A cassação imediata de Rodrigo Bacellar desmonta o plano de poder no Rio e transforma a Assembleia no novo epicentro da disputa pelo governo estadual.
A cassação imediata do mandato de Rodrigo Bacellar pelo Tribunal Superior Eleitoral empurrou o Rio de Janeiro para uma sucessão improvisada e abriu uma briga direta pelo comando da Assembleia Legislativa.
A decisão atinge o deputado do União Brasil, presidente afastado da Assembleia, e muda de forma abrupta o centro da crise política fluminense.
Agora, a disputa pela presidência da Assembleia deixa de ser assunto interno da Casa e passa a influenciar diretamente quem conduzirá a transição no Palácio Guanabara.
Segundo informações publicadas pela Folha de S.Paulo, a determinação foi formalizada nesta quarta-feira, durante a leitura da ata da sessão de terça-feira do Tribunal Superior Eleitoral. No julgamento, Bacellar e o ex-governador Cláudio Castro, do Partido Liberal, foram condenados por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022, no caso conhecido como escândalo da folha secreta de pagamento, revelado anteriormente pelo UOL.
A decisão resolveu a principal incerteza que havia ficado após a sessão anterior. Na ocasião, a proclamação do resultado pela presidente da Corte, ministra Cármen Lúcia, havia deixado dúvida sobre o momento exato em que Bacellar perderia o mandato.
Essa dúvida estava longe de ser um detalhe processual. Ela interferia nas negociações entre grupos políticos que disputam o controle da Assembleia e tentavam influenciar a escolha do futuro governador-tampão, que administrará o estado até dezembro.
Pela Constituição do Rio de Janeiro, a Assembleia tem seis sessões para eleger um novo presidente. Quem vencer essa disputa assume posição central na reorganização do poder estadual e na condução da eleição indireta que definirá o chefe do Executivo para o restante do mandato.
Hoje, o governo está sob comando interino do presidente do Tribunal de Justiça do Rio, desembargador Ricardo Couto. Nos bastidores, porém, a tendência é de pressão para encurtar ao máximo essa interinidade e devolver à Assembleia o protagonismo da sucessão.
É por isso que a queda de Bacellar produz efeito tão amplo. Ela desmonta um arranjo construído ao longo de meses para manter o controle da transição dentro de um grupo político alinhado a Cláudio Castro.
Essa engenharia começou a ganhar forma ainda em 2024. Naquele momento, Thiago Pampolha deixou a vice-governadoria para assumir uma cadeira no Tribunal de Contas do Estado, abrindo espaço para que Bacellar, então no comando da Assembleia, se tornasse peça decisiva de uma futura transição.
O desenho político era objetivo e ambicioso. Cláudio Castro renunciaria para disputar o Senado, e Bacellar, com forte influência sobre a Assembleia, seria elevado ao posto de governador-tampão por meio de eleição indireta, chegando fortalecido à etapa seguinte da disputa.
O plano, no entanto, começou a desmoronar antes mesmo da decisão eleitoral desta semana. A crise institucional e judicial atingiu o núcleo do governo estadual e reduziu a margem de manobra do grupo que tentava conduzir a sucessão.
Bacellar já havia sido afastado anteriormente por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. O caso envolve investigação sobre suposto vazamento de informações ligado a operação policial contra o ex-deputado conhecido como TH Joias.
Bacellar nega irregularidades nesse episódio. Ainda assim, sua posição política já vinha se enfraquecendo, e a decisão do Tribunal Superior Eleitoral aprofunda esse isolamento de maneira decisiva.
No plano institucional, o efeito é imediato. Sem Bacellar, a Assembleia precisa reorganizar sua própria chefia para recompor a cadeia sucessória e destravar a escolha do governador indireto.
Nos bastidores, a movimentação já começou. Deputados ligados à base de Cláudio Castro trabalham para eleger Douglas Ruas, do Partido Liberal, para a presidência da Assembleia.
A estratégia desse campo é preservar influência sobre o processo mesmo depois do colapso do roteiro original. Para o mandato-tampão no governo estadual, o nome mais citado entre esses parlamentares é o de Guilherme Delaroli, também do Partido Liberal, atual presidente em exercício da Casa.
Mas a disputa está longe de ser pacífica. O deputado Chico Machado, do Solidariedade, aliado de Bacellar, já se apresentou como pré-candidato ao comando da Assembleia.
Segundo o noticiário político do Rio, Chico Machado pode receber apoio discreto do ex-prefeito Eduardo Paes, do Partido Social Democrático. Esse movimento mostra que a crise da sucessão já se conecta à eleição de outubro e ultrapassa em muito a simples administração de uma vacância.
O episódio expõe, mais uma vez, a fragilidade estrutural da política fluminense. O Rio volta a ser arrastado por uma dinâmica em que decisões judiciais, rearranjos de cúpula e articulações de bastidor pesam mais do que o debate sobre segurança, desenvolvimento, reconstrução fiscal e capacidade de investimento.
Não se trata apenas de trocar um nome por outro. O que está em disputa é o controle de uma máquina estadual estratégica, em um momento em que o estado precisaria discutir coordenação metropolitana, reindustrialização, investimento público e recuperação administrativa.
Em vez disso, o Rio permanece preso a uma lógica de sobrevivência política. A cassação de Bacellar não encerra a crise, apenas inaugura uma fase mais rápida, mais tensa e mais imprevisível.
A decisão do Tribunal Superior Eleitoral também reforça o papel das instituições eleitorais na contenção de abusos de poder. Em um ambiente no qual setores da direita frequentemente tentam deslegitimar tribunais e atacar os freios institucionais da democracia, o caso mostra o sistema de Justiça funcionando como barreira a arranjos questionáveis.
Para a Assembleia, o desafio imediato é evitar que a disputa interna aprofunde a paralisia. A eleição do novo presidente da Casa será, na prática, o primeiro grande teste de força após a queda de Bacellar.
Para o Rio, a mensagem é mais severa. A sucessão conflagrada revela um estado ainda refém de pactos frágeis, personalismos e operações de curto prazo.
Com a cassação imediata confirmada, o relógio político fluminense foi acelerado. E a presidência da Assembleia deixou de ser apenas um cargo legislativo para se tornar a arena decisiva do poder no estado.
Curadoria: Augusto Gomes | Redação: Afonso Santos


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