Seis em cada dez argentinos reprovam Javier Milei. Com 62% de avaliação negativa — alta de dez pontos desde dezembro —, o presidente enfrenta o pior momento desde que assumiu, em meio a desemprego crescente, consumo em queda e escândalos de corrupção.
Apesar de indicadores oficiais apontarem um crescimento econômico de 1,9% e uma redução significativa na taxa de pobreza, a realidade cotidiana dos argentinos conta uma história diferente. A inflação persistente, o aumento do desemprego e escândalos de corrupção estão minando a confiança da população no governo.
De acordo com um relatório da consultora Analytica, quando se ajusta a atividade econômica à evolução populacional, os níveis atuais ficam 6,8% abaixo do pico registrado em 2011. Esse descompasso entre estatísticas e percepção social é explicado pela composição do crescimento econômico, que tem sido impulsionado por setores como hidrocarbonetos, mineração e intermediação financeira. Estes setores, no entanto, geram pouco emprego em comparação com áreas como construção e indústria, que enfrentam quedas acentuadas.
A taxa de desemprego atingiu 7,5% no último quadrimestre de 2025, um aumento de um ponto percentual em relação ao ano anterior e dois pontos desde o início do governo Milei. Além disso, a qualidade do emprego tem se deteriorado, com um aumento nas ocupações informais e de poucas horas, enquanto o emprego formal diminui. Desde a posse de Milei, 22.608 empresas encerraram suas atividades, segundo dados da Superintendência de Riscos do Trabalho.
Os rendimentos também mostram sinais contraditórios. Funcionários públicos e pensionistas continuam com salários abaixo dos níveis da década passada, enquanto o peso crescente das tarifas de serviços limita o poder de compra. Um estudo da Universidade Católica Argentina revela que, embora alguns agregados familiares tenham mais rendimentos, isso não se traduz em maior capacidade de consumo ou menor tensão financeira. O consumo de bens essenciais, como alimentos, está em retração, conforme apontado pelo Observatório da Cadeia Láctea Argentina.
A divulgação dos dados oficiais de pobreza evidenciou o contraste entre números e percepção pública. Especialistas destacam que o indicador é influenciado por oscilações da inflação e pela desatualização do cabaz de consumo. O Centro de Estudos Distributivos, Laborais e Sociais estima que a redução real da pobreza entre 2023 e 2025 seria de apenas dois pontos percentuais.
O desgaste político de Milei é refletido nas pesquisas de opinião. Uma sondagem da Atlas Intel, realizada com 5.037 pessoas, indica que 62% dos entrevistados têm uma avaliação negativa do presidente. Os principais problemas apontados pelos argentinos são corrupção, desemprego e inflação. Outras consultoras, como a Synopsis Consultores, registram tendências semelhantes, com 56% de rejeição e 35% de aprovação.
A situação é agravada por investigações de corrupção envolvendo figuras centrais do governo, como a alegada fraude da criptomoeda $Libra e um inquérito sobre possível enriquecimento ilícito do chefe de Gabinete, Manuel Adorni. Segundo a Executive Digest, a combinação de crises econômicas e escândalos políticos representa um desafio significativo para a administração de Milei.
E daí? O Brasil é o maior parceiro comercial da Argentina. Quando a economia argentina encolhe e o consumo despenca, exportadores brasileiros — especialmente do agro e da indústria — sentem no bolso. A crise de Milei não fica do outro lado da fronteira.


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