“Hegel observa em uma de suas obras que todos os grandes fatos e personagens da história universal aparecem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.”
— Karl Marx, O 18 de Brumário de Luís Bonaparte (1852)
A Lava Jato 1.0 foi a tragédia. Um espetáculo midiático-judicial que prendeu um ex-presidente, desmontou empresas nacionais, jogou milhares no desemprego e aprofundou a desindustrialização do país. Tudo em nome do “combate à corrupção”, narrado diariamente pela grande mídia como uma epopeia moral. A Globo e seus congêneres viviam tempos dourados — podiam aterrorizar a classe política e empresarial, enquanto recebiam mais verbas publicitárias de quem temia ser o próximo alvo. O STF era aliado, o lawfare, método.
Agora, tentam reencenar o mesmo roteiro. É a Lava Jato 2.0 — a farsa. Desta vez, o alvo é o filho do presidente Lula, Lulinha, em operações que buscam reacender a narrativa do “petismo corrupto”. Mas o cenário mudou. A sociedade já viu o preço da tragédia. O STF, outrora cúmplice, hoje é visto como barreira ao autoritarismo — e por isso mesmo, tornou-se alvo.
A extrema-direita fala abertamente em “ditadura judicial”. A Globo não chega a usar o termo, mas sua crítica ao Supremo no momento em que bolsonaristas tentam demonizá-lo — inclusive com pressão internacional via Lei Magnitsky e revogação de vistos de ministros — alimenta a mesma roda. É uma conivência estratégica: enquanto a direita radical busca mobilizar até o império contra o STF, a mídia hegemônica oferece o ambiente narrativo.
E surge a figura de Daniel Vorcaro — um prato cheio para o lavajatismo 2.0. Empresário legal, fraudador desconhecido até então, financiador da Globo, de portais de direita e de campanhas políticas. O roteiro é conhecido: pegar uma figura privada, associá-la a parentes distantes de políticos (a nora de Jacques Wagner, no caso) e transformar isso em “prova” de corrupção sistêmica do governo. É a mesma tática da Lava Jato 1.0: criminalizar por afinidade, não por prova. Na época, era a “sobrinha da enteada que recebeu da Odebrecht”. Hoje, é a nora do senador, o filho do ministro, o cunhado do ministro — não, o filho de fulano, o cunhado de fulano, né? Eles pegam todos os parentes e contra-parentes que tinham alguma relação com um banqueiro que, na época, não era acusado de nada, não havia nenhum problema em fazer negócio com ele, e transformam aquilo numa prova do crime.
Mas a farsa não engana. A tragédia ensinou. O povo brasileiro, que sofreu na pele o desmonte do país, reconhece o roteiro. A tentativa de reacender o lawfare esbarra na descrença popular e numa nova correlação de forças.
A mídia corporativa, outrora hegemônica na narrativa, hoje vive um paradoxo agonizante: tratada como “comunista” pela extrema-direita que ajudou a criar, e vista com desconfiança pela esquerda que sempre denunciou seu papel de classe. Nesse desespero por relevância, ela tenta recuperar prestígio repetindo a fórmula que já levou o país ao abismo — revive seus próprios erros, o que apenas acelera seu declínio.


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