Bombardeios, apagão e mais de 1.500 mortos expõem uma escalada que ameaça incendiar todo o Oriente Médio.
As imagens que chegam do Irã mostram ruas destruídas, buscas entre escombros e civis tentando enxergar na luz precária de tochas em meio ao apagão.
Segundo o Ministério da Saúde iraniano, os ataques já deixaram mais de 1.500 mortos, num saldo que ainda pode crescer com o avanço dos resgates.
Divulgada pela Al Jazeera, a dimensão da devastação reforça que não se trata de um episódio isolado, mas de uma escalada com potencial de arrastar toda a região.
A ofensiva, atribuída de forma coordenada a Estados Unidos e Israel, atingiu áreas que ficaram sem energia e mergulhou várias regiões em escuridão. Ao mesmo tempo, equipes de busca trabalham contra o tempo para localizar sobreviventes sob concreto e aço.
A retórica habitual sobre “alvos militares” perde sustentação diante de bairros residenciais destruídos e de infraestrutura civil reduzida a ruínas. Quando a guerra alcança casas, ruas e serviços essenciais, o custo humano deixa de ser efeito colateral e passa a ser parte central do desastre.
O ataque aprofunda um conflito que Washington e Tel Aviv vêm alimentando há anos. Mais do que responder a ameaças alegadas, a operação se insere numa lógica de pressão permanente contra um país que insiste em preservar margem própria de soberania regional.
A guerra contra o Irã não nasceu agora, nem pode ser compreendida apenas pela superfície das justificativas apresentadas ao público ocidental. Há um projeto antigo de contenção e submissão de uma potência regional que se recusa a aceitar passivamente a hegemonia unilateral no Oriente Médio.
Nesse tabuleiro, o Irã se converteu em símbolo de resistência para amplos setores do Sul Global. Por isso, ataques dessa magnitude buscam não apenas destruir alvos físicos, mas também quebrar a capacidade política e psicológica de um país que desafia a ordem imposta.
A lógica é conhecida e tem precedentes trágicos. É a doutrina do choque e pavor, aplicada antes no Iraque, na Líbia e na Síria, sempre sob o argumento de restaurar segurança, sempre deixando para trás sociedades devastadas, instituições enfraquecidas e populações inteiras condenadas ao trauma.
A diferença, agora, é que o alvo não é um Estado periférico sem capacidade de resposta. O Irã é uma potência regional com densidade estratégica, capacidade de articulação diplomática e influência política suficiente para transformar uma ofensiva militar em crise de grandes proporções.
Por isso, as consequências são imprevisíveis e perigosas. Uma escalada desse porte pode incendiar o Oriente Médio, ampliar confrontos indiretos e empurrar atores regionais e globais para um ciclo ainda mais difícil de conter.
Também chama atenção o silêncio cúmplice, ou no mínimo a tibieza calculada, de boa parte da Europa. A subordinação ao comando de Washington converte o continente em avalista passivo de mais uma operação que, diante da destruição civil documentada, levanta acusações gravíssimas no terreno do direito internacional.
Ao mesmo tempo, a engrenagem da propaganda ocidental tende a entrar em ação com velocidade previsível. O método já foi visto em outras guerras recentes e também na cobertura do genocídio em Gaza: desumanizar as vítimas, deslocar o foco para abstrações estratégicas e reduzir o sofrimento real a uma nota de rodapé.
A narrativa dominante provavelmente insistirá em expressões como “instalações do regime” ou “resposta necessária”. Com isso, tenta-se apagar da cena os pais que procuram filhos sob os escombros, os bairros sem luz, os feridos sem atendimento e o luto que se espalha por comunidades inteiras.
Mas a realidade resiste à maquiagem retórica. Mais de 1.500 mortos significam mais de 1.500 histórias interrompidas, famílias destruídas e futuros cancelados por uma decisão militar tomada longe das ruínas e do sangue.
O impacto não é apenas material. O apagão que cobre partes do Irã é também um símbolo brutal do colapso da razão diplomática, do enfraquecimento do direito internacional e da erosão da compaixão mínima que deveria orientar as relações entre Estados.
Diante disso, a comunidade internacional que ainda leva a sério os princípios de soberania e solução pacífica de controvérsias não pode tratar o episódio como rotina geopolítica. O Conselho de Segurança das Nações Unidas, tantas vezes paralisado por vetos e conveniências das potências ocidentais, será novamente testado em sua credibilidade.
Os países do Sul Global e os integrantes do grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul têm responsabilidade política especial nesse momento. Se não houver uma condenação firme e articulada, a mensagem enviada ao mundo será a de que a força militar continua sendo o instrumento legítimo para punir qualquer país que insista em autonomia estratégica.
Nesse cenário, o Brasil tem um papel que não pode ser subestimado. Pela tradição diplomática, pelo peso regional e pela defesa histórica da autodeterminação dos povos, o país pode e deve exigir cessar-fogo imediato, contenção da escalada e retorno à mesa de negociações.
A posição do governo Lula será observada como um teste concreto de coerência internacional. Reafirmar soberania, multilateralismo e solução pacífica não é gesto protocolar, mas resposta necessária diante de uma agressão com efeitos humanitários e geopolíticos de grande alcance.
Há ainda uma dimensão mais ampla que não pode ser ignorada. O ataque ao Irã também funciona como recado a todos os países que defendem um mundo multipolar: qualquer desvio da ordem unipolar pode ser respondido com violência extrema.
Só que essa estratégia pode produzir o efeito inverso ao pretendido. Em vez de isolar Teerã, a ofensiva pode fortalecer redes de solidariedade, ampliar a rejeição ao intervencionismo e acelerar convergências políticas entre países que já enxergam na atual ordem internacional um sistema cada vez mais instável e seletivo.
A história recente recomenda prudência a quem aposta na destruição como método de disciplinamento. O Irã sobreviveu à guerra imposta por Saddam Hussein com apoio ocidental, suportou décadas de sanções severas e preservou capacidade de organização estatal e identidade nacional mesmo sob pressão constante.
Isso não reduz a gravidade da tragédia atual, mas ajuda a entender por que a ideia de quebrar a vontade iraniana pela força pode fracassar outra vez. Povos submetidos a agressões prolongadas nem sempre se rendem; muitas vezes, reorganizam sua resistência em escala ainda maior.
O custo humano, porém, já é irreparável para milhares de famílias. Enquanto governos calculam vantagens estratégicas e corporações da indústria armamentista acumulam lucros, civis pagam com a vida, com a casa destruída e com o trauma que atravessa gerações.
É por isso que normalizar esse nível de violência seria aceitar um precedente devastador. Se o mundo tratar o massacre como mais um capítulo administrável da geopolítica, qualquer país que busque um caminho independente poderá ser empurrado amanhã para a mesma noite de fogo, luto e escuridão.
A solidariedade ao povo iraniano, neste momento, não é abstração moral. Exigir o fim dos bombardeios e o respeito à soberania do Irã é a posição mínima de quem ainda acredita que a paz não pode ser substituída pela lei do mais forte.
A noite sobre as cidades iranianas vai passar, mas o que virá depois dependerá da resposta internacional agora. Se prevalecer o silêncio, abre-se um abismo; se houver pressão real por cessar-fogo e negociação, ainda será possível impedir que a região inteira seja arrastada para uma guerra de consequências incalculáveis.