Quando um ministro pede nova fronteira e as bombas já esvaziam cidades, a anexação deixa de ser ameaça abstrata e vira método.
O ministro das Finanças de Israel, Bezalel Smotrich, defendeu publicamente a anexação do sul do Líbano, enquanto a ofensiva israelense já deslocou mais de 1,2 milhão de pessoas no país.
A fala não surgiu no vazio, mas no centro de uma campanha militar que destrói infraestrutura civil, multiplica mortos e empurra a população para fora de suas casas.
Quando um integrante central do governo israelense diz que a nova fronteira deve chegar ao Rio Litani, ele transforma em programa político aquilo que os bombardeios já desenham no terreno.
Em entrevista a uma rádio israelense na segunda-feira, Smotrich afirmou que os ataques devem criar “uma realidade completamente diferente”. Em seguida, defendeu explicitamente uma “mudança nas fronteiras de Israel”.
Ele foi ainda mais direto ao declarar que “a nova fronteira de Israel deve ser o Litani”. A referência é ao Rio Litani, curso d’água vital do sul do Líbano, situado a cerca de 30 quilômetros da linha fronteiriça atual.
A declaração ganha peso porque coincide com uma campanha de devastação sem precedentes contra o território libanês. O padrão dos ataques sugere uma estratégia de isolamento do sul e de destruição das condições mínimas de permanência da população civil.
A força aérea israelense tem atingido de forma sistemática a infraestrutura civil do Líbano. Pontes estratégicas que ligam o sul a Beirute foram destruídas, enquanto postos de combustível, centros de saúde e residências também aparecem entre os alvos recorrentes.
Segundo a repórter da Al Jazeera Zeina Khodr, o objetivo é “despovoar toda a região sul”. A lógica descrita por ela ecoa o método já observado em Gaza, no qual a pressão militar cria condições insustentáveis para forçar a fuga em massa de civis.
Os números da ofensiva ajudam a medir a dimensão da tragédia. De acordo com o Ministério da Saúde libanês, os ataques israelenses desde o início de março mataram pelo menos 1.039 pessoas, entre elas 118 crianças.
Outras 2.876 pessoas ficaram feridas. O conflito se intensificou após o início da guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã em 28 de fevereiro, e já figura entre os episódios mais letais da história recente do Líbano.
A crise humanitária foi detalhada também pelas Nações Unidas. O porta-voz do secretário-geral António Guterres, Stephane Dujarric, informou que mais de 1,2 milhão de pessoas foram forçadas a deixar suas casas, o equivalente a cerca de um em cada cinco libaneses.
Mais de 130 mil deslocados, incluindo 46 mil crianças, estão abrigados em mais de 600 locais coletivos. A maioria desses espaços já opera no limite, sem capacidade real para receber novas ondas de famílias expulsas pelos bombardeios.
O Exército israelense emitiu ordens de deslocamento forçado para todo o sul do Líbano. Os subúrbios ao sul de Beirute também entraram na lista de áreas ameaçadas, ampliando o pânico e a corrida por rotas de fuga.
A preocupação internacional não se limita ao impacto humanitário imediato. A Organização das Nações Unidas já afirmou que ataques a edifícios residenciais e à infraestrutura civil podem configurar graves violações do direito internacional.
Os ataques contra trabalhadores e unidades de saúde se tornaram um dos pontos mais alarmantes da escalada. A Organização Mundial da Saúde registrou pelo menos 64 ataques a instalações de saúde no Líbano, com 51 mortos e 91 feridos entre profissionais e pacientes.
Na semana passada, a Anistia Internacional fez um apelo urgente para que Israel interrompesse imediatamente os ataques contra trabalhadores da saúde libaneses. A organização lembrou que esses profissionais são “especificamente protegidos pela lei internacional”.
As palavras de Smotrich também jogam luz sobre uma ambição antiga. O interesse israelense pelas águas do Litani remonta a planos sionistas históricos e reaparece agora em meio a uma guerra que combina destruição territorial, deslocamento populacional e discurso expansionista aberto.
Controlar o sul do Líbano significaria controlar um dos recursos hídricos mais importantes do Levante. Num cenário de escassez crônica de água em Israel, a defesa da anexação ganha uma dimensão material que vai além da retórica ideológica.
Há ainda um cálculo militar evidente na forma como os ataques vêm sendo conduzidos. Ao destruir pontes e eixos logísticos, Israel busca dificultar o reabastecimento e a movimentação do Hezbollah, que continua em combate terrestre contra as tropas israelenses em avanço.
Autoridades libanesas interpretam essa destruição como preparação para uma operação terrestre mais ampla e prolongada. O ex-presidente Michel Aoun já alertou para essa possibilidade, sugerindo que os ataques à infraestrutura funcionam como prelúdio de uma ocupação mais profunda.
A guerra em curso altera o equilíbrio regional de maneira perigosa. O confronto aberto entre Israel e o Hezbollah, no nível mais intenso desde 2006, praticamente elimina a linha vermelha que ainda sustentava alguma contenção entre as partes.
Dentro do governo israelense, Smotrich representa a ala mais radical da coalizão. Suas declarações funcionam como teste político e diplomático para medir até onde a reação internacional tolerará um expansionismo territorial declarado sem impor custo real.
Até aqui, a resposta das potências ocidentais tem sido marcada por passividade e fórmulas vagas. Enquanto o deslocamento em massa avança e a infraestrutura civil é pulverizada, Washington e capitais europeias se limitam a apelos genéricos por “moderação”.
Esse padrão de silêncio é lido em Tel Aviv como permissão tácita. A impunidade acumulada diante de violações anteriores ajuda a abrir espaço para passos mais ousados, inclusive a defesa pública da anexação de território soberano libanês.
Para o Líbano, o impacto é devastador em várias frentes ao mesmo tempo. Um país já fragilizado por crise econômica e impasse político agora enfrenta bombardeios, deslocamento interno em massa e ameaças explícitas à sua integridade territorial.
A crise pode empurrar a frágil estabilidade libanesa para um ponto de ruptura. Quando cidades esvaziam, pontes caem, hospitais são atingidos e ministros estrangeiros falam em redesenhar fronteiras, a soberania deixa de ser conceito jurídico abstrato e passa a ser questão de sobrevivência nacional.
O Sul Global tem razões concretas para acompanhar essa escalada com atenção máxima. O que aparece no sul do Líbano não é apenas mais um episódio de guerra de fronteira, mas a expansão de uma lógica colonial que combina força militar, deslocamento populacional e pretensão territorial.
Defender o direito internacional, nesse contexto, significa enfrentar essa lógica antes que ela se normalize. As palavras de Smotrich não soam como delírio isolado, mas como formulação explícita de uma prática já em andamento, na qual a conquista territorial avança junto com a expulsão de civis e a destruição deliberada das condições de vida.