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China avança em plano para desbancar o dólar e redefinir finanças globais

Pequim já discute abertamente como trocar a proteção em dólar por um yuan forte, líquido e internacional. Um estudo ligado a uma das principais universidades de Pequim recolocou no centro da mesa uma hipótese com enorme peso global: a China pode começar a reduzir, de forma gradual, sua gigantesca reserva em moeda estrangeira, sobretudo em […]

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Pequim já discute abertamente como trocar a proteção em dólar por um yuan forte, líquido e internacional.

Um estudo ligado a uma das principais universidades de Pequim recolocou no centro da mesa uma hipótese com enorme peso global: a China pode começar a reduzir, de forma gradual, sua gigantesca reserva em moeda estrangeira, sobretudo em títulos do Tesouro dos Estados Unidos.

A premissa é simples e explosiva ao mesmo tempo: quanto mais o yuan circular no comércio, nos pagamentos e nas reservas internacionais, menor será a necessidade chinesa de manter dólares como escudo de segurança.

Se essa transição avançar, não se tratará apenas de um ajuste técnico de carteira, mas de um movimento com potencial para mexer no coração da ordem financeira construída sob a hegemonia americana.

O trabalho foi elaborado por Sun Jiaqi, do Instituto Monetário Internacional da Universidade Renmin, e divulgado na última sexta-feira. O estudo examina os caminhos e as implicações dessa mudança para a China, que ocupa desde fevereiro de 2006 a posição de maior detentora de reservas cambiais do mundo.

Segundo o relatório, reservas ainda moderadamente amplas podem continuar ajudando a sustentar a internacionalização do yuan. Mas Sun afirma que uma redução gradual se tornará inevitável à medida que a moeda chinesa amadurecer e for mais adotada globalmente como meio de liquidação e reserva de valor.

Nesse cenário, a China deixaria de precisar manter ativos excessivos em moeda estrangeira por mera precaução. O próprio yuan passaria a cumprir parte das funções defensivas hoje exercidas pelas reservas externas.

Por trás da linguagem técnica, o que está em jogo é uma disputa geopolítica de primeira grandeza. Reservas internacionais, no sistema atual, significam em larga medida dólares e, de forma muito particular, títulos da dívida pública americana.

A China é um dos maiores credores do governo dos Estados Unidos, o que dá ao debate um peso que vai muito além da academia. Reduzir o ritmo de compras ou vender parte desses papéis teria efeitos relevantes sobre os mercados financeiros e sobre o custo de financiamento da dívida americana.

O relatório da Universidade Renmin também introduz um parâmetro concreto para essa discussão. Com base em pesquisas de analistas da China Securities Depository and Clearing e do China Construction Bank, o texto aponta que o nível desejável de reservas para uma economia de mercado emergente seria de cerca de 11,49% do Produto Interno Bruto.

A China aparece bem acima desse patamar. Seus mais de 3,2 trilhões de dólares em reservas equivalem a cerca de 18% do Produto Interno Bruto, segundo cálculos com base em dados de 2023.

Isso significa que a eventual redução sugerida pelo estudo não seria cosmética. Haveria espaço para um corte significativo, caso o processo de internacionalização do yuan avance de forma consistente.

O tema não é novo, mas ganhou urgência nos últimos anos. As restrições impostas por Washington ao acesso chinês a tecnologias de ponta e o uso crescente de sanções financeiras como instrumento de pressão geopolítica aceleraram a busca de Pequim por autonomia monetária e financeira.

Para a liderança chinesa, a dependência de um sistema centrado no dólar e fortemente influenciado por Washington passou a representar um risco estratégico direto. Diversificar reservas e construir alternativas deixou de ser apenas uma escolha econômica prudente e passou a integrar o campo da segurança nacional.

É nesse ponto que o yuan assume papel central. A moeda chinesa avança de forma gradual, porém visível, e já aparece como a quarta mais usada em pagamentos globais, segundo a SWIFT, superando o iene japonês.

