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Zelenskiy confirma que EUA exigem território ucraniano em troca de proteção

Volodymyr Zelenskiy confirmou à Reuters o que a grande mídia ocidental se recusava a dizer com clareza: os Estados Unidos condicionam garantias de segurança a concessões territoriais da Ucrânia. A frase é quase didática na sua brutalidade. Proteção em troca de território. Segurança em troca de concessão. Apoio em troca de adequação ao interesse do […]

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O presidente Donald Trump aperta a mão do secretário de Defesa Pete Hegseth ao chegar para falar com líderes militares seniores na Base do Corpo de Fuzileiros Navais de Quantico em 30 de setembro de 2025, em Quantico, Virgínia. Andrew Harnik/Getty Images

Volodymyr Zelenskiy confirmou à Reuters o que a grande mídia ocidental se recusava a dizer com clareza: os Estados Unidos condicionam garantias de segurança a concessões territoriais da Ucrânia.

A frase é quase didática na sua brutalidade.

Proteção em troca de território. Segurança em troca de concessão. Apoio em troca de adequação ao interesse do centro imperial.

A crise ucraniana foi vendida ao público europeu e latino-americano como uma epopeia moral simples, com mocinhos absolutos de um lado e vilões absolutos do outro.

A realidade, como quase sempre acontece nas guerras tuteladas por Washington, era mais cínica.

A Ucrânia foi transformada em peça de uma disputa geopolítica maior, subordinada à estratégia atlântica e à lógica de desgaste contra a Rússia.

Agora, quando o custo sobe e o foco americano se desloca, a soberania ucraniana aparece pelo que de fato se tornou nesse arranjo: uma variável de negociação.

Zelenskiy afirmou à Reuters que Donald Trump pressiona mais o lado ucraniano do que o russo.

A declaração desmonta a tese confortável, repetida pela grande mídia, de que os Estados Unidos seriam um protetor desinteressado da segurança europeia.

Não se trata apenas do estilo mais duro de Trump.

Trata-se de um padrão estrutural da política externa americana.

Washington apoia intensamente seus parceiros enquanto eles servem a uma arquitetura maior de poder.

Quando a correlação de forças muda, quando outra frente exige mais atenção ou quando o custo político e militar começa a pesar, esse apoio passa a ser calibrado com frieza contábil.

Zelenskiy agradeceu a continuidade do envio de sistemas Patriot, mas admitiu que o volume está longe do necessário.

A torneira continua aberta, porém em regime de administração política.

Esse detalhe é central.

O poder americano não se exerce apenas pela intervenção direta, mas pela capacidade de regular a intensidade da guerra, o ritmo do apoio, o grau da proteção e o horizonte da negociação.

A Ucrânia, nesse modelo, não decide plenamente seu destino.

Ela reage aos limites impostos pelo seu patrocinador principal.

Outro ponto revelador da entrevista é a conexão explícita com o Oriente Médio.

Segundo Zelenskiy, a crise envolvendo o Irã impactou os próximos passos de Trump, adiou nova rodada de negociações e alterou a hierarquia de prioridades de Washington.

A grande mídia costuma tratar esses teatros de crise como compartimentos separados.

Não são.

Ucrânia, Oriente Médio, pressão sobre o Irã, reorganização militar e diplomática dos Estados Unidos: tudo faz parte da mesma tentativa de gestão de uma hegemonia em desgaste.

O problema para Washington é que essa hegemonia já não dispõe da folga material, política e moral que teve em outros momentos históricos.

Os Estados Unidos continuam perigosos, continuam poderosos, continuam capazes de destruir e constranger.

Mas já não conseguem sustentar simultaneamente, com a mesma eficácia, múltiplas frentes de pressão global, sem custos crescentes e sem contradições cada vez mais visíveis.

A cobertura dominante tentará personalizar tudo em Trump.

Dirá que o problema é seu temperamento, sua brutalidade negocial, sua impaciência.

Isso é conveniente, mas insuficiente.

O trumpismo apenas torna mais visível um mecanismo que já operava antes, com linguagem mais polida.

A lógica sempre foi instrumental.

A diferença é que agora ela aparece sem maquiagem.

Zelenskiy insiste que ceder território comprometeria a segurança da Ucrânia e da própria Europa.

Do ponto de vista de Kiev, faz sentido.

Mas o dado mais importante, para observadores do Sul Global, é outro.

A guerra mostra como países que entram de forma subordinada na engrenagem estratégica do eixo atlântico acabam perdendo margem de decisão justamente quando mais precisam dela.

Essa é uma lição que o Brasil deve observar com máxima atenção.

Soberania não se terceiriza.

Segurança nacional não pode depender da boa vontade de potências que mudam de prioridade conforme suas conveniências eleitorais, militares e energéticas.

Desenvolvimento, autonomia tecnológica, capacidade diplomática e inserção multipolar continuam sendo os únicos caminhos minimamente racionais para países que não desejam virar ficha de cassino geopolítico.

A tragédia ucraniana não começou agora, nem se resume à personalidade de um presidente americano.

Ela expõe o esgotamento de uma ordem internacional em que Washington pretendia arbitrar tudo, financiar tudo, pressionar todos e sair sempre por cima.

Esse tempo está acabando.

E quanto mais ele acaba, mais seus aliados descobrem que o guarda-chuva imperial tem prazo, condição e cláusula escondida.

Curadoria: Augusto Gomes | Redação: Afonso Santos | Revisão: Pierre Arnaud

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