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Emirados Árabes Unidos rompem com a Opep e expõem divisões no cartel petrolífero

67 Comentários🗣️🔥 Ilustração editorial sobre Emirados Árabes Unidos rompem com a Opep e expõem divisões no cartel petrolífero. (Ilustração: Cafezinho / Flux Pro) Os Emirados Árabes Unidos decidiram abandonar oficialmente a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, reconfigurando as dinâmicas de poder no mercado internacional de energia. A decisão reflete a defesa dos interesses econômicos […]

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Ilustração editorial sobre Emirados Árabes Unidos rompem com a Opep e expõem divisões no cartel petrolífero. (Ilustração: Cafezinho / Flux Pro)

Os Emirados Árabes Unidos decidiram abandonar oficialmente a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, reconfigurando as dinâmicas de poder no mercado internacional de energia.

A decisão reflete a defesa dos interesses econômicos nacionais do país do Golfo Pérsico. Abu Dhabi investiu bilhões de dólares para aumentar sua capacidade produtiva de três para cinco milhões de barris diários até o próximo ano.

Os emiradenses acumularam insatisfação com a imposição de cotas de produção pelos membros da organização. Essas cotas visam estabilizar os preços globais do petróleo.

A medida surge em um período de grande volatilidade geopolítica e de suprimentos energéticos. Especialistas analisam as consequências para o equilíbrio do mercado global.

O impacto comercial imediato da retirada deve ser contido, segundo analistas do setor. As exportações regionais permanecem afetadas por controles no transporte marítimo.

Atualmente os Emirados Árabes Unidos escoam cerca de 1,7 milhão de barris diários de combustível refinado pelo terminal de Fujairah. Essa instalação está localizada no Golfo de Omã e oferece uma rota alternativa ao Estreito de Ormuz.

Caso o tráfego comercial seja normalizado, a nação planeja elevar sua produção em 1,6 milhão de barris por dia. A análise foi detalhada pela Al Jazeera em reportagem sobre a crise nos mercados energéticos.

O estrategista de energia do centro Ember Future, Kingsmill Bond, considera que Abu Dhabi pretende maximizar suas vendas de combustíveis fósseis antes que a transição energética reduza a lucratividade das reservas. A avaliação aponta para uma corrida contra o tempo no setor.

Essa estratégia comercial difere da visão da Arábia Saudita sobre o tema. O reino apoia a continuidade de cortes na produção para preservar a rentabilidade do barril.

O ex-conselheiro sênior de assuntos petrolíferos do governo saudita, Mohammad al-Sabban, minimizou o potencial de desestabilização. Al-Sabban declarou que a saída de um único país não abala o bloco ampliado do Opep+, composto por vinte e três nações.

A Opep foi criada na década de 1960 por produtores como Arábia Saudita, Kuwait, Irã, Iraque e Venezuela. O cartel demonstrou resiliência em múltiplas crises ao longo de sua história.

O diretor-executivo da consultoria Qamar Energy, Robin Mills, citou a crise de preços de 2014 e a pandemia como testes superados pelo grupo. Mills defende a relevância contínua da organização para a gestão coletiva do mercado.

O caso evidencia uma fratura entre os modelos adotados por Abu Dhabi e Riade. As diferenças abrangem desde prioridades comerciais até abordagens diplomáticas regionais.

O pesquisador associado do Middle East Institute, Gregory Gause III, relacionou o episódio às tensões políticas latentes no Golfo. Gause III destacou o desafio crescente para a coordenação árabe no setor energético.


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Luciana Costa

30/04/2026

A saída dos Emirados mostra que a unidade de qualquer cartel dura exatamente até o momento em que os interesses nacionais exigem outra rota — uma lição útil tanto para quem demonizava a OPEP como um bloco monolítico quanto para quem a imaginava uma frente eterna de solidariedade entre produtores. O pragmatismo prevaleceu, mas seria ingênuo minimizar o estrago geopolítico dessa fragmentação.

Mariana Lopes

30/04/2026

A saída dos Emirados diz mais sobre pragmatismo econômico do que sobre ideologia. Eles perceberam que ficar preso a cotas coletivas limita o crescimento num momento em que diversificar receita é urgente. Não vejo vilões nem heróis nessa história, só países fazendo o que sempre fizeram: defendendo o próprio bolso. Quem acha que cartel é monolítico nunca precisou negociar orçamento com sócio.

Maria Clara Lopes

30/04/2026

Até entendo o tom de alguns comentários aqui, mas acho que tanto demonizar a OPEP quanto tratar essa ruptura como um grande levante anti-imperialista é simplificar demais. Os Emirados saíram porque os interesses deles mudaram, ponto — alianças econômicas são voláteis por natureza, e cartéis sempre tiveram dissidências internas quando o preço ou a cota não agradam. O curioso é como a galera transforma qualquer decisão de mercado num divã geopolítico pra projetar as próprias ideologias.

Ana Karine Xavante

30/04/2026

Quando a gente olha pra essa ruptura dos Emirados com a OPEP, fica muito claro que o que está em jogo não é só uma disputa de mercado ou de cotas de produção. O que essa decisão escancara é o esgotamento de um modelo civilizatório que sempre tratou a Terra como fonte inesgotável de lucro e os territórios dos povos originários como zonas de sacrifício. Como indígena, eu enxergo nesse racha muito mais do que geopolítica do petróleo: vejo o desespero de nações inteiras tentando se agarrar às últimas gotas de um sistema que está literalmente queimando o futuro dos nossos corpos-territórios. O colonialismo estrutural que fundou a economia do petróleo nunca perguntou aos povos das florestas, dos rios, dos desertos se estávamos de acordo em ter nossas vidas transformadas em externalidades contábeis. E agora, quando as contradições internas do império fóssil vêm à tona, seguem sem nos perguntar nada.

A Fernanda tocou num ponto essencial quando lembrou que os trabalhadores precarizados e os países do Sul Global nunca puderam escolher o próprio pasto. Isso é exatamente o que meu povo vive há mais de quinhentos anos. A diferença é que, para nós, povos indígenas, a metáfora do pasto é literal: são nossos territórios que são cercados, invadidos, envenenados por oleodutos e pela mineração que alimenta essa máquina de combustão. A decisão dos Emirados pode ser lida como soberania nacional, como defesa de interesses próprios, e de fato é. Mas também é a perpetuação de uma lógica extrativista que, independentemente de quem controle o cartel, segue condenando os ecossistemas e as populações mais vulneráveis à devastação. O Norte Global, os próprios Emirados com sua riqueza construída sobre hidrocarbonetos, e agora os países emergentes do Sul que ainda sonham com o mesmo modelo de “desenvolvimento” — todos estão no mesmo barco furado, enquanto os povos indígenas somos os primeiros a sentir a água entrando, e seremos os últimos a encontrar um lugar seguro.

E depois aparece o Capitão Tavares, com aquela solução caricata de chamar o Exército pra “botar ordem” no preço da gasolina, como se a crise civilizatória que a gente enfrenta pudesse ser resolvida na base do tanque e do fuzil. O problema não é falta de ordem, Capitão. O problema é ordem demais — a ordem colonial, a ordem patriarcal, a ordem do capital que transforma tudo, inclusive sua indignação com o preço do combustível, em justificativa pra mais autoritarismo. A ironia é que o senhor clama por intervenção estatal violenta justamente num contexto onde quem está rompendo o suposto cartel o faz em nome da liberdade de mercado nacional. Isso só mostra como a direita não tem projeto de país: ela oscila entre o liberalismo de fachada e o intervencionismo militarista conforme conveniência, e em ambos os casos quem perde é o povo — especialmente os povos que nunca tiveram voz nas decisões sobre que tipo de energia ilumina suas casas.

Essa discussão precisa ir muito além da cotação do barril de petróleo. A ruptura na OPEP deveria ser um alerta para a transição energética que, sem justiça social e sem o respeito aos territórios indígenas, vai apenas replicar o colonialismo com novas roupagens. As mesmas corporações que hoje disputam fatias do petróleo amanhã vão disputar os minerais raros para baterias, as terras para parques eólicos que desrespeitam comunidades tradicionais, a água para hidrelétricas que alagam nossos cemitérios e nossos modos de vida. Não me interessa se o cartel é liderado por sauditas, russos ou americanos: a raiz do problema é a ideia de que podemos seguir extraindo, queimando, consumindo e descartando como se a Terra fosse nossa propriedade. Ela não é. Ela é nossa mãe. E enquanto o debate continuar preso nos interesses nacionais de quem lucra com a morte do planeta, nós, povos originários, seguiremos resistindo e lembrando que a verdadeira ruptura não é entre membros da OPEP, mas entre um sistema necrófago e a teia da vida que ele insiste em destruir.

Márcio Torres

30/04/2026

A ironia aqui é quase didática demais. Durante décadas, o discurso dominante no Ocidente tratou a OPEP como uma espécie de entidade monolítica e maligna — um “cartel” no sentido pejorativo que o termo carrega no imaginário liberal, como se fosse uma conspiração organizada contra o consumidor inocente. Agora que um dos membros mais relevantes decide pular fora do barco por puro cálculo de interesse nacional, o mesmo discurso fica desnorteado: afinal, o que acontece quando o “clube dos vilões” se revela apenas um ajuntamento instável de Estados com interesses contraditórios? Some-se a isso o fato de que os Emirados Árabes estão apostando pesado em diversificação econômica e transição energética — pelo menos no discurso oficial — enquanto mantêm uma produção robusta de petróleo. É uma contradição que não deveria surpreender ninguém que entende geopolítica como ela é, não como gostaríamos que fosse: oximoros estratégicos são o padrão, não a exceção.

