Os Estados Unidos estão redefinindo sua doutrina militar com uma mudança que vai muito além da retórica.
O analista Arnaud Bertrand identificou a transição: os EUA deixam de se apresentar como "policial global" e passam a operar como "policial de quarto de esfera", concentrando sua estratégia de segurança nas nações ao norte do Equador.
O conceito batizado de "Grande América do Norte" abrange um arco que vai da Groenlândia ao Canal do Panamá.
A lógica é geográfica e deliberada. Os EUA buscam consolidar controle sobre territórios separados do Sul Global por barreiras naturais como a Amazônia e a Cordilheira dos Andes, transformando essas fronteiras físicas em limites de sua esfera de influência.
Ao norte do Equador, a estratégia é de integração direta. Países com acesso ao Atlântico Norte e ao Pacífico Norte são tratados como parte do perímetro de segurança americano, com expectativa de alinhamento explícito aos interesses de Washington.
Ao sul, a abordagem muda de tom, mas não de intenção. Os EUA pretendem transferir responsabilidades para as nações do hemisfério sul, esperando que protejam o Atlântico Sul e o Pacífico Sul em parceria com potências ocidentais, reduzindo o custo operacional americano sem abrir mão da influência estratégica.
Para o Brasil, a reconfiguração representa um dilema concreto. Aceitar o papel de parceiro subordinado na defesa do Atlântico Sul significa integrar-se a uma arquitetura de segurança desenhada em Washington. Recusar significa navegar sozinho num ambiente geopolítico cada vez mais pressionado.
Bertrand aponta que a mudança pode indicar um reconhecimento tardio dos limites do poder unipolar americano, com aproximação, ainda que lenta, dos princípios de soberania e não-intervenção que definem a ordem westfaliana. Se essa leitura estiver correta, abre-se espaço para que países do Sul Global reforcem sua autonomia e avancem na construção de um mundo efetivamente multipolar.
Curadoria: Augusto Gomes | Redação: Afonso Santos | Revisão: Pierre Arnaud


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