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Kassab salta do barco bolsonarista

Com a direita rachada e sem comando, Lula ganha espaço nos estados e amplia sua margem de articulação para 2026. O centro político começou a se afastar do bolsonarismo de forma mais visível. O movimento mais eloquente da semana veio de Gilberto Kassab e do Partido Social Democrático. Ao mesmo tempo, Lula avança na montagem […]

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Imagem gerada por Ideogram, com prompt do portal O Cafezinho. 25/03/2026 08:09

Com a direita rachada e sem comando, Lula ganha espaço nos estados e amplia sua margem de articulação para 2026.

O centro político começou a se afastar do bolsonarismo de forma mais visível.

O movimento mais eloquente da semana veio de Gilberto Kassab e do Partido Social Democrático.

Ao mesmo tempo, Lula avança na montagem de alianças estaduais enquanto a direita se divide entre disputas locais, impasses familiares e falta de rumo nacional.

Segundo informações apuradas pela Folha de S.Paulo, Kassab sinalizou que o partido caminha para uma definição própria sobre a disputa presidencial de 2026. A legenda deve escolher entre os governadores Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, e Ronaldo Caiado, de Goiás.

A movimentação ganhou força logo após a desistência de Ratinho Junior, do Paraná, de entrar agora na corrida pelo Palácio do Planalto. O recuo expôs, de forma crua, as fissuras do campo conservador e a ausência de coesão entre seus principais nomes regionais.

No caso de Ratinho Junior, o fator decisivo foi a decisão do Partido Liberal de apoiar a candidatura de Sergio Moro ao governo do Paraná. Ao ameaçar a sucessão local, o partido mostrou que prefere conveniências imediatas a uma construção mais estável e duradoura.

Esse episódio ajuda a explicar por que antigos aliados começam a recalcular a rota.

Ao rifar parceiros históricos em nome de arranjos eleitorais de curto prazo, o bolsonarismo empurra o centro para fora de sua órbita. O resultado é um isolamento crescente de um campo político que já enfrenta dificuldades para produzir liderança institucional e programa minimamente consistente.

Kassab percebe esse vazio e tenta ocupar o espaço com uma alternativa de direita menos associada ao radicalismo dos últimos anos. Não se trata de adesão ao governo, mas de um reposicionamento que reconhece o desgaste do bolsonarismo como eixo organizador da oposição.

No meio desse rearranjo, a situação jurídica de Jair Bolsonaro também alterou o ambiente político. O Supremo Tribunal Federal autorizou prisão domiciliar, e o ministro Alexandre de Moraes permitiu que o ex-presidente cumpra a medida em casa para tratar uma broncopneumonia.

A mudança no regime de detenção já provoca efeitos dentro do Partido Liberal e na pré-campanha de Flávio Bolsonaro. Interlocutores do grupo avaliam que a presença física do ex-presidente em casa tende a ampliar o poder de decisão de Michelle Bolsonaro.

Esse novo protagonismo da ex-primeira-dama surge em meio à inelegibilidade e às restrições impostas ao patriarca do clã. Em vez de reorganizar a direita, o quadro pode aprofundar tensões internas e acirrar a disputa por influência dentro da própria família e do partido.

A oposição, portanto, enfrenta ao mesmo tempo um problema de liderança, um problema de estratégia e um problema de coordenação territorial. Falta um nome consensual, falta unidade entre os governadores e sobra conflito entre interesses regionais e ambições nacionais.

Enquanto isso, Lula trabalha em outra frequência.

O Palácio do Planalto concentra esforços na costura de palanques em estados estratégicos, com o objetivo de ampliar a base de sustentação do projeto de reconstrução nacional. A lógica é simples: sem articulação regional sólida, a governabilidade fica mais vulnerável e a disputa de 2026 se torna mais imprevisível.

Lula sabe que a estabilidade institucional depende de negociação fina com lideranças locais e com partidos que integram a frente ampla. Por isso, a construção política nos estados deixou de ser apenas um movimento eleitoral e passou a ser parte central da estratégia de governo.

Esse cálculo também responde ao cenário mais amplo da política brasileira. Com a direita fragmentada, abre-se uma janela para consolidar alianças que antes pareciam improváveis e para reduzir a influência de um discurso extremista em regiões onde ele se enraizou com força.

Mesmo sob pressão de setores da mídia tradicional, o governo tenta manter o foco na entrega de políticas públicas e na defesa da soberania nacional. A aposta do Planalto é que resultados concretos pesem mais do que o ruído político permanente produzido pela oposição.

Nesse contexto, episódios recentes envolvendo fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social e questões no setor bancário são tratados pelo governo como heranças de desmandos anteriores. A gestão atual sustenta que, ao acionar órgãos de controle para investigar e punir irregularidades, transforma passivos herdados em ações de transparência institucional.

A oposição tenta vincular esses problemas diretamente ao atual governo. Mas esse discurso esbarra no fato de que as investigações avançam justamente porque as instituições têm autonomia para agir.

Esse ponto é politicamente relevante porque ajuda o Planalto a sustentar uma narrativa de responsabilidade administrativa. Em vez de paralisar diante de crises, o governo procura enquadrá-las como prova de que os mecanismos de controle estão funcionando.

A estabilidade buscada por Lula não se limita ao plano doméstico. Ela é apresentada como condição para que o Brasil recupere protagonismo no Sul Global e dentro do bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

A mesma lógica vale para a agenda econômica e social. Um país que pretende avançar em reindustrialização, infraestrutura, tecnologia e transição energética precisa de ambiente político menos contaminado por golpismo, sabotagem institucional e guerras de facção.

Por isso, o enfraquecimento do núcleo duro bolsonarista tem efeitos que vão além da disputa entre partidos. Ele pode abrir espaço para uma reorganização do sistema político em bases mais pragmáticas, ainda que marcadas por contradições e disputas intensas.

O caso do Partido Social Democrático é emblemático nesse sentido. Ao perceber o desgaste do extremismo e o vazio programático da direita, Kassab tenta posicionar sua legenda como polo próprio, menos dependente da família Bolsonaro e mais atento ao humor do eleitorado moderado.

Para o campo progressista, esse cenário oferece oportunidade, mas não garantia. Fragmentação do adversário ajuda, porém não substitui articulação, entrega de resultados e capacidade de manter unida uma coalizão ampla e heterogênea.

As próximas semanas devem mostrar até onde vai o afastamento do centro em relação ao bolsonarismo. Se a tendência se confirmar, Lula chegará mais forte na disputa pelos estados, e a direita terá de decidir se continua presa ao passado ou se tenta, tardiamente, inventar outro caminho.

Curadoria: Augusto Gomes | Redação: Augusto Gomes | Revisão: Afonso Santos

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