África - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/africa/ Portal de noticias e análises sobre política brasileira, geopolítica, economia, tecnologia, sempre numa perspectiva democrática, progressista, anti-imperialista e multipolar! Tue, 02 Jun 2026 17:01:45 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://controle.ocafezinho.com/wp-content/uploads/2015/10/cropped-Logo_Cafezinho_tmb-32x32.png África - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/africa/ 32 32 Reconhecimento da Somalilândia aprofundaria divisões e instabilidade no Chifre da África https://www.ocafezinho.com/2026/06/02/reconhecimento-da-somalilandia-aprofundaria-divisoes-e-instabilidade-no-chifre-da-africa/ https://www.ocafezinho.com/2026/06/02/reconhecimento-da-somalilandia-aprofundaria-divisoes-e-instabilidade-no-chifre-da-africa/#respond Tue, 02 Jun 2026 17:01:45 +0000 https://www.ocafezinho.com/2026/06/02/reconhecimento-da-somalilandia-aprofundaria-divisoes-e-instabilidade-no-chifre-da-africa/ O debate sobre o reconhecimento internacional da Somalilândia ignora uma realidade complexa e fragmentada no terreno, segundo análise publicada pelo portal Al Jazeera. A região que integra a Somália não constitui uma entidade política coesa e jamais exerceu autoridade incontestada sobre os territórios que reivindica. O antigo protetorado da Somalilândia Britânica deixou de existir como unidade administrativa autônoma em junho de 1960, quando se uniu voluntariamente ao Território sob Tutela da Somália para formar a República Somali.

As fronteiras geográficas e políticas que a atual administração de Hargeisa reivindica não são aceitas de forma uniforme pelas populações que vivem dentro delas. Nos últimos dois anos, as regiões orientais de Sool, Sanaag e partes de Cayn (SSC-Khatumo) rejeitaram categoricamente o domínio de Hargeisa. Após mobilização popular e conflito prolongado, essas comunidades estabeleceram uma administração própria no nordeste do país e se alinharam ao Governo Federal da Somália, buscando seu futuro dentro de um Estado federal somali.

A oeste, movimentos políticos na região de Awdal também questionam o que chamam de monopólio de Hargeisa sobre decisões políticas e econômicas. Crescem as demandas por uma administração regional distinta, refletindo queixas antigas sobre representação política e desenvolvimento econômico.

Os defensores do reconhecimento costumam apontar a estabilidade relativa da Somalilândia como argumento central. No entanto, estabilidade genuína exige inclusão política, legitimidade territorial e consenso social — condições que não estão plenamente presentes no território. Divergências políticas internas, tensões de base clânica, disputas territoriais e visões conflitantes sobre governança permanecem sem solução.

O reconhecimento internacional, em vez de resolver esses problemas, poderia acirrá-los ao encorajar cálculos políticos de soma zero entre comunidades que já se sentem excluídas dos processos decisórios. A análise critica a tentativa de transformar disputas locais em instrumentos de rivalidades geopolíticas mais amplas no Mar Vermelho. Enquadrar a Somalilândia como um ativo estratégico na competição com Irã, houthis, China ou outros atores globais ignora uma realidade elementar: arranjos de segurança duradouros não se constroem sobre disputas de soberania não resolvidas.

A história oferece inúmeros exemplos de potências externas que perseguiram ganhos estratégicos de curto prazo apenas para descobrir que as realidades locais sempre prevalecem. Parcerias duráveis emergem da legitimidade política e do consenso regional, não de tentativas de contornar Estados reconhecidos internacionalmente. O envolvimento de Israel na região ilustra esse perigo, gerando novas tensões políticas e ansiedade entre comunidades locais preocupadas com militarização e influência estrangeira. A premissa de que o reconhecimento externo se traduz automaticamente em estabilidade carece de qualquer evidência concreta.

A União Africana mantém seu compromisso com a preservação das fronteiras herdadas e a resolução de disputas por meio do diálogo. Esse princípio tem sido essencial para evitar inúmeros conflitos territoriais no continente, e abrir exceções sem amplo consenso regional arrisca reacender debates que muitos Estados africanos passaram décadas tentando conter. O caminho para a paz duradoura na Somália passa pela reconciliação e pelo diálogo entre os próprios somalis, e não pela fragmentação impulsionada por agendas externas.

Progressos significativos já foram alcançados por meio das instituições federais, da ampliação da participação política e de arranjos de governança construídos localmente. Embora desafios consideráveis permaneçam, eles são mais bem enfrentados por meio de processos políticos internos inclusivos do que por resultados impostos de fora. O governo somali segue comprometido com o diálogo e com processos constitucionais que permitam a todas as comunidades somalis participar da construção do futuro do país.

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Quênia protesta contra centro de quarentena de Ebola dos EUA em base militar https://www.ocafezinho.com/2026/06/01/quenia-protesta-contra-centro-de-quarentena-de-ebola-dos-eua-em-base-militar/ https://www.ocafezinho.com/2026/06/01/quenia-protesta-contra-centro-de-quarentena-de-ebola-dos-eua-em-base-militar/#respond Mon, 01 Jun 2026 19:43:15 +0000 https://www.ocafezinho.com/2026/06/01/quenia-protesta-contra-centro-de-quarentena-de-ebola-dos-eua-em-base-militar/
Manifestantes protestam em Kenia, com fumaça e chamas ao fundo, contra a instalação de um centro de quarentena para Ebola.

Manifestantes se reuniram em Nanyuki, no centro do Quênia, para protestar contra a instalação de uma unidade de quarentena de Ebola em uma base militar dos Estados Unidos. A proposta, divulgada por oficiais norte-americanos, visa abrigar cidadãos dos EUA expostos ao vírus, mas ainda assintomáticos.

O plano, detalhado pelo portal Al Jazeera, prevê uma unidade de 50 leitos na base aérea de Laikipia, operada por militares dos EUA. A proposta gerou indignação popular, especialmente após o surto de Ebola na República Democrática do Congo e em Uganda, que já causou mais de 200 mortes, enquanto o Quênia não registrou casos da doença.

Na sexta-feira, a Suprema Corte do Quênia suspendeu o plano após ação judicial que argumentava riscos à saúde pública do país. A decisão também denunciou a falta de transparência no acordo entre os dois governos.

Apesar da ordem judicial, imagens obtidas pela Reuters mostram aeronaves militares dos EUA pousando e decolando de Nanyuki no fim de semana. Os preparativos para a instalação continuaram, segundo as imagens. O governo dos EUA afirmou que destinará 13,5 milhões de dólares para os esforços de preparação do Quênia contra o Ebola, mas poucos detalhes foram divulgados.

O ministro da Saúde do Quênia, Aden Duale, declarou que o centro de quarentena se destina a todos, não apenas a cidadãos norte-americanos. A medida faz parte de um esforço para reforçar os sistemas de resposta a emergências no país. A declaração, porém, não acalmou os manifestantes, que exigem o fechamento definitivo da instalação até 9 de junho.

Patrick Wahome, um dos organizadores dos protestos, afirmou à Reuters que Nanyuki é uma cidade pequena. Os militares da base vivem entre a população local, e seus filhos frequentam as mesmas escolas. Estamos protestando por nossas vidas, disse Wahome, destacando o temor de contaminação rápida na comunidade.

Outro manifestante, Malin Ndegwa, questionou por que os Estados Unidos não constroem a instalação nos países afetados pelo surto. Por que não fazem isso no Congo? Por que não fazem isso em Uganda? Por que trazer para cá?, indagou Ndegwa à Associated Press.

O protesto reuniu cerca de cem pessoas, algumas em caminhonetes e soprando apitos. A mobilização foi marcada por fumaça no horizonte e reforço policial nas estradas de acesso à base aérea. A resistência popular reflete o mal-estar em países do Sul Global contra o que muitos consideram neocolonialismo médico.

A decisão da Suprema Corte queniana e a pressão popular colocam o governo dos EUA em xeque. Com o ultimato dos manifestantes para 9 de junho, o impasse entre a vontade popular, a justiça queniana e a persistência militar norte-americana se intensifica.

Leia mais sobre o assunto na aljazeera.com.


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Marrocos assume liderança em industrialização na África e supera África do Sul https://www.ocafezinho.com/2026/05/28/marrocos-assume-lideranca-em-industrializacao-na-africa-e-supera-africa-do-sul/ https://www.ocafezinho.com/2026/05/28/marrocos-assume-lideranca-em-industrializacao-na-africa-e-supera-africa-do-sul/#respond Thu, 28 May 2026 08:01:34 +0000 https://www.ocafezinho.com/2026/05/28/marrocos-assume-lideranca-em-industrializacao-na-africa-e-supera-africa-do-sul/
Homens em reunião com pauta africana, diante de símbolo do continente com bandeiras nacionais. (Foto: aljazeera.com)

Marrocos conquistou o primeiro lugar no Índice de Industrialização da África, segundo relatório do Banco Africano de Desenvolvimento (AfDB). O país ultrapassou a África do Sul, que ocupava a posição desde 2010.

O Índice de Industrialização da África 2025 atribuiu a Marrocos 0,8415 pontos, superando os 0,8396 da África do Sul. A nação sul-africana registrou queda gradual em sua competitividade, caindo de 0,8819 pontos em 2010.

O índice avalia três dimensões: desempenho industrial, impulsionadores diretos como investimento e infraestrutura, e fatores indiretos, incluindo ambiente de negócios e Estado de direito. A análise abrangeu as 54 nações do continente.

Países árabes dominaram as primeiras posições, com Egito em terceiro lugar (0,7827 pontos) e Tunísia em quarto (0,7760). A Argélia garantiu a sexta colocação com 0,6661 pontos, consolidando quatro nações árabes entre as seis mais industrializadas da África.

O relatório destacou Marrocos, África do Sul, Egito e Tunísia como o quarteto industrial líder do continente. As Ilhas Maurício, Eswatini, Senegal, Namíbia e Costa do Marfim completaram o top 10.

O Norte da África manteve-se como a região mais industrializada em 2025, com 0,6891 pontos, à frente da África Austral (0,5850). A maioria das nações norte-africanas superou a média continental, exceto Líbia e Mauritânia.

