Lula recua sob pressão e recalibra articulação vital com Congresso

Ao recuar na escolha de Olavo Noleto, Lula admite o tamanho da crise de articulação e transforma a sucessão na pasta em teste imediato de força do governo.

Lula desistiu de nomear Olavo Noleto para o Ministério das Relações Institucionais após a reação negativa de líderes do Congresso, segundo apuração da Folha.

O recuo expõe a centralidade da articulação política para a sobrevivência do governo em um ano eleitoral e sob pressão crescente da base.

Agora, o presidente procura um nome com trânsito parlamentar real para ocupar uma pasta decisiva, hoje comandada por Gleisi Hoffmann, que deve deixá-la em breve.

A resistência a Noleto nasceu de um diagnóstico simples no Congresso. Faltaria a ele lastro político para cobrar lealdade, fechar acordos e fazer valer compromissos assumidos pelo Palácio do Planalto.

Secretário-executivo do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, Noleto construiu sua trajetória no alto funcionalismo e em cargos de confiança. Nunca exerceu mandato como deputado ou senador, o que pesou contra sua indicação num ambiente em que voto, emenda e influência contam tanto quanto a caneta formal do cargo.

No presidencialismo de coalizão brasileiro, a função vai muito além de negociar projetos. O ministro das Relações Institucionais precisa operar como fiador político, garantindo que o governo entregue o que promete ao Congresso e que o Congresso sustente o que negocia com o governo.

Esse ponto foi central na rejeição ao nome de Noleto. Parlamentares temiam que ele não tivesse autoridade suficiente para fazer o presidente honrar acordos fechados em votações sensíveis e, ao mesmo tempo, para enquadrar uma base heterogênea, pragmática e frequentemente instável.

Lula passou, assim, a buscar um perfil mais robusto, com experiência parlamentar e capacidade de circular entre Câmara e Senado. A troca de rota não é apenas administrativa, mas política, porque sinaliza que o Planalto decidiu evitar um desgaste precoce numa área em que erro de escolha custa caro.

Dois nomes apareceram como alternativas, embora ambos tragam dificuldades evidentes. O primeiro é o senador Otto Alencar, do PSD da Bahia, atual presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado.

Otto reúne experiência, trânsito e densidade política, atributos valorizados num posto que exige negociação permanente. O problema é que sua força está mais concentrada no Senado, enquanto os maiores focos de atrito do governo Lula se encontram hoje na Câmara dos Deputados, sob a liderança de Arthur Lira.

Questionado pela Folha, o senador negou qualquer negociação para assumir o ministério. Em recuperação de uma cirurgia cardíaca, ainda ironizou o peso da função ao dizer que se trata de um lugar que mata a pessoa do coração.

O segundo nome cotado é o do ministro Wellington Dias, do Desenvolvimento Social. Ele comanda uma das áreas mais sensíveis do governo, responsável por políticas centrais como o Bolsa Família, o que por si só já torna qualquer mudança mais delicada.

Wellington tem experiência acumulada no Senado e no governo do Piauí, além de perfil reconhecidamente conciliador. Ainda assim, há no entorno político a avaliação de que seu estilo pode ser brando demais para uma pasta que, em momentos decisivos, exige confronto, pressão e capacidade de impor disciplina à base.

O ministro não respondeu aos pedidos de contato da Folha. Sua eventual saída do Desenvolvimento Social abriria outro problema para Lula, que teria de reorganizar uma área estratégica ao mesmo tempo em que tenta estabilizar a relação com o Congresso.

A dificuldade de encontrar um substituto mostra que a crise não se resume a nomes. O que está em jogo é a capacidade do governo de administrar interesses conflitantes num momento em que deputados e senadores cobram entregas rápidas, especialmente em ano de disputa municipal.

Entre essas entregas, a liberação de emendas parlamentares ocupa lugar central. Há um acordo entre Executivo e Legislativo para acelerar o pagamento desses recursos até junho, e esse calendário ganhou peso extra porque as emendas são instrumento decisivo de poder local e de fortalecimento eleitoral.

