Nova análise jurídica sustenta que a morte de Hind Rajab e dos paramédicos foi uma operação deliberada, não um erro de guerra.
Uma nova investigação jurídica concluiu que o Exército de Israel executou um ataque deliberado para matar os socorristas enviados para resgatar Hind Rajab, a menina palestina de cinco anos que passou horas pedindo ajuda dentro de um carro cercado de mortos.
O relatório afirma que o caso reúne elementos consistentes com a tática conhecida como duplo toque, em que um primeiro ataque é seguido por outro, calculado para atingir civis e equipes médicas que chegam para socorrer as vítimas.
Compartilhado em primeira mão com a Al Jazeera, o documento foi elaborado pelo grupo de campanha legal Avaaz e reconstrói em detalhe o que ocorreu em 29 de janeiro de 2024, em Gaza City.
Hind Rajab se tornou conhecida mundialmente depois da divulgação do áudio em que sua voz, já enfraquecida, pedia socorro. Ela estava presa no carro da família, cercada pelos corpos de seis parentes, mortos por disparos israelenses, segundo as investigações citadas no relatório.
Depois de obter autorização formal do braço de coordenação do Exército israelense, uma ambulância do Crescente Vermelho Palestino foi enviada ao local com sirenes ligadas. O veículo, claramente identificado, foi atingido por um disparo de tanque, matando os dois paramédicos a bordo, e os nove corpos só seriam recuperados doze dias depois.
A análise do Avaaz sustenta que as mortes violam de forma clara o direito internacional humanitário, incluindo as Convenções de Genebra e o Estatuto de Roma. Segundo o grupo, mais de 40 violações de direitos humanos podem ser documentadas no episódio, formando um conjunto probatório compatível com um ataque premeditado.
“O documento reúne a linha do tempo dos eventos antes e depois da morte de Hind, mostrando o que as forças israelenses devem ter sabido em cada etapa, e as frequentes oportunidades que tiveram para recuar do assassinato”, afirma o relatório. A formulação é central porque desloca o caso da esfera do erro operacional para a da decisão consciente.
A investigação também amplia o foco para além do caso individual. Em um de seus trechos mais duros, o texto alerta para a possibilidade de que Israel não esteja apenas matando palestinos em Gaza, mas também atingindo de forma sistemática aqueles que tentam salvá-los.
Esse ponto ganha peso diante do número de profissionais de saúde mortos desde o início da guerra em Gaza. O rascunho cita mais de 1.500 mortos, incluindo dezenas assassinados mesmo após o início da chamada trégua em outubro.
O novo relatório se apoia ainda em investigações anteriores conduzidas pela Al Jazeera em parceria com a Fundação Hind Rajab. Juntas, essas apurações formam um corpo de evidências que, segundo os autores, pode sustentar uma acusação de crimes de guerra perante o Tribunal Penal Internacional, para onde o caso deve ser encaminhado.
Um dos elementos mais importantes da nova análise é o intervalo entre os dois momentos do ataque. Cerca de três horas se passaram entre o ataque inicial ao carro da família e o disparo que destruiu a ambulância enviada para o resgate.
Para os investigadores, esse intervalo é decisivo porque demonstra tempo suficiente para consciência situacional, comunicação interna e tomada de decisão. Em outras palavras, não se trata de um disparo instantâneo em meio ao caos, mas de uma ação ocorrida depois de uma longa janela de avaliação.
O Exército israelense sabia quando os socorristas chegariam e qual rota fariam, porque a missão havia sido autorizada por sua própria estrutura de coordenação. Isso reforça a leitura de que o ataque à ambulância não foi um acidente, nem resultado de fogo cruzado, mas uma emboscada contra uma equipe médica identificada.
Sarah Andrew, diretora jurídica do Avaaz, disse à Al Jazeera que as evidências são convincentes. Ela destacou o tipo de armamento usado contra a ambulância, o tempo transcorrido e a ausência total de aviso prévio como fatores que a levaram à convicção de que se trata de mais um caso de duplo toque.
Andrew também relacionou o caso à dimensão humana da tragédia. Mãe, ela afirmou que a morte de Hind a fez pensar na própria filha e cobrou que os responsáveis sejam levados ao Tribunal Penal Internacional para responder pelas ordens que resultaram no disparo de tiros de tanque de 120 milímetros contra uma ambulância.
A versão oficial israelense, segundo o texto, já foi abalada por evidências forenses reunidas por outras investigações. Inicialmente, o governo negou a presença de tropas no local e depois alegou que os 335 furos de bala no carro da família teriam sido causados por um confronto com militantes palestinos.
Essa narrativa foi contestada por uma investigação independente do grupo Forensic Architecture, da Universidade de Londres. Com base em imagens de satélite e áudios do dia, o grupo identificou apenas a presença de vários tanques Merkava israelenses nas proximidades do carro e não encontrou indícios de troca de tiros.
O professor James Sweeney, especialista em direitos humanos e conflitos da Universidade de Lancaster, explicou à Al Jazeera que a lógica do duplo toque costuma envolver um segundo ataque poucos minutos após o primeiro. Em geral, disse ele, a intenção é transformar o socorro em armadilha.
No caso de Hind Rajab, o intervalo foi maior do que o padrão mais conhecido dessa prática. Ainda assim, Sweeney observou que isso não reduz a gravidade jurídica do episódio, porque o ponto central continua sendo a violação evidente do direito internacional humanitário.
Esse direito é explícito quanto à proteção de veículos médicos. Mesmo quando uma força militar suspeita de uso indevido de uma ambulância, ela é obrigada a emitir avisos e oferecer oportunidade para identificação antes que qualquer ataque possa ser considerado legal.
Segundo o material reunido no caso, nenhum aviso foi dado aos paramédicos. Esse detalhe é crucial porque desmonta uma das poucas linhas de defesa possíveis em situações desse tipo e reforça a acusação de que a ambulância foi tratada como alvo, não como unidade protegida.
O relatório do Avaaz procura justamente converter descobertas jornalísticas e forenses em um arcabouço jurídico utilizável em tribunal. Seu objetivo declarado é pressionar pela abertura de um caso formal no Tribunal Penal Internacional.
A morte de Hind Rajab e dos paramédicos Youssef Zeino e Ahmed Al-Madhoun aparece, assim, não como episódio isolado, mas como um caso exemplar. Ele concentra, em uma única sequência documentada, a morte de civis, o ataque a socorristas, a destruição de uma ambulância autorizada e a posterior disputa de narrativas.
Por isso, o caso ultrapassa a dimensão da tragédia individual e se transforma em teste para a justiça internacional. Se uma investigação com linha do tempo, evidências forenses, autorização prévia da missão e identificação clara do veículo médico não for suficiente para produzir responsabilização, o recado será devastador para todo o sistema de proteção humanitária.
A voz de Hind, registrada em áudio enquanto esperava socorro, já atravessou o mundo. Agora, segundo os autores da investigação, ela precisa atravessar também os corredores de Haia, como prova de que a morte de uma criança e de seus salvadores não pode ser dissolvida na rotina burocrática da guerra.