A nova visita de Xi Jinping deixa claro que Xiongan já não é só um projeto urbano, mas uma peça estratégica da disputa tecnológica global.
Xi Jinping foi a Xiongan nesta semana para deixar uma ordem política inequívoca: acelerar a construção da cidade e transformá-la em motor de inovação de ponta.
A visita ocorreu logo após a definição do novo plano quinquenal chinês, conectando o futuro da nova cidade ao núcleo do planejamento nacional.
Mais do que uma inspeção administrativa, o gesto sinaliza que Xiongan ocupa posição central na estratégia de longo prazo da China.
Segundo a agência estatal Xinhua, Xi disse a autoridades locais que a área deve ser “impulsionada pela reforma e inovação”. Também cobrou a aceleração da construção de um parque tecnológico e o uso intensivo de ciência e tecnologia em todo o desenvolvimento urbano.
Foi a quarta visita de Xi à região desde o lançamento do megaprojeto, em 2017. A repetição dessas inspeções mostra que Xiongan não é um experimento lateral, mas uma prioridade de Estado.
A cidade foi planejada para absorver funções não essenciais de Pequim e aliviar a pressão sobre a capital. Localizada na província de Hebei, a cerca de 100 quilômetros ao sudoeste de Pequim, ela surge como resposta à superlotação, ao peso sobre a infraestrutura e aos gargalos ambientais da metrópole chinesa.
Mas reduzir Xiongan a uma extensão administrativa de Pequim seria perder o essencial. O projeto foi concebido para ser um polo global de inovação, capaz de atrair empresas avançadas, pesquisadores e talentos em escala internacional.
Nesse sentido, a cidade materializa uma mudança mais ampla na economia chinesa. Ela expressa a passagem de um modelo centrado apenas em crescimento acelerado para outro que busca mais densidade tecnológica, mais conhecimento próprio e mais capacidade de competir em setores estratégicos.
Durante a visita, Xi inspecionou a estatal de energia China Huaneng e também uma escola local. A escolha dos locais não parece casual, porque combina dois pilares da ambição chinesa: infraestrutura moderna e formação de talentos.
Ao visitar uma gigante do setor energético, o presidente reforça a importância de uma base robusta para sustentar uma cidade inteligente. Ao passar por uma escola, sublinha que inovação não nasce apenas de prédios novos, mas de um ecossistema educacional capaz de alimentar pesquisa, desenvolvimento e indústria.
Esse desenho ajuda a explicar por que Xiongan é tratada em Pequim como algo maior que um projeto imobiliário. A meta é criar um ambiente integrado, no qual urbanismo, tecnologia, educação e produção avancem de forma articulada, e não como ilhas desconectadas.
O momento da visita também pesa politicamente. Ela ocorre depois das chamadas Duas Sessões, as reuniões anuais do parlamento chinês, e após o lançamento do 15º Plano Quinquenal, previsto para 2026 a 2030.
Tudo indica que esse novo ciclo ampliará a aposta chinesa em autossuficiência tecnológica. Isso ganha ainda mais relevância diante das sanções e restrições impostas pelos Estados Unidos em áreas sensíveis da economia e da indústria de ponta.
É nesse quadro que Xiongan assume uma função ainda mais estratégica. A cidade tende a operar como um dos laboratórios centrais para testar e aplicar avanços chineses em inteligência artificial, computação quântica, semicondutores, energia limpa e biotecnologia.
Por isso, o projeto tem dimensão urbana, econômica e geopolítica ao mesmo tempo. Não se trata apenas de construir ruas, prédios e parques, mas de erguer uma plataforma concreta para sustentar a próxima etapa da ascensão chinesa.
A escala da obra impressiona. Relatórios apontam que milhares de empreiteiras e centenas de milhares de trabalhadores participam da construção de uma metrópole planejada para receber, no futuro, milhões de pessoas.
A imagem lembra os grandes ciclos de modernização nacional vistos em outros momentos históricos, mas agora com forte presença de tecnologia digital e metas ambientais mais sofisticadas. Xiongan pretende nascer já adaptada a padrões urbanos que muitos centros consolidados ainda tentam alcançar tardiamente.
Entre as características planejadas estão avenidas largas, parques integrados, edifícios com certificação verde e uma malha digital disseminada pela cidade. A proposta é oferecer um ambiente capaz de atrair não só empresas, mas também famílias, cientistas e profissionais altamente qualificados.
Esse ponto é decisivo para entender a lógica do projeto. Uma cidade de inovação não se sustenta apenas com escritórios e incentivos fiscais, porque depende também de qualidade de vida, serviços públicos, educação e infraestrutura compatíveis com a retenção de talentos.
Naturalmente, Xiongan enfrenta críticas internacionais. Parte dos analistas ocidentais questiona o custo financeiro, o modelo de planejamento centralizado e o risco de a cidade se converter em um grande elefante branco.
Essas dúvidas não são irrelevantes, sobretudo em um projeto dessa escala. Ainda assim, a persistência do governo chinês e o volume de recursos mobilizados indicam que Pequim está disposta a bancar uma aposta de longo prazo, mesmo sob ceticismo externo.
Para o Sul Global, o caso chama atenção por outro motivo. Xiongan oferece um contraste forte com o padrão de urbanização caótica, desigual e dependente que marca muitas grandes cidades do mundo periférico.
Enquanto metrópoles como São Paulo, Lagos ou Mumbai convivem com problemas crônicos de mobilidade, saneamento e pressão sobre serviços, a China tenta construir do zero uma cidade com padrões de vanguarda. A comparação não elimina diferenças históricas e políticas, mas expõe a distância entre países com projeto nacional consistente e países presos à improvisação permanente.
A lição, evidentemente, não é copiar mecanicamente o modelo chinês. O ponto mais relevante está na capacidade de planejar décadas à frente e de concentrar investimento em infraestrutura, ciência e tecnologia como instrumentos de soberania.
No fim das contas, o sucesso ou o fracasso de Xiongan terá efeitos que ultrapassam a China. Se a cidade prosperar, servirá como vitrine do caminho chinês de desenvolvimento e reforçará a imagem de que o país consegue traduzir estratégia estatal em poder tecnológico concreto.
Se encontrar obstáculos sérios, dará munição aos críticos que veem nesse tipo de planejamento um modelo caro e insustentável. Mas, por enquanto, a mensagem emitida por Xi nesta semana foi de aceleração, confiança e prioridade máxima.
A cem quilômetros de Pequim, Xiongan se consolida como um dos canteiros de obras mais observados do planeta. Ali, a China tenta provar que o futuro pode ser planejado, construído e usado como instrumento direto de poder nacional.


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