Apesar dos avanços, o progresso da industrialização africana permanece lento e desigual. O AfDB apontou que 41 dos 54 países melhoraram suas pontuações entre 2010 e 2025, mas apenas 24 subiram no ranking geral.

O Valor Agregado da Manufatura (MVA) do continente cresceu de 285 bilhões de dólares em 2020 para 351 bilhões em 2025. Ainda assim, a África representa menos de 2% da produção industrial global.

O MVA per capita atingiu 226,7 dólares em 2025, abaixo do pico de 254,9 dólares registrado em 2014. A fraca integração regional foi apontada como um dos principais gargalos para o crescimento industrial.

O comércio intra-africano respondeu por apenas 14,4% do total entre 2022 e 2025. Em comparação, o comércio intrarregional representa 60% na Ásia e 57% na Europa.

O AfDB destacou que o desafio vai além das tarifas, incluindo barreiras não tarifárias, infraestrutura precária e a necessidade de cadeias de valor regionais mais desenvolvidas. A implementação da Área de Livre Comércio Continental Africana (AfCFTA) é vista como solução para reverter esse cenário.

As projeções indicam que a AfCFTA pode elevar a renda dos africanos em 7% até 2035, gerando até 450 bilhões de dólares em valor adicional. As estimativas preveem um salto de 48% no comércio intra-africano de manufaturados até 2045.

Leia mais sobre o assunto na aljazeera.com.


Leia também: Lula rebate Trump e defende participação da África do Sul no G20


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Putin destaca sucesso econômico da África e anuncia cúpula Rússia-África em Moscou https://www.ocafezinho.com/2026/05/24/putin-destaca-sucesso-economico-da-africa-e-anuncia-cupula-russia-africa-em-moscou/ https://www.ocafezinho.com/2026/05/24/putin-destaca-sucesso-economico-da-africa-e-anuncia-cupula-russia-africa-em-moscou/#comments Sun, 24 May 2026 07:32:38 +0000 https://www.ocafezinho.com/2026/05/24/putin-destaca-sucesso-economico-da-africa-e-anuncia-cupula-russia-africa-em-moscou/ 3 Comentários 🔥]]>
Ilustração editorial sobre Putin destaca sucesso econômico da África e anuncia cúpula Rússia-África em Moscou. (Ilustração: Cafezinho / Flux Pro)

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, enviou uma carta de felicitações aos chefes de Estado e de governo africanos por ocasião do Dia da África, celebrado anualmente em 25 de maio. Na mensagem, divulgada neste domingo, Putin destacou os notáveis avanços econômicos e sociais alcançados pelo continente, sublinhando o papel cada vez mais relevante que as nações africanas desempenham no cenário internacional.

‘Os países africanos alcançaram sucessos impressionantes nos campos econômico e social, e estão desempenhando um papel cada vez mais importante na abordagem de questões prementes da agenda internacional’, afirmou Putin em sua carta. O líder russo também reforçou que a Rússia atribui grande importância ao fortalecimento dos laços tradicionalmente amistosos com os países africanos.

Conforme reportagem do portal Sputnik, Putin anunciou que a terceira cúpula Rússia-África será realizada em Moscou no mês de outubro deste ano. O presidente russo expressou confiança de que o encontro permitirá traçar novas perspectivas para a cooperação mútua entre seu país e os parceiros africanos em diversas áreas.

A declaração ocorre em um momento em que o continente africano tem se consolidado como um ator crucial nas discussões sobre segurança alimentar, transição energética e reforma da arquitetura financeira internacional. A Rússia mantém há décadas relações de cooperação com diversas nações africanas, abrangendo setores como energia, mineração, defesa e segurança.

A realização da cúpula em Moscou em outubro representa mais um passo na consolidação dessa parceria estratégica em um mundo multipolar. A carta de felicitações foi enviada por ocasião do Dia da África, celebrado anualmente em 25 de maio, data que marca a fundação da Organização da Unidade Africana em 1963. A efeméride simboliza a luta do continente pela autodeterminação e sua trajetória rumo ao desenvolvimento soberano e à integração regional.

Leia mais sobre o assunto na sputnikglobe.com.


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Uganda lança plano de US$ 1,7 bilhão para eletrificar transporte público e impulsionar indústria local https://www.ocafezinho.com/2026/05/16/uganda-lanca-plano-de-us-17-bilhao-para-eletrificar-transporte-publico-e-impulsionar-industria-local/ https://www.ocafezinho.com/2026/05/16/uganda-lanca-plano-de-us-17-bilhao-para-eletrificar-transporte-publico-e-impulsionar-industria-local/#respond Sat, 16 May 2026 15:37:35 +0000 https://www.ocafezinho.com/2026/05/16/uganda-lanca-plano-de-us-17-bilhao-para-eletrificar-transporte-publico-e-impulsionar-industria-local/
Vista aérea da capital de Uganda, Kampala, que busca eletrificar seu transporte público até 2030. (Foto: electrek.co)

O governo de Uganda anunciou um plano ambicioso de mobilidade elétrica que prevê investimentos de US$ 1,7 bilhão para substituir integralmente ônibus e motocicletas de aluguel por veículos movidos a bateria até 2030. A medida visa eliminar a dependência de combustíveis fósseis importados e impulsionar a indústria nacional.

De acordo com o portal Electrek, a iniciativa promete gerar 500 mil empregos verdes e elevar a participação da manufatura no PIB ugandense para 12,5%. Além disso, o projeto visa reduzir drasticamente a poluição atmosférica nas principais cidades do país.

Winstone Katushabe, comissário de regulamentação e segurança de transportes do Ministério de Obras e Transportes, afirmou que a mobilidade elétrica se tornou prioridade estratégica para o desenvolvimento sustentável de Uganda. Ele destacou que a população de Kampala começará a ver ônibus elétricos produzidos pela estatal Kiira Motors Corporation em circulação nas ruas.

Atualmente, Uganda já conta com cerca de 5 mil motocicletas elétricas em operação, embora ainda dependa majoritariamente de combustíveis fósseis. Para acelerar a transição, o governo planeja instalar 3.500 estações de carregamento público em todo o território nacional, garantindo infraestrutura para a expansão dos veículos elétricos.

Cosmas Twikirize, superintendente da cadeia de valor industrial do Ministério da Ciência, Inovação e Tecnologia, anunciou que negociações com parceiros internacionais já asseguraram US$ 800 milhões em financiamento. Esse montante representa quase metade do custo total do projeto e reflete o reconhecimento internacional do potencial tecnológico do país.

A Kiira Motors Corporation, empresa estatal sediada em Jinja, já opera um programa piloto de ônibus elétricos no corredor leste de Uganda. A iniciativa reforça a estratégia de soberania industrial do país, enquanto outras nações africanas, como a Etiópia, também avançam em políticas de transição para motores elétricos.

O plano ugandense demonstra capacidade de planejamento e execução de políticas públicas no continente africano, desafiando estereótipos que subestimam o avanço tecnológico e industrial das nações em desenvolvimento. A expectativa é que o projeto melhore a qualidade de vida nas cidades e sirva como modelo para outros países que buscam autonomia energética.


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Papa leão celebra missa com 100 mil fiéis em Kilamba e prega esperança ao povo angolano https://www.ocafezinho.com/2026/04/27/papa-leao-celebra-missa-com-100-mil-fieis-em-kilamba-e-prega-esperanca-ao-povo-angolano/ https://www.ocafezinho.com/2026/04/27/papa-leao-celebra-missa-com-100-mil-fieis-em-kilamba-e-prega-esperanca-ao-povo-angolano/#comments Mon, 27 Apr 2026 15:03:30 +0000 https://www.ocafezinho.com/2026/04/27/papa-leao-celebra-missa-com-100-mil-fieis-em-kilamba-e-prega-esperanca-ao-povo-angolano/ 7 Comentários 🔥]]>
O Papa acena para os fiéis durante missa em Kilamba, Angola. (Foto: ansa.it)

O papa Leão celebrou uma missa na cidade de Kilamba, em Angola, e reuniu cerca de 100 mil fiéis. A celebração representou a segunda etapa de sua visita ao território angolano, após os compromissos iniciais na capital Luanda.

O pontífice transmitiu mensagem de reconciliação e esperança para uma nação marcada por décadas de guerra civil. Durante a homilia, ele descreveu Angola como um país belíssimo e ferido.

O papa Leão defendeu a superação das divisões para reconstruir o tecido social do país. Ele alertou para o risco de a população perder a esperança após longos períodos de sofrimento.

O líder católico evocou a passagem bíblica dos discípulos de Emaús como exemplo de paralisia diante do desânimo. A escolha de Kilamba para a missa não foi casual, segundo a agência ANSA.

O local foi construído pela China por meio da estatal China International Trust and Investment Corporation. Ele simboliza a presença crescente do país asiático no continente africano.

A China realiza investimentos em infraestrutura em troca de acesso a recursos naturais estratégicos. Kilamba fica a cerca de 30 quilômetros de Luanda e já foi chamada de cidade fantasma.

Os altos custos dos apartamentos explicam a origem do apelido dado ao conjunto urbano. Atualmente o local abriga parte da elite angolana e estrangeiros ligados a multinacionais.

A densidade populacional ainda é baixa em relação ao tamanho do empreendimento. O complexo conta com cerca de 750 edifícios residenciais de múltiplos andares.

Existem também cem prédios comerciais, além de escolas e unidades de saúde no local. A paisagem é marcada por grandes blocos coloridos e pela presença de placas em português e chinês.

Essa característica reflete a interligação econômica e cultural entre Angola e a China. Os organizadores montaram uma esplanada com capacidade para mais de 200 mil pessoas.

A estrutura reforçou o caráter de grande encontro religioso para os fiéis angolanos. Após a missa, o papa Leão viajou de helicóptero para Muxima.

No santuário de Mama Muxima, o pontífice presidiu a recitação do rosário. O retorno a Luanda ocorreu no final da tarde.

A visita papal reforça o papel do Vaticano como mediador moral em processos de reconstrução social. Ao optar por Kilamba, o papa Leão destacou a relevância de parcerias internacionais voltadas ao desenvolvimento e à dignidade humana.


