Moro sela aliança com Bolsonaro e confronta Ratinho Jr. na eleição do Paraná

A entrada de Sergio Moro no Partido Liberal transforma o Paraná em vitrine de uma disputa que pode redesenhar a direita em 2026.

Sergio Moro oficializou nesta terça-feira, 24, sua filiação ao Partido Liberal e selou de vez sua aliança com a família Bolsonaro.

O movimento reposiciona o ex-juiz no tabuleiro da direita e empurra a eleição do Paraná para uma rota de confronto direto com o governador Carlos Massa Ratinho Junior.

Com a mudança, a disputa estadual deixa de ser apenas uma sucessão local e passa a funcionar como teste nacional para o bolsonarismo e para a sobrevivência política de Moro.

A filiação ocorre no mesmo dia em que Moro minimizou o impacto da desistência de Ratinho Junior da corrida presidencial. Em declarações à Folha, ele disse estar concentrado exclusivamente na construção de sua candidatura ao governo do estado.

Na segunda-feira, Ratinho Junior anunciou que não disputará a Presidência da República em 2026. O objetivo declarado é usar seu capital político e a estrutura do governo para eleger um sucessor no Paraná e bloquear o avanço de Moro ao Palácio Iguaçu.

A saída do governador do cenário nacional surpreendeu aliados e alterou o cálculo político no estado. Ratinho Junior era visto como o nome mais forte do Partido Social Democrático para uma eventual disputa ao Planalto, e interlocutores afirmam que a filiação iminente de Moro ao Partido Liberal pesou na decisão, ao lado de apelos da família.

A troca de partido por Moro tinha um componente prático evidente. Ele deixou o União Brasil porque não encontrava apoio interno para sua candidatura ao governo.

A situação ficou ainda mais estreita porque o União Brasil está federado com o Progressistas, legenda alinhada a Ratinho Junior no Paraná. Nesse contexto, a permanência de Moro se tornara politicamente inviável.

Agora, no Partido Liberal, Moro passa a integrar o palanque do senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência. A escolha o coloca sob a tutela direta do bolsonarismo e revela a aposta em capturar a faixa mais mobilizada do eleitorado de direita.

Questionado sobre o peso da permanência de Ratinho Junior no cargo durante a campanha, Moro admitiu que vencer no primeiro turno é sempre difícil. Ao mesmo tempo, afirmou aparecer à frente nas pesquisas de intenção de voto, numa tentativa de sustentar a imagem de favorito.

O problema para Moro é que a política paranaense não se resume a sondagens iniciais. Ratinho Junior governa com alta aprovação e comanda uma engrenagem política ampla, apoiada por prefeitos, deputados e uma máquina administrativa considerada das mais sólidas do país.

O governador ainda não bateu o martelo sobre quem será seu candidato. O presidente da Assembleia Legislativa, Alexandre Curi, do Partido Social Democrático, atua nos bastidores para ocupar esse espaço, enquanto Ratinho Junior demonstra preferência pelo secretário das Cidades, Guto Silva, também do partido.

Essa indefinição, porém, não indica fraqueza nem hesitação. Ela reflete, ao contrário, a confiança de Ratinho Junior em sua capacidade de transferir apoio, desde que mantenha controle total sobre a campanha e sobre a distribuição de recursos políticos.

Para Moro, o desafio é mais complexo do que simplesmente vestir a camisa do bolsonarismo. Ele precisa preservar um eleitorado próprio, que não se confunde integralmente com a base mais radicalizada da direita, e ao mesmo tempo enfrentar a força do governismo estadual.

Sua imagem segue presa a uma ambiguidade que o acompanha desde a Lava Jato. Para parte do eleitorado, isso ainda funciona como ativo político; para outra parte, é um passivo que limita sua capacidade de ampliar alianças e reduzir rejeições.

Por isso, a eleição no Paraná tende a assumir um significado que vai além das fronteiras do estado. A disputa pode funcionar como um plebiscito sobre o legado da Lava Jato, sobre a capacidade do bolsonarismo de vencer uma eleição majoritária estadual e sobre o espaço real de Moro depois de sua passagem fracassada pelo governo Bolsonaro.

A aliança com o Partido Liberal também não é isenta de riscos. Embora seja hoje a principal legenda da direita, o partido convive com disputas internas, rivalidades regionais e conflitos por comando político.

Ao se abrigar nessa estrutura, Moro ganha musculatura eleitoral, mas perde margem de autonomia. Sua vinculação ao projeto presidencial de Flávio Bolsonaro pode estreitar seus movimentos e submetê-lo a interesses que não necessariamente coincidem com a lógica da disputa paranaense.

Em Brasília, o Palácio do Planalto acompanha esse rearranjo com atenção. Uma oposição dividida entre o grupo de Moro e a máquina de Ratinho Junior pode produzir efeitos indiretos em outras frentes da disputa nacional e abrir espaço para ganhos do campo lulista em cenários específicos.

O Paraná, assim, vira um laboratório político de alto risco para a direita. De um lado, está um ex-juiz que tenta se reinventar por meio de uma aliança mais explícita com o bolsonarismo; de outro, um governador popular que decidiu abandonar a ambição presidencial para defender seu território com todos os instrumentos de poder de que dispõe.

O desfecho terá repercussão muito além de Curitiba. Se Moro vencer, o bolsonarismo ganhará novo fôlego e poderá apresentar um nome com peso nacional para reorganizar a extrema direita; se o candidato de Ratinho Junior prevalecer, ficará exposto o limite dessa estratégia e a força persistente do governismo tradicional.

A cerimônia de filiação, portanto, está longe de ser um detalhe burocrático. Ela marca o início formal de uma campanha que tende a ser uma das mais duras, caras e politicamente decisivas do próximo ciclo eleitoral.

Moro escolheu a colisão frontal. Ratinho Junior, ao desistir do Planalto, deixou claro que também escolheu a guerra.

Num estado conservador, com forte presença do agronegócio e histórico de peso na política nacional, essa disputa já ultrapassou o interesse regional. O que está em jogo no Paraná não é apenas a sucessão de um governador, mas a definição de quem terá voz, comando e futuro no campo da direita brasileira.

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