Na prática, deputados e senadores dependem desses recursos para irrigar suas bases e sustentar alianças nos municípios. Por isso, qualquer atraso no pagamento pode corroer apoio político, travar votações e ampliar a margem de chantagem do Congresso sobre o Planalto.

O Ministério das Relações Institucionais coordena esse processo e precisa atuar em sintonia com outras áreas do governo para destravar a máquina. Um ministro sem capilaridade, sem ascendência sobre os demais ministérios e sem autoridade política teria dificuldade para fazer a engrenagem funcionar no ritmo exigido pelos parlamentares.

Esse é um dos motivos pelos quais a escolha se tornou tão sensível. O governo ainda precisa conduzir uma agenda pesada no Congresso antes do fim do mandato, e cada votação relevante dependerá de uma base minimamente coesa e de compromissos cumpridos no varejo e no atacado.

Entre os temas prioritários está a proposta de emenda à Constituição que reformula o sistema de segurança pública. Também pesa a disputa em torno do veto presidencial à redução de penas dos envolvidos nos ataques golpistas de 8 de janeiro, um tema de alta voltagem política.

Esse debate é especialmente explosivo porque a proposta beneficiaria diretamente Jair Bolsonaro. Para manter o veto, Lula precisará de articulação fina, presença constante e capacidade de evitar deserções numa base que nem sempre responde com disciplina quando o custo político aumenta.

Há ainda um componente adicional de desgaste em torno de Noleto. Ele é próximo do atual ministro da Saúde, Alexandre Padilha, que já ocupou a chefia das Relações Institucionais e deixou no cargo um histórico de atritos com o centrão, em especial com Arthur Lira.

A eventual nomeação de um aliado de Padilha era vista por parte do Congresso como um sinal ruim. Para o governo, reacender tensões com Lira neste momento seria um erro estratégico, já que a governabilidade depende, em larga medida, de uma relação funcional com o comando da Câmara.

Por isso, o recuo de Lula pode ser lido como gesto de realismo político, não apenas de fraqueza. O presidente ouviu os alertas da própria base e decidiu evitar uma escolha que poderia nascer derrotada, enfraquecendo ainda mais uma área já pressionada.

Isso não elimina, porém, o custo do movimento. Quando um presidente recua antes da nomeação, o Congresso percebe o tamanho de sua influência e testa até onde pode empurrar suas exigências.

A sucessão na pasta virou, assim, um termômetro do poder real de Lula neste momento do mandato. Se conseguir indicar alguém de sua confiança com aceitação suficiente entre os partidos do centro, o governo preserva margem de comando; se for obrigado a apenas homologar o nome desejado pelo Congresso, a leitura será de perda de iniciativa.

O problema é urgente porque Gleisi Hoffmann deve deixar o cargo em breve para se dedicar à campanha ao Senado pelo Paraná. Sem um titular forte e legitimado, a máquina de articulação perde velocidade, acordos ficam mais frágeis e a oposição ganha espaço para explorar fissuras.

O episódio também revela a dureza estrutural do sistema político brasileiro. Mesmo um presidente experiente como Lula, com longa trajetória de negociação, continua submetido aos vetos, humores e cálculos das forças que sustentam sua maioria parlamentar.

Quem assumir o ministério herdará um posto desgastante e de alto risco. Terá de administrar a ansiedade eleitoral dos parlamentares, garantir a tramitação de projetos do governo e manter unida uma base que só permanece coesa quando percebe comando, entrega e perspectiva de ganho político.

A escolha do novo articulador, portanto, não será um detalhe de bastidor. Ela ajudará a definir o tom da relação entre Executivo e Legislativo no segundo semestre e pode influenciar diretamente a capacidade do governo de aprovar sua agenda e chegar a 2026 com alguma margem de iniciativa.

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