A recondução de Kim Jong Un confirma continuidade interna e expõe o fracasso da estratégia de cerco que empurrou a península para uma escalada permanente.
Kim Jong Un foi reconduzido à presidência da Comissão de Assuntos de Estado da Coreia do Norte, o principal órgão de direção política do país.
A informação foi divulgada pela agência estatal KCNA e repercutida pela Al Jazeera.
É a terceira vez consecutiva que Kim assume o posto desde a criação da comissão, em 2016, durante sessão da Assembleia Popular Suprema, o parlamento norte-coreano.
A recondução era esperada e segue o curso institucional do sistema político norte-coreano. O que dá peso ao episódio não é a surpresa, mas o momento em que ele ocorre.
A península coreana volta ao centro de uma conjuntura internacional marcada pela guerra na Ucrânia, pelo genocídio em Gaza e pela alta das tensões no Leste Asiático. Nesse cenário, a Coreia do Norte aparece não como peça periférica, mas como ator estratégico com capacidade nuclear declarada e um programa de mísseis de longo alcance em desenvolvimento avançado.
A reafirmação de Kim coincide com uma aproximação histórica entre Pyongyang e Moscou. Depois da visita do líder norte-coreano à Rússia em 2023, os vínculos militares e econômicos entre os dois países se aprofundaram de forma significativa.
Analistas ocidentais acusam a Coreia do Norte de fornecer munições e armamentos para o esforço de guerra russo na Ucrânia. Em contrapartida, acredita-se que a Rússia esteja transferindo tecnologia sensível e oferecendo apoio ao programa espacial e de satélites norte-coreano.
Esse alinhamento funciona, na prática, como um eixo de resistência à pressão liderada pelos Estados Unidos. Rússia e Coreia do Norte convivem há anos com pesados regimes de sanções e encontraram, uma na outra, espaço para ampliar margem de manobra.
A reeleição de Kim sinaliza continuidade nessa linha estratégica. Pyongyang indica que não pretende recuar nem em sua política de defesa nem em sua busca por capacidade de dissuasão diante da pressão externa.
Do outro lado, Estados Unidos, Japão e Coreia do Sul intensificaram a cooperação trilateral em segurança. Exercícios militares conjuntos se tornaram mais frequentes e mais amplos, alimentando a retórica de ameaça por parte do governo norte-coreano.
Para Pyongyang, essas manobras equivalem a ensaios de invasão ou a preparativos para um ataque preventivo. A resposta tem sido acelerar testes de mísseis balísticos e consolidar, em sua doutrina constitucional, a condição de potência nuclear irreversível.
Esse ciclo de ação e reação ajuda a explicar por que a crise na península permanece aberta há décadas. A política de sanções, isolamento e cerco militar não produziu desnuclearização nem mudança de regime.
Ao contrário, fortaleceu a lógica de sobrevivência estratégica do Estado norte-coreano. Quanto maior a pressão, maior o incentivo para ampliar capacidades militares e buscar alianças alternativas.
É nesse ponto que a recondução de Kim ganha dimensão geopolítica mais ampla. Ela não representa apenas estabilidade interna, mas a persistência de uma linha de enfrentamento que se consolidou como resposta ao ambiente externo.
Para o debate sobre multipolaridade, a Coreia do Norte virou um caso extremo e revelador. O país expõe os limites de uma ordem internacional que tenta disciplinar Estados dissidentes sobretudo por meio de punição econômica e demonstração de força.
Esse método falhou em seus objetivos declarados. Em vez de integrar Pyongyang a um arranjo mais previsível, ajudou a produzir uma potência nuclear ainda mais fechada, mais armada e mais conectada a polos rivais do Ocidente.
O impacto regional é direto. A segurança no Leste Asiático segue submetida a uma escalada permanente de capacidades militares, com riscos que ultrapassam a península e atingem cadeias produtivas, rotas comerciais e o equilíbrio estratégico global.
A recondução de Kim também ocorre em meio ao calendário eleitoral dos Estados Unidos. Dependendo do resultado da disputa presidencial, a política da Casa Branca para a Coreia do Norte pode oscilar entre tentativas de negociação, endurecimento retórico ou novas formas de pressão.
Essa incerteza adiciona mais instabilidade a um quadro já carregado. Quando a estratégia da principal potência militar do planeta muda ao sabor da disputa doméstica, o espaço para cálculo errado cresce.
Para países do Sul Global, inclusive o Brasil, a península coreana oferece uma lição dura sobre os custos da hegemonia sem diplomacia. O caso mostra como políticas baseadas apenas em coerção podem prolongar conflitos, endurecer posições e reduzir as chances de saída negociada.
A tradição diplomática brasileira aponta em outra direção. Historicamente, o Brasil defende diálogo, solução pacífica de controvérsias e construção de segurança coletiva por meio de negociação, não de ultimatos.
Isso não significa ignorar os riscos envolvidos no programa militar norte-coreano. Significa reconhecer que demonização permanente, por si só, nunca foi política externa eficaz.
A Coreia do Norte não surgiu como problema isolado do resto do sistema internacional. Sua trajetória está profundamente ligada à guerra, à divisão da península, à presença militar estrangeira na região e a décadas de hostilidade acumulada.
Por isso, tratar Pyongyang apenas como anomalia irracional empobrece a análise. O país é também produto de uma ordem internacional que, ao tentar enquadrá-lo pela força, reforçou exatamente o comportamento que dizia querer conter.
A recondução de Kim Jong Un funciona, assim, como retrato das tensões do nosso tempo. Ela combina continuidade interna, endurecimento externo e a consolidação de um mundo em que alianças se reorganizam fora do eixo tradicional de poder.
O desafio para a comunidade internacional é escapar da lógica da guerra permanente. Sem uma arquitetura de segurança mais inclusiva, capaz de considerar os temores e interesses de todas as partes, a península continuará operando como um dos pontos mais perigosos do planeta.
Enquanto isso, Kim permanece firmemente no comando. E a Coreia do Norte seguirá exigindo do mundo não fantasias convenientes, mas uma resposta política à altura da realidade que ajudaram a criar.