública de ataque tende a fortalecer o discurso nacionalista dentro do Irã e a reforçar a legitimidade interna de sua estratégia de defesa.
Em vez de enfraquecer Teerã, a pressão pode consolidar o regime como símbolo de resistência à hegemonia americana na região. É uma ironia recorrente das aventuras militares: o inimigo anunciado como alvo de contenção muitas vezes sai politicamente mais coeso.
China e Rússia observam esse quadro com razões próprias para preocupação. Pequim depende da estabilidade das rotas de abastecimento do Golfo, enquanto Moscou, aliada de Teerã, dificilmente trataria com indiferença um ataque de grande magnitude.
A Europa, por sua vez, aparece mais uma vez vulnerável à política externa americana e sem voz estratégica autônoma à altura da crise. Sua dependência histórica da energia da região torna ainda mais visível essa fragilidade.
Para o Brasil, a lição é objetiva. A volatilidade produzida por decisões tomadas em Washington reforça a necessidade de diversificar matrizes energéticas, ampliar a integração sul-americana e tratar a transição para fontes renováveis também como tema de segurança nacional.
No fim, a doutrina defendida por Bessent se parece menos com estratégia e mais com roleta russa geopolítica. Ela aposta que o outro lado vai recuar primeiro, embora a história do Oriente Médio esteja repleta de episódios em que todos avançaram um passo além do limite.
O momento exige pressão internacional por desescalada diplomática real. Se Washington insistir em testar fogo com petróleo, rotas marítimas e orgulho nacional, o resultado pode ser exatamente o contrário da paz que diz buscar.