Volodymyr Zelenskiy confirmou à Reuters o que a grande mídia ocidental se recusava a dizer com clareza: os Estados Unidos condicionam garantias de segurança a concessões territoriais da Ucrânia.
A frase é quase didática na sua brutalidade.
Proteção em troca de território. Segurança em troca de concessão. Apoio em troca de adequação ao interesse do centro imperial.
A crise ucraniana foi vendida ao público europeu e latino-americano como uma epopeia moral simples, com mocinhos absolutos de um lado e vilões absolutos do outro.
A realidade, como quase sempre acontece nas guerras tuteladas por Washington, era mais cínica.
A Ucrânia foi transformada em peça de uma disputa geopolítica maior, subordinada à estratégia atlântica e à lógica de desgaste contra a Rússia.
Agora, quando o custo sobe e o foco americano se desloca, a soberania ucraniana aparece pelo que de fato se tornou nesse arranjo: uma variável de negociação.
Zelenskiy afirmou à Reuters que Donald Trump pressiona mais o lado ucraniano do que o russo.
A declaração desmonta a tese confortável, repetida pela grande mídia, de que os Estados Unidos seriam um protetor desinteressado da segurança europeia.
Não se trata apenas do estilo mais duro de Trump.
Trata-se de um padrão estrutural da política externa americana.
Washington apoia intensamente seus parceiros enquanto eles servem a uma arquitetura maior de poder.
Quando a correlação de forças muda, quando outra frente exige mais atenção ou quando o custo político e militar começa a pesar, esse apoio passa a ser calibrado com frieza contábil.
Zelenskiy agradeceu a continuidade do envio de sistemas Patriot, mas admitiu que o volume está longe do necessário.
A torneira continua aberta, porém em regime de administração política.
Esse detalhe é central.
O poder americano não se exerce apenas pela intervenção direta, mas pela capacidade de regular a intensidade da guerra, o ritmo do apoio, o grau da proteção e o horizonte da negociação.
A Ucrânia, nesse modelo, não decide plenamente seu destino.
Ela reage aos limites impostos pelo seu patrocinador principal.
Outro ponto revelador da entrevista é a conexão explícita com o Oriente Médio.
Segundo Zelenskiy, a crise envolvendo o Irã impactou os próximos passos de Trump, adiou nova rodada de negociações e alterou a hierarquia de prioridades de Washington.
A grande mídia costuma tratar esses teatros de crise como compartimentos separados.
Não são.
Ucrânia, Oriente Médio, pressão sobre o Irã, reorganização militar e diplomática dos Estados Unidos: tudo faz parte da mesma tentativa de gestão de uma hegemonia em desgaste.
O problema para Washington é que essa hegemonia já não dispõe da folga material, política e moral que teve em outros momentos históricos.
Os Estados Unidos continuam perigosos, continuam poderosos, continuam capazes de destruir e constranger.
Mas já não conseguem sustentar simultaneamente, com a mesma eficácia, múltiplas frentes de pressão global, sem custos crescentes e sem contradições cada vez mais visíveis.
A cobertura dominante tentará personalizar tudo em Trump.
Dirá que o problema é seu temperamento, sua brutalidade negocial, sua impaciência.
Isso é conveniente, mas insuficiente.
O trumpismo apenas torna mais visível um mecanismo que já operava antes, com linguagem mais polida.
A lógica sempre foi instrumental.
A diferença é que agora ela aparece sem maquiagem.
Zelenskiy insiste que ceder território comprometeria a segurança da Ucrânia e da própria Europa.
Do ponto de vista de Kiev, faz sentido.
Mas o dado mais importante, para observadores do Sul Global, é outro.
A guerra mostra como países que entram de forma subordinada na engrenagem estratégica do eixo atlântico acabam perdendo margem de decisão justamente quando mais precisam dela.
Essa é uma lição que o Brasil deve observar com máxima atenção.
Soberania não se terceiriza.
Segurança nacional não pode depender da boa vontade de potências que mudam de prioridade conforme suas conveniências eleitorais, militares e energéticas.
Desenvolvimento, autonomia tecnológica, capacidade diplomática e inserção multipolar continuam sendo os únicos caminhos minimamente racionais para países que não desejam virar ficha de cassino geopolítico.
A tragédia ucraniana não começou agora, nem se resume à personalidade de um presidente americano.
Ela expõe o esgotamento de uma ordem internacional em que Washington pretendia arbitrar tudo, financiar tudo, pressionar todos e sair sempre por cima.
Esse tempo está acabando.
E quanto mais ele acaba, mais seus aliados descobrem que o guarda-chuva imperial tem prazo, condição e cláusula escondida.
Curadoria: Augusto Gomes | Redação: Afonso Santos | Revisão: Pierre Arnaud


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