Apesar de um acordo de paz em vigor desde novembro, Israel acumula mais de 15 mil violações no Líbano e empurra centenas de milhares para o desamparo.
A guerra de Israel no Líbano entrou em nova fase de escalada.
As Nações Unidas manifestaram preocupação grave com os ataques israelenses a prédios residenciais, alertando para uma crise humanitária que cresce a cada hora.
O coordenador humanitário da ONU, Imran Riza, descreveu o cenário com palavras diretas: "O deslocamento está aumentando incrivelmente rápido. Neste momento, centenas de milhares de pessoas deixaram suas casas, muitas partindo com muito pouco, apenas com a roupa do corpo."
O número de deslocados já ultrapassa 800 mil pessoas. Para efeito de comparação, isso representa mais de 10% de toda a população libanesa, estimada em cerca de 5,5 milhões de habitantes. É um dos maiores êxodos forçados na história recente do Mediterrâneo.
O conflito foi reaceso em 2 de março, quando o Hezbollah disparou contra Tel Aviv após a morte do líder supremo do Irã. Israel respondeu com uma ofensiva terrestre e aérea que, segundo informações apuradas pela agência Reuters, já matou mais de 800 pessoas no Líbano desde então. A quase totalidade das vítimas são civis.
O dado mais grave, no entanto, diz respeito ao cessar-fogo. O acordo entre Israel e o Líbano entrou em vigor em 27 de novembro de 2024, mediado pelos Estados Unidos e pela França. Desde essa data, a ONU e o governo libanês contabilizaram mais de 15 mil violações israelenses do acordo. Em termos práticos, isso equivale a uma violação a cada hora e meia, sem interrupção, por mais de três meses.
Apesar disso, o governo israelense não só mantém as operações como as ampliou. O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, declarou na segunda-feira, 16 de março, que os deslocados pelos combates "não retornarão para casa" enquanto o norte de Israel não estiver seguro. A frase foi interpretada por analistas ouvidos pelo jornal britânico The Guardian como uma sinalização de ocupação prolongada do sul libanês.
Israel emitiu ordens de evacuação que cobrem mais de 14% do território libanês. As regiões atingidas incluem o sul do país, os subúrbios meridionais de Beirute, conhecidos como Dahiyeh, e os campos de refugiados palestinos de Rashidieh, Burj Shemali, el-Buss, Burj al-Barajneh e Shatila. Esses campos abrigam populações palestinas que vivem no Líbano há décadas, muitas delas descendentes de famílias expulsas durante a Nakba de 1948. Atingi-los significa aprofundar uma tragédia que já dura 77 anos.
Na manhã de terça-feira, 17 de março, novos bombardeios israelenses atingiram a cidade de Bint Jbeil, no sul do Líbano, matando três pessoas e ferindo outras. Mais tarde, o Exército libanês confirmou que cinco de seus soldados foram atingidos em um ataque aéreo israelense, dois deles em estado grave. O exército libanês não é parte beligerante no conflito e sua inclusão entre as vítimas aprofunda a ilegalidade das operações israelenses diante do direito internacional humanitário.
Em resposta, o Hezbollah anunciou ações de retaliação. O grupo afirmou ter atacado concentrações de tropas israelenses em Jdeidet Mays al-Jabal e em Maroun al-Ras, cidade fronteiriça no sul do Líbano. A organização também declarou ter destruído dois tanques Merkava com mísseis guiados na região de Taybeh. O Merkava é o principal blindado do Exército israelense e sua destruição representa um sinal de que a resistência armada segue operacional apesar dos bombardeios.
O contexto geopolítico desta escalada é inseparável do papel dos Estados Unidos. Washington não apenas bloqueou resoluções no Conselho de Segurança da ONU que pediam o fim dos ataques, como fornece arsenais e cobertura diplomática a Israel de forma contínua. A União Europeia, por sua vez, segue dividida, com países como Irlanda e Espanha adotando posições mais críticas enquanto Alemanha e outros mantêm apoio irrestrito a Tel Aviv.
Para o Brasil e os demais países do Sul Global, o episódio reforça um argumento que tem ganhado força nos fóruns multilaterais: a ordem internacional baseada em regras só funciona quando aplicada de forma universal. Quando uma potência nuclear aliada dos EUA acumula 15 mil violações de um cessar-fogo sem qualquer punição, o sistema entra em colapso moral. O governo Lula, que reconheceu o Estado da Palestina e tem mantido posição crítica em relação à ofensiva israelense, segue sendo um dos poucos líderes do hemisfério ocidental a nomear o problema pelo que ele é.
O Líbano, um país que já enfrentou guerras civis, ocupações e crises econômicas devastadoras, agora vê 800 mil de seus filhos dormindo fora de casa. Muitos saíram apenas com a roupa do corpo, como disse Imran Riza. Nenhum acordo, nenhuma mediação e nenhuma declaração da ONU parecem suficientes para deter o avanço.


Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!