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Ministro da Defesa do Mali, general Sadio Camara, morre após atentado coordenado que sacudiu o país https://www.ocafezinho.com/2026/04/26/ministro-da-defesa-do-mali-general-sadio-camara-morre-apos-atentado-coordenado-que-sacudiu-o-pais/ https://www.ocafezinho.com/2026/04/26/ministro-da-defesa-do-mali-general-sadio-camara-morre-apos-atentado-coordenado-que-sacudiu-o-pais/#comments Mon, 27 Apr 2026 01:09:52 +0000 https://www.ocafezinho.com/2026/04/26/ministro-da-defesa-do-mali-general-sadio-camara-morre-apos-atentado-coordenado-que-sacudiu-o-pais/ 8 Comentários 🔥]]>
Ilustração editorial sobre Ministro da Defesa do Mali, general Sadio Camara, morre após atentado coordenado que sacudiu o país. (Ilustração: Cafezinho / Flux Pro)

O ministro da Defesa e dos Veteranos do Mali, general Sadio Camara, morreu em decorrência dos ferimentos sofridos durante um ataque armado contra sua residência na cidade de Kati, próxima à capital Bamako. O atentado foi parte de uma série de ações coordenadas que atingiram simultaneamente diversas regiões do país, incluindo Bamako, Gao, Sévaré e Kidal, num dos episódios de segurança mais graves registrados no Mali nos últimos anos.

De acordo com o governo de transição maliano, o ataque teve início com a explosão de um carro-bomba conduzido por um suicida diretamente contra a residência do ministro. Camara reagiu e trocou tiros com os militantes, conseguindo neutralizar parte dos agressores antes de ser gravemente ferido. A detonação destruiu parte da casa e provocou o colapso de uma mesquita vizinha onde havia fiéis no momento do ataque.

Os grupos Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), ligado à Al-Qaeda, e a Frente de Libertação de Azawad (FLA), de base tuaregue, reivindicaram a autoria dos ataques coordenados. As ações miraram instalações militares, infraestruturas estratégicas e lideranças políticas do país de forma simultânea, conforme reportagem da RT.

Durante os confrontos, a unidade África Corps, vinculada ao Ministério da Defesa da Rússia, informou ter atuado para impedir o que descreveu como tentativa de golpe de Estado. O grupo afirmou ter fornecido apoio aéreo ao longo de uma frente de 2 mil quilômetros, evitando a tomada de instalações estratégicas, incluindo o palácio presidencial em Bamako. Segundo a unidade, mais de mil militantes foram mortos e mais de cem veículos destruídos durante os confrontos.

O Ministério das Relações Exteriores da Rússia afirmou que dados preliminares apontam para possível envolvimento de serviços de inteligência ocidentais no treinamento dos grupos que conduziram os ataques. O chanceler russo, Serguei Lavrov, já havia acusado a França de tentar desestabilizar governos da região do Saara-Sahel por meio de grupos armados.

O Mali abriga presença militar russa desde a saída das tropas francesas, após uma década de operações sem êxito em conter o avanço do terrorismo na região. A decisão de Bamako de romper com Paris foi seguida por Burkina Faso e Níger, que também expulsaram forças francesas sob acusações de colaboração com insurgentes.

O general Camara era considerado um dos principais articuladores da reorientação da política de defesa do Mali, marcada pelo afastamento da influência francesa e pela aproximação com Moscou. O governo de transição anunciou a realização de um funeral nacional em sua homenagem, reconhecendo o papel central que o ministro exercia na condução da estratégia de segurança do país.

A sequência de ataques coordenados expõe a fragilidade do controle territorial maliano diante de grupos jihadistas que operam há anos no Sahel com crescente capacidade logística e alcance geográfico. A morte de uma figura central do governo de transição em sua própria residência, a poucos quilômetros da capital, evidencia que nenhuma posição de poder está imune à ofensiva em curso.

Com informações de RT.


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Chade e Argélia assinam 34 acordos bilaterais e expandem cooperação energética https://www.ocafezinho.com/2026/04/24/chade-e-argelia-assinam-34-acordos-bilaterais-e-expandem-cooperacao-energetica/ https://www.ocafezinho.com/2026/04/24/chade-e-argelia-assinam-34-acordos-bilaterais-e-expandem-cooperacao-energetica/#comments Fri, 24 Apr 2026 04:41:52 +0000 https://www.ocafezinho.com/2026/04/24/chade-e-argelia-assinam-34-acordos-bilaterais-e-expandem-cooperacao-energetica/ 5 Comentários 🔥]]>
O presidente tchadiano Mahamat Idriss Déby acena durante visita oficial. (Foto: © Ludovic Marin / AFP)

O presidente do Chade, Mahamat Idriss Déby, e o presidente da Argélia, Abdelmadjid Tebboune, assinaram 34 acordos bilaterais durante visita de Estado a Argel. Os pactos consolidam laços em energia, indústria, transporte, educação e segurança.

O setor de hidrocarbonetos recebeu destaque central nos acordos. O grupo estatal argelino Sonatrach firmou memorando com a Sociedade dos Hidrocarbonetos do Chade para erguer uma refinaria com capacidade de até 20 mil barris por dia, conforme reportagem da RFI.

O economista tchadiano Djimadoum Mendekor avaliou que a iniciativa permite diversificar a economia do Chade. Ele indicou que o país busca reduzir a dependência de setores limitados e gerar empregos por meio da industrialização local.

Um acordo-quadro foi assinado com o Instituto Argelino do Petróleo para capacitar técnicos tchadianos no setor energético. Memorandos adicionais preveem a instalação de fábricas argelinas em território chadiano nas áreas de mineração, indústria e energias renováveis.

Os documentos abrangem ainda infraestrutura, comunicação, saúde animal, transporte aéreo e ensino superior. Os ministérios do Interior firmaram convenção para intensificar o combate ao terrorismo e ao crime transnacional na região do Sahel.

Déby afirmou que a visita expressa a vontade de converter a amizade tradicional em parceria estratégica de nova geração. Tebboune reforçou que a Argélia pretende aprofundar sua liderança no continente africano com laços mais estreitos junto a nações vizinhas.

O especialista do International Crisis Group Michaël Ayari interpretou a ofensiva diplomática de Argel como movimento na disputa de influência com o Marrocos na África subsaariana. Ayari notou que a Argélia procura responder às ações de Rabat após iniciativas semelhantes junto ao Níger.

A rivalidade entre os dois países do Magrebe ganha novo capítulo com a aproximação argelina ao Chade. N’Djamena havia inaugurado recentemente um consulado em Dakhla, no Saara Ocidental, gesto lido como sinal de maior alinhamento com o Marrocos.

A parceria energética deve permitir ao Chade processar localmente seu petróleo em vez de exportá-lo na forma bruta. Essa medida tende a elevar a receita fiscal e criar postos de trabalho qualificados no país centro-africano.

Os 34 acordos reforçam a cooperação prática entre Argel e N’Djamena em múltiplas frentes. O movimento ilustra a estratégia chadiana de equilibrar parcerias internacionais para ampliar sua margem de desenvolvimento.


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Empresa nigeriana anuncia construção da maior fábrica de drones da África em Gana https://www.ocafezinho.com/2026/04/20/empresa-nigeriana-anuncia-construcao-da-maior-fabrica-de-drones-da-africa-em-gana/ https://www.ocafezinho.com/2026/04/20/empresa-nigeriana-anuncia-construcao-da-maior-fabrica-de-drones-da-africa-em-gana/#comments Mon, 20 Apr 2026 21:21:37 +0000 https://www.ocafezinho.com/2026/04/20/empresa-nigeriana-anuncia-construcao-da-maior-fabrica-de-drones-da-africa-em-gana/ 14 Comentários 🔥]]>
Componentes de drones sendo montados, ilustrando a fabricação de veículos aéreos não tripulados. (Foto: actualidad.rt.com)

A empresa nigeriana de tecnologia de defesa e robótica Terra Industries anunciou a construção da maior fábrica de drones do continente africano.

A instalação, batizada de Pax-2, será erguida em Acra, capital de Gana, e ocupará uma área de 3.158 metros quadrados como principal base regional de produção de sistemas de defesa e veículos aéreos não tripulados.

A companhia captou 34 milhões de dólares para ampliar sua capacidade de fabricação e acelerar o desenvolvimento de novos modelos. O investimento permitirá ainda expandir as equipes de engenharia na Nigéria e em países africanos aliados.

A construção da planta encontra-se em fase final, conforme noticiou a RT. A unidade deve estar plenamente operacional até o fim de junho de 2026 e alcançar capacidade anual de 50 mil drones até 2028.

A Terra Industries afirmou em comunicado que a expansão para Gana integra sua missão de construir uma base industrial de defesa soberana africana. O movimento ocorre em meio à transformação dos conflitos modernos no Sahel e na África Subsaariana, onde grupos não estatais utilizam drones comerciais modificados como armas.

O cofundador e diretor executivo da Terra Industries, Nathan Nwachuku, destacou que a união e o fortalecimento da própria capacidade de defesa representam a única forma de o continente alcançar paz duradoura. Nwachuku argumentou que depender de arquiteturas de segurança estrangeiras apenas perpetua a vulnerabilidade africana.

O executivo nigeriano afirmou que a Pax-2 representa o início da materialização dessa visão estratégica. A escolha de Gana decorreu de seu ambiente político estável, da disponibilidade de talentos técnicos e da disposição do país em se tornar exportador relevante de equipamentos de defesa.

A empresa promove o conceito de “Pax Africana” para definir sua visão de longo prazo. A ideia busca uma paz sustentável por meio da soberania tecnológica e da capacidade autônoma de autodefesa, rompendo com a dependência de fornecedores externos.

O projeto Pax-2 simboliza um passo relevante na consolidação de um ecossistema industrial africano voltado à segurança e à inovação. A Terra Industries pretende posicionar-se como líder continental em sistemas de defesa integrados que combinam vigilância, guerra eletrônica e resposta cinética.

Com informações de ACTUALIDAD.


