Datafolha mostra Ciro Gomes na frente, expõe a vulnerabilidade de Elmano e transforma o Ceará em teste político de alto risco para o PT.
Uma pesquisa Datafolha colocou Ciro Gomes na liderança da disputa pelo Governo do Ceará e acendeu um alerta real para o PT em um de seus estados mais estratégicos no Nordeste.
No principal cenário estimulado, Ciro aparece com 47% das intenções de voto, contra 32% do governador Elmano de Freitas, abrindo uma vantagem de 15 pontos percentuais.
O dado mais duro para o campo governista é que, num eventual segundo turno entre os dois, Ciro venceria por 56% a 37%, segundo o levantamento.
A pesquisa foi contratada pelo jornal O Povo e realizada entre 16 e 18 de março. Foram ouvidos 816 eleitores em 35 municípios, com margem de erro de três pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral. Pelos números, não se trata de oscilação marginal, mas de uma dianteira robusta num estado central para a base política do presidente Lula.
A força de Ciro aparece também quando se observa o efeito de sua presença sobre toda a disputa. Com ele no páreo, a oposição se reorganiza e o PT perde a posição de conforto que teria num cenário fragmentado.
Sem Ciro Gomes, o quadro muda de forma expressiva. Elmano de Freitas passa a liderar com 42%, enquanto o ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio, do União Brasil, surge em segundo lugar com 20%.
Nessa simulação sem Ciro, o senador Eduardo Girão, do Novo, sobe para 14%. O resultado sugere que a fragmentação do campo oposicionista favorece diretamente o governador petista.
A pesquisa espontânea reforça outro ponto importante: o grau de conhecimento do eleitorado sobre os principais nomes da disputa. Sem lista apresentada, Ciro é citado por 15% dos entrevistados, contra 13% de Elmano de Freitas.
O ministro Camilo Santana, que nega ser candidato, aparece com 3% das menções. Ao mesmo tempo, 54% afirmam não saber em quem votar, sinal de que o eleitorado ainda está em formação e de que há espaço para disputa política nos próximos meses.
No cenário estimulado com Ciro, os demais nomes têm desempenho residual. Eduardo Girão marca 5%, enquanto Professor Jarir Pereira, do PSOL, e Zé Batista, do PSTU, aparecem com 2% cada.
Brancos, nulos e indecisos somam 12% nesse cenário. Sem Ciro, esse contingente sobe para 18%, o que reforça a ideia de que sua entrada organiza votos que, de outra forma, ficariam dispersos.
A rejeição é outro dado decisivo e, para o PT, pouco animador. Ciro Gomes tem o menor índice entre os principais nomes, com 16% dos entrevistados dizendo que não votariam nele de jeito nenhum.
Elmano de Freitas registra rejeição de 28%. Os maiores índices são de Zé Batista, com 33%, e Eduardo Girão, com 32%, indicando maior resistência do eleitorado a candidaturas situadas nas extremidades do espectro político.
O retrato que emerge da pesquisa é o de uma disputa menos ideológica do que territorial e biográfica. Contra a direita tradicional, o PT ainda mostra força, mas diante de Ciro enfrenta um adversário com raízes profundas no estado e capital político próprio.
Isso fica claro no cenário de segundo turno entre Elmano e Roberto Cláudio. Nessa hipótese, o governador venceria por 52% a 36%, mostrando que o PT mantém vantagem quando o campo adversário não é liderado por uma figura com a densidade eleitoral de Ciro.
A diferença, portanto, não está apenas nos números brutos, mas na natureza do confronto. Com Roberto Cláudio ou outros nomes, a oposição se divide; com Ciro, ela ganha eixo, memória administrativa e um nome imediatamente reconhecível pelo eleitor cearense.
Esse reconhecimento não surgiu agora. Ciro Gomes carrega um patrimônio político acumulado em décadas de vida pública, incluindo sua passagem pelo governo estadual, e isso aparece tanto na pesquisa espontânea quanto na estimulada.
Para o PT, o problema é duplo. Além de enfrentar um adversário forte, o partido ainda precisa consolidar a imagem de Elmano de Freitas para além da herança política de seus padrinhos e antecessores.
O Ceará foi durante anos um dos terrenos mais sólidos da articulação petista e de seus aliados. As gestões de Cid Gomes e Camilo Santana ajudaram a construir a imagem de um estado com estabilidade administrativa e forte presença política no Nordeste.
A sucessão que levou Elmano ao governo, porém, não parece ter preservado integralmente esse mesmo impulso. A pesquisa sugere que o atual governador ainda não converteu a máquina, a visibilidade do cargo e o apoio do campo governista em liderança eleitoral consolidada.
Para o governo Lula, a situação exige atenção porque o Ceará não é um estado periférico na estratégia nacional do PT. É um pilar da base aliada no Nordeste e uma fonte relevante de apoio parlamentar e de sustentação política.
Uma eventual derrota ali teria peso simbólico e prático. Simbólico, porque atingiria uma fortaleza histórica do partido; prático, porque abriria espaço para uma reconfiguração regional com efeitos sobre 2026.
Ao mesmo tempo, a pesquisa não encerra a disputa. A taxa de indecisão na espontânea é alta, a campanha oficial ainda não começou e o apoio de Lula pode ser um ativo importante para Elmano de Freitas.
O governo federal também dispõe de instrumentos políticos e administrativos para reforçar sua presença no estado por meio de obras, programas e entregas. Em eleições competitivas, esse tipo de presença costuma importar, sobretudo quando mais da metade do eleitorado ainda não cristalizou sua escolha espontaneamente.
Ainda assim, o retrato atual é claro e incômodo para o PT. Hoje, Ciro Gomes não apenas lidera como altera toda a lógica da eleição cearense, desmontando o cenário ideal de fragmentação adversária que beneficiaria o governador.
A pesquisa Datafolha funciona, assim, como um raio X de alta precisão sobre o momento político no Ceará. Ela mostra um Ciro forte, um Elmano vulnerável e um estado que pode deixar de ser apenas reduto seguro para se tornar campo de batalha decisivo.
Os próximos meses dirão se o PT conseguirá reorganizar sua narrativa, ampliar a exposição de Elmano e usar o peso político de Lula para reduzir a vantagem do ex-governador. Por enquanto, porém, o dado central é simples e contundente: no Ceará, Ciro Gomes saiu muito na frente e obrigou o petismo a jogar na defensiva.


Dudu
23/03/2026 - 14h59
Cirolipa já está eleito