Havana avisa que não negocia sua soberania e trata a retórica de Donald Trump como mais um capítulo de uma longa política de cerco dos Estados Unidos.
Cuba declarou publicamente que está preparada para um eventual ataque militar dos Estados Unidos.
A resposta veio após Donald Trump afirmar, em campanha, que tomaria a ilha caribenha se voltar à Presidência.
Em entrevista ao programa Meet the Press, da NBC, exibida no domingo, o vice-ministro das Relações Exteriores de Cuba, Carlos Fernández de Cossío, deixou claro que Havana não tratará a ameaça como bravata irrelevante.
“Nosso país historicamente esteve pronto para se mobilizar como uma nação inteira contra uma agressão militar”, afirmou o diplomata. “Não acreditamos que seja algo provável, mas seríamos ingênuos se não nos preparássemos.”
A declaração expõe o grau de tensão que continua a marcar as relações entre Washington e Havana. Também recoloca no centro do debate uma questão antiga, mas nunca superada: até onde vai a disposição dos Estados Unidos de aceitar a autodeterminação cubana.
De Cossío foi enfático ao afastar qualquer justificativa para uma ação bélica. Segundo ele, não há razão para que um conflito ocorra, nem fundamento real para esse cenário.
A fala do vice-ministro não se limitou ao plano militar. Ele também rejeitou de forma categórica qualquer ideia de que a estrutura, a natureza ou os integrantes do governo cubano possam entrar em negociação com Washington.
A mudança de regime, disse ele, está “absolutamente” fora de qualquer conversa. O recado é direto: Cuba pode discutir relações bilaterais, mas não aceita que sua soberania seja colocada como moeda de troca.
A ameaça que motivou a resposta partiu de Trump em meio à disputa eleitoral norte-americana. Ao prometer que tomaria Cuba, o republicano recuperou uma retórica de confronto que remete à Guerra Fria e fala diretamente a setores conservadores e anticomunistas, especialmente na Flórida.
Há, portanto, um cálculo eleitoral evidente. A comunidade de exilados cubanos e o peso político do eleitorado floridiano ajudam a explicar por que a ilha volta a aparecer como alvo preferencial de discursos agressivos em momentos decisivos da política dos Estados Unidos.
Mas reduzir o episódio a uma manobra de campanha seria insuficiente. O pano de fundo é uma hostilidade estrutural que atravessa décadas e sobrevive a trocas de governo, mudanças de partido e reacomodações no cenário internacional.
Essa política de pressão remonta ao embargo econômico imposto em 1960. Desde então, o cerco a Cuba se tornou um dos casos mais duradouros de coerção unilateral no sistema internacional contemporâneo.
Ano após ano, a esmagadora maioria da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas condena o bloqueio. Ainda assim, Washington mantém a política, cujo objetivo histórico sempre foi estrangular a economia cubana e produzir desgaste interno suficiente para forçar o colapso do governo revolucionário.
Agora, a pressão verbal ganha um componente ainda mais grave com a ameaça militar explícita. Mesmo que De Cossío tenha dito não considerar o cenário provável, a posição cubana é a de que ignorar esse tipo de declaração seria um erro estratégico.
Para Havana, preparação defensiva não é teatro. Desde a invasão da Baía dos Porcos, em 1961, a ilha consolidou uma doutrina de defesa nacional conhecida como Guerra de Todo o Povo, baseada na mobilização ampla da sociedade diante de uma agressão externa.
Essa concepção envolve forças armadas regulares, estruturas territoriais e participação civil. O objetivo é simples e duro: tornar qualquer tentativa de invasão um processo caro, prolongado e politicamente insustentável para o agressor.
A cautela cubana não nasce de abstrações ideológicas, mas da experiência histórica. Além da invasão fracassada de 1961, o país enfrentou atentados, operações clandestinas, planos de assassinato contra suas lideranças e uma guerra econômica permanente.
O momento atual torna essa vigilância ainda mais sensível. Cuba atravessa uma grave crise de combustíveis, problema que afeta transporte, geração de energia e produção de alimentos em um país já submetido a severas restrições externas.
Segundo De Cossío, existe um “bloqueio de petróleo” como parte da campanha de asfixia. A acusação é de que Washington pressiona terceiros países e empresas para impedir o fornecimento de combustível à ilha.
Os efeitos são concretos e imediatos. A escassez paralisa serviços, amplia apagões e agrava o mal-estar econômico, num quadro que o governo cubano interpreta como resultado direto de uma política deliberada de estrangulamento.
Nesse contexto, a ameaça militar funciona como multiplicador de pressão. Ela se soma ao bloqueio econômico e à crise energética para tentar explorar um momento de vulnerabilidade e arrancar concessões políticas que Havana considera inaceitáveis.
A resposta oficial cubana, porém, aponta na direção oposta. Em vez de sinalizar recuo, o governo reafirma prontidão, continuidade institucional e recusa a negociar sob coação.
Há também uma dimensão regional no episódio. A insistência dos Estados Unidos em tratar Cuba como problema a ser corrigido, e não como país soberano, revela a persistência de uma lógica intervencionista que marcou a história da América Latina.
Mudam os presidentes, mudam os estilos, mas a estrutura de pressão permanece. Trump vocaliza de forma mais crua, mas a hostilidade de fundo contra governos que escapam à órbita de Washington não começou com ele e tampouco termina nele.
Por isso, o caso cubano ultrapassa as fronteiras da ilha. Para o restante da América Latina e do Caribe, a mensagem é que soberania não é um dado permanente, e sim uma condição que exige vigilância política, capacidade de defesa e solidariedade internacional.
A declaração de De Cossío, feita numa grande rede de televisão dos Estados Unidos, teve esse duplo alcance. Foi ao mesmo tempo uma resposta direta a Trump e um aviso ao mundo de que Cuba não aceitará imposições sobre seu sistema político.
A formulação é clara e calculada. Havana diz que não busca guerra, não vê motivo para guerra, mas não abrirá mão de se preparar para ela enquanto continuar sob bloqueio e sob ameaça.
No centro de tudo está uma ideia simples. Para um país que convive há mais de seis décadas com sanções, sabotagens e discursos de mudança de regime, ingenuidade não é prudência, é risco.
A notícia foi originalmente reportada pelo South China Morning Post. O jornal de Hong Kong destacou a firme reação cubana às declarações vindas de Washington e recolocou em evidência um conflito que, longe de pertencer ao passado, continua a moldar o presente político da região.

efrem
22/03/2026 - 20h12
Invadir Cuba é a mesma coisa de atirar na ambulancia.
Bandoleiro
22/03/2026 - 19h19
Jà estou vendo a bilis espumar pelos cantos da boca dos vermes esquerdistas tupinicoides…kkkkkkkk
Serà um dos melhores dias da historia da humanidade, ilha presidio e as cobaias cubanas livres.