O ataque que derrubou um prédio perto de Tel Aviv expõe a falência da impunidade militar israelense e empurra a região para um limiar ainda mais perigoso.
Um míssil iraniano atingiu Bnei Brak, na área metropolitana de Tel Aviv, derrubou um edifício e deixou feridos.
As autoridades israelenses confirmaram nesta terça-feira, 24, que o ataque integra uma nova onda de foguetes e mísseis lançados pelo Irã contra diferentes pontos do território israelense.
O episódio marca uma escalada de grande peso estratégico, com danos materiais extensos, feridos em múltiplas localidades e um recado direto ao centro político e econômico de Israel.
A ação foi registrada em vídeo e divulgada pelo próprio Irã, com imagens dos lançamentos que passaram a circular nas redes sociais e em agências internacionais. O impacto visual da ofensiva reforçou a dimensão política e militar do ataque.
Segundo a Al Jazeera, a operação foi apresentada como uma retaliação explícita. Teerã já havia advertido que ampliaria seus golpes se não cessassem as mortes de civis em Gaza e no Líbano.
O aviso foi ignorado, e a resposta veio de forma aberta e massiva. Com isso, o conflito entra em uma fase mais perigosa, mais direta e muito menos previsível.
Não se trata de um episódio isolado, mas da execução de uma ameaça repetida diante da continuidade das ações militares israelenses. A guerra em Gaza, que já dura meses, transbordou de vez para um confronto regional mais amplo.
O dado mais importante é político antes de ser militar. O ataque direto do Irã rompe um tabu de anos e altera os cálculos de dissuasão em todo o Oriente Médio.
Durante muito tempo, Israel operou sob a lógica de que poderia atingir alvos em países vizinhos, inclusive em territórios ligados ao Irã e a seus aliados, sem pagar preço equivalente em seu próprio território. O que ocorreu agora sugere que essa equação mudou.
A mensagem enviada por Teerã é clara. Ataques a territórios soberanos, assassinatos seletivos e bombardeios com vítimas civis passam a carregar o risco de resposta direta.
Essa mudança pesa ainda mais porque atinge a narrativa de invulnerabilidade cultivada por Israel durante décadas. Quando um prédio desaba nas proximidades de Tel Aviv após um míssil iraniano, o símbolo político do ataque se torna tão relevante quanto o dano material.
A chamada guerra entre guerras, fórmula usada por Israel para descrever operações contínuas contra adversários regionais sem entrar em guerra total, encontrou agora uma resposta frontal. O custo da impunidade subiu, e subiu no coração do país.
O contexto imediato dessa escalada é a devastação em Gaza. Segundo o próprio rascunho, mais de 32 mil palestinos, em sua maioria mulheres e crianças, já foram mortos por Israel.
Ao mesmo tempo, ataques israelenses no Líbano, com mortes de civis e de integrantes do Hezbollah, ampliaram a pressão sobre toda a região. O aviso iraniano, nesse cenário, funcionava como um ultimato para conter a expansão do conflito.
Do ponto de vista estratégico, Teerã precisava demonstrar capacidade de resposta para preservar sua credibilidade e sua capacidade de dissuasão. A inação poderia ser lida por adversários e aliados como sinal de fraqueza.
Esse cálculo ajuda a explicar por que o Irã decidiu agir de forma tão visível. Ao divulgar vídeos dos lançamentos, o país não apenas executa uma operação militar, mas também constrói uma mensagem pública de alcance regional e global.
Israel, por sua vez, vê sua defesa aérea submetida a um teste político e operacional. Sistemas como o Iron Dome foram concebidos para enfrentar certos tipos de ameaça, e uma barragem coordenada de mísseis de maior alcance e precisão expõe limites e vulnerabilidades.
O ataque que conseguiu derrubar um prédio na área metropolitana de Tel Aviv é, nesse sentido, uma prova concreta de que o território israelense não está fora de alcance. O centro econômico e político do país entrou definitivamente no mapa da retaliação.
As implicações geopolíticas são profundas e imediatas. O equilíbrio dissuasório regional já não pode ser descrito nos mesmos termos de antes.
A capacidade de projeção de força do Irã deixa de ser hipótese e passa a ser fato demonstrado em campo. Planejadores militares israelenses, europeus e norte-americanos terão de recalcular riscos, custos e limites.
A reação dos Estados Unidos e da Europa será decisiva para o que vem a seguir. Washington já demonstrou apoio militar e diplomático a Israel, inclusive com participação em defesas antimísseis, e agora enfrenta um dilema que ajudou a produzir.
Uma intervenção direta dos Estados Unidos contra o Irã elevaria o risco de guerra aberta em escala continental. Ao mesmo tempo, recuar sem conter Israel significaria admitir que a estratégia de blindagem política e militar falhou em impedir a explosão regional.
O problema não nasceu do nada. Ao proteger Israel no Conselho de Segurança das Nações Unidas e ao sustentar sua máquina de guerra com apoio material e político, os Estados Unidos contribuíram para um ambiente de ausência de freios.
Esse ambiente alimentou a convicção de que Tel Aviv poderia continuar ampliando operações sem enfrentar consequências proporcionais. O ataque iraniano mostra que essa era pode estar chegando ao fim.
Para o Sul Global, a lição é dura, mas evidente. Uma ordem internacional em que uma potência e seu principal aliado regional atuam com ampla margem de impunidade produz instabilidade e violência em cascata.
Nesse quadro, a multipolaridade aparece menos como slogan e mais como necessidade prática de contenção. A existência de centros de poder capazes de impor custos a aventuras militares passa a ser vista, por muitos países, como elemento de equilíbrio.
Para o Brasil, o episódio exige atenção máxima e coerência diplomática. A defesa da paz, do direito internacional, do cessar-fogo em Gaza e do reconhecimento do Estado palestino ganha urgência renovada diante da possibilidade de uma guerra regional aberta.
A saída continua sendo política, não militar. Sem pressão diplomática real, sem responsabilização por crimes e sem freios ao envio incondicional de armas, a espiral tende a se aprofundar.
O ataque iraniano, nesse sentido, aparece como consequência direta do fracasso internacional em deter a devastação em Gaza e a expansão das operações israelenses no entorno. É também um sinal de colapso do sistema de segurança coletiva que deveria impedir esse tipo de escalada.
Agora, todas as atenções se voltam para a próxima decisão de Benjamin Netanyahu. Enfraquecido internamente e cercado por acusações de corrupção, o premiê pode enxergar numa escalada ainda maior uma forma de sobrevivência política.
Esse é um dos pontos mais perigosos do momento. O risco de uma resposta calculada para arrastar os Estados Unidos a um confronto direto com o Irã não pode ser tratado como exagero.
Há setores em Washington que defendem esse cenário há décadas. Se prevalecerem, o que hoje já é uma crise regional pode se transformar rapidamente em guerra de consequências imprevisíveis.
Por isso, a exigência de cessar-fogo imediato em Gaza, fim do cerco e abertura de negociações sérias deixou de ser apenas uma posição moral. Tornou-se uma necessidade urgente de segurança internacional.
Se nada disso avançar, os escombros em Bnei Brak poderão ser lembrados não como um episódio isolado, mas como o início de uma etapa ainda mais destrutiva. A ideia de que Israel poderia bombardear seus vizinhos sem temer retaliação direta em seu território foi abalada, e o preço da paz passa, inevitavelmente, pela justiça.
Curadoria: Augusto Gomes | Redação: Chico Wei | Revisão: Afonso Santos