O que torna esse episódio particularmente saboroso é observar a reação de quem insiste em atribuir motivações morais ou “civilizacionais” a decisões econômicas. Os Emirados não estão rompendo com a OPEP porque aderiram a algum tipo de iluminação liberal ou porque se convenceram dos males do rentismo petrolífero. Estão fazendo isso porque a estrutura de cotas da organização, na configuração atual, deixou de servir aos seus interesses de curto e médio prazo. É a mesma lógica que levou a Arábia Saudita a iniciar uma guerra de preços em 2020 para estrangular produtores de xisto americanos, ou que fez a Rússia colaborar com o corte de produção quando lhe convinha e furar o acordo quando a matemática mudou. Quem busca princípios imutáveis ou lealdades eternas nesse tabuleiro está, para usar uma expressão que o Cláudio saberia apreciar, confundindo o mapa com o território — ou pior, confundindo o território com um texto sagrado.

A intervenção do Capitão Tavares, com seu pedido patético por intervenção militar para resolver inflação de combustíveis, é um sintoma clássico de como o pensamento autoritário brasileiro sequer consegue processar eventos internacionais sem reduzi-los a uma fantasia doméstica de ordem. Não deixa de ser curioso: o mesmo arquétipo que clama por “mão firme” do Estado e despreza “globalistas” não percebe que flutuações de preço de commodities são, em grande medida, o resultado mais puro da lógica de mercado que ele diz defender. A gasolina cara não é um complô — é o subproduto de um sistema que ele próprio aplaude quando o preço está baixo. Sofia García capturou bem o ridículo da situação, mas talvez tenha sido generosa demais ao tratá-la como mero meme: há aí uma falha cognitiva profunda que explica muito do desastre político brasileiro recente, essa incapacidade de entender que tanques não fabricam barris de petróleo nem domam curvas de oferta e demanda.

Enquanto isso, a metáfora do “cada um cuida do seu curral”, que desencadeou boa parte da thread, merece ser dissecada sem condescendência. Fernanda tem razão ao apontar seu uso seletivo, mas o problema vai além: a metáfora só funciona se ignorarmos que os pastos estão interconectados de maneiras que desmentem qualquer ilusão de soberania autônoma. Os Emirados podem até cuidar do seu curral saindo da OPEP, mas continuarão vulneráveis às mesmas pressões estruturais — demanda global, transição energética, instabilidade no Golfo Pérsico. É exatamente isso que torna a geopolítica um objeto tão refratário a narrativas morais simplificadoras e tão fascinante para quem se dispõe a analisá-la sem muletas ideológicas. A saída dos Emirados não é um triunfo da soberania nacional, como alguns gostariam de pintar, nem uma evidência de que o multilateralismo está fadado ao fracasso — é apenas um lembrete de que cartéis, alianças e organismos internacionais duram exatamente enquanto servem aos interesses materiais de quem detém poder de veto. O resto é mitologia para consumo interno.

Sofia García

30/04/2026

O Capitão pedindo Exército pra regular cotação de petróleo é o crossover que ninguém pediu entre liberalismo de quartel e meme de zap dos anos 80. Só se for tanque pra garantir que a gasolina chegue a 10 reais com ordem e progresso.

Capitão Tavares 🇧🇷

30/04/2026

Isso é cortina de fumaça pra disfarçar que o Brasil tá sendo rifado enquanto meia dúzia de globalistas brincam de cartel. O país afundando em inflação, combustível nas alturas e essa turma debatendo metáfora de curral. Tá na hora do Exército mostrar pra que serve e botar ordem nesse hospício antes que sobre só farelo pro povo.

Fernanda Oliveira

30/04/2026

Gente, essa romantização do “cada um cuida do seu curral” só cola quando convém pro Norte Global, né? Quem tá na base da pirâmide petrolífera – trabalhadores precarizados, países do Sul explorados – nunca pôde escolher o próprio pasto. Mas quando são eles rompendo acordo, a gente aplaude como “realismo” em vez de chamar de sabotagem coletiva.

Marina Costa

29/04/2026

A irmã Maria Aparecida foi direto ao que importa: o amor ao dinheiro é a raiz de toda essa confusão. Enquanto esses poderosos disputam quem leva a maior fatia, a família trabalhadora segue pagando o pato com gasolina cara e orçamento apertado.

Maria Silva

29/04/2026

Rubens, esse papo de tempo do Lula com gasolina barata é igual vaca gorda em ano de chuva: muita gente acha que foi mérito do capataz, mas foi só o pasto que ajudou. Agora o que os Emirados fizeram é o óbvio: ninguém engorda boi pros outros venderem mais carne, cada um cuida do seu curral.

    Cláudio Ribeiro

    29/04/2026

    Maria, sua metáfora é perspicaz, mas há um perigo nessa naturalização do “cada um cuida do seu curral”: é justamente assim que a racionalidade neoliberal se infiltra no senso comum, como Foucault descreveu ao analisar a biopolítica. Reduzir a geopolítica do petróleo a um egoísmo natural é esquecer que até a ideia de “curral” é uma construção histórica de poder — e que políticas públicas, como as que mantiveram a gasolina artificialmente barata no passado, podem sim ser instrumentos de soberania popular.

Rubens O Pescador

29/04/2026

Pois é, dona Ana, falar bonito em geopolítica e equilíbrio de Nash não enche tanque de ninguém. No tempo do Lula a gasolina tava barata, a gente enchia o carro e ainda sobrava dinheiro pro churrasco do fim de semana, coisa que hoje é luxo. Essa turma que fica explicando crise com termo chique esquece que o povo só quer saber se o salário dá pro gás de cozinha e se a picanha volta pro carrinho.

Maria Aparecida

29/04/2026

A Ana Rodrigues foi no ponto: a gente se mata de trabalhar e o preço nunca baixa pra nós. Essa dança das cadeiras entre países ricos é só mais um capítulo da ganância de quem sempre lucrou em cima do suor alheio, e a Bíblia já diz que o amor ao dinheiro é raiz de muitos males. Oro por um mundo onde o petróleo não seja arma de opressão nas mãos de poucos e o pobre pare de bancar a festa dos poderosos.

Ana Rodrigues

29/04/2026

Tudo isso de geopolítica, equilíbrio de Nash, cartel… e na bomba o preço continua igualzinho. Acordo 5 da manhã, rodo 12 horas e o litro da gasolina não baixa nem se eu fizer uma oferenda pra São Cristóvão. Mas pelo menos agora sei que a culpa é do equilíbrio de Nash, não do governo — tô mais tranquilo.

Lucas Alves

29/04/2026

Adoro quando tentam vestir de “geopolítica profunda” algo que é só um equilíbrio de Nash se resolvendo em tempo real. Cartel só se sustenta enquanto ninguém tem incentivo pra furar o combinado — assim que o preço ou a demanda oscila, acabou a festa. Mas fofo ver o pessoal do “free market na veia” comemorando sem perceber que os Emirados têm uma estatal monopolizando o setor, né?

Cíntia Ribeiro

29/04/2026

O rompimento unilateral dos Emirados com a OPEP é um exemplo didático de como arranjos institucionais baseados em coordenação de preços tendem a se desintegrar quando os interesses nacionais de curto prazo passam a divergir dos compromissos coletivos. A estrutura do cartel sempre dependeu de uma frágil convergência entre países com capacidades e objetivos assimétricos, e a saída de um membro relevante expõe o dilema permanente entre soberania e cooperação. Mais do que um realinhamento tático, o gesto sinaliza um possível esgotamento do modelo de governança petrolífera que estruturou o mercado global nas últimas décadas.

Nadia Petrova

29/04/2026

Finalmente alguém entendeu que cartel é um relicário de economias planificadas, não de mercado. Os Emirados estão apenas fazendo o que qualquer país sensato faria: proteger o próprio bolso em vez de bancar o clube do barril alheio. Mas prepare-se para o coro dos nacionalistas autoritários que adoram “soberania” até vê-la exercida por quem não reza na cartilha deles.

Carlos Henrique Silva

29/04/2026

A leitura que Letícia Fernandes esboçou no início desta thread é precisa, mas acho que podemos ir além. Quando um país como os Emirados Árabes Unidos abandona a OPEP, não estamos apenas diante de um gesto de soberania ou de um simples realinhamento tático. Estamos testemunhando uma fissura profunda na arquitetura do capitalismo petrolífero mundial, algo que merece ser analisado à luz da teoria do imperialismo. A OPEP, durante décadas, funcionou como um instrumento de coordenação entre Estados rentistas periféricos – uma espécie de cartel que, contraditoriamente, tentava impor alguma lógica política sobre a anarquia do mercado global de energia. O que vemos agora é a implosão desse arranjo, sob o peso da acumulação por despossessão em escala transnacional. Os Emirados não estão simplesmente defendendo seus interesses nacionais; eles estão, na verdade, optando por se integrar mais profundamente a um circuito financeiro globalizado que dispensa a mediação coletiva dos países exportadores. É a lógica do “cada um por si” elevada ao patamar de estratégia estatal.