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Presidente do Burundi visita Burkina Faso para restabelecer diálogo com a União Africana https://www.ocafezinho.com/2026/04/20/presidente-do-burundi-visita-burkina-faso-para-restabelecer-dialogo-com-a-uniao-africana/ https://www.ocafezinho.com/2026/04/20/presidente-do-burundi-visita-burkina-faso-para-restabelecer-dialogo-com-a-uniao-africana/#comments Mon, 20 Apr 2026 18:02:03 +0000 https://www.ocafezinho.com/2026/04/20/presidente-do-burundi-visita-burkina-faso-para-restabelecer-dialogo-com-a-uniao-africana/ 13 Comentários 🔥]]>
O presidente do Burundi, Évariste Ndayishimiye, durante um pronunciamento. (Foto: AFP)

O presidente do Burundi e atual presidente da União Africana, general Évariste Ndayishimiye, iniciou visita oficial a Ouagadougou com o objetivo de reforçar o diálogo entre o bloco continental e o governo do Burkina Faso após anos de tensão.

O líder burundês foi recebido no aeroporto internacional pelo capitão Ibrahim Traoré, presidente do Burkina Faso. Os dois dirigentes seguiram para o palácio presidencial para realizar conversações de alto nível.

Ndayishimiye deverá visitar infraestruturas socioeconômicas da capital durante sua permanência no país. Segundo a RFI, a iniciativa visa restabelecer canais diretos entre as partes.

O Burkina Faso integra a Aliança dos Estados do Sahel juntamente com Mali e Níger. O grupo busca maior autonomia política e militar diante das sanções aplicadas após as mudanças de governo na região.

A ascensão do capitão Ibrahim Traoré ao poder, em setembro de 2022, resultou na suspensão do Burkina Faso das atividades da União Africana. Apesar da medida, os contatos nunca foram totalmente interrompidos.

O então presidente da Comissão da União Africana, Moussa Faki Mahamat, esteve no país em fevereiro de 2023. Em 2025, o emissário Antonio Tete realizou missão de informação e escuta junto às autoridades burkinenses.

Essas visitas anteriores prepararam o terreno para o atual esforço de reaproximação. Ao assumir a liderança rotativa da União Africana, o general Ndayishimiye defendeu a restauração da estabilidade institucional na região do Sahel.

Ele enfatizou a necessidade de diálogo sobre os desafios de segurança e desenvolvimento. O governo burkinense tem ampliado parcerias com países africanos e com potências como Rússia e China, consolidando sua soberania nacional e diversificando as relações exteriores.

Observadores consideram que a visita pode abrir nova fase nas relações entre a União Africana e os Estados do Sahel. O encontro reforça a busca por respostas regionais aos problemas do continente.


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China avança na África ao internacionalizar a própria moeda https://www.ocafezinho.com/2026/01/21/china-avanca-na-africa-ao-internacionalizar-a-propria-moeda/ https://www.ocafezinho.com/2026/01/21/china-avanca-na-africa-ao-internacionalizar-a-propria-moeda/#respond Wed, 21 Jan 2026 16:22:24 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=224829 Iniciativa ocorre enquanto países africanos buscam reduzir riscos cambiais e dependência do dólar em meio a pressões geopolíticas globais

A Zâmbia acaba de se tornar pioneira ao permitir que mineradoras chinesas paguem impostos em yuan. Essa decisão pode inspirar outros países africanos. Afinal, Pequim acelera esforços para elevar sua moeda no mundo e reduzir a dependência do dólar americano. Além disso, a mudança reflete uma tendência crescente no continente.

Segundo o Bloomberg, autoridades zambianas anunciaram a novidade em 31 de dezembro. China, como maior parceira comercial da África, vê nisso uma vitória. O Quênia já trocou parte de sua dívida em dólares por yuan. A Etiópia negocia algo similar. No ano passado, o Banco Africano de Exportação e Importação emitiu seu primeiro título panda. Portanto, o yuan ganha espaço.

Tewodros Sile, consultor sênior da Africa Practice, explica: “um modelo que a China poderia repetir em outros lugares do continente, à medida que busca desmonopolizar ainda mais a arquitetura financeira internacional”. Ele acrescenta que essas ações fortalecem laços da China com aliados africanos chave. No entanto, o yuan ainda representa menos de 2% das reservas mundiais.

Países africanos buscam opções além do dólar. China, como grande credora, financia projetos na Zâmbia e em outros lugares. Ela também compra muitas commodities do continente. Assim, aumentar o uso do yuan beneficia todos.

Washington usa o dólar como ferramenta contra rivais, via sanções. Isso incentiva alternativas. Na semana passada, o Departamento de Justiça de Donald Trump intimou o Federal Reserve. Analistas viram nisso uma pressão por juros mais baixos. Essa ação ameaça a independência do banco e abala confiança em ativos americanos.

Xi Jinping, presidente chinês, defendeu uma moeda forte em 2024. Ele visa tornar a China uma potência financeira. Embora Pequim não force abertamente, o yuan avança. No entanto, controles de capital limitam sua expansão.

O comércio com a China impulsiona o yuan. Sua fatia no financiamento comercial subiu de 2% para 7% em cinco anos, segundo o Banco Popular da China. Em outubro, um relatório anual prometeu atrair mais entidades estrangeiras. Os custos baixos do yuan – 200 pontos-base abaixo do dólar – seduzem investidores.

O banco não respondeu a um pedido de comentário em 16 de janeiro. Apesar dos ganhos, desafios persistem. Dados do FMI mostram o yuan em 1,93% das reservas globais de julho a setembro de 2025. Pagamentos via Swift caíram para 2,94% em novembro, após pico de 4,74% em 2024.

Kean Fan Lim, da Universidade de Newcastle, observa: “O aumento das reservas de renminbi nos países africanos e a disposição destes em converter dívidas em renminbi certamente refletem um alcance expandido da moeda”. Ele alerta que o yuan não é totalmente conversível. Assim, serve mais como moeda de troca.

Mais nações africanas adotam o yuan para comércio e investimentos. Isso as integra à influência chinesa. Jito Kayumba, assessor do presidente zambiano Hakainde Hichilema, destaca benefícios. Ele diz à Bloomberg: “Obviamente, valorizamos o dólar — ele é a moeda de reserva”. E completa: “Mas quanto maior a demanda por ele, maior o risco cambial significativo para nós.”

Essa estratégia protege contra choques dos EUA. Portanto, a Zâmbia lidera um movimento. Outros países podem seguir. No final, o yuan desafia o domínio do dólar. África ganha autonomia financeira.

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Grandes rachaduras no solo da Etiópia revelam processo geológico que pode dividir a África e formar novo oceano https://www.ocafezinho.com/2026/01/15/grandes-rachaduras-no-solo-da-etiopia-revelam-processo-geologico-que-pode-dividir-a-africa-e-formar-novo-oceano/ https://www.ocafezinho.com/2026/01/15/grandes-rachaduras-no-solo-da-etiopia-revelam-processo-geologico-que-pode-dividir-a-africa-e-formar-novo-oceano/#respond Thu, 15 Jan 2026 23:56:01 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=224595 Uma série de fissuras que se alargam lentamente no sul da Etiópia voltou a chamar a atenção de cientistas e autoridades para um dos processos geológicos mais significativos do planeta: a abertura progressiva do Vale do Rift Africano. O fenômeno, que ocorre ao longo de milhares a milhões de anos, pode no futuro dividir o continente africano em duas grandes massas de terra.

Em áreas rurais da região de Afar, no leste etíope, fendas irregulares já cortam o solo, atravessando pastagens, estradas e áreas agrícolas. Em alguns pontos, o terreno apresenta odor de enxofre e estalos constantes, resultado da atividade vulcânica associada ao estiramento da crosta terrestre. Moradores relatam que locais antes transitáveis passaram a ser interrompidos por rachaduras profundas, enquanto equipes científicas monitoram a evolução do processo com imagens de satélite e instrumentos de medição em campo.

O Vale do Rift Africano é uma gigantesca zona de fraturas tectônicas que se estende por mais de 6 mil quilômetros, do Mar Vermelho até Moçambique. Nessa região, placas tectônicas estão se afastando gradualmente, em um movimento de poucos milímetros por ano. Embora imperceptível no cotidiano, essa separação contínua provoca fraturas na superfície e favorece a ascensão de magma do interior da Terra, formando nova crosta à medida que o material se solidifica.

O episódio que colocou o fenômeno no centro das atenções ocorreu em 2005, quando uma fenda de grandes proporções se abriu repentinamente no deserto de Afar. Em poucos dias, surgiu um abismo com dezenas de quilômetros de extensão e largura suficiente para interromper rodovias. Imagens de satélite registraram o evento como um raro exemplo, em terra firme, de um processo comum no fundo dos oceanos, onde novas placas tectônicas se formam continuamente.

Desde então, pesquisadores observaram o surgimento de fissuras menores em diferentes pontos da Etiópia, do Quênia e de países vizinhos. Em algumas localidades, estradas foram danificadas, sistemas de irrigação se romperam e comunidades precisaram adaptar rotinas diante da instabilidade do solo. Autoridades locais acompanham a situação, embora reconheçam que não há medidas capazes de interromper um processo geológico dessa escala.

Para a comunidade científica, o Vale do Rift Africano funciona como um laboratório natural. O estudo das fraturas permite compreender melhor como continentes se formam e se fragmentam ao longo do tempo. Segundo geólogos, se o movimento atual continuar, a água do oceano poderá invadir a área rebaixada, dando origem a um novo braço marítimo e, eventualmente, a um novo oceano. Esse cenário, no entanto, está projetado para ocorrer apenas em milhões de anos.

Apesar do horizonte distante, os impactos imediatos preocupam populações locais. Agricultores e pastores relatam perdas de terras produtivas e dificuldades de deslocamento. Em regiões mais isoladas, a abertura súbita de fissuras representa risco direto à segurança, especialmente durante períodos de chuva, quando o solo se torna mais instável. Governos regionais e organizações internacionais têm investido em mapeamento geológico para identificar áreas de maior risco.

O interesse internacional também cresceu com a circulação de vídeos e imagens nas redes sociais, mostrando o solo “se abrindo” em tempo real. Especialistas alertam, contudo, que o fenômeno não deve ser interpretado como um evento catastrófico iminente, mas como parte de um processo lento e contínuo. “Não se trata de uma ruptura repentina do continente, e sim de um alongamento progressivo da crosta”, explicam pesquisadores envolvidos no monitoramento da região.

