O ataque perto de Isaac Herzog expôs, em minutos, o fracasso de uma estratégia que promete segurança e entrega guerra sem fim.
Isaac Herzog mal havia terminado de defender uma linha mais agressiva contra o Líbano quando precisou correr para um abrigo antiaéreo no norte de Israel.
O míssil caiu nas proximidades de Kiryat Shmona em 23 de março, poucos instantes após a coletiva do presidente israelense, segundo relato da Al Jazeera.
A cena condensou em segundos uma contradição central da política israelense: quanto mais a liderança promete segurança pela força, mais a guerra se aproxima de seus próprios centros de decisão.
Durante a fala, Herzog rejeitou qualquer retorno ao cessar-fogo frágil que vigorava até o ano passado. Em seu lugar, defendeu uma postura ainda mais dura na frente norte.
O presidente falou em obter “profundidade estratégica dentro do Líbano”. Na prática, a expressão remete à criação de uma zona de segurança em território libanês, sob a justificativa de afastar o Hezbollah da fronteira.
A resposta dos fatos foi imediata e politicamente devastadora. Enquanto a retórica oficial apontava para mais pressão militar, um ataque mostrou que a vulnerabilidade israelense no norte permanece aberta.
A sequência não é apenas simbólica, embora o simbolismo seja poderoso. Ela revela a dificuldade de sustentar a tese de que a expansão do conflito produzirá estabilidade.
Após meses de trocas de foguetes e ataques aéreos diários, a capacidade do Hezbollah de atingir o norte de Israel continua intacta. Isso enfraquece o argumento de que a superioridade militar israelense, por si só, seria capaz de impor uma nova realidade na fronteira.
O episódio também sugere um grau relevante de audácia operacional. O ataque ocorreu em uma área onde se sabia da presença do mais alto escalão do Estado israelense, o que amplia seu peso político e psicológico.
Não se trata mais de um atrito periférico ou de baixa intensidade. O que se vê é uma guerra de desgaste que Israel não conseguiu encerrar nem pela via militar nem pela via política.
Esse impasse cobra um preço crescente. A cada nova rodada de bombardeios, amplia-se o raio de instabilidade sem que surja uma solução duradoura.
O governo de Benjamin Netanyahu apostou na demonstração permanente de força como eixo de sua resposta regional. O resultado é um país pressionado em múltiplas frentes, com o norte e o sul sob tensão e com sua imagem internacional severamente deteriorada.
A fala de Herzog, nesse contexto, reduz ainda mais o espaço para uma desescalada no curto prazo. Quando a liderança passa a tratar incursões em território libanês como necessidade estratégica, o horizonte deixa de ser o da contenção e se aproxima do de uma guerra aberta.
As consequências de uma aventura desse tipo seriam imprevisíveis para toda a região. Um conflito ampliado com o Líbano não envolveria apenas o Hezbollah, mas poderia arrastar outros atores e produzir devastação em escala ainda maior.
Para o Sul Global, a cena em Kiryat Shmona oferece uma lição difícil, mas nítida. Potências regionais armadas e respaldadas pelo Ocidente frequentemente descobrem, tarde demais, que políticas de coerção e expansão não eliminam antagonismos, apenas os aprofundam.
A promessa de segurança baseada em muros, ocupações e incursões militares volta a mostrar seus limites. O que se apresenta como solução tática imediata costuma produzir, no médio prazo, mais hostilidade, mais deslocamento e mais insegurança.
Israel insiste há anos em uma lógica que privilegia a força sobre a diplomacia. Ao mesmo tempo, ignora resoluções da Organização das Nações Unidas e despreza apelos internacionais por um cessar-fogo permanente, o que estreita ainda mais as saídas políticas.
Enquanto isso, a população civil paga a conta dos cálculos estratégicos de cima. Dezenas de milhares de israelenses e libaneses foram deslocados de suas casas e seguem vivendo sob ameaça constante ao longo da fronteira.
Esse dado humano é central e não pode ser tratado como detalhe colateral. Toda escalada vendida como necessidade defensiva recai, no fim, sobre famílias que perdem casa, rotina, renda e horizonte.
Há também uma ironia histórica difícil de ignorar. Um Estado concebido em grande parte como refúgio para um povo perseguido passou a operar sob uma doutrina que normaliza expansão territorial, militarização permanente e insegurança crônica.
O míssil que caiu perto de Herzog funciona, por isso, como mais do que um incidente militar. Ele se torna um símbolo do ciclo vicioso em que a dominação é apresentada como proteção, mas gera resistência, resposta armada e nova rodada de repressão.
A lógica é conhecida e repetitiva. A ocupação gera resistência, a resistência gera repressão, e a repressão produz mais insegurança para todos, inclusive para quem ocupa.
O episódio também ilumina a fragilidade interna do projeto político hoje dominante em Israel. A sociedade israelense está profundamente tensionada e traumatizada pela guerra, enquanto sua liderança oferece essencialmente a mesma receita que ajudou a produzir o impasse.
Falta uma mudança real de paradigma. Sem reconhecimento mútuo, respeito ao direito internacional e aceitação plena da soberania dos povos vizinhos, a região continuará presa à alternância entre trégua precária e explosão aberta.
Para o Brasil e para os países do Sul Global, a mensagem é direta. A estabilidade internacional não nascerá da hegemonia militar de uns sobre outros, mas de uma ordem multipolar ancorada em direito, soberania e negociação.
Apoiar sem reservas a política israelense, como fazem os Estados Unidos e parte da Europa, significa prolongar um incêndio regional. Significa também ignorar a evidência acumulada de que força militar não resolve conflitos políticos profundos.
O ataque em Kiryat Shmona, portanto, não foi apenas mais uma notícia de guerra. Foi um alerta concreto sobre os limites da potência militar e sobre o preço político, humano e estratégico da arrogância imperial.
A segurança de um povo não pode ser construída sobre a insegurança de outro. Enquanto essa verdade continuar sendo recusada, a região seguirá produzindo cenas como a de um presidente que termina um discurso belicoso e, em seguida, corre para se proteger da guerra que ajudou a alimentar.


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