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Aliança Atlântica desfaz roteiro de guerra EUA-Israel contra Irã

A recusa a embarcar numa guerra contra o Irã expõe os limites do bloco ocidental e reforça o peso da diplomacia. A possibilidade de a aliança atlântica entrar numa guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã é, na prática, quase nula. A avaliação é de Harlan Ullman, ex-oficial da Marinha dos Estados […]

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A recusa a embarcar numa guerra contra o Irã expõe os limites do bloco ocidental e reforça o peso da diplomacia.

A possibilidade de a aliança atlântica entrar numa guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã é, na prática, quase nula.

A avaliação é de Harlan Ullman, ex-oficial da Marinha dos Estados Unidos e analista estratégico, em entrevista à Al Jazeera.

Sua conclusão derruba o roteiro de uma intervenção militar ampliada no Golfo Pérsico e recoloca no centro um dado decisivo da crise: a Europa não quer pagar essa conta.

Ullman foi direto ao descrever a chance de envolvimento militar da aliança. Usou a expressão “between slim and none”, algo entre remotíssima e inexistente.

Não se trata apenas de prudência verbal ou cálculo diplomático de ocasião. O ceticismo reflete uma transformação geopolítica que se consolidou desde a invasão do Iraque.

As principais potências europeias, que sustentam a aliança atlântica, mostram cada vez menos disposição para seguir Washington em novas aventuras militares no Oriente Médio. O trauma político, militar e financeiro das guerras no Afeganistão e no Iraque continua vivo nas capitais do continente.

Esse peso histórico não é abstrato. Ele se traduz em governos mais cautelosos e em sociedades muito menos tolerantes a novas campanhas armadas fora da Europa.

A opinião pública europeia, de forma majoritária, rejeita a abertura de mais um conflito de grandes proporções. Depois de duas décadas de guerras fracassadas, promessas não cumpridas e custos bilionários, a margem para repetir a fórmula praticamente desapareceu.

Há ainda um fator material que torna a hipótese de guerra ainda menos atraente para o continente. A Europa depende fortemente do petróleo que passa pelo Estreito de Hormuz, rota estratégica que o Irã tem capacidade de afetar em caso de escalada.

Uma guerra contra Teerã, nesse contexto, não seria apenas uma aposta militar arriscada. Seria também um golpe direto sobre a segurança energética e a estabilidade financeira europeias.

Se o Estreito de Hormuz fosse fechado num cenário de confronto, a prioridade das capitais europeias seria reabrir a rota o mais rápido possível. Mas, segundo a lógica exposta por Ullman, essa resposta tenderia a buscar saída diplomática, e não uma escalada bélica ainda maior.

Esse ponto é central para entender o momento. Mesmo quando os interesses europeus são ameaçados, a disposição não é a de mergulhar automaticamente numa guerra, e sim a de tentar conter seus efeitos antes que eles se tornem incontroláveis.

Ullman afirma que, ainda que Israel ataque com apoio dos Estados Unidos, a reação mais provável da aliança seria limitada a declarações de apoio político. O envio de tropas e o envolvimento direto em combate, segundo essa leitura, estão fora de cogitação.

A consequência política dessa posição é profunda. Ela revela uma fissura crescente na chamada comunidade transatlântica, frequentemente apresentada como um bloco coeso, mas cada vez mais atravessado por interesses nacionais distintos.

Para os europeus, segurança energética, estabilidade regional e cálculo econômico imediato pesam tanto quanto, ou mais do que, a pressão de Washington. Isso ajuda a explicar por que a retórica de unidade ocidental nem sempre se converte em disposição real para a guerra.

A guerra na Ucrânia também alterou esse equilíbrio. O continente já está consumido por um conflito de alta intensidade, que drena recursos, atenção estratégica e capacidade política.

Abrir uma segunda frente de grandes proporções, a milhares de quilômetros de distância, significaria ampliar riscos num momento em que a Europa já opera sob forte tensão. Falta capacidade, mas sobretudo falta vontade.

Para o Brasil e para o Sul Global, a análise tem importância que vai além do episódio imediato. Ela mostra que o poder ocidental não opera como um mecanismo automático e que há resistência interna, mesmo dentro de alianças históricas, a projetos externos agressivos e unilaterais.

Esse dado ajuda a compreender a multipolaridade em termos concretos. Ela não aparece apenas em discursos ou fóruns diplomáticos, mas em decisões soberanas de países como França, Alemanha e Itália, que calculam seus próprios custos e recusam ser arrastados para um conflito que não consideram seu.

Do ponto de vista iraniano, isso amplia o espaço de manobra. A dissuasão não depende apenas da capacidade militar de responder, mas também da percepção de que uma guerra contra o país não unificaria o Ocidente e poderia, ao contrário, aprofundar suas divisões.

Essa leitura também aumenta o custo político de qualquer aventura militar para Washington. Sem o guarda-chuva pleno da aliança atlântica, uma ação armada se torna mais arriscada, mais cara e mais difícil de legitimar internacionalmente.

Israel, por sua vez, ficaria ainda mais exposto caso apostasse numa escalada esperando adesão automática dos aliados ocidentais. A ausência de compromisso militar coletivo enfraquece a ideia de uma frente unificada e reduz a margem para operações de grande alcance.

O cenário descrito por Ullman, portanto, reforça a via diplomática. Se a opção de guerra coletiva é vista como inviável, cresce a pressão por negociações, contenção e desescalada.

Isso não significa pacifismo repentino das potências europeias. Significa, antes, que a racionalidade estratégica impõe limites concretos à retórica belicista.

Também funciona como antídoto contra o fatalismo que domina parte da cobertura internacional, sempre pronta a tratar a guerra como desfecho inevitável. Por trás das declarações inflamadas, seguem operando cálculos frios de custo, risco e interesse nacional.

A recusa europeia em atuar como peça automática no tabuleiro do Oriente Médio é, nesse sentido, um desenvolvimento relevante para a paz. Ainda que tímido, é um sinal de autonomia estratégica e de desgaste da lógica segundo a qual uma única potência define sozinha o rumo de todos os seus aliados.

Para o Brasil, a lição é clara e atual. A defesa da solução pacífica de controvérsias, da diplomacia e da soberania não é ingenuidade moral, mas instrumento real de poder num sistema internacional em transformação.

Quando até a maior aliança militar do planeta hesita diante do abismo, fica evidente que a política externa responsável não é a que grita mais alto. É a que entende, antes dos outros, onde termina a propaganda e começa a realidade.

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