O profundo contraste ético entre duas grandes visões de mundo ficou exposto na Conferência de Segurança de Munique de 2026.
No mesmo palco, com poucas horas de diferença, o secretário de Estado americano Marco Rubio e o chanceler chinês Wang Yi apresentaram duas visões antagônicas sobre o futuro da humanidade.
De um lado, a defesa de uma ditadura militar internacional, baseada no poderio bélico dos Estados Unidos, com apoio obediente de seus vassalos europeus e demais nações do chamado Norte Global, além de um desprezo absoluto contra as instituições multilaterais, como a ONU.
De outro, a defesa de uma ordem global democrática, onde os países respeitem acordos e leis internacionais, onde todos sejam ouvidos com respeito, e onde todas as grandes decisões sejam tomadas coletivamente pela comunidade internacional, além de respeito total pela ONU e demais instituições multilaterais.
O Brasil, é bom que se diga logo, apenas poderia sobreviver, enquanto nação soberana, num mundo governado pela segunda visão, ou seja, num mundo regido por uma ordem internacional multipolar e democrática.
Rubio fez uma ode às violências imperialistas dos séculos 19 e 20. Celebrou cinco séculos de expansão europeia, quando missionários, peregrinos, soldados e exploradores atravessaram oceanos para se estabelecer em novos continentes e construir vastos impérios que se estendiam por todo o globo. O período colonial foi apresentado como fase de grandeza, não como sistema de dominação e pilhagem.
O secretário de Estado evocou os grandes nomes da cultura europeia, citando o gênio de Mozart e Beethoven, de Dante e Shakespeare, de Michelangelo e Da Vinci, dos Beatles e dos Rolling Stones. A citação de Dante Alighieri, em particular, carrega uma ironia não apenas macabra, mas infame. Dante reservou os piores círculos do Inferno aos violentos, aos tiranos e aos violadores do direito alheio. A beleza imortal da Divina Comédia está justamente na ferocidade, na coragem e no destemor com que o poeta atacava os poderosos de seu tempo, e foi por isso que Dante foi perseguido a vida inteira, perdeu seus bens, suas terras, sua liberdade de ir e vir. Que Marco Rubio tente invocar Dante para justificar uma ode à violência imperial, à tirania e à recolonização é uma ofensa não apenas ao poeta, mas à própria civilização que o secretário de Estado finge celebrar.
Ao tratar do pós-Segunda Guerra, Rubio lamentou o que chamou de declínio terminal dos impérios ocidentais, acelerado por revoluções comunistas sem Deus e levantes anticoloniais. A descolonização, que representou a libertação de dezenas de nações da África e da Ásia, foi enquadrada como sintoma de decadência.
Filho de imigrantes cubanos, Rubio fez questão de se situar não como latino-americano, mas como descendente da Europa. Mencionou seus ancestrais no Piemonte e em Sevilha, afirmou que os Estados Unidos sempre serão um filho da Europa e descreveu o vínculo transatlântico como herança de fé cristã, língua e ancestralidade compartilhada. A identidade americana, para Rubio, não é continental. É civilizacional.
Rubio combinou a nostalgia colonial com um programa geopolítico. Propôs que EUA e Europa ajam juntos para renovar a maior civilização da história humana, incluindo um esforço unificado para competir por participação de mercado nas economias do Sul Global. O Sul Global não apareceu como sujeito político, mas como território de disputa comercial.
Uma parte central do discurso foi dedicada a demolir retoricamente a ONU. Rubio reconheceu que a organização tem potencial, mas afirmou que nos assuntos mais urgentes ela não tem respostas e não desempenhou nenhum papel. Atribuiu à liderança americana, e não à comunidade internacional, a trégua em Gaza, a abertura de negociações sobre a Ucrânia, o bombardeio ao programa nuclear iraniano com 14 bombas B-2, e a captura do presidente da Venezuela por forças especiais americanas.
Concluiu pedindo uma aliança que não permita que seus cidadãos fiquem reféns do que chamou de abstrações do direito internacional. Uma aliança que não mantenha a pretensão educada de que o modo de vida ocidental é apenas um entre muitos. Uma aliança que não peça permissão antes de agir.
