Um estudo recente revelou que os evangélicos, grupo que representa cerca de 31% da população brasileira segundo dados do IBGE de 2022, enfrentam barreiras significativas para se engajar em pautas ambientais no país.
Apesar do avanço do conhecimento científico sobre as mudanças climáticas e seus impactos devastadores, a mobilização ecológica entre esse segmento permanece limitada, influenciada por fatores como alianças políticas, prioridades institucionais e tensões internas no campo religioso.
A pesquisa, conduzida por sociólogos da Universidade de São Paulo (USP) e publicada no início de 2026, destaca que a relação entre cristianismo e meio ambiente é historicamente complexa.
Desde a publicação do artigo seminal de Lynn White Jr. em 1967, que apontou a tradição judaico-cristã como uma das raízes da crise ambiental por sua visão antropocêntrica, diversas vertentes cristãs têm buscado reinterpretar essa relação. Entre as lideranças evangélicas brasileiras, porém, há uma resistência marcante a iniciativas ambientais, muitas vezes associadas a ideologias espiritualistas ou panteístas que divergem de suas crenças.
Embora muitos fiéis reconheçam a responsabilidade humana na degradação ambiental, a tradução desse reconhecimento em ações concretas nas igrejas é praticamente inexistente.
Segundo os pesquisadores da USP, declarações sobre a importância de cuidar da criação divina não se refletem em projetos ou mobilizações institucionais. Um dos entraves apontados é a forte ligação de algumas denominações com setores políticos e econômicos, como o agronegócio, que frequentemente se posicionam contra regulamentações ambientais mais rígidas.
Essa dependência de redes políticas contrárias às pautas ecológicas torna o custo de adotar uma agenda verde elevado para muitas lideranças.
Outro ponto levantado pelo estudo é a falta de diálogo entre movimentos ambientalistas e comunidades evangélicas. Enquanto os primeiros muitas vezes desconsideram as especificidades culturais e teológicas dessas comunidades, as igrejas priorizam questões sociais e espirituais em detrimento de temas como sustentabilidade.
Os pesquisadores destacam, no entanto, o enorme potencial de mobilização social das igrejas evangélicas, que poderia ser decisivo na luta contra a crise climática caso houvesse maior integração com a agenda ambiental.
Para especialistas entrevistados pelo portal da USP, a construção de pontes entre ambientalistas e lideranças religiosas é essencial. Eles sugerem que superar preconceitos mútuos e promover uma comunicação que respeite as particularidades de cada grupo pode abrir espaço para que a ética ambiental ganhe força no discurso evangélico.
Um exemplo citado é a iniciativa de algumas igrejas no interior de São Paulo que passaram a incluir temas de preservação em seus cultos, ainda que de forma tímida.
A resistência, porém, não é unânime. Pastores como João Silva, de uma congregação em Belo Horizonte, defendem que cuidar do meio ambiente é um dever cristão. Em entrevista recente, ele afirmou que a criação divina deve ser protegida como parte da missão da igreja, mas lamentou a falta de apoio de grandes denominações para iniciativas nesse sentido.
Ambientalistas esperam que o crescente impacto das mudanças climáticas, como secas e enchentes que afetam diretamente comunidades religiosas, possa acelerar uma mudança de perspectiva.
Com informações de Agência Internacional.


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