Além do aspecto científico, o Vale do Rift Africano possui relevância histórica e ambiental. A região abriga importantes sítios arqueológicos ligados à evolução humana e ecossistemas únicos, adaptados a condições geológicas e climáticas extremas. A atividade tectônica influencia a formação de lagos, a fertilidade do solo vulcânico e a disponibilidade de recursos naturais, fatores que moldaram a ocupação humana ao longo de milênios.

Especialistas destacam que o acompanhamento contínuo do fenômeno é essencial para reduzir riscos e orientar políticas públicas. Sistemas de alerta, planejamento de infraestrutura e educação das comunidades locais são apontados como medidas fundamentais para lidar com os efeitos mais imediatos das fraturas.

Enquanto cientistas observam e registram cada nova fissura, a paisagem do leste africano segue se transformando de forma silenciosa. O que hoje se manifesta como rachaduras em estradas de terra e campos de pastagem pode, em um futuro geológico distante, redesenhar o mapa do planeta, criando novos mares e alterando definitivamente a configuração da África.

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Quando 100 megabytes viram uma sala de aula https://www.ocafezinho.com/2025/10/24/quando-100-megabytes-viram-uma-sala-de-aula/ https://www.ocafezinho.com/2025/10/24/quando-100-megabytes-viram-uma-sala-de-aula/#respond Fri, 24 Oct 2025 12:54:10 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=220699 Enquanto o Norte lucra com algoritmos, a juventude africana reinventa o uso da tecnologia como forma de resistência e emancipação

No coração de Budondo, uma pequena vila em Uganda, onde as estradas são de terra batida e a eletricidade falha mais do que funciona, um jovem de 18 anos desafia o destino. EIlly Ntonde, estudante de química, tenta entender como os metais reagem ao ácido — uma questão simples nos grandes centros urbanos, mas um desafio enorme em uma região onde escolas carecem de laboratórios, professores e até luz constante.
Sem biblioteca e sem livros, Ntonde recorreu à única ferramenta que lhe resta: um celular barato e 100 megabytes de dados. Bastaram alguns toques e, em segundos, ele tinha diante de si as explicações detalhadas de um tutor que nunca dorme: o ChatGPT, símbolo mais recente da revolução digital.

Essa cena sintetiza uma mudança histórica. Pela primeira vez, a juventude africana, tantas vezes deixada à margem da globalização, encontra na inteligência artificial (IA) não apenas um recurso tecnológico, mas uma oportunidade concreta de emancipação. O que antes parecia um privilégio reservado a poucos — o acesso ao conhecimento — agora cabe no bolso e custa centavos.

Mas a pergunta que se impõe é: a IA vai realmente democratizar o saber ou apenas reproduzir as desigualdades que a criaram?

A experiência de Budondo não é isolada. Em Nairóbi, no Quênia, um projeto entre a OpenAI e a rede de clínicas Penda Health mostrou que médicos auxiliados por IA reduziram erros de diagnóstico em 16%. Na Nigéria, estudantes que usaram o Microsoft Copilot tiveram ganhos equivalentes a dois anos extras de aprendizado em inglês. São resultados concretos que revelam o poder transformador da tecnologia quando usada com propósito social.

Essa transformação ecoa a revolução dos celulares nas décadas passadas. A África, que tinha menos de uma linha telefônica por 100 pessoas nos anos 1990, saltou diretamente para a era móvel, tornando-se um dos continentes mais conectados do mundo em duas décadas. Agora, a IA promete um novo salto — o salto do conhecimento.

Mas, como toda revolução, essa também corre o risco de ser sequestrada pelos interesses de sempre.

O abismo digital e a nova face da desigualdade

Enquanto nove em cada dez pessoas em países ricos estão conectadas, nos países pobres apenas uma em cada quatro tem acesso à internet. Mesmo onde há sinal, o preço dos dados é uma barreira intransponível. E sem conectividade, a IA é apenas um mito distante — uma promessa feita para os outros.

A boa notícia é que conversar com uma IA consome menos dados do que uma simples busca no Google. O problema é que ainda assim, para milhões, o custo é proibitivo. As grandes operadoras de telecomunicações continuam cobrando caro, transformando a informação — bem público essencial — em mercadoria de luxo.

A esquerda deve ser clara nesse ponto: sem políticas públicas robustas de conectividade universal, a inteligência artificial apenas reforçará o apartheid digital entre ricos e pobres.

Não se trata de caridade tecnológica, mas de justiça social. O acesso à IA deve ser entendido como um novo direito humano — tão essencial quanto o direito à educação ou à água potável.

A barreira invisível da linguagem

A IA também traz uma nova forma de exclusão: a linguística. A maioria dos modelos é treinada em inglês e outras línguas dos países ricos, ignorando as centenas de idiomas africanos falados por milhões de pessoas. Isso cria um abismo cultural que vai muito além da tradução: trata-se da negação de identidade.

Projetos como Masakhane, Ghana NLP e Kencorpus surgem como resistência — iniciativas comunitárias que desenvolvem IA em idiomas locais, reivindicando o direito à palavra, à compreensão e à representação. São movimentos políticos, ainda que travestidos de tecnologia. Quando uma criança pode aprender ciência em sua própria língua, ela não está apenas estudando — está reivindicando lugar no mundo.

O desafio institucional: IA sem política é só um brinquedo

Mas nenhuma ferramenta muda o mundo sozinha. O economista Iqbal Dhaliwal lembra que muitas “tecnologias milagrosas” fracassaram por não se integrarem às estruturas locais. Foi assim com os MOOCs — cursos online que prometiam democratizar o ensino e acabaram beneficiando apenas quem já tinha capital cultural para aproveitá-los.

A IA corre o mesmo risco. Sem professores preparados, sem escolas equipadas e sem políticas públicas que a tornem parte do sistema, ela será mais um luxo tecnocrático vendido como salvação.

Um estudo da Universidade Columbia mostra como isso acontece: um sistema de IA na Índia identificou milhares de empresas fraudulentas, mas nada mudou. O Estado não tinha meios — nem vontade política — para agir sobre os dados. Inteligência sem ação é impotência.

O progresso como construção coletiva

A verdadeira revolução da IA só ocorrerá quando ela mudar a forma como as pessoas vivem e trabalham — quando for integrada à economia real, à saúde pública, à educação básica. Quando deixar de ser ferramenta de lucro e se tornar instrumento de emancipação.

Para isso, é preciso investimento público, infraestrutura, formação docente e soberania tecnológica. Os países africanos não podem ser apenas consumidores de IA feita no Norte Global; precisam ser produtores, criadores, autores do próprio futuro digital.

Um futuro escrito nas telas de Budondo

EIlly Ntonde, com seus 100 MB e sua curiosidade infinita, representa mais do que um estudante curioso: ele é o retrato de uma geração que não quer esperar pela benevolência do mercado ou das potências estrangeiras. Quer aprender, quer criar, quer transformar.

A esquerda deve enxergar nessa juventude um farol. O potencial da inteligência artificial é imenso, mas sua realização depende de um projeto político que coloque o conhecimento acima do lucro, a inclusão acima da eficiência, e a dignidade acima da produtividade.

Enquanto o mundo corporativo enxerga a IA como oportunidade de negócios, os jovens de Budondo a enxergam como oportunidade de vida. E é nessa diferença que reside o verdadeiro sentido do progresso.

Afinal, quando um estudante em uma vila africana consegue aprender química com a ajuda de um chatbot, mesmo sem luz elétrica, o que está em jogo não é apenas tecnologia — é justiça social em sua forma mais pura.

Porque, no fim das contas, a revolução da inteligência artificial não será medida em linhas de código, mas em quantos EIllys conseguirão, enfim, escrever o próprio futuro.

Com informações de The Economist*

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Geração Z enfrenta décadas de má governança e miséria em Madagascar https://www.ocafezinho.com/2025/10/14/geracao-z-enfrenta-decadas-de-ma-governanca-e-miseria-em-madagascar/ https://www.ocafezinho.com/2025/10/14/geracao-z-enfrenta-decadas-de-ma-governanca-e-miseria-em-madagascar/#respond Tue, 14 Oct 2025 07:30:00 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=219139 O presidente deixa Madagascar em aeronave francesa, mas a verdadeira força vem das ruas, onde jovens lutam contra pobreza e corrupção

imagem de Andry Rajoelina embarcando em uma aeronave militar francesa para deixar Madagascar não é a fotografia do fim de uma crise, mas o retrato amargo de uma soberania tutelada. Enquanto as ruas de Antananarivo ecoam o grito de uma geração que se recusa a herdar a miséria, a “solução” para o impasse político é costurada a portas fechadas e executada sob a asa de uma antiga potência colonial. A saída do presidente pode ser um alívio para o povo, mas a forma como ela se deu é um insulto à sua luta.

O que assistimos não foi um acordo entre malgaxes para o bem de Madagascar. Foi uma intervenção externa, um “acordo com Emmanuel Macron”, que permitiu a um líder repudiado por seu povo uma saída segura, enquanto 22 cidadãos jazem mortos, vítimas da repressão de um regime que ele comandava. A França, mais uma vez, se posiciona como árbitra do destino de uma nação africana, decidindo quem fica e quem sai, tratando um país soberano como um protetorado instável que precisa de um administrador externo.

A verdadeira força motriz desta mudança histórica não está em Paris, mas nas ruas de Madagascar. Está na coragem dos milhares de jovens, a chamada “Geração Z”, que transformaram a frustração pela falta de água e luz em um levante contra décadas de má governança. Está na voz de Adrianarivony Fanomegantsoa, o jovem de 22 anos que sobrevive com 67 dólares por mês e resume o sentimento de uma nação: “o presidente e seu governo não fizeram nada além de enriquecer enquanto o povo continua pobre”.

Esta não é uma crise fabricada por elites ou uma simples disputa de poder. É o resultado matemático de um colapso econômico e social devastador. Um país cuja renda per capita caiu 45% desde sua independência não está falhando por acaso. Está sendo sistematicamente espoliado por uma classe política corrupta, da qual Rajoelina é apenas o expoente mais recente. A juventude, com uma idade média inferior a 20 anos, percebeu que seu futuro estava sendo roubado e decidiu tomá-lo de volta.

