Um acordo entre mineradora australiana e empresa mineira abre caminho para o Brasil agregar valor industrial ao próprio subsolo, reduzindo a dependência da China e disputando espaço numa das cadeias tecnológicas mais estratégicas do século.
O Brasil deu um passo concreto para deixar de exportar riqueza bruta e passar a produzir tecnologia de ponta a partir do próprio território.
A mineradora australiana St George Mining, responsável pelo Projeto Araxá no oeste de Minas Gerais, firmou um memorando de entendimento com a empresa mineira Nanum Nanotecnologia. O objetivo é transformar cério extraído do solo brasileiro em insumo industrial de alto valor agregado.
O acordo representa uma mudança de lógica na forma como o país tem tratado historicamente suas reservas minerais.
O cério é um dos 16 elementos do grupo conhecido como terras raras, metais de transição com propriedades únicas que os tornam indispensáveis para a indústria moderna. Segundo a St George Mining, a mina de Araxá já acumula 70,91 milhões de toneladas em recursos minerais, com teor de 4,06% de terras raras e 0,62% de nióbio, tornando-a um dos maiores empreendimentos do setor fora da China.
A Nanum, sediada em Lagoa Santa, na região metropolitana de Belo Horizonte, vai processar o cério em escala nanométrica, manipulando o material ao nível de átomos e moléculas. Esse processo aumenta a área superficial do elemento e potencializa seu desempenho em reações químicas e industriais.
As aplicações são amplas e estratégicas. O cério nanométrico pode ser usado na fabricação de chips eletrônicos, em ímãs permanentes para turbinas de energia, em catalisadores automotivos que convertem gases tóxicos em vapor d'água ou nitrogênio, e em processos de remediação ambiental para recuperação de áreas degradadas. Pode ainda servir como aditivo para diesel, com economia média projetada de 10% no consumo e redução de emissões de carbono.
Há também perspectivas promissoras na biomedicina. As nanopartículas de cério têm capacidade de neutralizar radicais livres, moléculas associadas ao estresse oxidativo e ao desenvolvimento de doenças como Alzheimer e câncer, o que abre caminho para aplicações terapêuticas e farmacêuticas ainda em fase de pesquisa global.
O memorando prevê uma etapa inicial de testes químicos e estudos de viabilidade técnica e econômica antes da produção em escala. A expectativa é extrair a primeira tonelada do material da planta-piloto ainda neste ano, com plena operação prevista para 2029, segundo comunicado da Nanum.
O contexto geopolítico torna o avanço ainda mais relevante. A China domina cerca de 60% do beneficiamento global de terras raras e é hoje o principal fornecedor de produtos derivados de cério para o mercado brasileiro. O acordo com a Nanum representa uma aposta direta na substituição dessa dependência por capacidade produtiva nacional, alinhando-se à agenda de reindustrialização e soberania tecnológica.
A disputa global pelas terras raras se intensificou nos últimos anos. Os Estados Unidos, que reduziram drasticamente sua produção interna nas décadas passadas por conta dos custos ambientais e da concorrência chinesa, tentam agora reconstruir cadeias de fornecimento próprias. Não por acaso, a St George Mining também negocia um acordo de fornecimento com a empresa norte-americana REalloys, sediada na Flórida, para vender antecipadamente até 40% da produção futura do Projeto Araxá.
Esse movimento levanta uma questão central para o debate nacional. O Brasil corre o risco de repetir o modelo histórico de fornecer matéria-prima estratégica a potências estrangeiras, sejam elas ocidentais ou orientais, sem reter o valor do processamento. A parceria com a Nanum é uma resposta parcial a esse dilema, mas a escala e a velocidade da iniciativa ainda dependem de escolhas de política industrial que vão muito além de um memorando.
O país possui o segundo maior conjunto de reservas de terras raras do mundo, atrás apenas da China, segundo dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos. Mesmo assim, segue importando os derivados processados desses mesmos elementos, uma contradição que define décadas de desindustrialização.
A região de Araxá, no Alto Paranaíba, não é desconhecida como polo mineral. Ali também está instalada a Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração, a CBMM, responsável por cerca de 80% da produção mundial de nióbio, outro metal estratégico extraído do solo mineiro. A questão do nióbio ilustra bem o padrão: o Brasil produz quase todo o nióbio do planeta, mas agrega pouquíssimo valor antes de exportá-lo.
O avanço da Nanum, se confirmado em escala industrial, pode ser um sinal de que o país começa a aprender com esse erro. A nanotecnologia aplicada às terras raras não é apenas uma inovação científica. É uma decisão política sobre quem controla os elos mais rentáveis da cadeia produtiva global.


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