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Irã impõe nova realidade e redefine o tabuleiro geopolítico do Oriente Médio

O que se vê no confronto atual já não é mera resistência, mas a demonstração concreta de que a velha ordem unipolar perdeu capacidade de impor sua vontade sem custo. O ataque iraniano à refinaria de Haifa, em Israel, foi mais que um episódio militar e expôs uma mudança geopolítica que a cobertura ocidental tenta […]

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O que se vê no confronto atual já não é mera resistência, mas a demonstração concreta de que a velha ordem unipolar perdeu capacidade de impor sua vontade sem custo.

O ataque iraniano à refinaria de Haifa, em Israel, foi mais que um episódio militar e expôs uma mudança geopolítica que a cobertura ocidental tenta reduzir.

Mais do que os danos materiais imediatos, o fato central é que o Irã mostrou capacidade de atingir de forma simétrica um alvo estratégico e altamente protegido de um aliado nuclear dos Estados Unidos.

Isso desloca o conflito do terreno da resistência assimétrica para o de um confronto direto em que uma potência regional do Sul Global consegue impor custos reais ao núcleo do aparato de segurança ocidental no Oriente Médio.

O analista geopolítico Arnaud Bertrand chamou atenção, em sua rede social, para o caráter extraordinário do que está acontecendo. Segundo ele, muita gente ainda não percebe a dimensão histórica do momento.

A narrativa convencional sustenta que o Irã poderia, no máximo, vencer no longo prazo, desgastando seus adversários com paciência estratégica. Bertrand argumenta que a realidade já ultrapassou esse enquadramento e entrou no terreno das vitórias táticas concretas.

Nas guerras imperiais das últimas décadas, de Vietnã, Iraque, Afeganistão e Líbia, o padrão foi o da desproporção brutal. Uma grande potência esmagava um país mais fraco, que respondia como podia, quase sempre por meios assimétricos e em condições de devastação.

Quando havia alguma vitória do lado agredido, ela costumava ser amarga e parcial. O país sobrevivia, mas destruído, enquanto o agressor saía no máximo com desgaste político e militar.

O ponto levantado por Bertrand é que o Irã não se encaixa nesse modelo. Ele não está apenas absorvendo golpes e esperando o tempo jogar a seu favor.

O que se vê, segundo essa leitura, é um ator capaz de competir no plano tático e de produzir recuos imediatos do adversário. Isso altera não só a percepção sobre o conflito, mas também a hierarquia de poder que organizou a política internacional nas últimas décadas.

O exemplo mais forte, no rascunho analisado por Bertrand, teria ocorrido nas últimas 48 horas, quando Donald Trump emitiu um ultimato formal sobre a reabertura do Estreito de Hormuz. A ameaça, segundo o relato, era de que, se isso não ocorresse em 48 horas, os Estados Unidos “obliterariam” a rede elétrica iraniana.

A resposta de Teerã foi direta. O Irã avisou que, se os Estados Unidos avançassem nessa direção, tornaria inabitáveis em uma semana os territórios dos aliados americanos no Golfo.

O desfecho, nessa interpretação, foi um recuo de Trump. Ele passou a falar em “conversas muito boas e produtivas”, que Bertrand afirma não terem existido, e ampliou o prazo inicialmente dado.

Trump chegou ainda a dizer que imaginava o Estreito de Hormuz sendo “controlado conjuntamente por mim e pelo Aiatolá”. Para Bertrand, esse movimento não foi retórico apenas, mas o sinal de que Washington preferiu recuar diante do risco de uma escalada que não conseguiria administrar sem custos intoleráveis.

É aí que entra a ideia de “dominância da escalada”, usada pelo analista. Em termos simples, significa a capacidade de ameaçar consequências tão severas que o outro lado conclui ser melhor não avançar.

Se essa leitura estiver correta, trata-se de um fato raro e de enorme peso histórico. Bertrand sustenta que é a primeira vez, desde a Guerra Fria, que isso aparece de forma tão nítida em relação aos Estados Unidos.

A imagem que ele usa é eloquente. Não é mais o adolescente frágil imaginando uma vingança futura contra o valentão, mas alguém que segura o pulso do agressor no meio do empurrão e o obriga a recalcular.

O episódio de South Pars reforça essa tese no texto original. Depois do ataque israelense à instalação de gás, o Irã avisou que responderia de forma simétrica.

Segundo o rascunho, a resposta veio com a destruição da instalação de Ras Laffan, no Catar, descrita como responsável por 20% do gás natural liquefeito global e por um prejuízo anual de 20 bilhões de dólares. No mesmo contexto, também foi citado o ataque à refinaria de Haifa.

A consequência política imediata, ainda segundo Bertrand, foi um distanciamento público de Trump em relação a Israel. O presidente americano teria classificado o ataque a South Pars como uma ação unilateral e determinado que não houvesse novos ataques israelenses ao campo.

Israel, nessa narrativa, obedeceu. O dado central aqui não é apenas militar, mas político: o Irã teria conseguido impor limites operacionais ao campo adversário por meio da capacidade de retaliar em alvos sensíveis e protegidos.

Isso ajuda a explicar por que o Estreito de Hormuz aparece como peça central do conflito. O Irã controla o ponto de estrangulamento energético mais estratégico do planeta, e o texto sustenta que os Estados Unidos não conseguem quebrar esse controle de forma simples.

Bertrand vai além e afirma que Trump acabou reduzido a pedir ajuda publicamente à China. E, segundo ele, ouviu uma negativa, assim como de outros atores aos quais teria recorrido.

É nesse ponto que o analista define o confronto como a primeira guerra genuinamente multipolar. A expressão não aparece como slogan, mas como tentativa de descrever uma situação em que os Estados Unidos já não conseguem ditar sozinhos os limites da escalada.

Primeiro, porque o Irã surge como um polo real de poder. Não como superpotência global, mas como ator que não pode mais ser tratado como peça submetida automaticamente à coerção americana.

Segundo, porque a própria guerra acelera a multipolaridade. Quanto mais Washington encontra dificuldade para impor sua vontade, mais suas garantias de segurança parecem frágeis e mais sua capacidade coercitiva se desgasta diante do mundo.

A crítica à grande mídia ocidental, presente no rascunho, se concentra justamente aí. Ao insistir na narrativa do “Irã agressor” e omitir causas, recuos americanos e o isolamento de Washington, essa cobertura tentaria preservar a imagem de uma ordem unipolar que já não corresponde aos fatos descritos.

Nesse enquadramento, Haifa, o recuo de Trump e a negativa chinesa não são episódios dispersos. São sinais de uma transformação mais profunda, em que o Sul Global deixa de apenas resistir e passa a influenciar os termos do confronto.

O argumento final de Bertrand, recuperado por Miguel do Rosário, é que o mundo saído deste conflito já não é o mesmo. A multipolaridade, antes tratada como tendência, aparece agora como prática concreta de poder, risco e limite.

É por isso que o caso iraniano chama tanta atenção. Mais do que sobreviver à pressão dos Estados Unidos e de Israel, o país estaria demonstrando capacidade de impor custos, produzir recuos e reescrever a gramática estratégica do sistema internacional.

Se essa leitura se confirmar nos próximos desdobramentos, o ataque a Haifa não será lembrado apenas como um evento militar. Será visto como um dos momentos em que a hegemonia incontestada dos Estados Unidos começou a perder, diante de todos, a aparência de inevitável.

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