A ruptura dentro das Forças Armadas, com a mesma unidade de elite que levou Rajoelina ao poder em 2009 agora o abandonando, é a prova final de que seu governo perdeu qualquer vestígio de legitimidade. O poder real retornou à sua fonte original: o povo. A tomada de controle da gendarmaria e a destituição do presidente do Senado não foram atos de anarquia, mas passos desesperados e necessários de uma nação para retomar as rédeas de seu próprio destino.

Enquanto Rajoelina voa para um exílio confortável, a verdadeira questão permanece em terra: poderá Madagascar finalmente construir um futuro sem a interferência de padrinhos externos e sem a ganância de suas próprias elites? A renúncia foi conquistada nas ruas, pelo suor e sangue do povo malgaxe. A soberania, para ser plena, deve ser exercida por eles e para eles, não negociada em capitais estrangeiras. O avião francês já partiu, mas a “Geração Z” e seu sonho de um país justo e próspero continuam em solo, mais vigilantes do que nunca.

Com informações de Reuters*

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Presidente de Madagascar foge e fúria jovem toma conta das ruas https://www.ocafezinho.com/2025/10/13/presidente-de-madagascar-foge-e-furia-jovem-toma-conta-das-ruas/ https://www.ocafezinho.com/2025/10/13/presidente-de-madagascar-foge-e-furia-jovem-toma-conta-das-ruas/#comments Mon, 13 Oct 2025 14:36:32 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=219140 1 Comentário 🔥]]> Em meio à ruptura militar e à pressão das ruas, Rajoelina deixa Madagascar em avião francês, enquanto a geração Z lidera um levante contra a corrupção

O presidente de Madagascar, Andry Rajoelina, teria deixado o território malgaxe a bordo de uma aeronave militar francesa, segundo informações divulgadas pela rádio francesa RFI nesta segunda-feira (13). A emissora afirma que a saída de Rajoelina ocorreu após um acordo com o presidente da França, Emmanuel Macron, em meio a uma escalada de tensão política e protestos generalizados no país.

De acordo com a RFI, o líder malgaxe encontra-se fora de Madagascar, após dias de incerteza e perda de apoio dentro das próprias forças armadas. A situação do governo se deteriorou rapidamente quando uma importante unidade do exército rompeu com o presidente e declarou apoio às manifestações populares, formadas principalmente por milhares de jovens que pedem o fim da corrupção, a redução da pobreza e a renúncia do chefe de Estado.

A presidência de Madagascar ainda não se pronunciou oficialmente sobre a suposta saída de Rajoelina.

O movimento que abalou o governo começou em 25 de setembro, inicialmente motivado pela escassez de água e energia nas principais cidades. Contudo, as queixas rapidamente se ampliaram, transformando-se em um grande levante contra a má governança e a falta de serviços básicos, reflexo de anos de insatisfação popular.

A tensão política ganhou novo fôlego quando membros da oposição na Assembleia Nacional anunciaram a abertura de um processo de impeachment contra o presidente. O deputado Siteny Randrianasoloniaiko, líder oposicionista, confirmou à agência Reuters que o procedimento deve ser iniciado nos próximos dias.

Alerta de golpe e ruptura nas Forças Armadas

No domingo, Rajoelina havia alertado sobre uma possível tentativa de golpe no país, logo após perder o apoio da CAPSAT, uma unidade de elite do exército malgaxe. Curiosamente, foi essa mesma força militar que o ajudou a chegar ao poder em 2009, também por meio de um golpe.

Durante o fim de semana, a CAPSAT anunciou que assumiria o comando das Forças Armadas e chegou a nomear um novo chefe do exército. A crise se agravou na segunda-feira, quando parte da gendarmaria paramilitar, que havia declarado apoio aos protestos, tomou o controle da corporação em uma cerimônia oficial, com a presença de altos funcionários do governo, segundo testemunhas ouvidas pela Reuters.

O presidente do Senado, figura central da recente indignação popular, foi destituído do cargo, e o parlamentar Jean André Ndremanjary foi nomeado presidente interino. Pela constituição malgaxe, na ausência do presidente, o chefe do Senado assume o comando do país até a realização de novas eleições.

A força da “Geração Z” nas ruas

Na capital Antananarivo, milhares de manifestantes voltaram às ruas na segunda-feira, entoando palavras de ordem como “O presidente deve renunciar agora!”. Entre eles estava Adrianarivony Fanomegantsoa, um jovem de 22 anos que trabalha em um hotel e relatou à Reuters que sobrevive com 300 mil ariary mensais (cerca de US$ 67) — valor insuficiente até para alimentar sua família.

“Em 16 anos, o presidente e seu governo não fizeram nada além de enriquecer enquanto o povo continua pobre. E os jovens, a Geração Z, são os que mais sofrem”, declarou Fanomegantsoa.

Segundo dados das Nações Unidas, pelo menos 22 pessoas morreram desde o início das manifestações, em confrontos entre manifestantes e forças de segurança.

Os protestos da chamada “Geração Z” em Madagascar ecoam movimentos recentes em países como Nepal, Quênia e Marrocos, onde jovens também se rebelaram contra as elites políticas. Um símbolo comum — a caveira com chapéu de palha do mangá japonês One Piece — tem sido visto em bandeiras e camisetas, representando a luta global de uma nova geração contra a desigualdade.

Um país jovem e empobrecido

Com 30 milhões de habitantes, dos quais três quartos vivem na pobreza, Madagascar é uma das nações mais jovens do mundo: a idade média é inferior a 20 anos. O Banco Mundial aponta que o PIB per capita do país caiu 45% desde a independência em 1960 até 2020, revelando um colapso econômico de longo prazo.

Apesar de ser o maior produtor mundial de baunilha, a economia malgaxe depende também da exportação de níquel, cobalto, têxteis e camarões — setores vitais para a geração de empregos e divisas.

Enquanto o destino de Andry Rajoelina permanece incerto, o país vive um dos momentos mais delicados desde o retorno da democracia, com uma juventude determinada a mudar o rumo de uma nação marcada por desigualdade, corrupção e décadas de instabilidade política.

Com informações de Reuters*

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Barragem etíope simboliza emancipação do Nilo https://www.ocafezinho.com/2025/09/13/barragem-etiope-simboliza-emancipacao-do-nilo/ https://www.ocafezinho.com/2025/09/13/barragem-etiope-simboliza-emancipacao-do-nilo/#respond Sat, 13 Sep 2025 10:40:00 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=218591 A maior barragem da África simboliza não apenas progresso tecnológico, mas também a ambição do continente em liderar infraestrutura estratégica.

A África escreveu uma das páginas mais simbólicas de sua história contemporânea. Nas terras altas da região de Benishangul-Gumuz, no noroeste da Etiópia, foi oficialmente inaugurada a Grande Barragem do Renascimento Etíope (GERD) — o maior projeto hidrelétrico do continente, com capacidade para gerar 5.150 megawatts de energia limpa e armazenar até 74 bilhões de metros cúbicos de água. Mas mais do que uma obra de engenharia monumental, a GERD é um ato de soberania, um manifesto de dignidade e um passo decisivo rumo à emancipação energética e econômica da África.

A cerimônia de inauguração, realizada às margens do Nilo Azul — conhecido na Etiópia como Rio Abay —, reuniu não apenas autoridades etíopes, mas também líderes de todo o continente: o presidente queniano William Ruto, o presidente djibutiano Ismail Omar Guelleh, o sul-sudanês Salva Kiir e o chefe da Comissão da União Africana, Mahmoud Ali Youssouf. Essa presença não foi protocolar. Foi solidária. Porque, embora a barragem esteja fisicamente na Etiópia, seu significado é pan-africano. Ela representa a recusa coletiva do continente em aceitar que seus recursos naturais continuem a ser geridos por lógicas coloniais — onde o acesso à água, à energia e ao desenvolvimento é condicionado por potências externas ou por acordos históricos que ignoram a justiça e a equidade.

Desde que sua construção começou em 2011, a GERD tem sido alvo de tensões diplomáticas, especialmente com o Egito e o Sudão, que temem impactos sobre suas cotas de água do Nilo. Esses temores, embora compreensíveis, foram muitas vezes instrumentalizados por narrativas que insistem em ver a África como um espaço de escassez e conflito inevitável — nunca como um lugar de cooperação soberana e gestão coletiva dos bens comuns. Diante dessas preocupações, o primeiro-ministro etíope Abiy Ahmed reafirmou, com clareza e firmeza humanista: “Acreditamos firmemente no avanço coletivo”. A Etiópia não busca o desenvolvimento às custas de seus vizinhos, mas com eles — e apesar das tentativas externas de dividir os povos do Nilo.

É crucial lembrar que o Nilo Azul, que nasce no Lago Tana, na Etiópia, contribui com cerca de 85% da água do Nilo que chega ao Egito. No entanto, por décadas, acordos coloniais — como o de 1929, imposto pela Grã-Bretanha — garantiram ao Egito direitos quase exclusivos sobre o rio, enquanto os países da nascente, como a Etiópia, foram excluídos das decisões sobre um recurso que brota de suas próprias montanhas. A GERD é, portanto, muito mais do que uma barragem: é uma correção histórica. É a afirmação de que os povos que vivem nas nascentes têm tanto direito à água quanto aqueles que vivem em seu delta.

Do ponto de vista humanitário e progressista, a energia gerada pela GERD é uma ferramenta poderosa de transformação social. Com eletricidade estável e acessível, a Etiópia poderá impulsionar sua indústria, criar empregos dignos, expandir o acesso à internet e à educação digital, melhorar sistemas de saúde e irrigar campos agrícolas — tudo isso com energia limpa, renovável e soberana. Hoje, mais de 50% da população etíope ainda vive sem acesso à rede elétrica. A GERD não é um projeto de luxo; é um projeto de justiça energética.

