O ataque à capital libanesa e a defesa aberta de anexação territorial expõem uma escalada que já ultrapassou a lógica de fronteira e entrou no terreno do expansionismo declarado.
Israel levou a guerra ao entorno de Beirute e, ao mesmo tempo, passou a falar abertamente em empurrar sua fronteira até o rio Litani.
O bombardeio de um apartamento residencial em Bchamoun, nos arredores da capital libanesa, matou pelo menos duas pessoas e feriu cinco, segundo o Ministério da Saúde do Líbano.
Mais do que uma nova rodada de ataques, a ofensiva agora combina destruição urbana, deslocamento em massa e ameaça explícita de conquista territorial.
O ataque em Bchamoun ocorreu a cerca de 10 quilômetros do centro de Beirute, numa área que havia recebido avisos de evacuação de Israel. Imagens divulgadas após o bombardeio mostram um dos apartamentos do edifício completamente consumido pelas chamas.
A escalada militar veio acompanhada de uma declaração que elevou ainda mais a gravidade do momento. O ministro das Finanças de Israel, Bezalel Smotrich, afirmou que a guerra deve terminar com uma “mudança fundamental”.
Em seguida, Smotrich foi além e defendeu que Israel controle o território libanês até o rio Litani, cerca de 30 quilômetros ao norte da fronteira atual. “O Litani deve ser nossa nova fronteira com o estado do Líbano”, disse o ministro.
A fala provocou indignação imediata porque transforma em proposta política explícita aquilo que muitos já viam como risco concreto no terreno. Ao defender uma nova fronteira imposta pela força, Smotrich aproxima o caso libanês da lógica aplicada por Israel em Gaza e nas Colinas de Golã, território sírio ocupado.
Autoridades libanesas já vinham alertando que os ataques recentes a pontes estratégicas indicavam preparativos para uma operação terrestre ampliada. A destruição dessas vias tem um objetivo evidente: isolar o sul do Líbano do restante do país e dificultar tanto a fuga de civis quanto a circulação de ajuda.
Segundo o porta-voz do secretário-geral da Organização das Nações Unidas, António Guterres, o conflito já deslocou mais de 1,2 milhão de pessoas no Líbano. Em termos proporcionais, isso representa cerca de uma em cada cinco pessoas no país.
O correspondente da Al Jazeera em Beirute, Obaida Hitto, relatou que os bombardeios no sul estão tornando “extremamente difícil” a saída de civis que vivem ao sul do rio Litani. A situação também impede que o exército libanês preste assistência e dificulta a entrega de ajuda humanitária.
Além do ataque em Bchamoun, forças israelenses realizaram durante a noite uma série de bombardeios nos subúrbios ao sul de Beirute. A agência estatal libanesa NNA informou que sete áreas controladas pelo Hezbollah foram atingidas.
Entre as regiões atacadas estão Bir al-Abed, Haret Hreik e Burj al-Barajneh. Israel afirma que mira a “infraestrutura” do Hezbollah, mas os ataques atingem com frequência áreas residenciais e comerciais densamente povoadas.
O exército israelense também bombardeou um posto de gasolina da empresa Amana, perto da cidade portuária de Tiro. Após a explosão, uma grande coluna de fogo subiu ao céu.
Israel sustenta que a rede de postos Amana integra a “infraestrutura econômica” do Hezbollah e poderia financiar atividades militares. O ataque, porém, se insere num padrão mais amplo de bombardeio sistemático de alvos econômicos desde o reinício do conflito.
A atual escalada começou em 2 de março, após um ataque transfronteiriço do Hezbollah. Segundo o rascunho original, o grupo agiu em resposta ao assassinato do líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, em um ataque anterior atribuído a Israel.
Desde então, as autoridades libanesas contabilizam pelo menos 1.039 mortos e 2.876 feridos em ataques israelenses. Do outro lado da fronteira, o Hezbollah mantém uma campanha de foguetes e ataques com drones contra o norte de Israel.
Nesta terça-feira, o grupo anunciou cinco ataques contra aglomerações de tropas, um quartel, um local de radar e posições de artilharia israelenses. Também informou ter lançado ataques de drones ao amanhecer contra o quartel militar de Liman, no norte de Israel.
O quadro geral revela uma ampliação gradual, mas consistente, dos objetivos israelenses. O que começou como troca de fogo na fronteira evoluiu para uma campanha aérea de alcance nacional e agora desemboca em ameaças abertas de anexação.
A retórica de Smotrich não parece um episódio isolado ou um excesso verbal sem consequências. Ela expressa uma corrente dentro do governo de coalizão israelense que enxerga a guerra como oportunidade para redesenhar mapas e consolidar ganhos territoriais.
Em Gaza, a ofensiva já dura meses e causou dezenas de milhares de mortes. No Líbano, o padrão que se desenha combina deslocamento em massa, destruição de infraestrutura crítica e a possibilidade de ocupação permanente de parte do território.
A comunidade internacional, mais uma vez, mostra dificuldade para conter a escalada. Os Estados Unidos, principal aliado e fornecedor de armas de Israel, seguem aprovando pacotes de financiamento bilionários sem impor condições efetivas capazes de frear a ofensiva.
A União Europeia, por sua vez, limita-se em grande medida a declarações de preocupação. Enquanto isso, um novo êxodo de civis se forma às portas do Mediterrâneo, e a diplomacia permanece atrás dos fatos.
O custo humano já é devastador. Além dos 1,2 milhão de deslocados no Líbano, centenas de milhares de israelenses também deixaram o norte do país por causa dos foguetes do Hezbollah.
A guerra, portanto, não produz apenas mortos e feridos imediatos. Ela fabrica uma nova geração de refugiados, destrói redes de sobrevivência e aprofunda ciclos de medo, vingança e instabilidade regional.
A ameaça de uma guerra regional mais ampla continua no horizonte. Israel cita o envolvimento do Irã, por meio da Força Quds, para justificar ataques como o ocorrido em Beirute, mas cada novo bombardeio amplia o risco de uma espiral difícil de conter.
A proposta de anexar território até o rio Litani colide frontalmente com resoluções do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. Entre elas está a Resolução 1701, que encerrou a guerra de 2006 e exigia a retirada israelense do sul do Líbano.
Agora, um ministro israelense declara abertamente o desejo de anexar justamente a faixa da qual Israel foi obrigado a se retirar há 18 anos. O gesto não é apenas provocação: é um desafio direto ao direito internacional e às instituições multilaterais.
Para o Sul Global, a mensagem é dura e familiar. A chamada ordem baseada em regras segue funcionando de forma seletiva, com rigor para os mais fracos e tolerância para os aliados armados das grandes potências.
O Líbano, já fragilizado por uma profunda crise econômica, é empurrado ainda mais para o abismo. Sua soberania é violada diariamente por ataques aéreos, enquanto sua integridade territorial passa a ser contestada em público por um ministro estrangeiro.
Nada disso pode ser tratado como episódio lateral ou desvio passageiro. O que está em curso é uma reconfiguração geopolítica em que a força bruta e a anexação voltam a ser apresentadas como instrumentos aceitáveis de política externa.
Enquanto chancelerias hesitam, civis pagam a conta final. São as famílias de Bchamoun que perderam tudo, os deslocados que não sabem se terão casa para voltar e os moradores do sul presos entre bombardeios, estradas destruídas e ajuda bloqueada.
A guerra no Líbano tornou-se, assim, um teste decisivo para os limites da impunidade internacional. Se a ameaça de redesenhar fronteiras por meio de bombas passar sem resposta efetiva, o precedente não ficará restrito ao Levante.