Israel tenta transformar capitais europeias em plateia do pânico para recuperar apoio externo e ampliar a pressão contra o Irã.
Israel intensificou sua ofensiva diplomática para convencer governos europeus de que o Irã representa uma ameaça militar direta ao continente.
Segundo informações divulgadas pela Al Jazeera, autoridades israelenses passaram a usar relatórios alarmistas para sustentar a tese de um perigo imediato vindo de Teerã.
O objetivo político é claro: arrastar a Europa para uma escalada contra o Irã em um momento de crescente desgaste internacional de Israel por causa da guerra em Gaza.
A narrativa apresentada por Tel Aviv afirma que o programa de mísseis iraniano teria capacidade de alcançar cidades como Londres, Paris e Berlim. Com isso, busca-se produzir um ambiente de medo que facilite a defesa de ações militares preventivas.
A operação retórica lembra um roteiro já conhecido da política internacional recente. Antes da invasão do Iraque, em 2003, os Estados Unidos e seus aliados também recorreram ao discurso das armas de destruição em massa para justificar uma guerra devastadora.
A comparação não é casual, porque o mecanismo político é semelhante. Primeiro se constrói uma ameaça absoluta, depois se exige alinhamento automático em nome da segurança coletiva.
Para analistas do Sul Global, a nova investida israelense também cumpre outra função: desviar o foco dos crimes de guerra denunciados na Faixa de Gaza. À medida que cresce o isolamento diplomático de Israel, a demonização do Irã aparece como instrumento de reposicionamento estratégico para o governo de Benjamin Netanyahu.
A Al Jazeera destaca que Israel tenta apresentar o Irã como um ator irracional e imprevisível. Essa imagem, porém, entra em choque com a postura pública de Teerã, que insiste em definir seu aparato militar como defensivo e voltado à dissuasão diante de ameaças externas.
O Irã ampliou sua capacidade tecnológica e militar nos últimos anos em um ambiente de pressão permanente de Washington e Tel Aviv. Para seus dirigentes, esse avanço é uma condição de sobrevivência regional, não um plano de agressão contra a Europa.
Esse ponto é central para entender a disputa narrativa em curso. Não se trata apenas de armamentos, mas da tentativa de enquadrar o Irã como inimigo universal para facilitar sanções, isolamento e, no limite, guerra aberta.
Para o Brasil, e para forças políticas que defendem uma ordem internacional menos subordinada ao eixo atlântico, a manobra é especialmente perigosa. Uma explosão militar de grandes proporções no Oriente Médio teria efeito imediato sobre energia, alimentos, cadeias logísticas e inflação global.
O impacto recairia com mais força sobre países em desenvolvimento, que já enfrentam vulnerabilidades externas e dependência de importações estratégicas. Em outras palavras, uma guerra vendida como defesa da Europa poderia cobrar sua conta mais pesada justamente do Sul Global.
Nesse contexto, a posição defendida pelo presidente Lula ganha peso político. O governo brasileiro vem sustentando que a saída para os conflitos no Oriente Médio passa pelo diálogo, pelo respeito ao direito internacional e pela recusa da lógica de força como método de reorganização regional.
A pressão israelense sobre a Europa caminha na direção oposta. Em vez de reduzir tensões, ela tenta ampliar o campo do conflito por meio de uma chantagem geopolítica baseada em cenários de medo ainda não comprovados por evidências públicas conclusivas.
A vulnerabilidade europeia a esse tipo de discurso não surgiu agora. Ao longo de décadas, parte importante das elites do continente aceitou alinhar sua política externa aos interesses estratégicos dos Estados Unidos e de Israel, mesmo quando esse alinhamento implicava custos econômicos, energéticos e de segurança para a própria Europa.
Esse padrão, no entanto, começa a ser questionado por setores dissidentes dentro do próprio continente. Cresce a percepção de que entrar em mais uma aventura militar no Oriente Médio pode significar sacrificar estabilidade interna, autonomia diplomática e interesse nacional em nome de agendas formuladas fora da Europa.
Há ainda um fator estrutural que ajuda a explicar a intensidade da campanha contra Teerã. O Irã aprofundou sua aproximação com os Brics e com a China, buscando ampliar margens de manobra econômica e política diante do cerco ocidental.
Essa inserção em um arranjo internacional mais multipolar incomoda potências acostumadas a operar sob hegemonia quase incontestada. O problema, para esses centros de poder, não é apenas o programa militar iraniano, mas a possibilidade de consolidação de polos soberanos capazes de escapar à disciplina do Ocidente.
Por isso, a opinião pública brasileira precisa olhar com cautela para notícias sobre supostos planos iranianos de atacar a Europa. Até aqui, o que aparece com mais nitidez é uma disputa de propaganda, na qual o medo funciona como ferramenta para moldar consentimento político e preparar terreno para novas agressões.
Também é preciso lembrar um dado frequentemente omitido no noticiário ocidental. Israel é amplamente apontado como a única potência nuclear da região e nunca aderiu ao Tratado de Não Proliferação Nuclear, enquanto cobra restrições severas sobre os programas de seus vizinhos.
Essa assimetria ajuda a explicar a acusação de hipocrisia feita por críticos da política israelense. Tolera-se um arsenal atômico mantido em opacidade, ao mesmo tempo que se transforma em ameaça existencial qualquer capacidade defensiva desenvolvida por países adversários.
No centro de tudo está uma disputa maior sobre soberania, poder e narrativa. O que Israel tenta vender à Europa não é apenas um diagnóstico de segurança, mas uma moldura política destinada a reordenar alianças, recuperar legitimidade e manter a pressão sobre um adversário estratégico.
Para o Brasil, a resposta mais consequente continua sendo a defesa firme da paz, da multipolaridade e do direito internacional. Em um mundo cada vez mais tensionado, recusar campanhas de pânico e exigir provas concretas antes de qualquer escalada não é ingenuidade, mas responsabilidade histórica.
Curadoria: Augusto Gomes | Redação: Augusto Gomes | Revisão: Afonso Santos