Sob o barulho dos mísseis, a Cisjordânia vira laboratório aberto de anexação, expulsão e impunidade.
A guerra entre Israel e o Irã abriu uma cortina de fumaça que está sendo usada para acelerar a violência colonial na Cisjordânia ocupada.
Enquanto a atenção internacional se fixa no confronto regional, colonos israelenses ampliam ataques a casas, plantações, estradas e comunidades palestinas com respaldo político e, em muitos casos, sob a vista das forças de segurança.
O que emerge no terreno não é um episódio isolado de desordem, mas o avanço coordenado de um projeto de anexação de fato e expulsão gradual da população palestina.
A semana que deveria ser marcada pelo Eid al-Fitr se transformou em mais um marco de humilhação e repressão. Segundo relatos, pela primeira vez desde 1967, o complexo da Mesquita de Al-Aqsa foi esvaziado de fiéis muçulmanos durante o feriado sob a justificativa do conflito com o Irã.
A polícia israelense usou granadas de som e força física contra palestinos que tentavam orar do lado de fora dos portões da Cidade Velha de Jerusalém. O gesto teve peso prático e simbólico, porque atingiu um dos centros mais sensíveis da identidade nacional palestina.
Mas a ofensiva mais sistemática ocorreu longe dos holofotes internacionais e das imagens de guerra aérea. Na madrugada de domingo, cerca de 100 colonos mascarados e vestidos de preto invadiram as aldeias de Jalud e Qaryut, ao sul de Nablus, em uma ação descrita como metódica e devastadora.
Eles incendiaram pelo menos cinco veículos, mais de dez casas e o prédio do conselho da aldeia de Jalud. Também atacaram um caminhão de bombeiros, feriram o motorista e tentaram incendiar uma mesquita, tudo isso com exército e polícia israelenses nas redondezas.
A onda de ataques se espalhou rapidamente por outras localidades da Cisjordânia. Em Deir Sharaf, colonos queimaram veículos, em Deir al-Hatab incendiaram casas e feriram moradores, e em Burqa tentaram queimar uma clínica médica, sendo contidos apenas pela intervenção direta dos próprios palestinos.
A justificativa apresentada para a escalada foi a morte de Yehuda Sherman, colono de 18 anos de Beit Imrin. A versão oficial fala em atropelamento, mas membros da comunidade palestina local afirmam que ele roubou a caminhonete de um agricultor e capotou em um barranco.
Se a causa da morte é disputada, a orientação política de Sherman não parece ser. Um colono presente em seu funeral disse ao The Times of Israel que o jovem levava diariamente seu rebanho para pastar “para remover o inimigo de todo o território, para que os judeus voltassem a este lugar”.
A frase ajuda a iluminar a lógica que move parte do movimento de colonos: ocupar, pressionar, expulsar e substituir. Não se trata apenas de presença territorial, mas de uma campanha aberta para eliminar a permanência palestina em áreas estratégicas da Cisjordânia.
O apoio do governo israelense a esse projeto aparece de forma explícita. O ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, participou do funeral de Sherman, embora o assentamento onde o colono vivia seja ilegal até mesmo sob a lei israelense.
Smotrich aproveitou a ocasião para reafirmar objetivos políticos mais amplos. Segundo o rascunho, ele declarou que o governo trabalha para derrubar a Autoridade Palestina e encerrar a autonomia limitada ainda existente em partes da Cisjordânia.
A mensagem política é direta e difícil de disfarçar. O Estado não apenas tolera a violência dos colonos, como compartilha seus objetivos estratégicos e oferece cobertura institucional para que eles avancem.
Esse padrão também aparece na atuação das forças de segurança. Em vez de conter os ataques, o aparato militar e policial frequentemente surge para prender palestinos, mesmo quando eles são as vítimas imediatas da invasão.
Foi o que ocorreu em Jiljiliya. Colonos invadiram a casa de Yousef Muzahim e depois chamaram o exército, que acabou prendendo o próprio morador e seus dois filhos, de 12 e 14 anos.
Em al-Fandaqumiya e Silat al-Dhaher, ao sul de Jenin, colonos incendiaram casas e veículos e circularam livremente entre as aldeias. Relatos locais afirmam que as forças israelenses presentes não intervieram para impedir os ataques.
