Análise de Mídia - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/analise-de-midia/ Portal de noticias e análises sobre política brasileira, geopolítica, economia, tecnologia, sempre numa perspectiva democrática, progressista, anti-imperialista e multipolar! Tue, 19 Aug 2025 13:11:34 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://controle.ocafezinho.com/wp-content/uploads/2015/10/cropped-Logo_Cafezinho_tmb-32x32.png Análise de Mídia - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/analise-de-midia/ 32 32 Governo federal aciona Meta contra robôs que simulam conversas eróticas com crianças https://www.ocafezinho.com/2025/08/19/governo-federal-aciona-meta-contra-robos-que-simulam-conversas-eroticas-com-criancas/ https://www.ocafezinho.com/2025/08/19/governo-federal-aciona-meta-contra-robos-que-simulam-conversas-eroticas-com-criancas/#respond Tue, 19 Aug 2025 16:00:00 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=215612 AGU cobra exclusão de IA infantilizada com teor sexual e pede medidas de proteção nas redes da empresa

A Advocacia-Geral da União (AGU) acionou a empresa Meta, responsável por plataformas como Facebook, Instagram e WhatsApp, para que sejam removidos robôs de inteligência artificial que promovem conversas com conteúdo sexual utilizando linguagem e aparência infantil. A medida ocorre por meio de notificação extrajudicial enviada nesta segunda-feira (18) pela Procuradoria Nacional da União de Defesa da Democracia (PNDD).

Os robôs em questão foram criados por usuários da ferramenta Meta AI Studio, que permite o desenvolvimento de chatbots capazes de simular diálogos com internautas. Segundo a AGU, esses perfis virtuais utilizam recursos da inteligência artificial para manter interações com teor sexual, mesmo quando apresentam características infantis.

No documento enviado à Meta, o órgão do governo federal exige a imediata indisponibilização dos robôs com esse perfil e cobra explicações sobre as medidas adotadas pela empresa para proteger crianças e adolescentes nas suas plataformas. O texto menciona a ausência de filtros etários eficazes para impedir que pessoas entre 13 e 18 anos acessem conteúdos inadequados.

A ação da AGU foi motivada por reportagens que demonstraram como chatbots com linguagem infantil estavam aptos a manter conversas de cunho sexual. A Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) encaminhou a demanda ao órgão jurídico.

A AGU também cita decisão recente do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o Marco Civil da Internet. Segundo a interpretação do STF, empresas podem ser responsabilizadas judicialmente quando, mesmo cientes da presença de conteúdos ilícitos, não os removem de forma imediata.

“Tais chatbots têm potencialidade de alcançar um público cada vez mais amplo nas plataformas digitais, especialmente nas redes sociais da Meta, ampliando de forma exponencial o risco do contato de menores de idade com material sexualmente sugestivo e potencialmente criminoso”, afirma a AGU no documento.

Repercussão nacional acende alerta sobre erotização infantil nas redes

A atuação da AGU ocorre em meio à mobilização nacional em torno do tema da sexualização infantil em ambientes digitais. O debate foi impulsionado após a publicação de um vídeo do influenciador digital Felipe Bressanim, conhecido como Felca, que denunciou casos de exploração infantil e exposição de crianças em conteúdos de conotação sexual nas redes sociais.

A repercussão fez com que o tema ganhasse espaço no Congresso Nacional, onde tramitam projetos para regulamentar a atuação das plataformas digitais e garantir a proteção de menores.

Segundo defensores da causa, o conteúdo que circula na internet sem controle adequado compromete o desenvolvimento psíquico e emocional das crianças, além de alimentar redes criminosas. Um dos casos citados no vídeo – o reality show promovido pelo influenciador Hytalo Santos com adolescentes – está sob investigação do Ministério Público da Paraíba.

A Meta ainda não se posicionou oficialmente sobre o pedido da AGU até o fechamento desta matéria.

