Nota conjunta de países da América Latina e da Europa critica a intervenção militar dos EUA na Venezuela e aponta risco à paz regional
A América Latina amanheceu sob o impacto de uma movimentação geopolítica que reacende os piores temores do século XX. Em resposta aos recentes ataques e à ocupação promovida pelo governo de Donald Trump em solo venezuelano, o Brasil se uniu a um grupo de nações para condenar a intervenção. Por meio de uma nota conjunta, os governos do Brasil, Chile, Colômbia, México, Uruguai e Espanha manifestaram “profunda preocupação e rejeição” às operações militares unilaterais.
Os países argumentam que a ofensiva ignora os pilares da diplomacia moderna. Segundo o comunicado, as ações violam princípios básicos do direito internacional que constam na Carta das Nações Unidas. Para essas nações, o uso da força militar como ferramenta política não apenas desestabiliza o país vizinho, mas também desrespeita a autodeterminação dos povos e a integridade territorial.
O impacto da intervenção e a captura de Maduro
O cenário escalou rapidamente durante a madrugada de sábado, quando bombas atingiram pontos estratégicos do território venezuelano. Após os bombardeios, Donald Trump declarou que Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram capturados por forças americanas. O presidente dos Estados Unidos afirmou que o país passará a governar a Venezuela até que ocorra “uma transição adequada”.
Além do controle político, Trump não escondeu as motivações econômicas por trás da operação. Ele ressaltou o interesse direto dos EUA nas vastas reservas de petróleo venezuelanas, as maiores do mundo. Essa postura provocou uma reação imediata da comunidade internacional, que vê na ocupação uma tentativa de controle colonialista sobre os recursos naturais da região.
Um precedente perigoso para a estabilidade do continente
Os signatários da nota enfatizam que o ataque cria um “precedente sumamente perigoso para a paz e a segurança regional”. Além disso, os governos alertam que a intervenção militar direta “coloca em risco a população civil”, que já enfrenta severas dificuldades econômicas. Ao ignorar as vias diplomáticas, os Estados Unidos quebram a norma de não agressão que mantém a estabilidade entre as nações americanas há décadas.
A nota reafirma que qualquer tentativa de “controle governamental, administração ou apropriação externa de recursos naturais ou estratégicos” é inadmissível. Para os países que assinam o documento, esse tipo de ação é incompatível com o direito internacional. Eles defendem que a apropriação de riquezas alheias por meio da força gera instabilidade política e social profunda, prejudicando o desenvolvimento de todo o continente.
A defesa da via diplomática e da autodeterminação
Diferente da lógica de confronto adotada por Washington, o bloco liderado pelo Brasil sustenta que a crise venezuelana exige soluções políticas. Os governos reiteram que o conflito deve ser resolvido “exclusivamente por vias pacíficas”. Eles acreditam que apenas o diálogo e a negociação respeitam a vontade do povo venezuelano “em todas as suas expressões” e sem ingerências externas.
Consequentemente, o grupo defende que “somente um processo político inclusivo, liderado pelos venezuelanos” pode garantir uma saída democrática. O texto pontua que a dignidade humana não pode ser preservada sob ocupação estrangeira. Portanto, o restabelecimento da ordem institucional deve ocorrer a partir da própria sociedade venezuelana, e não por meio de imposições militares ou interesses petroleiros estrangeiros.
América Latina como uma zona de paz permanente
Por fim, o documento ressalta a importância histórica de manter a América Latina e o Caribe como uma “zona de paz”. Esse conceito se baseia no respeito mútuo e na solução pacífica de controvérsias. Os governos apelam para a “unidade regional, além das diferenças políticas”, para enfrentar qualquer ameaça à soberania dos Estados vizinhos.
A união de países com espectros políticos distintos, como o México e o Chile, demonstra que a defesa da soberania é um valor maior que ideologias partidárias. O posicionamento brasileiro reafirma o compromisso do país com a cooperação regional e a proteção dos recursos naturais contra a exploração externa predatória. A história mostra que intervenções externas raramente trazem democracia, mas frequentemente deixam um rastro de exploração e violência.
Posição de Brasil, México, Chile, Colômbia, Uruguai e Espanha diante dos fatos ocorridos na Venezuela — 4 de janeiro de 2026
Os Governos do Brasil, México, Chile, Colômbia, Uruguai e Espanha, diante da gravidade dos fatos ocorridos na Venezuela e reafirmando seu apego aos princípios consagrados na Carta das Nações Unidas, expressam de forma conjunta as seguintes posições:
1. Expressamos nossa profunda preocupação e rechaço diante das ações militares executadas unilateralmente no território da Venezuela, as quais contrariam princípios fundamentais do direito internacional, em particular a proibição do uso e da ameaça do uso da força, o respeito à soberania e à integridade territorial dos Estados, consagrados na Carta das Nações Unidas. Tais ações constituem um precedente extremamente perigoso para a paz e a segurança regionais e para a ordem internacional baseada em normas, além de colocarem em risco a população civil.
2. Reiteramos que a situação na Venezuela deve ser resolvida exclusivamente por meios pacíficos, por meio do diálogo, da negociação e do respeito à vontade do povo venezuelano em todas as suas expressões, sem ingerências externas e em conformidade com o direito internacional. Reafirmamos que apenas um processo político inclusivo, liderado pelas venezuelanas e pelos venezuelanos, pode conduzir a uma solução democrática, sustentável e respeitosa da dignidade humana.
3. Reafirmamos o caráter da América Latina e do Caribe como zona de paz, construída sobre o respeito mútuo, a solução pacífica das controvérsias e a não intervenção, e fazemos um apelo à unidade regional, para além das diferenças políticas, diante de qualquer ação que coloque em risco a estabilidade regional. Da mesma forma, exortamos as Nações Unidas e os mecanismos multilaterais pertinentes a fazer uso de seus bons ofícios para contribuir para a desescalada das tensões e para a preservação da paz regional.
4. Manifestamos nossa preocupação diante de qualquer tentativa de controle governamental, de administração ou apropriação externa de recursos naturais ou estratégicos, o que se mostra incompatível com o direito internacional e ameaça a estabilidade política, econômica e social da região.


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