Além disso, Abiy Ahmed destacou o potencial da barragem para promover a integração energética regional. A eletricidade excedente poderá ser exportada para países vizinhos — como o Sudão, o Quênia e o Djibuti — fortalecendo laços econômicos baseados na cooperação Sul-Sul, não na dependência. Esse é o verdadeiro espírito da União Africana: não apenas falar de integração, mas construí-la, concreta e materialmente, metro a metro de linha de transmissão, quilowatt por quilowatt.

É importante também destacar como a GERD foi financiada: principalmente com recursos internos. Através de títulos públicos, campanhas nacionais e contribuições voluntárias de cidadãos etíopes dentro e fora do país, o povo se tornou coproprietário de seu próprio futuro. Essa abordagem contrasta fortemente com o modelo tradicional de grandes infraestruturas no continente, frequentemente condicionadas a empréstimos predatórios do FMI ou do Banco Mundial, que impõem austeridade e privatizações em troca de financiamento. A Etiópia disse “não” a essa lógica. E disse “sim” à autofinanciação soberana.

Claro, desafios permanecem. A gestão das águas do Nilo exige diálogo contínuo, transparência técnica e mecanismos de cooperação baseados na ciência, não no medo. Mas a postura da Etiópia tem sido consistente: nenhum país será prejudicado. E, ao mesmo tempo, nenhum país africano deve ser impedido de se desenvolver por acordos feitos em salas coloniais há um século.

A inauguração da GERD é, portanto, um marco civilizacional. Ela sinaliza que a África não aceitará mais ser tratada como um continente de recursos a serem extraídos, mas sim como um sujeito ativo de seu próprio destino. Que suas águas não são propriedade de impérios, mas bens comuns dos povos que nelas vivem. Que seu desenvolvimento não será condicionado por quem nunca construiu uma escola, uma clínica ou uma usina em suas terras.

Nesse sentido, a Grande Barragem do Renascimento Etíope não é apenas etíope. Ela pertence a todos os africanos que sonham com um continente energizado, unido e livre. E, mais do que isso, ela serve de inspiração para todos os povos do Sul Global que lutam pelo direito de usar seus próprios recursos para alimentar seu próprio futuro — sem pedir permissão, mas com responsabilidade, solidariedade e visão de longo prazo.

Que o Rio Abay continue a fluir — não como símbolo de disputa, mas como veia pulsante de um novo renascimento africano.

Com informações de Xinhua*

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A água como direito! Etiópia marca história da África https://www.ocafezinho.com/2025/09/12/a-agua-como-direito-etiopia-marca-historia-da-africa/ https://www.ocafezinho.com/2025/09/12/a-agua-como-direito-etiopia-marca-historia-da-africa/#respond Fri, 12 Sep 2025 17:00:00 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=218590 A inauguração histórica reuniu líderes africanos e reafirma a soberania regional, desafiando antigos acordos coloniais e narrativas de escassez

Líderes africanos celebram o projeto enquanto Adis Abeba reforça compromisso com o uso responsável da água, buscando cooperação regional.Nas profundezas do noroeste etíope, onde o Rio Nilo Azul (conhecido localmente como Abay) inicia sua jornada milenar, um gigante de concreto e esperança acaba de despertar. Na última terça-feira, a Etiópia inaugurou oficialmente a Grande Barragem do Renascimento Etíope (GERD), um projeto que é muito mais do que a maior usina hidrelétrica da África; é um audacioso símbolo de soberania, um ato de autodeterminação contra séculos de uma ordem que negava aos africanos o direito sobre seus próprios recursos.

A cerimônia de inauguração, realizada sob o sol forte da região de Benishangul-Gumuz, foi uma celebração de escala continental. Ao lado de altos funcionários etíopes, estavam líderes de todo o continente – os presidentes do Quênia, Djibuti, Sudão do Sul e o presidente da Comissão da União Africana. A presença deles não foi protocolar; foi um endosso pan-africano a um projeto que representa um novo paradigma de desenvolvimento para a África, liderado por africanos.

Desde que a primeira pedra foi lançada em 2011, a GERD tem sido o sonho e o sacrifício de uma nação. Com uma capacidade de geração de 5.150 megawatts e um reservatório projetado para armazenar 74 bilhões de metros cúbicos de água, a barragem é a espinha dorsal do futuro do país. Em seu discurso emocionado, o primeiro-ministro Abiy Ahmed falou não apenas de energia, mas de dignidade. Ele destacou o potencial da barragem para “fortalecer a economia nacional ao fornecer energia estável para a indústria, melhorar os meios de subsistência e promover a integração energética regional”.

“Parabéns a todos os etíopes, tanto em casa quanto no exterior, bem como aos nossos amigos ao redor do mundo, pela inauguração histórica da Grande Barragem do Renascimento Etíope”, declarou Abiy, celebrando o fim de uma jornada de mais de uma década.

Este colosso nasceu em meio a uma longa e complexa disputa geopolítica. Por anos, Egito e Sudão, países a jusante, expressaram o temor de que a barragem pudesse reduzir sua cota de água do Nilo, um medo enraizado em tratados da era colonial que historicamente os beneficiaram. A Etiópia, de onde brota mais de 85% das águas do Nilo, sempre foi marginalizada nessas discussões. A construção da GERD foi, portanto, um ato de soberania hídrica, a afirmação do direito de um país de utilizar o recurso que nasce em seu solo para tirar seu povo da pobreza.

Respondendo a essas tensões, o discurso de Abiy foi de um estadista que busca um novo futuro para a região, baseado na cooperação e não na dominação. “Acreditamos firmemente no avanço coletivo”, afirmou, estendendo a mão aos vizinhos e reafirmando o compromisso da Etiópia de buscar o crescimento “sem prejudicar os interesses de seus vizinhos”.

A mensagem é clara: a era em que o destino dos recursos africanos era decidido em capitais estrangeiras acabou. A GERD não é apenas uma fonte de eletricidade; é uma fonte de inspiração. Ela prova que é possível para uma nação africana sonhar, financiar e construir projetos monumentais que servem ao seu povo e que podem, em última instância, fortalecer todo o continente. O coração elétrico da África começou a bater, e seu ritmo ecoa uma canção de renascimento e esperança.

Com informações de Xinhua*

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Etiópia inaugura a maior barragem hidroelétrica de África https://www.ocafezinho.com/2025/09/10/etiopia-inaugura-a-maior-barragem-hidroeletrica-de-africa/ https://www.ocafezinho.com/2025/09/10/etiopia-inaugura-a-maior-barragem-hidroeletrica-de-africa/#respond Wed, 10 Sep 2025 10:40:00 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=218588 A inauguração da GERD marca um avanço histórico para a Etiópia, ampliando energia limpa, empregos e integração regional no Nilo Azul

A Etiópia inaugurou oficialmente na terça-feira a Grande Barragem do Renascimento Etíope (GERD), o maior projeto hidrelétrico da África. Uma cerimônia foi realizada perto da barragem, na região noroeste de Benishangul-Gumuz, para celebrar a conclusão oficial do projeto. Estiveram presentes altos funcionários etíopes, líderes africanos e representantes da União Africana e de outras organizações internacionais, incluindo o presidente da Comissão da União Africana, Mahmoud Ali Youssouf, o presidente queniano William Ruto, o presidente djibutiano Ismail Omar Guelleh e o presidente sul-sudanês Salva Kiir.

A construção do projeto hidrelétrico de 5.150 megawatts começou em 2011 no Rio Nilo Azul, perto da fronteira com o Sudão.

Ao discursar no evento, o primeiro-ministro etíope, Abiy Ahmed, destacou o potencial da barragem para fortalecer a economia nacional ao fornecer energia estável para a indústria, melhorar os meios de subsistência e promover a integração energética regional.

“Parabéns a todos os etíopes, tanto em casa quanto no exterior, bem como aos nossos amigos ao redor do mundo, pela inauguração histórica da Grande Barragem do Renascimento Etíope”, disse ele.

O projeto, com capacidade total projetada para armazenar água de 74 bilhões de metros cúbicos, tem sido fonte de tensão há muito tempo entre os três países banhados pelo Nilo: Etiópia, Egito e Sudão. Enquanto Cairo e Cartum temem que a barragem reduza sua cota de água, Adis Abeba afirma que o projeto não prejudicará os países a jusante.

“Acreditamos firmemente no avanço coletivo”, disse Abiy, reafirmando o compromisso da Etiópia em buscar o crescimento sem prejudicar os interesses de seus vizinhos.

O Nilo Azul, conhecido como Rio Abay na Etiópia, nasce no Lago Tana, cerca de 570 km ao norte de Adis Abeba, e é um dos dois principais afluentes do Rio Nilo. 

Com informações de Xinhua*

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Queda de energia no Sudão devido a ataques de drones por força paramilitar: relatório https://www.ocafezinho.com/2025/09/09/queda-de-energia-no-sudao-devido-a-ataques-de-drones-por-forca-paramilitar-relatorio/ https://www.ocafezinho.com/2025/09/09/queda-de-energia-no-sudao-devido-a-ataques-de-drones-por-forca-paramilitar-relatorio/#respond Wed, 10 Sep 2025 00:30:00 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=218637 Vários drones atacaram a área militar de Wadi Seidna e a subestação elétrica de Al-Markhiyat na cidade de Omdurman, segundo relatos da mídia local

Ataques de drones das Forças de Apoio Rápido paramilitares (RSF) atingiram várias áreas no estado de Cartum, no Sudão, provocando uma grande queda de energia, de acordo com a mídia local na terça-feira.

Citando testemunhas oculares, o Sudan Tribune relatou que vários drones atacaram a área militar de Wadi Seidna e a subestação elétrica de Al-Markhiyat, na cidade de Omdurman.

O ataque causou grandes cortes de energia em toda a cidade, disseram testemunhas.

Imagens compartilhadas nas redes sociais capturaram transformadores elétricos na subestação em chamas após uma série de explosões.

A força paramilitar também teve como alvo o distrito de Al-Kalakla, em Cartum, onde fica uma fábrica militar, de acordo com o Sudan Tribune.

A cidade de Al-Jaili, que abriga a principal refinaria de petróleo do país, também foi atingida pelos ataques, acrescentou.

Não houve relatos de vítimas.