Publicado originalmente pelo Brasil de Fato em 18/08/2025

Edição: Martina Medina

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Análise crítica da cobertura do Jornal Nacional sobre relatório da Transparência Internacional https://www.ocafezinho.com/2025/02/12/analise-critica-da-cobertura-do-jornal-nacional-sobre-relatorio-da-transparencia-internacional/ https://www.ocafezinho.com/2025/02/12/analise-critica-da-cobertura-do-jornal-nacional-sobre-relatorio-da-transparencia-internacional/#comments Wed, 12 Feb 2025 13:19:16 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=201836 2 Comentários 🔥]]>

Por Eliara Santana, Jornalista e Pesquisadora em Comunicação Política

A edição do Jornal Nacional (JN) de 11 de fevereiro reacendeu um padrão perigoso de cobertura ao repercutir, de forma seletiva e tendenciosa, o relatório da Transparência Internacional sobre a percepção da corrupção no Brasil. A abordagem remete à antiga parceria midiática com a Operação Lava Jato (2014-2018), que transformou narrativas jurídicas em espetáculos de condenação política. Desta vez, o alvo é o governo Lula, e o método é familiar: generalizações, descontextualização e o retorno de um jornalista emblemático dessa época, Vladimir Neto.

Metodologia frágil e interesses não declarados
O relatório da Transparência Internacional, construído a partir de entrevistas com nichos específicos (empresários e analistas de risco), colocou o Brasil na 137ª posição em um ranking de 180 países. O JN destacou o resultado como o “pior em 12 anos” e vinculou a queda ao “silêncio de Lula sobre corrupção”. A escolha de Vladimir Neto — cujo histórico inclui reportagens alinhadas aos interesses da Lava Jato — para narrar a matéria não é mero acaso. Seu tom grave e a ausência de perguntas críticas reproduzem o roteiro que transformou Sergio Moro em “herói” e o PT em vilão permanente.

A crítica ao “número de menções à palavra ‘corrupção’ nos discursos de Lula” é particularmente falaciosa. Como bem lembra a professora Maria Luiza Alencar Feitosa, pesquisadora da Universidade Federal do Ceará, em debate público em 2023, “o discurso da corrupção será reativado para atacar políticas estratégicas, como o PAC”. A observação dela se confirma: o relatório ataca o PAC por “falta de transparência”, ignorando que o programa retomou critérios técnicos após anos de desmonte sob Bolsonaro.

O timing suspeito e a descontextualização
A reportagem do JN surge em um momento político revelador: dias após a PF concluir o relatório sobre o envolvimento de Bolsonaro em tentativas golpistas e em meio a escândalos de corrupção no Congresso. Enquanto aliados do ex-presidente são investigados por rachadinhas e milicianos, o foco midiático recai sobre Lula. O relatório ainda menciona a “captura do Estado pelo crime organizado”, insinuando — sem provas — que isso ocorre sob a gestão atual. A generalização é perversa: o crime organizado avançou justamente durante o enfraquecimento das políticas de segurança e controle social nos últimos anos.

A hipocrisia do elogio à Lava Jato
O documento citado pelo JN critica as anulações de condenações da Lava Jato pelo STF, classificando-as como “prejudiciais”. Omitem, porém, que essas decisões responderam a ilegalidades gritantes: colaborações premiadas sem fundamento, vazamentos seletivos à imprensa e conluio entre juízes e promotores. A Lava Jato não foi um combate à corrupção, mas um projeto de poder, como comprovam as mensagens vazadas do caso Vaza Jato. A reportagem do JN, ao reviver esse imaginário, reescreve a história.

A CGU responde, mas a narrativa prevalece
A única brecha para contraditório na matéria foi uma nota da Controladoria-Geral da União (CGU), que rebateu a metodologia do relatório: “Países que combatem a corrupção ativamente tendem a ter piora na percepção inicial, pois as investigações tornam o problema mais visível”. A CGU também destacou avanços como a extinção do orçamento secreto e a retomada de transparência em licitações. Esses pontos, porém, foram mencionados de forma breve, sem desafiar a narrativa principal.

Conclusão: o falso discurso anticorrupção como arma política
A matéria do JN não é sobre corrupção, mas sobre a reativação de um repertório para criminalizar o governo Lula. Quando a narrativa da “crise econômica” perde força, resurge o fantasma da “corrupção sistêmica”, ainda que sem bases concretas. A professora Maria Luiza Feitosa alertou para esse movimento: o discurso anticorrupção será usado para sabotar programas como o PAC, essenciais para reduzir desigualdades.

É sintomático que, em meio a um Congresso marcado por escândalos e um ex-presidente acusado de golpe, o JN escolha reacender o tema com o mesmo jornalista e a mesma lógica de 2014. A democracia brasileira merece mais do que espetáculos midiáticos: exige análise crítica, contextualização histórica e respeito aos fatos.

