Desde que o tarifaço de Trump começou a corroer a candidatura de Flávio Bolsonaro, o bolsonarismo procura desesperadamente um contrapeso. A nova moda é agitar uma manchete da Veja sobre um suposto tarifaço da China contra a carne brasileira.
A intenção é óbvia: fabricar uma equivalência entre Pequim e Washington para diluir o desgaste do candidato que defende o país que pune o Brasil. O problema é que a comparação não sobrevive a cinco minutos de contato com os fatos.
A medida chinesa existe, mas não é um tarifaço contra o Brasil. É uma salvaguarda comercial anunciada pelo Ministério do Comércio da China após uma investigação formal aberta em dezembro de 2024, nos moldes previstos pela Organização Mundial do Comércio.
A salvaguarda vale para todos os países fornecedores, de 2026 a 2028, e funciona por cotas nacionais. Dentro da cota, nada mudou: a carne brasileira continua entrando na China com a mesma tarifa de 12% que sempre pagou.
Só o volume que ultrapassa a cota paga a sobretaxa de 55%. E aqui vem o detalhe que o bolsonarismo omite: o Brasil recebeu a maior cota do mundo, 1,106 milhão de toneladas por ano, reflexo direto da sua posição de maior fornecedor da China.
É verdade que a cota de 2026 se esgotou no início de julho, porque os frigoríficos correram para embarcar o máximo possível no primeiro semestre. Algumas plantas voltadas ao mercado chinês deram férias coletivas, e é essa a base factual da manchete alarmista.
Mas o efeito é temporário e administrável. Os embarques que chegarem à China a partir de novembro já contam para a cota de 2027, e o governo brasileiro negocia com Pequim a ampliação do limite, com sinais públicos de boa vontade do lado chinês.
Compare com o tarifaço de Trump. Não houve investigação, não houve regra multilateral, não houve cota: houve um decreto político de 50% contra o Brasil inteiro, anunciado como retaliação explícita ao julgamento de Jair Bolsonaro.
Um caso é um instrumento de defesa comercial previsto nas regras do jogo, aplicado a todos os países e aberto à negociação. O outro é uma punição unilateral contra um único país, para chantagear sua Justiça em favor de uma família.
E o que dizem os números? O Cafezinho baixou a série completa do ComexStat, o sistema oficial de estatísticas de comércio exterior do governo brasileiro, e o resultado desmonta o pânico fabricado.
Na janela de doze meses encerrada em junho de 2026, o Brasil exportou 3,30 milhões de toneladas de carne bovina para o mundo, recorde histórico absoluto. Em valor, foram US$ 19,1 bilhões, um salto de 46% sobre a janela anterior.

A China, sozinha, comprou 1,79 milhão de toneladas, também recorde, com alta de 28,8% em volume. Em dinheiro, os chineses pagaram US$ 10,45 bilhões pela carne bovina brasileira em doze meses, mais da metade de tudo que o setor faturou lá fora.

Ou seja: mesmo com a salvaguarda em vigor desde janeiro, o país que o bolsonarismo acusa de tarifar o Brasil nunca comprou tanta carne brasileira em toda a história. Difícil sustentar a narrativa do vilão asiático diante desses números.
E tem o detalhe mais saboroso da série. Entre os grandes destinos da carne bovina brasileira, apenas um encolheu na última janela de doze meses: os Estados Unidos, com queda de 7,8%, cortesia do tarifaço de Trump que Flávio Bolsonaro defende.

Enquanto isso, a Rússia aumentou suas compras em 54%, o México em 37%, a Itália em 34%, o Egito e o Chile em 23%, a Arábia Saudita em 21%. A Holanda, porta de entrada do mercado europeu, mais que dobrou.
O quadro se repete nas outras proteínas. No frango, o Brasil exportou 5,27 milhões de toneladas em doze meses, outro recorde histórico, com a China respondendo por menos de 6% do volume.
A África do Sul aumentou as compras de frango brasileiro em 33%, o México em 35%, a Coreia do Sul em 41%, as Filipinas em 20%. A dependência da China no frango é mínima, e a diversificação de mercados avança ano após ano.
Na carne suína, mais um recorde: 1,37 milhão de toneladas exportadas. E aqui a curiosidade que ilustra a força do agro exportador: o maior comprador não é a China, são as Filipinas.
Os filipinos levaram 369 mil toneladas de carne suína brasileira na última janela, alta de 28%, porque a peste suína africana devastou a produção local e o Brasil ocupou o espaço. O Japão, segundo maior comprador, aumentou suas compras em 37%.
Somando tudo, as exportações totais do Brasil, de todos os produtos, atingiram US$ 367 bilhões nos doze meses até junho, crescimento de 9,4% e mais um recorde. O único freio real nessa máquina chama-se Donald Trump.
A salvaguarda chinesa é um contratempo setorial, temporário e negociável, do tipo que o comércio internacional produz aos montes. O tarifaço de Trump é uma agressão política contra o país, feita em nome da família Bolsonaro.
Quem tenta igualar as duas coisas não está informando, está fazendo campanha. E campanha ruim, porque os números do ComexStat estão aí, públicos, à disposição de qualquer um que prefira os fatos ao pânico.


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