Mais importante do que a posição no ranking é a qualidade desse avanço. O uso do yuan em transações de comércio exterior, especialmente com parceiros do Sul Global, cresceu de maneira expressiva e começou a criar uma base concreta de circulação internacional.

Rússia, Arábia Saudita, Argentina e Brasil estão entre os países que ampliaram acordos para utilizar o yuan, seja em operações bilaterais, seja como ativo de reserva. No caso brasileiro, o Banco Central incluiu oficialmente a moeda chinesa em suas reservas internacionais.

Além disso, o comércio entre Brasil e China já pode ser liquidado diretamente em yuan e real, sem a intermediação do dólar. Esse tipo de arranjo reduz custos, amplia a autonomia dos parceiros e ajuda a consolidar o uso real da moeda chinesa fora de suas fronteiras.

Esse ponto é decisivo. Uma moeda não se internacionaliza apenas por decreto estatal ou por propaganda diplomática, mas por sua presença efetiva em contratos, pagamentos, reservas e redes de liquidação.

É justamente essa circulação orgânica que, segundo o relatório, pode transformar o yuan em um estabilizador automático. Em momentos de crise, detentores globais da moeda chinesa não precisariam correr necessariamente para o dólar se confiassem na liquidez e no valor do yuan.

Se essa confiança se consolidar, a China poderá reduzir seu enorme estoque de dólares com menos risco. A moeda nacional deixaria de depender tanto de um colchão externo e passaria a funcionar como seu próprio instrumento de proteção contra fugas de capital e choques especulativos.

Nada disso, porém, acontecerá rapidamente. O mercado financeiro chinês, embora gigantesco, ainda não oferece o mesmo grau de abertura, profundidade e liquidez do mercado americano, e esse continua sendo um obstáculo central para qualquer ambição de rivalizar com o dólar em escala plena.

Controles de capital e a administração da taxa de câmbio pelo Banco Central da China também são vistos por investidores internacionais como barreiras importantes. A plena conversibilidade do yuan e o aprofundamento dos mercados de capitais seguem sendo pré-requisitos para que a moeda dispute espaço real com o dólar e o euro.

Pequim sabe disso e avança com cautela. A liderança chinesa quer ampliar o alcance internacional do yuan sem abrir mão da estabilidade interna, temendo que uma liberalização brusca exponha o país a volatilidade financeira e a choques externos.

Por isso, o debate sobre o tamanho ideal das reservas funciona como um termômetro político e estratégico. Quando uma instituição de elite em Pequim passa a discutir publicamente a possibilidade de reduzir a dependência do dólar, o sinal emitido é claro: há confiança crescente no projeto de internacionalização da moeda chinesa.

Para o Sul Global, essa discussão tem implicações diretas. Um sistema monetário menos concentrado, com mais moedas capazes de sustentar comércio, reservas e financiamento, reduz a vulnerabilidade de países periféricos aos ciclos de aperto monetário dos Estados Unidos e às sanções unilaterais de Washington.

Em outras palavras, a ascensão do yuan não interessa apenas à China. Ela pode ampliar a margem de manobra de economias que hoje operam sob forte dependência de uma arquitetura financeira desenhada para reproduzir a centralidade americana.

A redução das reservas chinesas em dólar não ocorrerá de uma vez. Mas o simples fato de essa hipótese estar sendo formulada de maneira aberta, técnica e institucional mostra que a transição já entrou no campo do possível.

Trata-se de um movimento de longo prazo, quase uma partida de xadrez jogada em décadas. Cada acordo em yuan, cada mecanismo de swap cambial e cada passo para diminuir a exposição a títulos do Tesouro americano compõe a mesma estratégia.

O objetivo final é nítido. A China quer ajudar a construir uma ordem monetária em que o poder financeiro deixe de ser monopólio de uma única moeda e passe a refletir, também nesse terreno, a multipolaridade que já avança na política e na economia mundial.

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