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Bepe Damasco: Bolsonaro aprendeu fake news com a mídia brasileira https://www.ocafezinho.com/2024/09/22/bepe-damasco-bolsonaro-aprendeu-fake-news-com-a-midia-brasileira/ https://www.ocafezinho.com/2024/09/22/bepe-damasco-bolsonaro-aprendeu-fake-news-com-a-midia-brasileira/#respond Sun, 22 Sep 2024 07:08:00 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=192744 O jornalismo de guerra da mídia monopolista contra o governo de Dilma Rousseff, que culminou no impeachment sem crime, fez com que a mentira e canalhice se impusessem como instrumentos de ação política prioritários dos conservadores nativos.

Poucos anos antes aparecera a luz no fim do túnel para a burguesia antidemocrática. A farsa do mensalão, a reunir em torno do mesmo projeto imprensa, Polícia Federal, Ministério Público e Judiciário, mais especificamente o STF, mostrara a saída para interromper a hegemonia petista: a politização das instituições da República e a adoção da tática do ministro da propaganda da Alemanha nazista, Joseph Goebbels, segundo a qual mentiras repetidas um milhão de vezes transformam-se em  verdades.

No ano seguinte ao julgamento do mensalão, outra falsificação midiática de grandes proporções: o incentivo diuturno às chamadas jornadas de 2013, dando ares de revolta popular e de rebelião democrática a um.movimento de cunho majoritariamente fascista. No alvo, o governo da presidenta Dilma. Só que o Brasil vivia um período de pleno emprego, com inflação controlada, crescimento econômico, aumento real de salário e respeito a todos os direitos sociais, trabalhistas, previdenciários e civilizatórios.

Reprodução via Portal Bepe Damasco

A tudo isso assistia, e absorvia as lições, um deputado do baixíssimo clero, de convicções nazistas e com produção parlamentar igual a zero. Vez por outra, é verdade, ocupava os noticiários devido aos seus ataques grosseiros a adversários, inclusive mulheres, bem como à defesa explícita de teses racistas, homofóbicas e misóginas. A naturalização do crime de estupro e seu o apoio à tortura também chocavam as pessoas.

Vem o processo do impeachment. Globo, Folha, Veja e Estadão sabiam de cor e salteado da longa trajetória de corrupção de Michel Temer e Eduardo Cunha na vida pública.  Até os estagiários das redações tinham conhecimento dos esquemas barra-pesada comandados pela dupla.

Revelando pela enésima vez na história sua falta de patriotismo e compromisso com os destinos do país, a mídia fez vistas grossas para as fichas corridas de Temer e Cunha. Ao contrário, aplaudiu a condução do processo contra Dilma por parte do então presidente da Câmara dos Deputados  e conferiu  legitimidade presidencial a um traidor e golpista miserável como Temer. Valia tudo, afinal, para apear o PT do governo.

Eureca, deve ter bradado Bolsonaro. Mesmo com graves problemas de ordem cognitiva, o capitão finalmente concluíra que lançando mão de mentiras, baixarias e calúnias se abririam as veredas que o levariam à presidência da República..A prisão de Lula e seu linchamento pela mídia, depois de um processo fraudulento, certamente reforçaram em Bolsonaro a convicção da eficácia das fake news. A campanha eleitoral suja que fez fala por si.

Hoje quando vejo a imprensa criticando as barbaridades do governo Bolsonaro nos editoriais, mas aliviando no noticiário, para não prejudicar a espoliação do povo e das riquezas do país, causas que os unificam, fico pensando : claro que existem nuances e diferenças entre eles e  nada pode ser pior do que Bolsonaro, mas ambos são inimigos do Brasil e dos brasileiros.

Por Bepe Damasco, jornalista com larga experiência em assessorias políticas, sindicais e parlamentares. Sua consultoria, a NR Damasco, presta os mais variados serviços na área de comunicação. É casado com a jornalista e antropóloga Mônica Rodrigues e pai de Mayara Damasco, administradora de empresas.