O que está em jogo não é apenas o preço da gasolina na bomba, como bem apontou o João Carvalho com sua raiva legítima, mas sim uma recomposição das cadeias globais de valor que atinge diretamente o mundo do trabalho. A ruptura dos Emirados com a OPEP sinaliza o aprofundamento de uma guerra surda entre frações do capital: de um lado, o capital produtivo estatal petroleiro tradicional, ainda apegado a mecanismos de controle de oferta e preço; do outro, o capital financeiro globalizado, que busca fluidificar ao máximo as commodities energéticas, transformando cada barril de petróleo em ativo de especulação. Isso não é “free market”, como o Rodrigo RedPill celebra em seu delírio meritocrático de trader de sofá. Isso é o capital monopolista operando em sua forma mais predatória, exatamente como Lenin descreveu há mais de um século. A tal “liberdade” que o Rodrigo tanto exalta é justamente o que permite que meia dúzia de fundos de investimento em Wall Street lucrem com a volatilidade enquanto o trabalhador brasileiro se espreme no transporte público precário às quatro da manhã. O altar, como disse o João Carlos da Silva citando Gramsci, é de fato o mesmo – mas a liturgia mudou, e a idolatria ao mercado se tornou ainda mais cínica, porque agora se apresenta com ares de tecnologia e inovação.

E aqui chegamos ao ponto nevrálgico: o senso comum que naturaliza essa barbárie. O Gramsci que o João Carlos da Silva trouxe à conversa é essencial, e eu acrescentaria que estamos diante de um deslocamento hegemônico da própria noção de soberania energética. O que antes era vendido como “defesa dos interesses nacionais” através da OPEP agora é reempacotado como “liberdade econômica” e “flexibilidade estratégica”. Percebam o truque ideológico: a subserviência dos Emirados aos ditames do capital financeiro transnacional é apresentada como autonomia. Esta é a grande vitória do neoliberalismo sobre qualquer projeto de capitalismo de Estado autônomo na periferia. A ruptura não expõe apenas divisões internas do cartel; ela revela que as burguesias compradoras do Golfo finalmente decidiram abandonar por completo a fantasia de um desenvolvimento autocentrado, integrando-se definitivamente como plataformas de serviços financeiros e logísticos do império. Dubai não quer mais ser uma capital do petróleo; quer ser uma ilha artificial de especulação, um paraíso fiscal que suga as riquezas do Sul Global sem a necessidade de compensar os países irmãos da OPEP.

A colega Cristina Rocha, com sua análise sobre a concentração de renda, tocou na ferida certa, mas eu radicalizaria a crítica. Não é apenas sobre um modelo que “finge regular”. É sobre um sistema que, na sua essência, precisa da destruição de qualquer mecanismo de regulação coletiva para sobreviver. A OPEP, por mais imperfeita e contraditória que fosse – afinal, estamos falando de monarquias absolutistas exportadoras de petróleo, não de democracias operárias –, ainda representava algum tipo de obstáculo à plena financeirização do setor energético. O que os Emirados estão fazendo é dinamitar esse último dique. O resultado não será uma era de prosperidade liberalizante, mas sim uma intensificação dramática da instabilidade, com ciclos de preços ainda mais violentos que beneficiarão exclusivamente o capital especulativo. Para os países importadores do Sul Global, como o nosso Brasil, o cenário é de vulnerabilidade extrema: ficamos completamente expostos às oscilações de um mercado determinado não pela oferta e demanda reais, mas pelos algoritmos de trading e pelos movimentos geopolíticos de potências que nem sequer participam da OPEP.

Por isso, é crucial que a esquerda compreenda que o luto pela OPEP não deve ser um luto pela instituição em si, mas pelo fechamento de um ciclo histórico em que parecia possível, para os países periféricos, exercer algum controle soberano sobre seus recursos naturais. O que se anuncia no horizonte é uma nova fase do imperialismo energético, em que o controle não se dá mais pela chantagem da oferta via cartel, mas pela manipulação financeira absoluta dos preços e das rotas comerciais. A Ásia, e em especial a China, assiste a isso com atenção, pois sabe que sua segurança energética está agora mais dependente de contratos bilaterais e de uma arquitetura financeira que desafia o dólar. Mas para a imensa maioria dos trabalhadores do planeta, de São Paulo a Lagos, a implosão da OPEP significa apenas uma certeza: a extração de mais-valia global será acelerada, e a conta, como sempre, virá na forma de inflação, arrocho salarial e serviços públicos ainda mais esmagados. O resto é ideologia para consumo de aspirantes a rentista que sonham em enriquecer dando estocada no mercado enquanto o mundo queima.

Rodrigo RedPill

29/04/2026

Tão fazendo o certo, ué. Free market na veia, cada um por si e o estado mínimo que fala inglês — isso aí é o que eu chamo de smart move. Enquanto vocês choram por gasolina a 7 conto, eu to fazendo trade de petróleo em exchange internacional. Quem sabe faz ao vivo, quem não sabe fica aí dando pitaco em fórum.

    João Carlos da Silva

    29/04/2026

    Rodrigo, o seu “free market na veia” é puro Gramsci: hegemonia que naturaliza a selva como se fosse escolha, quando na verdade você só trocou a catraca do ônibus pelo aplicativo de trading — o altar é o mesmo. Quem realmente sabe faz ao vivo, como você diz, percebe que essa ruptura dos Emirados não é liberdade, é só a reacomodação dos donos do poço enquanto a plebe digital comemora as migalhas da volatilidade.

João Carvalho

29/04/2026

Os caras tão brigando por dinheiro no deserto e a gente aqui tomando no bolso com gasolina a 7 conto, governo que adora imposto e nunca entrega uma estrada decente. Sempre essa conversa de soberania e liberdade econômica, mas o trabalhador acorda 4 da manhã pra rodar e vê que cartel mesmo é esse sistema que suga a gente sem dó. Pelo menos os sheiks mandam a real, aqui é conchavo até nos postos de gasolina.

    Cristina Rocha

    29/04/2026

    João, sua indignação é absolutamente legítima. Ver o trabalhador brasileiro acordar às 4 da manhã para enfrentar transporte precário enquanto o combustível corrói o salário é o retrato mais brutal da falência de um modelo que finge regular, mas só concentra renda. No entanto, me preocupa quando você sugere que “os sheiks mandam a real”, como se a ruptura dos Emirados fosse um gesto de honestidade contra a hipocrisia. Isso me lembra uma perigosa armadilha ideológica que Rosa Luxemburgo já denunciava há mais de um século: a tentação de acreditar que frações do capital são “sinceras” quando, na verdade, todas estão disputando as mesmas condições de exploração, apenas por vias diferentes. A decisão de Abu Dhabi não é um ato de coragem contra o conchavo – é uma aposta calculada de que, enfraquecendo o cartel da OPEP, eles podem expandir seu próprio quinhão no mercado global às custas de outras economias petrodependentes, inclusive a nossa. Eles não estão rompendo com a lógica do rentismo extrativista; estão a sofisticando.

    A questão central aqui não é se a OPEP é um cartel hipócrita – claro que é, assim como qualquer arranjo entre Estados que visa controlar preços para beneficiar elites rentistas. Mas celebrar os Emirados como arautos da “soberania” é ignorar que eles operam com o mesmo manual do capitalismo colonial: extrair recursos finitos de territórios alheios (seja através de guerras, como no Iêmen, seja através de acordos bilaterais que subordinam nações africanas), concentrar a riqueza em fundos soberanos controlados por dinastias familiares e usar o discurso da liberdade econômica para desmantelar qualquer mecanismo coletivo que possa, ainda que timidamente, estabelecer um piso de preços que beneficie países produtores do Sul Global. Como nos ensina a teórica pós-colonial Vandana Shiva, a retórica do “livre mercado” sempre foi a máscara para o saque organizado daqueles que detêm o monopólio do capital e da tecnologia. A diferença é que os sheiks aprenderam a usar essa máscara melhor do que os burocratas da OPEP.

    E aqui chegamos ao ponto que nos une, João: o trabalhador que você descreve, que sente no bolso a gasolina a 7 reais, é a vítima final tanto da cartelização da OPEP quanto do liberalismo seletivo dos Emirados. Não se trata de escolher entre “conchavos” ou “liberdade” – trata-se de entender que ambas as faces do capitalismo financeirizado dependem da precarização da vida. O que a política de preços da Petrobras, atrelada ao mercado internacional, faz conosco é exatamente isso: transforma uma necessidade vital da classe trabalhadora – o transporte – em uma mercadoria de luxo, enquanto as elites locais, aliadas a governos que nunca entregam uma estrada decente, lucram com a desgraça alheia. Isso é o que a filósofa Nancy Fraser chama de “canibalismo capitalista”: um sistema que devora as próprias condições de reprodução social para manter a taxa de lucro. E não, os sheiks não estão acima disso. Eles patrocinam eventos esportivos e museus europeus enquanto mantêm um sistema brutal de exploração de trabalhadores migrantes, muitos dos quais são negros, asiáticos e africanos, sujeitos a regimes análogos à servidão. A “real” que eles mandam não é para nós, João – é para os acionistas dos fundos de investimento que aplaudem qualquer ruptura que prometa desregulação.