Ao mesmo tempo, a expropriação de terras segue em ritmo acelerado. Tratores israelenses foram filmados arrancando oliveiras em Nilin, ao longo do muro de separação, e em Huwara mais de 100 dunams, equivalentes a 0,1 quilômetro quadrado, com mais de 1.500 oliveiras foram arrasados.
Em Masafer Yatta, no sul da Cisjordânia, colonos destruíram mais de 130 oliveiras em Khirbet Mughayir al-Abeed ao soltar gado em terras cultivadas. A tática é conhecida e brutal: destruir a base agrícola e econômica das famílias para tornar a permanência palestina cada vez mais inviável.
A violência física caminha lado a lado com a máquina burocrática da ocupação. Em 16 de março, autoridades israelenses emitiram ordens militares para confiscar 268 dunams, ou 0,268 quilômetro quadrado, de famílias em Tubas e Tammun, no nordeste da Cisjordânia.
A justificativa oficial foi “para fins militares”. Dois dias depois, soldados chegaram a Tammun com uma escavadeira para iniciar a abertura de uma nova estrada.
O contexto torna a medida ainda mais grave. As ordens foram emitidas poucos dias após as forças israelenses matarem quatro membros de uma família palestina, incluindo duas crianças, que viajavam de carro na mesma região.
As demolições de casas também continuam a redesenhar o mapa humano da Cisjordânia. Em Fasayel al-Wusta, no Vale do Jordão, as forças israelenses destruíram a última casa remanescente da comunidade, depois de outras famílias já terem sido deslocadas à força meses antes pela violência dos colonos.
O caso chama atenção porque o Alto Tribunal de Israel supostamente havia aprovado um acordo permitindo que a família permanecesse no local. A decisão foi simplesmente ignorada, reforçando a percepção de que o centro real de poder está no projeto colonial, não nos limites formais da lei.
O cerco deixou de ser apenas jurídico ou administrativo e se tornou também físico e cotidiano. Desde 17 de março, colonos se reúnem todas as noites em mais de dez cruzamentos de estradas para atacar veículos palestinos.
A Rota 60, de Sinjil a Homesh, foi totalmente fechada para o funeral de Sherman. Todos os acessos palestinos foram bloqueados, com circulação permitida apenas para ambulâncias mediante coordenação prévia.
Além disso, colonos fecharam as entradas de várias outras comunidades palestinas. As restrições de movimento, já duras desde o início da guerra com o Irã, foram aprofundadas de forma a fragmentar ainda mais o território palestino.
O resultado é um apartheid territorial em tempo real. Colonos circulam com liberdade e proteção, enquanto palestinos veem suas estradas bloqueadas, suas árvores arrancadas, suas casas queimadas e seu espaço vital encolher dia após dia.
É essa a realidade que fica escondida por trás das manchetes sobre a guerra regional. Enquanto Israel se apresenta como vítima no confronto com o Irã, age como força de esmagamento na Cisjordânia e aproveita a distração geopolítica para consolidar fatos consumados.
O objetivo descrito no rascunho é claro: tornar a vida palestina insustentável para empurrar comunidades inteiras para fora de suas terras. Cada oliveira destruída, cada casa demolida e cada estrada fechada funciona como instrumento de pressão permanente.
A comunidade internacional, concentrada em evitar uma guerra regional mais ampla, parece disposta a relegar a segundo plano o que ocorre no terreno. O efeito político dessa omissão é devastador, porque transmite a mensagem de que a estabilidade estratégica pesa mais do que a vida palestina.
Enquanto isso, o governo de extrema direita de Benjamin Netanyahu avança sem freios visíveis. A combinação entre violência paramilitar dos colonos e ação burocrática do Estado está produzindo uma anexação de fato e estreitando ainda mais a já reduzida perspectiva de uma solução de dois Estados.
O que acontece na Cisjordânia, portanto, não pode ser tratado como um choque entre forças equivalentes. Trata-se, segundo a descrição reunida na reportagem, da intensificação de um projeto colonial que usa a guerra como cobertura para acelerar seus objetivos finais.
A reportagem é baseada em cobertura da Al Jazeera sobre a onda de violência durante a semana do Eid al-Fitr. As informações, segundo o rascunho, foram cruzadas com relatos de redes locais palestinas e com publicações israelenses.