Sem nome de consenso, a pré-campanha de Flávio Bolsonaro revela a fragmentação da direita para 2026.
A busca de Flávio Bolsonaro por um vice entrou em zona de turbulência depois que Ratinho Junior saiu, na prática, do radar da chapa.
Com o governador do Paraná decidido a ficar no cargo até o fim do mandato, a pré-campanha passou a girar em torno de nomes que revelam mais fragilidade do que força.
Segundo informações publicadas pela Folha, os nomes hoje mais cotados são os da senadora Tereza Cristina, de Mato Grosso do Sul, e do ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema.
A definição, porém, deve ficar para mais perto das convenções partidárias de julho. Isso mostra que a chapa ainda está longe de um desenho estável e consensual.
O movimento vai além de uma simples composição regional. Ele expõe a dificuldade do bolsonarismo em montar uma aliança nacional minimamente sólida depois de anos de personalismo, conflitos internos e dependência quase total do sobrenome Bolsonaro.
Na prática, o grupo de Flávio tenta resolver três problemas de uma vez. Precisa ganhar presença em estados decisivos, reduzir rejeições em segmentos estratégicos e abrir pontes com partidos do centrão que ainda tratam com cautela uma candidatura liderada pelo filho do ex-presidente.
Ratinho Junior era visto por aliados como uma peça capaz de oferecer musculatura administrativa e algum lastro eleitoral. Ao optar por concluir o mandato no Paraná, tirou da mesa a alternativa que parecia menos conflituosa e obrigou a pré-campanha a revisitar opções mais espinhosas.
Flávio, em público, tenta transmitir calma. Em declaração citada pela Folha, disse que ainda não está tratando da escolha do vice e pediu serenidade, mencionando Tereza Cristina e Romeu Zema entre os nomes considerados.
Nos bastidores, o cenário é bem menos tranquilo. Há divisão entre aliados, e cada alternativa combina vantagens aparentes com limitações relevantes.
Romeu Zema aparece como ativo por representar Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país. Para qualquer candidatura de direita que queira disputar espaço com Lula em terreno competitivo, Minas continua sendo peça central.
A lógica é direta. Sem desempenho forte em Minas, um projeto presidencial de oposição já sai mancando.
O problema é que a força de Zema talvez não seja tão automática quanto seus defensores sugerem. De acordo com a reportagem da Folha, a própria equipe de Flávio chegou a testar em pesquisa se o apoio do ex-governador teria capacidade real de transferir votos no estado.
O resultado não empolgou. Integrantes da pré-campanha avaliaram que o levantamento não trouxe resposta conclusiva sobre o potencial de Zema para empurrar a chapa para cima.
Esse dado tem peso político. Ele indica que a imagem de gestor eficiente, tão vendida pelo campo liberal, nem sempre se converte em capital eleitoral transferível, sobretudo quando acoplada a uma candidatura cercada por disputas familiares, radicalização ideológica e baixa capacidade de agregação.
Também há reservas dos dois lados. Segundo interlocutores citados pela Folha, Zema teme mergulhar de vez no universo de conflitos do clã Bolsonaro e do Partido Liberal.
Não se trata de um temor irrelevante. O bolsonarismo se consolidou, nos últimos anos, como um campo de forte centralização familiar, com disputas recorrentes e pouco espaço para lideranças com projeto próprio.
Do lado de Flávio, a desconfiança também existe. O desempenho do grupo ligado a Zema em eleições recentes, especialmente em Belo Horizonte, além da baixa capilaridade municipal do Novo em Minas, reforçou a percepção de que o ex-governador pode entregar menos do que promete.
Tereza Cristina surge como opção mais palatável ao centrão. Sua eventual escolha dependeria de um arranjo nacional com a federação formada por União Brasil e Progressistas, o que empurra a negociação para um terreno bem mais amplo do que a simples definição de um vice.
A senadora tem trânsito consolidado em Brasília e interlocução forte no agronegócio. Para aliados de Flávio, ela poderia ajudar a reduzir resistências no eleitorado feminino e fortalecer pontes com um setor econômico historicamente influente no campo conservador.
Ainda assim, a aposta está longe de ser unanimidade. Parte dos aliados sustenta que o voto do agro tenderia a se concentrar na direita de qualquer forma e que, por isso, Tereza Cristina agregaria menos do que parece.
Esse cálculo, porém, já não é tão simples. O desgaste provocado pelo alinhamento bolsonarista ao tarifaço de Donald Trump, citado por aliados da própria pré-campanha, abriu desconforto em parcelas do setor produtivo.
O ponto é politicamente delicado. Quando a direita brasileira se alinha a agendas externas que atingem interesses concretos da economia nacional, a retórica patriótica perde consistência e a contradição fica mais exposta.
Também pesa contra Tereza Cristina o fato de vir de um estado com menor peso decisivo na disputa nacional. Em eleição presidencial apertada, origem regional e capacidade de mobilização territorial continuam contando muito.
A pré-campanha ainda sondou alternativas no Nordeste. A governadora de Pernambuco, Raquel Lyra, foi procurada por interlocutores do grupo numa tentativa de ampliar presença numa região em que Lula mantém força histórica.
Segundo a Folha, a ideia era levá-la ao Progressistas e encaixá-la na vice. Raquel preferiu manter o projeto de reeleição, e outros nomes nordestinos, especialmente mulheres, seguem em análise.
Esse detalhe diz muito sobre o tamanho do problema. O comando da campanha sabe que um de seus maiores gargalos está justamente no Nordeste, onde o bolsonarismo segue com enorme dificuldade para penetrar de forma consistente.
Não é um obstáculo menor. Na região, políticas públicas, memória social e identificação popular com Lula continuam tendo peso concreto e duradouro.
Ao mesmo tempo, a resistência de partidos do centrão em embarcar desde já com Flávio expõe outro impasse estrutural. União Brasil e Progressistas ainda parecem mais interessados em preservar seus próprios espaços legislativos do que em aderir sem garantias a uma candidatura bolsonarista.
Isso enfraquece a tentativa de vender Flávio como nome naturalmente unificador da direita. O que aparece, na prática, é um campo conservador fragmentado, em que lideranças regionais fazem contas frias sobre risco, vantagem e sobrevivência.
Há ainda a sombra de outros nomes da direita, como Ronaldo Caiado. Ele pode disputar o mesmo eleitorado do agro e da gestão conservadora, o que torna o tabuleiro ainda mais congestionado.
Sem Ratinho Junior, a equação ficou mais difícil. A pré-campanha perdeu uma alternativa vista como menos traumática e passou a depender de negociações mais complexas, mais caras politicamente e menos previsíveis.
No fundo, a procura por um vice virou sintoma de um impasse maior. A direita tenta montar uma chapa competitiva, mas continua esbarrando na dificuldade de transformar bolsonarismo em maioria social estável para além de sua base mais fiel.
Enquanto isso, Lula segue como referência central do campo popular e como polo de gravidade da política nacional. Isso pesa especialmente nas regiões e nos segmentos em que a presença do Estado, a proteção social e a agenda do desenvolvimento têm efeito concreto na vida da população.
É justamente por isso que a oposição procura um vice com tanta ansiedade. Mais do que completar a chapa, o nome escolhido teria de compensar fraquezas que, até agora, seguem sem solução.
Até aqui, essa peça não apareceu.
Curadoria: Augusto Gomes | Redação: Afonso Santos


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