    Portanto, talvez o que precisemos fazer, como esquerda, não seja romantizar nenhum polo dessa disputa entre elites petrolíferas, mas sim politizar o fato de que a energia, como bem comum, jamais deveria estar sujeita a essa ciranda de chantagens geopolíticas. O conchavo nos postos de gasolina de que você fala não é diferente do conchavo que define o preço do barril em Londres ou Dubai: é tudo expressão da mesma lógica de acumulação por despossessão. A pergunta que fica, e que deveria nos unir para além das nossas divergências táticas, é: como construímos, na prática, um modelo energético que sirva ao trabalhador que acorda cedo, e não aos rentistas do petróleo, estejam eles sentados em palácios no deserto ou em gabinetes com ar condicionado em Brasília?

Letícia Fernandes

29/04/2026

Não deixa de ser sintomático que a cobertura midiática hegemônica apresente a ruptura dos Emirados Árabes Unidos com a Organização dos Países Exportadores de Petróleo como um gesto de afirmação soberana ou, no limite, como um mero lance de esperteza geopolítica. Há algo de profundamente revelador na pressa com que certos comentaristas — inclusive aqui nesta seção — celebram a decisão como se ela traduzisse uma espécie de despertar liberal tardio, uma vitória do pragmatismo contra o imobilismo cartelizado. Ora, o que se escamoteia nesse entusiasmo primário é precisamente a natureza da superestrutura que organiza e legitima essas escolhas. Os Emirados não estão rompendo com a lógica do capital fóssil; estão apenas reacomodando suas elites rentistas dentro de uma cadeia de valor que já não comporta o arranjo anterior sem perda relativa de competitividade. O rompimento não é com a cartelização em si, mas com a modalidade específica de cartelização que já não maximiza seus interesses de classe. A diferença é sutil, mas essencial para quem se dispõe a superar o senso comum liberal que reduz toda dinâmica institucional a um jogo de tabuleiro onde as peças se movem exclusivamente por arbítrio individual.

Reconheço na intervenção do Marcus Almeida — que associa a Opep a uma “corrupção organizada entre nações” — um exemplo clássico do curto-circuito epistemológico que a ideologia dominante produz quando confrontada com arranjos que, embora imperfeitos, ao menos operam sob alguma regulação interestatal. É curioso que o mesmo fetiche da pulverização absoluta do mercado seja brandido como virtude quando aplicado a commodities estratégicas, ao passo que a simples menção a qualquer coordenação pública no plano doméstico desperta arrepios de “planejamento central fracassado”. Essa assimetria discursiva não é acidental: ela expressa a funcionalidade psicopolítica do liberalismo em sua fase tardia, que precisa demonizar qualquer vestígio de soberania popular ao mesmo tempo que celebra, cínica e seletivamente, a soberania das monarquias do Golfo quando estas atuam para fragmentar instâncias multilaterais. Trata-se, em termos psicanalíticos, de uma formação reativa diante do horror ao comum: prefere-se o caos atomizado do mercado global a qualquer esboço de coordenação que aponte, ainda que remotamente, para a possibilidade de um sujeito político coletivo. Não por acaso, a esquerda é convocada a “chorar” sempre que denuncia essa lógica — como se a denúncia da barbárie fosse menos racional do que a adaptação entusiástica a ela.

O que a decisão dos Emirados efetivamente expõe, para além da fachada de realpolitik, é um estágio avançado de decomposição dos mecanismos de governança global do capital extrativo em um momento em que a crise climática já não pode ser gerida apenas com notas diplomáticas e metas voluntárias. O colapso civilizatório em curso — lembrado laconicamente pelo comentário do Luizinho 16, cuja ironia merece ser levada a sério — não admite soluções que passem pela aceleração competitiva da produção de petróleo como resposta à instabilidade dos preços. A ruptura dos Emirados não inaugura uma era de liberdade comercial virtuosa; ela sinaliza, isso sim, uma guerra de posições entre frações do capital petrolífero que percebem que a janela para realizar seus lucros extraordinários está se fechando. A soberania de que falam os apologetas é a soberania do curto prazo financeiro, da liquidação acelerada de ativos antes que a transição energética — ou o próprio desastre ambiental — imponha limites físicos incontornáveis à acumulação. Não há projeto civilizatório algum nessa “atitude”, como quer o Marcus; há apenas o instinto cego do capital que, quando acuado, devora os próprios arranjos institucionais que ele mesmo criou para se proteger.

E aqui chegamos ao cerne do problema para quem observa do Brasil. O comentário de Marcos Andrade, de Niterói, ainda que focado em uma questão de infraestrutura local, toca em um ponto nevrálgico ao contrastar a suposta agilidade do capital privado com a morosidade do planejamento público. É precisamente esse o ambiente ideológico que permite que a ruptura dos Emirados seja lida como um gesto de liberdade enquanto a reconstrução da capacidade estatal brasileira segue sendo criminalizada pelo mesmo campo político que aplaude o unilateralismo das petromonarquias. A questão metropolitana carioca não é um desvio do tema petrolífero, mas sua expressão local: a paralisia do investimento público em mobilidade, a dependência dos royalties para políticas sociais que deveriam ser financiadas por uma estrutura tributária progressiva, a chantagem permanente do setor de óleo e gás sobre os orçamentos estaduais — tudo isso compõe um ecossistema de dependência que a fragmentação da Opep tende a agravar, não a aliviar. Quando os Emirados rompem o cartel para competir por mercado, pressionam os preços para baixo no curto prazo, e quem depende de petróleo caro para equilibrar contas fiscais — como o estado do Rio de Janeiro — entra em pânico. Logo os mesmos liberais que hoje elogiam os Emirados estarão exigindo cortes ainda mais profundos nos serviços públicos para compensar a queda de arrecadação.

Termino retomando a observação perspicaz de Ana Souza, que pergunta sobre os acordos bilaterais prévios. É a única intervenção nesta thread que desconfia da narrativa de superfície e busca a arquitetura concreta dos interesses que sustentam a decisão. De fato, seria ingênuo supor que os Emirados romperam com a instituição sem antes tecer uma malha densa de contratos de fornecimento de longo prazo com compradores asiáticos, possivelmente em condições que incluem parcerias em refino, petroquímica e armazenagem — setores em que Abu Dhabi tem investido agressivamente para fugir da condição de mero exportador de matéria-prima bruta. A pergunta de Ana é a que faria um materialista histórico que se recusa a tomar o fetichismo da mercadoria por análise concreta. Enquanto o liberal segue encantado com o espetáculo do “rompimento” e o moralista de esquerda só consegue denunciar a imoralidade do petróleo, o trabalho analítico sério exige mapear a reconfiguração das cadeias de valor, os novos arranjos contratuais e, sobretudo, as consequências dessa reorganização para os países periféricos que seguem presos à maldição dos recursos naturais. É nesse silêncio — entre a celebração do individualismo soberano e a denúncia genérica — que a ideologia opera com mais eficácia, naturalizando o que deveria ser objeto de escrutínio implacável.

Ana Souza

29/04/2026

Seria interessante investigar quais acordos bilaterais os Emirados já costuraram antes de oficializar a ruptura. Esse tipo de movimento raramente acontece sem garantias prévias com compradores estratégicos. Alguém tem dados sobre os contratos de fornecimento assinados nos últimos seis meses?

Marcus Almeida

29/04/2026

Até os Emirados entenderam que soberania se exerce com atitude, não com discurso de cartel que só favorece quem vive de conchavo. A Opep nada mais é que corrupção organizada entre nações — e a esquerda tupiniquim chora porque perde o exemplo de “planejamento central” que tanto idolatra. Aqui no Brasil, enquanto a turma do estado inchado insiste em controlar até o preço da gasolina, esquece o básico: trabalho honesto e liberdade econômica são princípios que Deus abençoa.

    Marcos Andrade Niterói

    29/04/2026

    Marcus, essa liberdade econômica que você acha abençoada é a mesma que o governo estadual usa pra nunca tirar o metrô da Baía do papel, enquanto Niterói fica parada no trânsito. Aqui o Rodrigo Neves fez o túnel Charitas-Cafubá com planejamento público na veia — sem precisar de cartel ou conchavo de xeique. Talvez Deus abençoe mais quem entrega obra do que quem fica de pregação.

Karina Libertária

29/04/2026

Kkkkk esse povo nos comments chorando sobre idolatria e bezerro de ouro, parece que nunca fez um trade na vida. Os Emirados entenderam o game: cada um por si e profit acima de tudo, business is business. Enquanto isso o Brasil afunda nessa mentalidade de bolsa família e estado inchado, e a galera ainda quer cagar regra nos outros, whatever. Quem tem cabeça investe em Miami, here é another level, by the way.

    Luizinho 16

    29/04/2026

    Miami é logo ali, mas o colapso climático que esse petróleo lucra não tem passaporte, querida.

João Batista

29/04/2026

O irmão Tiago cutucou a ferida certa lá em cima. Trocar pacto coletivo por ganho imediato tem nome antigo: idolatria do bezerro de ouro. O que assusta é que essa lógica do “cada um por si” que o Jeferson sente na porta da fábrica é a mesma que agora dita a geopolítica do petróleo — e, no fim das contas, o pobre aqui de Salvador paga a gasolina mais cara enquanto sheik conta lucro em Dubai.

