A nova corrida tecnológica já não é por conversa com máquinas, mas pelo poder de deixá-las comprar, contratar e decidir.
A inteligência artificial acaba de cruzar uma fronteira decisiva: saiu do balcão de atendimento e entrou no caixa.
O centro da disputa agora é o comércio agêntico, no qual sistemas automatizados deixam de apenas sugerir caminhos e passam a executar decisões financeiras.
Segundo levantamento recente da publicação norte-americana Technology Review, algoritmos já avançam para um estágio em que compram, contratam e pagam de forma autônoma.
Até pouco tempo, o consumidor usava a máquina para buscar informação, comparar opções ou receber listas de links. Agora, a lógica muda: o usuário dá uma ordem ampla, e o agente organiza o percurso, escolhe o fornecedor e conclui a transação sem supervisão humana direta.
Essa mudança acelera a economia de maneira radical e desloca o eixo do poder tecnológico. Países que não controlarem suas próprias infraestruturas de dados correm o risco de assistir, de fora, à reorganização do consumo, da produção e dos contratos.
Para funcionar sem produzir caos, esse novo modelo exige o que especialistas chamam de verdade e contexto em tempo real. Em outras palavras, o agente só pode agir com segurança se souber, com precisão, quem compra, quem vende e em que condições aquela operação é legítima.
A Technology Review aponta que a confiança em escala de máquina virou o grande gargalo dessa etapa do desenvolvimento tecnológico. Se os dados forem ambíguos, incompletos ou mal integrados, a inteligência artificial pode fechar negócios errados, provocar prejuízos bilionários e até gerar quebras de contrato.
O problema não é teórico, mas estrutural. Um ser humano consegue perceber nuances, corrigir ambiguidades e desconfiar de coincidências estranhas; já um agente automatizado depende de sinais claros, determinísticos e confiáveis para não errar em alta velocidade.
É aí que a discussão deixa de ser apenas técnica e se torna geopolítica. No cenário atual, o domínio dessas arquiteturas de dados continua concentrado em grandes monopólios do Vale do Silício, aprofundando a dependência tecnológica dos países em desenvolvimento.
Para o Sul Global, portanto, a ascensão da inteligência artificial agêntica traz ao mesmo tempo risco e oportunidade. Risco, porque a nova camada de automação pode consolidar uma hierarquia digital ainda mais dura; oportunidade, porque a disputa por infraestrutura, identidade e governança de dados ainda está em aberto.
O Brasil e seus parceiros no grupo dos Brics precisam tratar esse tema como questão de segurança nacional e soberania econômica. Não basta consumir ferramentas produzidas nos Estados Unidos se o núcleo decisório da economia digital continuar hospedado fora do país.
A questão central não é apenas ter acesso a modelos avançados, mas construir sistemas próprios de gestão de dados mestres. Sem isso, o país pode até usar inteligência artificial, mas continuará terceirizando a base de confiança que permite a essas ferramentas agir no mundo real.
A China já oferece um exemplo relevante desse movimento ao integrar ecossistemas digitais em que identidade e pagamento operam de forma coordenada e soberana. Trata-se de um contraponto ao predomínio das grandes empresas de tecnologia do Ocidente, com ênfase em infraestrutura estatal e segurança coletiva.
Para o governo Lula, o desafio é incorporar essa dimensão ao Plano Brasileiro de Inteligência Artificial. Se o país não desenvolver camadas nacionais de contexto, identidade e verdade dos dados, agentes estrangeiros poderão ditar o ritmo do consumo e da produção interna.
Isso significa rever a forma como o Estado, as empresas e as instituições públicas tratam a identidade digital. Ela não pode ser vista apenas como uma funcionalidade de mercado, mas como um ativo estratégico que exige governança, proteção e responsabilidade jurídica.
A pergunta passa a ser objetiva e inevitável: quem é o indivíduo no ambiente digital, o que o agente está autorizado a fazer em seu nome e quem responde quando o algoritmo falha? Sem respostas claras, a automação financeira em larga escala pode ampliar insegurança jurídica em vez de produzir eficiência.
O risco prático da confusão de dados é enorme em um ambiente de transações aceleradas. Um agente humano distingue contextos simples com relativa facilidade, mas uma inteligência artificial pode confundir uma empresa aérea com uma fabricante de metais de mesmo nome se os sinais de identificação forem insuficientes.
Esse detalhe aparentemente banal ajuda a explicar por que a infraestrutura de dados se tornou o verdadeiro coração da nova economia. A inteligência artificial generativa pode escrever relatórios, resumir documentos e produzir respostas convincentes, mas isso não basta quando a tarefa envolve movimentar dinheiro, assinar contratos ou definir investimentos.
A transição para o comércio agêntico também terá efeitos sobre a distribuição de riqueza. Se os melhores agentes, os melhores dados e os sistemas mais confiáveis ficarem restritos aos grandes capitais, a desigualdade digital tende a se aprofundar de forma duradoura.
Pequenas e médias empresas podem ser empurradas para uma posição subordinada nesse novo mercado. Quem controlar os agentes mais eficientes controlará não apenas a intermediação das compras, mas também a visibilidade dos fornecedores, a prioridade nas escolhas e a captura do valor econômico.
Por isso, o desenvolvimento de uma inteligência artificial nacional e popular não pode ficar restrito ao discurso. Instituições como Embrapa e Fiocruz, citadas no debate sobre capacidades estratégicas do Estado, precisam estar aptas a gerir seus próprios agentes e proteger os bancos de dados que acumulam.
Essas bases de informação têm valor científico, econômico e geopolítico. Entregá-las ao treinamento de modelos proprietários de empresas estrangeiras, sem controle nacional sobre uso e finalidade, significaria abrir mão de ativos centrais da soberania brasileira.
A imagem é simples e poderosa: se os dados são o petróleo do século vinte e um, os agentes de inteligência artificial funcionam como as refinarias dessa nova economia. Eles transformam informação bruta em ação concreta, decisão automatizada e poder de mercado.
É justamente por isso que o Brasil precisa liderar esse debate no Sul Global. A automação pode elevar produtividade e eficiência, mas também pode se converter em uma nova forma de colonialismo digital se a infraestrutura decisória permanecer nas mãos de poucos conglomerados estrangeiros.
Nos próximos anos, a implementação dessa tecnologia exigirá uma arquitetura de dados mais robusta do que os modelos probabilísticos hoje dominantes. Para conversar, improvisar e gerar texto, a inteligência artificial atual já impressiona; para decidir onde dinheiro público ou privado será investido, o grau de risco é de outra ordem.
O papel do Estado brasileiro, nesse contexto, não é acessório. Cabe ao poder público induzir infraestrutura, definir padrões, proteger ativos estratégicos e garantir que a busca por eficiência não sacrifique a autonomia nacional.
O comércio agêntico não é apenas mais uma conveniência do consumidor conectado. Ele já desponta como um novo campo de batalha da produtividade mundial, e quem mandar nos agentes terá influência direta sobre a economia do futuro.
Curadoria: Augusto Gomes | Redação: Augusto Gomes | Revisão: Afonso Santos