O ataque ocorreu dias depois que o Exército sudanês intensificou as operações militares em Kordofan, no centro do Sudão, para retomar o controle de cidades importantes na região e suspender o cerco da RSF à cidade de El Fasher, capital do estado de Darfur do Norte.

El-Fasher tem testemunhado intensos combates entre o exército sudanês e a RSF desde maio de 2024, apesar dos alertas internacionais sobre os riscos de violência em uma cidade que serve como um importante centro humanitário para os cinco estados de Darfur.

A RSF e o exército estão envolvidos em uma brutal luta pelo poder desde abril de 2023, resultando em milhares de mortes e levando o Sudão a uma das piores crises humanitárias do mundo.

Mais de 20.000 pessoas foram mortas e 15 milhões foram deslocadas, segundo dados da ONU e locais. No entanto, pesquisadores dos EUA estimam que o número real de mortos chegue a 130.000.

Com informações de Agência Anadolu*

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África do Sul reage a barreiras comerciais impostas pelos EUA https://www.ocafezinho.com/2025/08/29/africa-do-sul-reage-a-barreiras-comerciais-impostas-pelos-eua/ https://www.ocafezinho.com/2025/08/29/africa-do-sul-reage-a-barreiras-comerciais-impostas-pelos-eua/#respond Fri, 29 Aug 2025 18:51:12 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=216409 África do Sul suspende envio de encomendas aos EUA após revogação de isenção tarifária por Trump

O Correio da África do Sul anunciou nesta sexta-feira a suspensão temporária de algumas remessas para os Estados Unidos, em resposta à revogação pelo presidente Donald Trump do acesso isento de impostos para encomendas internacionais. A medida afeta exclusivamente mercadorias destinadas aos EUA, enquanto documentos, cartas e correspondência especial, como correspondência militar, continuarão sendo aceitos normalmente.

Em comunicado oficial, a estatal postal sul-africana justificou a decisão: “Dados os processos complexos exigidos para cumprir a nova regulamentação, não temos outra opção a não ser suspender temporariamente essas remessas. Lamentamos qualquer inconveniente que isso possa causar aos nossos clientes.” A suspensão ocorre por tempo indeterminado, refletindo a necessidade de adaptação às novas regras impostas pelo governo americano.

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A isenção tarifária, conhecida como “minimis”, permitia que consumidores americanos comprassem produtos do exterior em pequenas quantidades sem pagar impostos. A regra foi gradualmente eliminada: em maio, a revogação afetou pacotes provenientes da China, e, no mês passado, um decreto presidencial estendeu a medida ao resto do mundo. O objetivo declarado de Washington é impedir a entrada de drogas ilegais, como o fentanil, no território norte-americano.

O anúncio da África do Sul segue decisões semelhantes de outros serviços postais internacionais. Japão, Grã-Bretanha e Austrália também suspenderam temporariamente ou ajustaram suas remessas para os Estados Unidos em função das novas regras, demonstrando o impacto global da política americana sobre o comércio eletrônico e a logística internacional.

Para os Correios da África do Sul, a medida chega em um momento delicado. A estatal está em processo de recuperação judicial desde 2023, enfrentando anos de declínio no volume de correspondências, acúmulo de dívidas e desafios operacionais que comprometeram sua eficiência. Especialistas apontam que a suspensão de serviços para um dos maiores mercados consumidores do mundo deve agravar a pressão financeira e logística sobre a empresa, exigindo ajustes rápidos em seus processos internos.

Além do impacto econômico, a decisão também afeta diretamente consumidores e pequenas empresas que dependem das remessas internacionais para exportar produtos ou manter o comércio com clientes nos Estados Unidos. Pequenos comerciantes, em particular, devem enfrentar atrasos e custos adicionais enquanto as regras não forem totalmente assimiladas pelas empresas postais sul-africanas.

O episódio evidencia ainda o alcance das políticas tarifárias americanas no comércio global. Pequenas mudanças na regulamentação dos EUA podem desencadear uma série de efeitos em cadeia, desde alterações nos serviços postais até a adaptação de cadeias de suprimentos internacionais. Para a África do Sul, a suspensão temporária representa um esforço de contenção diante de um cenário regulatório complexo, ao mesmo tempo em que reforça a vulnerabilidade de serviços essenciais em um contexto de desafios financeiros e administrativos prolongados.

Fim da isenção de minimis nos EUA traz impacto sobre preços, remessas e cadeias de suprimentos

O aplicativo Temu Fonte: Bloomberg
Trump revoga isenção e envia caos ao comércio global / Bloomberg

O encerramento do tratamento isento de tarifas para mercadorias “de minimis” nos Estados Unidos, anunciado pelo ex-presidente Donald Trump, tem repercussões que vão muito além do universo aduaneiro. A expressão latina — que significa “pequeno demais para fazer diferença” — designava pacotes de baixo valor enviados diretamente aos consumidores americanos, isentos de impostos e de declarações alfandegárias complexas. Essa política vigorava há quase 90 anos e beneficiava milhões de pacotes que chegavam aos EUA diariamente, incluindo roupas, brinquedos e eletrônicos vendidos por marketplaces internacionais.

Antes das mudanças, plataformas como Shein Group Ltd. e Temu exploravam a isenção para oferecer produtos a preços extremamente competitivos. Com a revogação da regra para pacotes da China continental e Hong Kong em 2 de maio, seguida da suspensão para o restante do mundo em 29 de agosto, os consumidores americanos passam a enfrentar preços mais altos e tempos de entrega mais longos. Operadores postais em diversos países, preocupados com a falta de clareza sobre a cobrança de novas tarifas, suspenderam temporariamente envios aos EUA.

O que significava a isenção de minimis nos EUA

Para se qualificar, um pacote precisava ter valor de varejo de até US$ 800, limite bastante elevado se comparado a outros países. No Canadá, por exemplo, o teto é de US$ 109 para encomendas dos EUA e do México, e apenas US$ 15 para itens de outros países; na União Europeia, o limite é de US$ 175. A China, por sua vez, isentava pacotes de até cerca de US$ 7.

A isenção nos EUA remonta a 1938, quando o Congresso buscou eliminar impostos sobre itens de baixo valor para evitar gastos desnecessários. Desde então, o teto passou de US$ 1 para US$ 5 em 1990, depois para US$ 200 em 1993 e finalmente para US$ 800 em 2016, durante a presidência de Barack Obama.

Consequências para consumidores e empresas

O fim da isenção não impede compras do exterior, mas significa que todos os pacotes passarão pela alfândega e estarão sujeitos a tarifas. Vendedores podem absorver o custo adicional ou repassá-lo aos consumidores, aumentando os preços de produtos importados. Antes mesmo da implementação das tarifas, empresas como Shein e Temu elevaram o valor de itens variados em até 20%, enquanto varejistas sul-coreanos, como a Olive Young, passaram a cobrar taxa adicional de 15% sobre pedidos nos EUA.

O impacto é particularmente pesado para famílias de baixa renda. Uma análise do National Bureau of Economic Research indica que quase 75% das remessas recebidas por CEPs mais pobres nos EUA eram pacotes de minimis, em comparação com 52% dos CEPs mais ricos.

Efeitos sobre a cadeia de suprimentos

Transportadoras de países como Austrália, Cingapura e Noruega suspenderam temporariamente envios para os EUA, enfrentando dúvidas sobre como as tarifas seriam aplicadas e quais informações seriam exigidas nas declarações alfandegárias. Pacotes agora precisam detalhar não apenas o valor, mas também o conteúdo, país de envio e país de fabricação das mercadorias — um aumento significativo na burocracia.

O aumento de custos pode tornar o transporte aéreo inviável para produtos de baixo valor. Pacotes que antes chegavam em poucos dias por avião podem agora levar até três semanas em navios porta-contêineres, afetando o comércio eletrônico e a entrega rápida de pequenas encomendas.

Quem será mais afetado

O fim da isenção prejudica especialmente varejistas online de baixo custo, como Shein, Temu e AliExpress, além de pequenas empresas americanas que importam lotes abaixo de US$ 800 para evitar tarifas. Também impacta os chamados “dropshippers” e vendedores internacionais em plataformas como eBay e Etsy.

Além disso, o efeito se espalha para outros mercados globais. Países como o Reino Unido estudam revisar suas próprias regras de isenção para produtos de baixo valor, preocupados com a concorrência e a pressão sobre produtores nacionais.

Evolução das regras de minimis

Poucos dias após assumir, Trump já havia suspendido a isenção para pacotes da China, embora tenha adiado a medida temporariamente enquanto os Correios dos EUA avaliavam como implementá-la. Em 2 de maio, a suspensão foi reimposta, aplicando uma taxa equivalente a 120% do valor do pacote ou uma taxa fixa de US$ 100. Posteriormente, acordos comerciais reduziram algumas tarifas para 54%, mantendo o valor fixo.

Em 30 de julho, Trump anunciou que a isenção terminaria para pacotes de qualquer país, mantendo apenas itens de valor inferior a US$ 100 sem taxa. Agora, cada pacote é tributado de duas formas: ou o importador paga uma porcentagem do valor da encomenda, conforme tarifas já aplicadas a importações, ou opta por uma taxa fixa de US$ 80 a US$ 200 durante os primeiros seis meses da política.

O alcance do impacto

Nos EUA, aproximadamente 4 milhões de pacotes de minimis chegavam diariamente em 2024, muitos deles sem inspeção prévia. Esses pacotes aumentaram o acesso a produtos baratos, mas também sobrecarregaram cadeias de suprimento, elevaram custos de frete aéreo e dificultaram a fiscalização de fronteiras. Alguns desses pacotes serviram para contrabando de drogas, como o fentanil, e outros produtos proibidos, justificando em parte a decisão de Trump.

Em termos de comércio, os pacotes de minimis cresceram exponencialmente: de 134 milhões na década anterior para quase 1,4 bilhão em 2024. A China, maior exportadora de pequenos pacotes, declarou US$ 23 bilhões em remessas, embora estimativas privadas apontem até US$ 46 bilhões. Apesar desse volume, ainda representa uma pequena parcela do total de importações americanas, que somaram mais de US$ 3,2 trilhões no último ano, e não se espera impacto significativo na economia geral dos EUA.

Com informações de Bloomberg*

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