Jeferson da Silva

29/04/2026

Esse papo de “maximização de lucro” que o Carlos soltou ali em cima é o mesmo que a gente ouve na porta da fábrica quando o patrão quer arrochar salário e cortar adicional noturno. No chão da produção, a gente sabe bem o que essa lógica de “cada um por si” faz com quem realmente gera a riqueza — só precariza e mói o trabalhador.

Ana Costa

29/04/2026

A discussão aqui embaixo vai da idolatria à maximização de lucro, mas faltou um dado concreto: os Emirados já produziam abaixo da sua capacidade há meses, e a Opep insistia em cortes que não refletiam a realidade do mercado. Todavia, também é ingênuo achar que o nacionalismo econômico resolve tudo — os Emirados continuam dependentes do petróleo, e uma guerra de preços pode ser tão prejudicial quanto os cortes. No fim, a fratura expõe que o cartel só funciona quando convém a todos, e isso talvez seja a única certeza nesse jogo.

Tiago Mendes

29/04/2026

O que me assombra nessa conversa é a naturalidade com que se aceita que “maximizar lucro” seja virtude neutra. As Escrituras não chamam a cobiça de livre-iniciativa, chamam de idolatria — e quando uma nação troca qualquer pacto coletivo por ganho próprio imediato, o preço nunca aparece na planilha do empresário sensato, mas no prato vazio de quem já vive à margem. O profeta Amós tinha nome pra isso.

Carlos Rocha

29/04/2026

A turma aqui embaixo está caçando teoria de extrativismo e hierarquia racial onde a história é pura e simplesmente maximização de lucro. Os Emirados fizeram o que qualquer empresário sensato faria: pularam fora de um clube que só travava a produção deles com regra artificial. Cada um cuida do seu interesse nacional e o mercado se ajusta, sem precisar de cartel querendo ditar preço.

    Paulo Ribeiro

    29/04/2026

    Caro Carlos, o que me inquieta na sua intervenção não é a defesa do interesse próprio como motor da ação econômica – afinal, desde Mandeville sabemos que vícios privados podem ser alardeados como virtudes públicas – mas a naturalização dessa lógica como se ela fosse a evidência primeira do real, quando é precisamente o contrário: trata-se de uma construção histórica que se naturalizou por meio do que Gramsci chamaria de hegemonia, a capacidade de um bloco social fazer sua visão de mundo passar por senso comum. Sua frase central, “pura e simplesmente maximização de lucro”, carrega uma pretensão de assepsia ideológica que esconde a densidade das relações de força que permitem a certos agentes econômicos se apresentarem como empresários sensatos enquanto outros, em outras latitudes, são tratados como irracionais ou atrasados quando ousam planejar seus próprios recursos.

    A categoria “interesse nacional” que você emprega tampouco é transparente. Os Emirados Árabes não são uma pessoa jurídica de vontade una, mas um emaranhado de frações de classe, projetos de poder dinástico e inserção subordinada na divisão internacional do trabalho. Althusser nos ensinou a desconfiar da aparente obviedade dos sujeitos econômicos que povoam o discurso liberal: não existe o Emirado, como não existe o empresário genérico, fora do terreno das relações sociais de produção que os constituem. A “regra artificial” da Opep, longe de ser um estorvo burocrático, é também resultado de uma história concreta de países periféricos que, nos anos 1960 e 1970, tentaram romper com a lógica da pilhagem colonial e usar a renda petrolífera para projetos de desenvolvimento soberano – inclusive os próprios Emirados se beneficiaram dessa arquitetura de preços por décadas. Reduzir isso a um clube que atrapalha a liberdade de produzir é apagar a memória do que foi a luta pelo controle dos recursos naturais frente às majors anglo-americanas.

    Sua confiança de que “o mercado se ajusta, sem precisar de cartel querendo ditar preço” repousa sobre um mito de autorregulação que a história do capitalismo desmente a cada crise. Mariátegui, ao estudar a economia peruana, mostrou que nas formações sociais dependentes o mercado nunca foi esse espaço neutro de ajustamento, mas um campo minado por assimetrias de poder herdadas do colonialismo. Hoje, quando os Emirados rompem com a Opep e apostam em inundar o mercado com sua produção, não estão apenas exercendo uma racionalidade empresarial desinteressada: estão reposicionando-se em alianças geopolíticas, disputando a hegemonia regional com a Arábia Saudita e respondendo a pressões de Washington, que há décadas instrumentaliza o preço do petróleo como arma. O que você chama de maximização de lucro é, na verdade, a ponta visível de um complexo de determinações políticas que a ideologia liberal insiste em tratar como se fossem meras escolhas técnicas de portfólio.

    Por isso, o incômodo de Mariana, Laura e Mariana Santos não é exagero teórico, mas uma necessidade metodológica: descascar as camadas do imediato para revelar o que Althusser denominava a “causalidade estrutural” que sobredetermina os eventos. Aderir ao discurso da maximização como verdade última é operar o que a tradição crítica chama de reificação: transformar relações sociais historicamente contingentes em coisas naturais. Sua posição, portanto, não é apolítica, como pretende; ela realiza o trabalho político de neutralizar qualquer questionamento sobre quem ganha e quem perde com essas movimentações, e de interditar a pergunta sobre se o interesse nacional declarado pelos Emirados coincide, de fato, com o interesse das maiorias que vivem do trabalho naquela região. Uma filosofia que se queira à altura do presente não pode se contentar com a superfície contábil das coisas.

Mariana Santos

29/04/2026

Laura, tua provocação veio em boa hora. O que os Emirados escancaram não é uma simples cisão de clube de exportadores — é a fratura exposta de um regime de acumulação que, como lembra Andreas Malm, sempre vinculou capital fóssil a hierarquias raciais e neoextrativismo. Enquanto o Norte Global financia sua “transição verde” com minerais do Sul, o xadrez do Golfo mostra que as burguesias periféricas também aprenderam a chantagear com o colapso climático.

Laura Silva

29/04/2026

Mariana, tua intervenção foi um sopro de lucidez nessa thread — e justamente por teres desmontado a caricatura contábil do Eduardo com tanta precisão, sinto que vale a pena avançar um degrau na análise, porque o rompimento dos Emirados com a Opep não é apenas uma questão de “interesse nacional” ou de realinhamento pragmático: é um sintoma clássico das contradições internas do capitalismo monopolista em sua fase mais predatória. Quando Lênin analisou o imperialismo como fase superior do capitalismo, em 1916, já apontava que os cartéis internacionais — inclusive os de matérias-primas — não são blocos monolíticos movidos por solidariedade de classe ou geopolítica estável; são arranjos temporários entre capitais concorrentes, permanentemente tensionados pela queda tendencial da taxa de lucro e pela necessidade de repartir mercados de forma desigual. O que vemos agora é exatamente isso: um membro do cartel petrolífero conclui que as quotas de produção impostas coletivamente já não servem aos seus próprios planos de acumulação — planos que, diga-se de passagem, envolvem diversificação acelerada para setores imobiliários, financeiros e logísticos que dependem de um fluxo de receita ainda mais intensivo no curto prazo.

O ponto que me parece escapar tanto ao nacionalismo identitário do Ahmed quanto ao reducionismo liberal do Eduardo é que essa movimentação emiradense não é uma ruptura com a lógica imperialista, e sim uma reacomodação dentro dela. Os Emirados não estão abandonando o bloco histórico que os sustenta — estão migrando para uma posição mais confortável no xadrez energético global que, desde os choques do petróleo de 1973 e 1979, foi meticulosamente redesenhado para garantir que o controle final sobre preços e rotas de abastecimento jamais escape das mãos dos grandes centros financeiros ocidentais. Não por acaso, a decisão de abandonar a Opep ocorre num momento em que os Estados Unidos, sob qualquer administração, seguem pressionando por uma reconfiguração nas alianças do Golfo que isole ainda mais a resistência dos povos produtores que ousam usar o petróleo como instrumento de barganha política — pensemos na Venezuela bolivariana, no Irã sob sanções, na própria trajetória do Iraque destruído pela invasão de 2003. Abu Dhabi sabe que seu projeto de modernização autoritária, com parques tecnológicos e hubs financeiros, exige alinhamento com Washington e Tel Aviv, não com a solidariedade retórica de uma Opep que já não define os rumos do mercado como nos anos 1970.

E aqui entra a dimensão de classe que o comentário da Marta, com todo o respeito à experiência em sala de aula, ainda não explicitou. Quando falamos de “interesses nacionais” no contexto de monarquias absolutistas como a dos Emirados, estamos falando de interesses de uma fração minúscula da população — a família governante e seus sócios no capital transnacional — travestidos de interesse de Estado. Os trabalhadores migrantes que constroem Dubai, submetidos a regimes análogos à escravidão pelo sistema de kafala, não foram consultados sobre essa saída da Opep. As populações pobres do Iêmen, que sofrem há anos o bloqueio e os bombardeios da coalizão liderada justamente pelos Emirados e pela Arábia Saudita, tampouco. A decisão de romper com o cartel não tem nada de “soberania nacional” no sentido democrático e popular do termo; é soberania do capital financeiro emiradense sobre sua própria rota de acumulação, num momento em que a transição energética — por mais lenta e contraditória que seja — pressiona as petromonarquias a extraírem o máximo de valor antes que suas reservas percam centralidade estratégica.