Os supostos fracassos que Rubio atribui à ONU são justamente situações em que os Estados Unidos agiram unilateralmente, violando o direito internacional. O bombardeio ao Irã foi uma agressão sem autorização do Conselho de Segurança. Em Gaza, os EUA usaram repetidamente o veto para bloquear resoluções de cessar-fogo. Rubio critica a ONU por não funcionar, mas é o próprio país que ele representa que a impede de funcionar.
O caso da Venezuela merece atenção à parte. O sequestro de Nicolás Maduro Moros, presidente reconhecido por dezenas de países, foi uma operação de forças especiais americanas em território estrangeiro contra um chefe de Estado em exercício, um ato que múltiplos juristas e governos consideraram um enterro do direito internacional. O crime de Donald Trump e Marco Rubio (já que a operação aparentemente foi ideia do secretário) abriu um precedente que, se normalizado, significa que qualquer líder de qualquer país pode ser capturado pela força militar de uma potência estrangeira, sem julgamento, sem mandado, sem respaldo de nenhum organismo internacional.
Do outro lado do palco, o enquadramento foi oposto. Sem a ONU, afirmou o chanceler chinês, o mundo retornaria à lei da selva, onde os fortes predam os fracos. O problema da governança global, para Wang Yi, não está na ONU, mas em países que se colocam acima dos demais e revivem a mentalidade da Guerra Fria. A alternativa ao multilateralismo, sustentou, é a lei do mais forte.
Wang Yi pediu explicitamente mais democracia nas relações internacionais. Os assuntos globais devem ser discutidos por todos, e o futuro do mundo deve ser decidido por todos. Os grandes países, disse o chanceler, devem liderar pelo exemplo, promovendo cooperação em vez de confronto, igualdade em vez de imposição de vontade, abertura em vez de unilateralismo.
Rubio pediu o oposto: que o Ocidente retome seu processo de dominação global sem restrições, e disse que os aliados não devem ser acorrentados pela culpa e pela vergonha do passado colonial, como se o saque de continentes inteiros fosse um detalhe constrangedor e não um crime histórico.
Munique 2026 expôs o confronto que vai definir o século XXI: um movimento autoritário por uma grotesca restauração da hegemonia ocidental versus a emergência de uma ordem multipolar, fundamentada em acordos, leis, respeito mútuo, onde todas as nações e, portanto, toda a humanidade, tenha direito a opinar sobre seu próprio destino.
Estamos diante, sobretudo, de uma verdadeira clivagem ética na história das relações internacionais. Que mundo queremos? Um mundo partilhado democraticamente, ou um mundo onde os mais fortes tenham o direito de oprimir os mais fracos?
Rubio celebra a grandeza da civilização ocidental, mas ignora o que de fato houve de melhor nessa civilização. O que o Ocidente produziu de mais valioso foi a criação, dentro dele mesmo, de vozes críticas e humanistas, as mesmas que o secretário de Estado evoca na cultura, embora seu governo seja inimigo dela. Foram vozes que deram suas vidas, às vezes milhares, às vezes milhões de vidas, em prol de valores democráticos e de justiça social.
O comunismo que Rubio trata como inimigo não nasceu do nada. É o desdobramento de milênios de lutas sociais, dos plebeus contra os optimates em Roma, dos democratas contra os oligarcas em Atenas, dos camponeses contra os senhores feudais na Europa medieval. As próprias leis internacionais modernas, todo o arcabouço jurídico que o Sul Global hoje defende e respeita, também foram construídas com participação central das potências ocidentais.
Rubio não representa nenhum valor ocidental. O que ele representa é uma aberração moral a serviço de um imperialismo tardio, impossível e patético. E o seu discurso em Munique, essa é a maior ironia de todas, é o maior exemplo do declínio moral do Ocidente. Declínio que ele e a atual Casa Branca ajudam a acelerar.
🇺🇸🇨🇳 O que vimos em Munique é estarrecedor, e parece ter saído de uma ficção distópica.
Marco Rubio defendeu uma ditadura militar global.
Uma ditadura sanguinária, violenta e sem leis.
Uma ditadura chefiada pelos EUA, naturalmente, apoiada pelos vassalos do "Ocidente", sem… pic.twitter.com/d8QamJ9FYk
— O Cafezinho 🇧🇷 (@ocafezinho) February 16, 2026

Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!