Ao menos 17 instalações atingidas, radares bilionários destruídos e milhares de soldados deslocados para hotéis: os fatos que a cobertura convencional tenta diluir.
Há momentos em que a propaganda imperial perde a disputa para os fatos.
O que começa a emergir, a partir de relatos do New York Times, da BBC, da Reuters, da Al Jazeera e de análises de imagens de satélite, é perturbador.
Os ataques iranianos às bases dos Estados Unidos no Oriente Médio produziram um dano estratégico muito mais profundo do que a cobertura convencional gostaria de admitir.
Não estamos falando de um incidente periférico, nem de um simples contratempo operacional.
Ao menos 17 instalações americanas foram atingidas em vários países, com 13 delas descritas como inabitáveis ou severamente danificadas. Milhares de militares foram deslocados para hotéis e escritórios improvisados na região.
Esse detalhe é devastador, política e simbolicamente. O império que vende ao mundo a imagem de onipresença militar foi obrigado a adaptar sua presença terrestre a uma guerra remota, improvisada, fragmentada e defensiva.
É claro que a máquina de guerra americana não desapareceu. O próprio material reunido indica que pilotos e equipes de aviação seguem operando e que os ataques aéreos dos Estados Unidos não foram interrompidos.
Mas justamente aí está o ponto que a grande mídia tenta diluir. A questão não é saber se Washington ainda tem capacidade de destruir, porque tem. A questão é que sua infraestrutura regional, durante décadas apresentada como intocável, mostrou vulnerabilidades reais, simultâneas e caras.
As estimativas de prejuízo, segundo o conjunto de fontes citado no material analisado, vão de 800 milhões de dólares nas primeiras semanas a valores próximos de 2 bilhões de dólares. Não se trata apenas de prédios atingidos, mas de radares estratégicos, sistemas antimísseis, terminais de satélite, drones e aeronaves de alto valor.
O caso do radar AN/FPS-132 no Qatar, estimado em 1,1 bilhão de dólares, é emblemático. Quando um ativo desse porte entra na lista de danos, a conversa já saiu do terreno da escaramuça e entrou no da erosão material de capacidade militar.
Foram relatados impactos em bases no Kuwait, Qatar, Emirados Árabes, Bahrein, Arábia Saudita e Iraque. Atingir simultaneamente essa malha regional significa, antes de tudo, expor um limite histórico da projeção de poder dos Estados Unidos no Oriente Médio.
O analista Arnaud Bertrand resumiu isso em uma postagem que viralizou, ao observar que poucos adversários dos Estados Unidos conseguiram degradar a usabilidade de bases americanas em todo um teatro regional ao mesmo tempo. A formulação é forte, mas dialoga com algo que a própria imprensa ocidental está sendo obrigada a reconhecer, ainda que com relutância.
A narrativa dominante prefere enquadrar a crise pelos efeitos de mercado: petróleo, risco, inflação, bolsa, combustíveis, cadeias logísticas. Tudo isso importa, evidentemente.
Mas esse enquadramento econômico, quando isolado, funciona também como cortina de fumaça para evitar a pergunta principal: como a maior potência militar do planeta chegou ao ponto de ver parte relevante de sua rede regional ser danificada de maneira tão ampla?
A resposta passa pelo esgotamento da ordem unipolar. Os Estados Unidos continuam fortes, perigosos e destrutivos, mas já não conseguem impor a mesma aura de invulnerabilidade que marcou o pós-Guerra Fria.
A multipolaridade não nasce de discursos, e sim de fatos. Um fato central, hoje, é que potências e atores regionais já demonstram capacidade de impor custo, desgaste e contenção ao poder militar americano.
Não por acaso, surgem sinais de busca por desescalada. A notícia de que o Paquistão aguardava resposta à proposta dos Estados Unidos ao Irã para conter a guerra sugere um dado importante: Washington não está apenas atacando, está também sendo empurrado para a negociação.
Isso muda o ambiente geopolítico. Quando o império precisa negociar a partir de danos sofridos, e não apenas da força exibida, a correlação simbólica de poder se altera.
Para o Sul Global, porém, essa mudança não vem sem custo. A guerra no Oriente Médio já transbordou para a economia mundial, com pressão sobre energia, inflação e preços de combustíveis, com efeitos registrados desde o Brasil até o Chile.
É sempre assim. As aventuras militares e as arquiteturas de cerco montadas pelas grandes potências produzem lucros para complexos industriais e financeiros centrais, enquanto a conta chega em forma de combustível caro, insegurança externa e aperto social para as periferias.
Por isso, a posição correta para países como o Brasil não é a da adesão automática ao discurso de Washington. É a da prudência soberana, da diplomacia ativa e da recusa em importar enquadramentos jurídicos, militares e ideológicos fabricados no centro do sistema.
A notícia de que o Itamaraty se opôs à tentativa do governo Trump de enquadrar facções criminosas brasileiras como terrorismo deve ser lida nesse contexto mais amplo. Não é um detalhe burocrático.
É um gesto de defesa da soberania jurídica e política do país. Aceitar esse tipo de pressão abriria mais uma porta para a tutela externa sobre nossos assuntos internos.
O Brasil precisa olhar para essa crise com maturidade estratégica, sem neutralidade cínica e sem alinhamento servil. Nosso interesse nacional está na paz, na estabilidade energética, no fortalecimento do direito internacional e numa ordem multipolar em que o Sul Global tenha voz real.
Isso exige, antes de tudo, abandonar a fantasia de que a presença militar americana é sinônimo de estabilidade. No Oriente Médio, como os fatos agora escancaram, essa presença tem sido parte do problema e começa também a deixar de ser a solução que a propaganda vendia.
Curadoria: Augusto Gomes | Redação: Afonso Santos | Revisão: Pierre Arnaud


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