O que me entristece, como professora que já debateu esse tema inúmeras vezes em sala de aula, é ver como mesmo setores críticos caem na armadilha de celebrar qualquer movimento que pareça desafiar “o sistema” — seja o sistema da Opep, seja o da ordem ocidental — sem analisar concretamente a quem serve esse desafio. A esquerda identitária que o Eduardo caricaturiza, e que de fato comete erros graves de análise ao romantizar automaticamente qualquer nação do Sul Global, precisa urgentemente recuperar a centralidade da categoria classe social e do imperialismo como sistema. A saída dos Emirados da Opep não enfraquece o imperialismo; ao contrário, fragmenta ainda mais a capacidade de coordenação dos países produtores periféricos e aprofunda a subordinação diferenciada de cada um deles aos centros financeiros. Que o diga a história trágica da Opep desde os anos 1980 — de cartel com pretensões soberanas a mero instrumento de gerenciamento de crises cíclicas do capital. A ilusão de que é possível “vencer sozinho” dentro das regras do jogo neoliberal é exatamente o tipo de ideologia que mantém os verdadeiros explorados — do chão de fábrica ao poço de petróleo — permanentemente desorganizados.

Marta

29/04/2026

Meus queridos, que alvoroço nos comentários entre meninos que descobriram agora o jogo do petróleo e já querem dar aula de geopolítica como se tivessem passado quarenta anos em sala de aula explicando a Guerra Fria. Calma, respirem fundo, que a professora aqui vai organizar essa bagunça didaticamente, sem perder a ternura jamais.

A Opep nunca foi um clube de solidariedade entre nações, e sim um instrumento de controle de preços criado em 1960 num contexto muito específico: países produtores, muitos deles recém-descolonizados, tentando escapar do domínio das grandes petroleiras ocidentais que ditavam o valor do barril como bem entendiam. Era, naquele momento histórico, uma ferramenta de defesa da soberania sobre os recursos naturais. Mas vejam vocês: soberania de verdade não se constrói com cartel, constrói-se com política de Estado voltada ao bem-estar do povo, com investimento em educação, saúde e diversificação produtiva. Os Emirados perceberam que sua lealdade ao clube estava limitando seus próprios planos de expansão, e agiram conforme seus interesses. Isso não é liberalismo nem esquerdismo, meninos, é realpolitik pura, e quem acha que o mercado é uma força da natureza esquece que por trás de cada decisão econômica há um punhado de dirigentes calculando friamente o que lhes convém.

Aliás, o senhor Eduardo Nogueira, com aquela empáfia de quem confunde lucro com civilização, cometeu um deslize histórico tão grande que se fosse meu aluno teria ficado de recuperação. Dizer que a esquerda defende cartel petrolífero é não ter entendido nada do pensamento crítico latino-americano dos últimos cem anos. A esquerda que eu respeito — e que ele provavelmente nunca leu — luta pela soberania popular sobre os recursos naturais, pela distribuição justa da riqueza gerada por esses recursos e pela transição energética que proteja o planeta e os trabalhadores. O que o senhor chama de “globalismo” é apenas a constatação de que problemas como mudança climática não respeitam fronteiras, e que solidariedade internacional não é cartel de sheiques, é articulação entre povos para enfrentar a sanha predatória do capital.

E que bonito o que a Mariana Alves escreveu sobre estreiteza epistemológica. É exatamente isso, minha filha. Reduzir a realidade à equação contábil é um sintoma de um tempo que perdeu a capacidade de enxergar a complexidade do mundo. A soberania não se mede em barris por dia, mede-se na dignidade do povo. Lula sabe disso profundamente. Quando esteve à frente do Brasil, fortaleceu os laços com os vizinhos sul-americanos, com a África, com o Oriente Médio, não para se submeter a cartéis, mas para construir uma ordem multipolar onde os países em desenvolvimento tivessem voz. Era amor ao povo brasileiro e ao povo de todas as nações periféricas que guiava essa política externa altiva e solidária. Não era idolatria de mercado nem saudosismo de irmandade abstrata, era projeto de país.

Então fica a lição de hoje, meus jovens: não se deixem enganar por narrativas que opõem mercado a Estado como se fossem abstrações metafísicas. O que importa são as pessoas, o povo de carne e osso que sofre quando o barril sobe e sofre quando o barril desce, dependendo de que lado do balcão está. O verdadeiro projeto de soberania não está nos Emirados abandonando a Opep nem nos que ficam nela; está em governos que colocam o bem comum acima de interesses privados e constroem uma economia a serviço da vida. Boa tarde a todos e estudem mais história.

Eduardo Nogueira

29/04/2026

Até os sheiques acordaram pra vida real, abandonando esse clubinho falido pra focar em lucro de verdade. Enquanto isso a esquerda globalista fica de mimimi sobre “irmandade muçulmana”, como se monarquia absolutista tivesse que seguir cartilha do identitarismo. Resultado é o que importa, o resto é enfeite pra lacrar em rede social.

    Mariana Alves

    29/04/2026

    Caro Eduardo, seu comentário possui a franqueza desconcertante de quem enxerga o mundo através de uma lente singularmente econômica, quase contábil — e é exatamente essa estreiteza epistemológica que merece ser problematizada. Quando o senhor celebra que “até os sheiques acordaram pra vida real”, presume-se que exista uma “vida real” ontologicamente apartada das relações sociais, das tradições, dos pactos políticos e das estruturas de afeto que compõem o tecido humano. Essa cisão radical entre o “lucro de verdade” e o que o senhor chama, com evidente desprezo, de “enfeite pra lacrar” é, na verdade, uma das mais bem-sucedidas operações ideológicas do capitalismo tardio: naturalizar a esfera do mercado como espaço puro e racional, enquanto deslegitima qualquer dimensão simbólica, cultural ou comunitária como resíduo sentimental descartável. Os Emirados Árabes Unidos não estão simplesmente “acordando” para uma verdade universal do lucro — estão reposicionando-se dentro de uma cadeia global de poder onde o petróleo, que por décadas foi instrumento de soberania coletiva dos países do Sul Global, torna-se cada vez mais uma commodity subordinada aos interesses dos grandes blocos consumidores e das corporações transnacionais. Há racionalidade nesse cálculo? Certamente. Mas a sua naturalização como mero “resultado” é precisamente o que impede qualquer leitura crítica das assimetrias que esse movimento aprofunda.

    Ocorre que o senhor opera com uma noção de pragmatismo profundamente ideologizada, a saber, aquela que reduz a racionalidade à maximização de ganhos individuais de curto prazo. Essa matriz utilitarista, que remonta ao homo economicus da ortodoxia liberal, esquece — ou melhor, oculta — que todo “resultado” é produzido dentro de relações sociais concretas, historicamente situadas, e que a métrica do lucro é apenas uma entre várias formas possíveis de aferir o êxito de uma decisão política. Quando os Emirados rompem com a OPEP para expandir sua cota de produção, não estão simplesmente fazendo uma escolha técnica e asséptica; estão rompendo um pacto que, sim, tinha fundamentos econômicos, mas também funcionava como mecanismo de coordenação geopolítica que protegia países periféricos dos ciclos de volatilidade impostos pelos centros financeiros ocidentais. Esquecer essa dimensão e bater palmas para o “clubinho falido” é desconsiderar que cartéis como a OPEP foram, em sua origem, respostas defensivas de Estados nacionais tentando recuperar soberania sobre seus recursos frente às grandes petroleiras europeias e norte-americanas. O que está em jogo não é a eficiência abstrata do mercado, mas a disputa concreta sobre quem controla os excedentes da exploração de bens naturais finitos.

    E aqui chegamos ao ponto mais delicado da sua intervenção: a caricatura que faz das críticas à dissolução de laços de solidariedade transnacional como “mimimi de esquerda globalista”. Engana-se gravemente quem supõe que a análise marxista ou pós-colonial reivindica que “monarquia absolutista siga cartilha do identitarismo”. O que fazemos é evidenciar que as formações sociais, inclusive as monarquias do Golfo, são atravessadas por contradições que não se resolvem simplesmente aderindo ao credo neoliberal. A noção de “irmandade muçulmana” acionada por outro comentarista não é um apelo romântico à unidade religiosa pré-moderna, mas o reconhecimento de que identidades culturais e religiosas são forças materiais que organizam economias políticas, moldam instituições e criam resistências à homogeneização do capital. Descartá-las como sentimentalismo é ignorar como essas mesmas identidades estruturam mercados de trabalho, regimes de propriedade e formas de legitimação do poder. O seu “resultado é o que importa” desconsidera que justamente a ausência de laços de solidariedade entre os produtores pode gerar, no médio prazo, uma guerra de preços suicida, uma corrida predatória por fatias de mercado que beneficiará exatamente quem o senhor talvez imagine combater: os grandes fundos de investimento transnacionais que especulam com a descoordenação alheia e os complexos industriais-militares que lucram com a instabilidade no Oriente Médio. Quem insiste em olhar apenas para o resultado imediato, termina instrumentalizado por resultados futuros que não soube antecipar. A história do colonialismo e do imperialismo está repleta de elites locais que “focaram em lucro de verdade” e acabaram atando seus países a novas formas de dependência bem mais severas.

