Guerra EUA-Israel contra Irã empurra África para nova onda de fome e inflação

O ataque ao Irã já transborda o campo militar e ameaça combustível, fertilizantes e comida em países africanos que nada decidiram sobre essa escalada.

A guerra contra o Irã, conduzida por Estados Unidos e Israel, já empurra uma nova onda de inflação sobre economias africanas ainda fragilizadas.

O choque começa pela energia, mas pode terminar na lavoura, nas prateleiras e na mesa de milhões de pessoas.

O alerta veio de George Elombi, presidente do Banco Africano de Exportação e Importação, o Afreximbank.

Segundo Elombi, os países africanos importadores de petróleo refinado já sentem o impacto direto da alta de custos. O banco começou a preparar ajuda financeira de emergência para tentar amortecer o choque.

A crise recoloca em evidência uma vulnerabilidade antiga do Sul Global. Decisões militares e geopolíticas tomadas a milhares de quilômetros de distância desorganizam preços, cadeias de suprimento e orçamentos nacionais no continente africano.

A África mal começava a se recuperar dos efeitos econômicos da guerra na Ucrânia. Agora enfrenta um novo ciclo de pressão sobre energia, fertilizantes e alimentos.

O canal mais imediato é o petróleo. A maioria dos 54 países africanos depende da importação de combustíveis, o que transforma qualquer interrupção nas exportações do Oriente Médio em pressão direta sobre bombas, fretes e contas públicas.

Para os poucos exportadores de petróleo, a alta internacional pode significar receita adicional no curto prazo. Para a maioria, porém, o efeito é o oposto: inflação, encarecimento do custo de vida e aumento do risco de tensão social.

O Afreximbank tenta montar um colchão financeiro para os países mais expostos à importação de combustível. A medida é relevante, mas responde à emergência, não à estrutura de dependência que torna o continente tão vulnerável a cada nova convulsão internacional.

Há, no entanto, uma ameaça ainda mais silenciosa e potencialmente mais destrutiva do que a alta dos combustíveis. Ela está no mercado de fertilizantes, justamente no momento em que grande parte da África tropical entra na estação das chuvas e do plantio.

Se os insumos faltarem ou chegarem com preços proibitivos, o impacto não ficará restrito ao campo. Ele pode comprometer safras inteiras e atingir a segurança alimentar de milhões de pessoas.

Um relatório da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, a UNCTAD, mostra com clareza o tamanho dessa dependência. Os dados revelam como gargalos logísticos em uma única rota podem se transformar em crise agrícola para vários países africanos.

O Sudão recebe 54% de seus carregamentos de fertilizante por meio do Estreito de Ormuz. A Somália depende dessa mesma passagem para 30% de seus fertilizantes.

O Quênia, uma das economias mais dinâmicas da África Oriental, também aparece entre os expostos. Segundo a UNCTAD, 26% de seus suprimentos de fertilizantes passam pelo mesmo ponto estratégico, hoje cercado por risco militar.

O relatório é direto ao apontar o perigo de uma interrupção prolongada. Um fechamento do Estreito de Ormuz por apenas 30 dias poderia afetar severamente a produtividade de culturas dependentes de nitrogênio.

Milho, trigo e arroz estão entre os cultivos mais ameaçados. Não se trata de produtos marginais, mas de alimentos básicos que sustentam populações inteiras em diferentes regiões do continente.

Essa nova pressão externa não surge no vazio. Ela se soma a uma sequência de choques que já vinha corroendo a capacidade de reação de muitos países africanos.

A guerra na Ucrânia, iniciada em 2022, já havia atingido duramente economias dependentes das importações de trigo da Rússia e da Ucrânia. O resultado foi uma combinação de escassez, inflação e maior exposição social em países com baixa margem fiscal.

Agora, o padrão se repete com outra origem e com instrumentos semelhantes. A cada nova guerra ou rodada de sanções decidida em centros de poder do Norte, a conta chega aos consumidores e agricultores de Nairóbi, Cartum e Mogadíscio.

O problema não é apenas conjuntural. Ele expõe a arquitetura desigual de um sistema internacional em que os países mais afetados quase nunca participam das decisões que detonam a instabilidade.

A África volta a aparecer como território de absorção dos efeitos colaterais de conflitos alheios. O que para as potências é cálculo estratégico, para milhões de africanos pode significar inflação importada, colheita menor e comida mais cara.

Nesse contexto, a resposta do Afreximbank é necessária, mas claramente paliativa. Ela ajuda a conter o impacto imediato, sem alterar a engrenagem que reproduz a dependência de combustíveis refinados, fertilizantes importados e corredores marítimos vulneráveis.

É por isso que o debate sobre multipolaridade ganha densidade concreta no Sul Global. Não se trata apenas de discurso diplomático, mas da busca por mecanismos capazes de reduzir a exposição a choques produzidos por guerras, sanções e bloqueios fora do controle dos países afetados.

Cadeias de suprimento mais resilientes, rotas logísticas diversificadas e instrumentos financeiros menos subordinados aos centros tradicionais de poder passam a ser vistos como necessidade prática. O uso de moedas locais no comércio e a ampliação de alternativas comerciais entre países do Sul entram nesse cálculo de proteção.

A dependência de corredores ameaçados por escaladas militares tornou-se um risco econômico direto. Quando um estreito marítimo entra em zona de guerra, o efeito não fica no mapa: ele chega ao preço do diesel, ao custo do adubo e ao rendimento da safra.

Por isso, a guerra contra o Irã não pode ser tratada apenas como mais um conflito regional. Ela funciona como acelerador de crises humanitárias em países que não tiveram qualquer responsabilidade por sua eclosão.

Enquanto mercados financeiros do Norte operam sobre a volatilidade das commodities, o Sul enfrenta consequências materiais muito mais duras. A especulação com preços internacionais se traduz, na outra ponta, em prateleiras mais vazias e terras menos produtivas.

O caso africano também serve de alerta para o restante do Sul Global, inclusive o Brasil. Ele mostra como segurança alimentar e segurança energética podem ser abaladas por eventos externos capazes de atravessar oceanos e atingir a economia real com brutal rapidez.

A lição é objetiva. Estoques reguladores, produção própria de fertilizantes, infraestrutura logística e parcerias comerciais estáveis com outros países do Sul deixaram de ser apenas opções de política econômica.

Num mundo atravessado por guerras recorrentes e disputas por rotas estratégicas, autonomia deixou de ser palavra de seminário. Tornou-se questão de segurança nacional e de sobrevivência econômica.

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