Para o professor da Universidade de Teerã Mohammad Marandi, a resistência iraniana presta um serviço histórico à maioria global ao demonstrar, na prática, que é possível enfrentar os Estados Unidos e sua coalizão.
A avaliação foi feita em entrevista ao jornalista Marco Fernandes, correspondente internacional do Brasil de Fato em Moscou. Marandi, professor de literatura e especialista em geopolítica, foi um dos consultores do governo iraniano nas negociações do JCPOA, entre 2015 e 2018.
Na conversa, ele traça um diagnóstico duro sobre a guerra em curso, a capacidade de resistência de Teerã, as fragilidades expostas de seus adversários e o que considera uma mudança irreversível na correlação de forças global.
Resistência, martírio e economia de guerra
Marandi afirma que a morte de Ali Khamenei, no segundo dia da guerra, teve um efeito galvanizador sobre a sociedade iraniana. Segundo ele, o líder supremo recusou deixar o local onde vivia e trabalhava porque não aceitava buscar proteção especial enquanto a população seguia exposta às consequências de décadas de sanções.
“Ele se recusou a sair porque disse às pessoas que muitos iranianos, devido às sanções, estão passando por dificuldades e não têm para onde ir. Enquanto eles não tiverem para onde ir, eu não vou embora.”
O professor descreve Khamenei como um homem profundamente culto, conhecedor de literatura e defensor da justiça social. Na sua leitura, o sacrifício do líder reforçou ainda mais a coesão interna do país.
A sucessão ocorreu de forma rápida. A Assembleia de Peritos elegeu Mojtaba Khamenei como novo líder supremo, e seu primeiro pronunciamento público indicou continuidade na linha de resistência.
Para Marandi, a capacidade do Irã de sustentar o confronto com os EUA e seus aliados não surgiu do acaso. Ela é resultado de uma estratégia de longo prazo, baseada no que ele chama de “economia de resistência”, conceito promovido justamente por Khamenei.
“O aiatolá Khamenei foi a figura-chave que promoveu a economia de resistência. Na verdade, essa expressão foi algo que ele começou a usar publicamente.”
“Se tivessem dado ouvidos a ele, estaríamos em uma posição ainda melhor hoje.”
Ele cita como exemplo a expansão do ensino superior iraniano, que saltou de 175 mil estudantes em 1979 para 4,8 milhões em 2015. Segundo sua análise, essa base educacional ajudou a formar a infraestrutura humana que permitiu ao país avançar em áreas como energia nuclear, nanotecnologia, inteligência artificial, medicina, tecnologia aeroespacial e sistemas de mísseis.
Marandi também sustenta que a maior parte da capacidade militar iraniana foi desenvolvida internamente. Para ele, mísseis, drones, bases subterrâneas e fábricas subterrâneas são fruto de tecnologia autóctone e de um longo processo de investimento em autonomia estratégica.
“As capacidades do Irã são principalmente autóctones. Os mísseis, os drones, as bases subterrâneas, as fábricas subterrâneas que produzem mais mísseis e drones.”
“A tecnologia autóctone está por trás de tudo isso.”
Segundo ele, o Irã vem adotando uma estratégia de desgaste, usando primeiro estoques mais antigos de armamentos. Ainda assim, essas armas já teriam causado danos importantes e levado os sistemas defensivos de seus adversários ao limite.
O conflito e a nova correlação global
Ao comentar as razões da escalada americana, Marandi diz que as decisões de Washington não correspondem ao interesse do povo dos Estados Unidos. Na sua visão, a política externa da Casa Branca está capturada por uma elite alinhada ao sionismo.
“Trump assumiu com uma plataforma declarando que não haveria mais guerras. Mas ele está profundamente sob a influência dos sionistas.”
“Eles colocam Israel em primeiro lugar, não os Estados Unidos.”
O professor ironiza a retórica oficial americana de que a missão estaria perto do fim. Para ele, os EUA buscam uma saída para uma guerra cujo custo político e militar já se tornou maior do que imaginavam.
Marandi afirma ainda que o governo iraniano não vê sentido em negociar depois de ter sido, segundo ele, traído duas vezes em processos recentes de negociação. Nesse contexto, a posição de Teerã seria manter a pressão até que seus adversários reconheçam o erro e arquem com o preço do conflito.
Ele também denuncia o que considera uma censura sem precedentes sobre as imagens de destruição nas áreas atingidas. Na sua leitura, isso revela ao mesmo tempo a gravidade dos danos e a hipocrisia ocidental em relação à liberdade de informação.
“O próprio fato de haver uma censura sem precedentes e de o Ocidente concordar com ela mostra que as coisas estão muito ruins.”
“Eles só querem liberdade de informação quando isso serve aos seus interesses.”
Para Marandi, a guerra acelerou a aproximação do Irã com Rússia e China. Embora ressalte que a base tecnológica iraniana é autóctone, ele avalia que a convergência com Moscou e Pequim se tornou ainda mais estratégica diante do alinhamento completo do Ocidente com Israel e com a política de Trump.
Na parte final da entrevista, o professor amplia o sentido do conflito. Segundo ele, a resistência iraniana não é apenas uma questão nacional, mas um fato com impacto histórico mais amplo, porque fortalece a autoconfiança de países que vivem sob pressão permanente do império.
“O sucesso impressionante do Irã é uma grande vitória para a humanidade e uma ótima notícia para a maioria global, porque lhes dará poder diante do império.”
“Isso criará uma maior autoconfiança entre as nações.”
Na interpretação de Marandi, o confronto em curso já alterou o imaginário político internacional. Ao impor custos elevados aos Estados Unidos e a seus aliados, o Irã estaria demonstrando que a superpotência pode, sim, ser enfrentada.


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