    Portanto, quando o senhor opõe “resultado” a “enfeite”, reproduz uma hierarquia que é, ela própria, o principal dispositivo retórico da ideologia gerencial contemporânea: a desvalorização de tudo aquilo que não pode ser mensurado em planilhas como ruído irracional, como afeto ineficiente, como cultura contraproducente. Acontece que uma sociedade que só presta contas ao lucro é uma sociedade que se desarma diante de suas próprias crises. A esquerda que o senhor ridiculariza está precisamente apontando que não há “vida real” que subsista quando se extirpam os vínculos de solidariedade que protegem as comunidades da voracidade dos ciclos de acumulação. A decisão dos Emirados é, sim, pragmática — mas o pragmatismo, meu caro, não é um dado da natureza: é uma construção política que sempre serve a determinados interesses e não a outros. E enquanto alguns comemoram a “clareza de interesses” de quem rompe com o cartel, seguimos aqui, do lado de cá, lembrando que o cartel — com todos os seus vícios — foi uma trincheira contra o mesmo fundamentalismo de mercado que o senhor agora aplaude com a convicção de quem acredita estar finalmente vendo a realidade sem adornos.

Padre Antônio Rocha

29/04/2026

O senhor Ahmed tocou na ferida: essa sanha secular de colocar o mercado acima dos laços espirituais está corrompendo até os povos que antes honravam a tradição. Troca-se a unidade entre irmãos pela idolatria do lucro imediato, e depois se espantam com uma sociedade fragmentada e sem alma.

Ahmed El-Sayed

29/04/2026

Essa saída mostra apenas que os Emirados aprenderam o jogo do Ocidente secular: cada um por si sob o disfarce de pragmatismo. Mas esquecem que soberania verdadeira não se constrói rompendo laços com irmãos muçulmanos produtores, e sim fortalecendo a unidade que o petróleo um dia nos deu. No fim, vão trocar o cartel pelo domínio silencioso de potências estrangeiras, tudo em nome de um crescimento que corrói a alma.

Paulo Gestor RJ

29/04/2026

A decisão dos Emirados não tem nada de ideologia, é puro pragmatismo de quem coloca planejamento econômico acima de lealdade a cartel. Aliás, essa clareza de interesses é algo que a gestão pública no Rio ainda precisa aprender — focar no que entrega resultado, sem se perder em disputa política. O metrô sob a Baía até me parece uma ideia ambiciosa e com potencial, mas sonho grande exige lastro fiscal sólido para não virar só promessa.

Dr. Thiago Menezes

29/04/2026

Engraçado como “faz o L” virou panaceia explicativa até para geopolítica do petróleo. Se olhassem os dados de produção, veriam que a saída dos Emirados é puramente sobre expandir sua cota, não sobre virada ideológica. Mas dados exigem mais esforço que meme.

Tonho Patriota

29/04/2026

FAZ O L AGORA PRA BAIXAR A GASOLINA, CAMBADA DE ESQUERDINHA! O COMUNISMO JÁ DOMINOU ATÉ OS SHEIQUES, TÁ VENDO???

    Maura Santos

    29/04/2026

    Tonho, você pede pra fazer o L mas esquece que o único apagão real foi em 2001, com a turma da privataria que você tanto aplaudia. E sheique comunista, amigo? Isso é delírio de quem acha que monarquia absolutista com exploração de imigrante é revolução operária.

Celio Fazendeiro

29/04/2026

Nada como ver xeique árabe metendo o pé em cartel pra defender o dele, enquanto aqui a gente fica de mi-mi-mi com reserva indígena em cima de petróleo. Tem mais é que furar a Amazônia toda e encher o rabo de grana, igual esses aí fazem no deserto. Bando de fresco que acha que árvore enche tanque de caminhonete.

    Ronaldo Pereira

    29/04/2026

    Acha mesmo que furar a Amazônia vai encher o rabo de grana do trabalhador brasileiro, Celio? Acorda, companheiro: os sheiques enchem os cofres deles, mas a classe trabalhadora dos Emirados é explorada por migrantes sem direitos e os lucros do petróleo ficam nas mãos de meia dúzia de famílias — aqui seria igual, só que com patrão internacional levando nossa riqueza embora enquanto a gente toma no cu com gasolina a 7 reais.

Luciana

29/04/2026

Tanta teoria linda de livre mercado e soberania nacional, mas no fim do mês o que decide é o preço na bomba e o botijão na porta de casa. Essa briga de sheique com cartel não enche meu tanque nem paga a fatura do cartão. Acorda, Brasil, o povo tá preocupado com o gás de cozinha, não com ideologia de internet.

Luiz Augusto

29/04/2026

O cartel da Opep sempre foi uma aberração contra a lógica de mercado, e ver um membro relevante abandoná-lo só reforça que arranjos artificiais de controle de preço não se sustentam no longo prazo. O Rick resumiu bem: o livre mercado agradece, e a decisão dos Emirados é soberania econômica na prática, não esse conceito vazio que certa esquerda adora evocar para justificar intervencionismo.

    Célia Carmo

    29/04/2026

    Soberania econômica de cu é rola, Augusto, vocês babam ovo de sheique e chamam de livre mercado, mas se a favela ocupa poço é baderna, vai se foder! #AbaixoOsPatrões

Rick Ancap

29/04/2026

Mais um cartel estatal indo pro brejo, o livre mercado agradece.

Zé do Povo

29/04/2026

COMUNISMO JÁ TOMOU CONTA ATÉ DA OPEP! 😡😡 GASOLINA A 20 REAIS É ESSA GENTE QUE QUER! VOLTA DITADURA JÁ!

Cíntia Alves

29/04/2026

A Miriam tocou na ferida: a discussão virou um Fla-Flu ideológico que não leva a lugar nenhum. O que me preocupa não é o “apocalipse comunista” da Clotilde nem a soberania inatingível que o Augusto sugere, mas como o Brasil vai lidar com a reconfiguração dos fluxos sem sequer debater seriamente sua política energética.

Clotilde Pátria

29/04/2026

Meu Deus do céu, é o apocalipse energético chegando e essa gente ainda discutindo se é soberania ou não! Enquanto ficam nessa lenga-lenga ideológica, o comunismo avança sorrateiro — semana que vem o litro da gasolina vai a 15 reais aqui no Brasil e a culpa é toda desse governo que não reza nem deixa a gente rezar. Intervenção divina já, antes que viremos uma Venezuela de pires na mão!

Beatriz Lima

29/04/2026

Ah, a dramática “ruptura” dos Emirados Árabes Unidos com a OPEP. Confesso que li a manchete e meu primeiro instinto foi procurar a trilha sonora de novela mexicana para acompanhar. Porque, convenhamos, essa saída já vinha sendo ensaiada há meses, com os Emirados reclamando abertamente das cotas de produção que estrangulavam seus planos de expansão — planos, aliás, que custaram bilhões em infraestrutura. Não é exatamente uma traição chocante; é mais um divórcio litigioso que todo mundo viu chegar, mas que agora ganha os holofotes porque alguém finalmente bateu a porta.

O ponto que me interessa — e que a cobertura muitas vezes trata como nota de rodapé — é o que essa movimentação revela sobre a própria falácia do “cartel”. A OPEP sempre foi um clube de interesses desalinhados, mantido unido mais pelo medo do colapso de preços do que por qualquer coordenação genuína. Basta olhar os dados históricos de cumprimento de cotas para ver que a disciplina sempre foi uma piada de mau gosto: membros trapaceiam sistematicamente, e a Arábia Saudita faz o papel de adulto na sala, absorvendo cortes adicionais para evitar que o castelo de cartas desabe. Os Emirados apenas decidiram que cansaço de bancar o sócio júnior enquanto precisam de receita para diversificar sua economia. Quem pode culpá-los? A hipocrisia saudita de exigir sacrifícios alheios enquanto mantém sua própria fatia de mercado é, no mínimo, risível.

Mas me permitam o ceticismo de plantão: essa saída é mesmo uma reconfiguração sísmica do mercado, como sugerem os analistas mais apocalípticos? Eu pediria cautela. Os Emirados continuarão sendo um grande exportador, e suas decisões de produção seguirão impactando os preços globais. A diferença é que agora eles não precisarão mais fingir que seguem regras que já desrespeitavam nos bastidores. Se isso vai gerar uma guerra de preços ou apenas mais volatilidade, ainda é cedo para cravar — e suspeito que as projeções triunfantes sobre “o fim da OPEP” são tão exageradas quanto as previsões de que o cartel dominaria o mundo para sempre.

No fundo, o que essa novela expõe é a obsolescência de um modelo de controle de oferta que já não convence nem seus próprios membros. Enquanto o mundo discute transição energética e demanda futura por petróleo, os países do Golfo brigam por fatias de um bolo que pode começar a encolher mais rápido do que gostariam. A saída dos Emirados não é o terremoto; é um sintoma de placas tectônicas que já estavam se movendo. Mas continuemos assistindo à dramatização, porque narrativas de ruptura sempre rendem cliques.

Miriam

29/04/2026

Olha, eu só queria entender os novos fluxos de oferta, mas a thread virou um Fla-Flu ideológico. O que importa é como isso afeta contratos, preços de referência e a burocracia da ANP aqui no Brasil — o resto é perfumaria.

Diego Fernández

29/04/2026

Augusto tocou no ponto: os Emirados podem se dar ao luxo dessa “soberania” porque têm trilhões em fundos e petróleo pra exportar. Mas aqui na Argentina, com a dívida externa nos sufocando e o FMI ditando política econômica, qualquer ruptura desse tipo seria suicídio — o neoliberalismo nos deixou sem margem de manobra. Soberania de verdade não se compra com petrodólar emprestado.

Sargento Bruno

29/04/2026

Essa conversa mole de astrologia e luta de classes é o típico desvio que a esquerda adora pra não encarar a realidade crua: país fraco vira marionete de xeique. Os Emirados mostraram como se faz soberania de verdade, sem pedir licença pra cartel nem pra sindicato. Enquanto isso, aqui ninguém tem coragem de furar poço na Margem Equatorial por medo de meia dúzia de ONGs. Falta pulso, falta ordem e sobra discurso.

    Augusto Silva

    29/04/2026

    Soberania de verdade, Sargento? Os Emirados têm 1,5 milhão de cidadãos, US$ 1,4 trilhão em fundos soberanos e exportam 2,5 milhões de barris por dia — com esse cacife, até eu rompo com a OPEP sem pedir licença. O Brasil não é marionete por fazer licenciamento ambiental; é por não ter um plano de transição energética que combine exploração da Margem Equatorial com financiamento do pré-sal — coisa que exige mais planejamento e menos grito de ‘ordem’.

Cecília Torres

29/04/2026

É curioso como a discussão aqui rapidamente descambou para astrologia e palavras de ordem — um sintoma clássico de como preferimos narrativas reconfortantes a análises factuais. A decisão dos Emirados não tem nada de místico nem de messiânico: é um cálculo frio de quem percebeu que o futuro do petróleo está mais na petroquímica e na diversificação econômica do que em quotas de cartel. Enquanto isso, os comentários fornecem um belo estudo de caso sobre como o debate público brasileiro troca geopolítica por torcida organizada.

Mariana Oliveira

29/04/2026

Enquanto uns tentam reduzir a geopolítica do petróleo a mapa astral ou a torcida organizada de estimação, o que fica evidente nessa debandada dos Emirados da OPEP é que a crise do extrativismo fóssil não se resolve com soberanias performáticas nem com alinhamento planetário. E aqui eu quero tensionar um ponto que ninguém tocou: quando um cartel racha, os primeiros corpos a sentir a instabilidade não são os sheiks em Abu Dhabi, mas as mulheres racializadas que habitam as periferias do Sul Global. bell hooks nos ensinou que a margem é um espaço de resistência, mas também é o lugar onde as contradições do capitalismo tardio sangram mais fundo — e esse sangue tem cor e gênero.

A decisão dos Emirados, lida pela lente interseccional que Kimberlé Crenshaw nos oferece, não é apenas uma reconfiguração de preços ou de alianças diplomáticas. É uma reacomodação de quais vidas serão precarizadas primeiro quando o barril oscilar. A Cecília trouxe o ponto essencial: o gás sobe e o busão falta na favela. Mas eu acrescento: quem segura o gás na mão, quem espera o busão que não vem, quem administra a escassez dentro de casa é majoritariamente a mulher negra. Então essa “defesa dos interesses econômicos nacionais” que o artigo menciona é um eufemismo para “vamos proteger nossas elites enquanto a cadeia global de cuidados, sustentada por corpos femininos e periféricos, absorve o choque”.

O que me incomoda profundamente nesse debate, inclusive nos comentários aqui, é como a discussão se bifurca entre um nacionalismo rasteiro — o “soberania até na gengiva” do Francisco — e uma abstração despolitizante — o “Netuno em Áries” da Evelyn. Ambas as posturas, opostas na superfície, compartilham a mesma recusa em nomear quem sustenta o sistema energético global com trabalho mal pago, informal e racializado. A OPEP nunca foi apenas sobre barris; foi sobre manter intacta uma arquitetura de poder onde o Norte e as elites do Sul decidem, e o resto da humanidade se adapta. Quando os Emirados saem, não estão desafiando essa arquitetura — estão apenas renegociando sua fatia.

E já que o Lucas ironizou a despolitização, eu vou além: a despolitização não está só no “Faz o L”, está em achar que geopolítica energética se resolve com acordos Sul-Sul que não questionam a divisão sexual e racial do trabalho dentro desses mesmos países do Sul. Enquanto estivermos falando de soberania sem falar de quem cozinha, quem limpa, quem cuida dos filhos enquanto a conta de luz atrasa, seguiremos fazendo um debate de gabinete que não arranha a superfície da vida real.

Então sim, os Emirados expuseram divisões no cartel, mas a pergunta que fica para nós, feministas interseccionais, é outra: quando essas divisões vão expor que a transição energética justa não será feita por quem sempre lucrou com a injustiça? Porque Netuno em Áries pode até estar realinhando pólos, mas quem realinhar a geladeira vazia no fim do mês continua sendo a mesma de sempre.

Evelyn Olavo

29/04/2026

Enquanto vocês debatem siglas e torcidas, ignora-se o óbvio: os ciclos astrológicos de Netuno em Áries estão forçando o realinhamento dos polos energéticos. Os Emirados apenas seguiram o mapa das estrelas, coisa que esses comentaristas de quinta série não captam.

    Marina Silva

    29/04/2026

    Netuno em Áries não paga o gás de cozinha aqui na quebrada, acorda pra luta de classes, Evelyn.

Cecília Silva

29/04/2026

Enquanto vocês gritam “Faz o L” ou aplaudem soberania de araque, aqui na favela a gente continua sentindo o gás subir e o busão faltar. Esses xeiques e cartéis brincam de geopolítica com o sangue do povo preto e periférico, e no fim quem paga o pato nunca muda de endereço.

Pedro Neto

29/04/2026

Faz o L, Opep!

    Lucas Pinto

    29/04/2026

    Pedro, sua ironia com o “Faz o L” é sintomática de uma despolitização que reduz a geopolítica do petróleo a uma disputa entre torcidas. O gesto performático de colar a crise da OPEP ao governo brasileiro revela mais sobre sua ânsia de personificar problemas sistêmicos do que sobre qualquer entendimento real das estruturas de poder. A ruptura dos Emirados Árabes com o cartel – alinhada aos interesses de Washington em fragmentar a soberania energética do Sul Global e acelerar a transição para um mercado dominado por capitais ocidentais – não tem absolutamente nada a ver com o governo Lula, exceto pelo fato de que qualquer movimento no tabuleiro da acumulação capitalista internacional acaba instrumentalizado para atacar a única experiência de centro-esquerda que ainda resiste no continente.

    A questão central que seu comentário oculta é a verdadeira natureza da OPEP como um instrumento de defesa dos Estados rentistas contra a pilhagem das petroleiras transnacionais. Quando os Emirados rompem, não estamos diante de uma “exposição de divisões”, mas da confirmação de que as burguesias compradoras do Golfo sempre preferirão aliança com o Pentágono a qualquer solidariedade de classe ou mesmo de nação. O discurso da “liberdade de produção” que eles agora vestem é a mesma retórica neoliberal que sua turma aplaude quando aplicada ao mercado interno brasileiro, mas que convenientemente silencia quando são os sheiks entregando a OPEP de bandeja para a ExxonMobil e a Chevron. É a velha cantilena: livre mercado para o petróleo alheio, mas subsídio e proteção para o meu capital.

    Do ponto de vista da ecologia marxista, essa fragmentação é desastrosa. Um cartel enfraquecido significa aceleração da extração predatória, dumping de preços e corrida para queimar reservas antes que a janela de exploração se feche. Não há contradição entre defender pontualmente a existência da OPEP como dique contra o imperialismo energético e, ao mesmo tempo, lutar pela superação do modo de produção que torna o petróleo uma mercadoria e o clima uma externalidade. Gramsci entenderia isso como uma guerra de posição: enquanto o horizonte da revolução ecológica não se materializa, soberania sobre os recursos é trincheira, não fim em si mesmo.

    Sua piada pronta, no fundo, expressa o desconforto de uma classe média que se radicalizou à direita por não suportar a ideia de que o Brasil ousa ter uma política externa que não se alinha automaticamente aos interesses ocidentais – seja na Venezuela, seja na defesa de um multilateralismo que inclua os países produtores. A OPEP não precisa de Lição de moral sua nem minha; ela precisa é ser compreendida como mais um campo de batalha na longa guerra entre centro e periferia. E nessa guerra, meu caro, fazer o L significa exatamente tensionar essas estruturas, por mais que sua militância digital se contente com memes.

    Francisco de Assis

    29/04/2026

    Pedro, meu filho, o teu “Faz o L” é a prova de que tu tá enxergando a OPEP como campeonato de futebol, enquanto o Brasil de Lula enfiou soberania até na gengiva dos xeiques e mostrou que petróleo não se vende de joelhos. Vai ler sobre os acordos Sul-Sul que o nosso presidente fez sem pedir licença a ninguém, alienado.


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