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José Luís Fiori: O novo projeto alemão para a União Europeia https://www.ocafezinho.com/2024/03/14/jose-luis-fiori-o-novo-projeto-alemao-para-a-uniao-europeia/ https://www.ocafezinho.com/2024/03/14/jose-luis-fiori-o-novo-projeto-alemao-para-a-uniao-europeia/#respond Thu, 14 Mar 2024 23:21:32 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=178077 Por José Luís Fiori

Quatro fantasmas assombram a Europa neste início de 2024: a crise econômica, a revolta social, a volta do fascismo e a guerra com a Rússia.

A Comissão Econômica Europeia está prevendo, para 2024, um crescimento do PIB de apenas 0,9%, e o Banco da Inglaterra, depois de dois anos de estagnação, está prevendo um crescimento britânico de 0,25%.

E esta é a expectativa com relação a quase todos os países europeus, paralisados por suas altas taxas de juros, de inflação e de desemprego.

Como consequência quase direta desta crise, multiplicam-se as greves e os protestos sociais, de leste a oeste, e de norte a sul do continente, onde avançam os partidos de extrema direita, e os movimentos fascistas adquirem cada vez maior força eleitoral, ameaçando os próprios fundamentos ideológicos e políticos do projeto de unificação da Europa.

Não há dúvida, entretanto, de que foi na Alemanha que os impactos da Guerra da Ucrânia se fizeram sentir de forma mais contundente e destrutiva. A economia alemã retrocedeu 0,4% no último trimestre de 2023, e deve contrair ainda mais 0,1% no ano de 2024.

E, mais grave do que isto, os alemães sofreram uma grande perda de competitividade, e vêm enfrentando um acelerado processo de desindustrialização depois de suspender seus contratos de importação da energia barata da Rússia – uma estranha maneira de punir os russos que está destruindo a própria economia alemã.

O preço da energia subiu 41%, as greves de transporte são cada vez mais frequentes e extensas, e os protestos dos agricultores alemães são quase permanentes.

Por outro lado, as pesquisas de opinião indicam que o partido da extrema direita, Alternativa para a Alemanha (AFD) já conta hoje com o apoio de 19% dos eleitores, deve se transformar no segundo maior partido alemão.

E não é impossível que seja chamado a fazer parte do governo alemão depois das eleições parlamentares de 2025, mesmo tendo forte presença de setores fascistas ou mesmo nazistas, que defendem posições xenófobas, anti-islâmicas, e favoráveis à retirada alemã da União Europeia.

Esta história poderia ter sido diferente se os europeus e a Alemanha, em particular, tivessem apoiado as negociações de paz entre a Rússia e a Ucrânia no início de 2022. Mas não foi isto que aconteceu.

Num primeiro momento, a Alemanha adotou uma posição reticente frente à agressividade anglo-americana, mas a ala mais belicista do seu governo acabou se impondo, sob a liderança da ministra de Relações Exteriores, Annalena Baerboch, e do ministro da Defesa, Boris Pisterius, em estreita coordenação com a presidenta da Comissão Europeia, a Sra. Ursula von der Leyen, que havia sido ministra de Defesa da Alemanha entre 2013 e 2019.

Depois disto, o próprio primeiro-ministro social-democrata Olaf Scholz acabou se declarando partidário de uma “cooperação total da Alemanha com os Estados Unidos” e, de fato, durante os dois anos que já dura a guerra na Ucrânia, a Alemanha transformou-se no segundo maior fornecedor do armamento utilizando pelo governo Volodymyr Zelensky contra as tropas russas.

Uma vez definida esta posição ao lado da Ucrânia e contra a Rússia, o governo alemão criou um Fundo Emergencial de 100 bilhões de euros para aquisição imediata de armamento de última geração.

E, em novembro de 2023, o ministro Da defesa Boris Pisterius divulgou as “Novas Diretrizes da Política de Defesa da Alemanha”, um documento de 19 páginas – o Zeitenwende – que define como novo objetivo estratégico das Forças Armadas alemãs transformar-se na “espinha dorsal da dissuasão e da defesa coletiva de toda a Europa”.

Junto com isto, Boris Pisterius anunciou a elevação do gasto militar alemão para 2% do orçamento federal em 2024, e para 3 e 3,5%, em 2025 e 2026, conclamando os demais países europeus a fazerem o mesmo que a Alemanha.

Em completa sintonia com a Sra. Ursula von der Leyen, que anunciou sua candidatura à reeleição para a chefia da Comissão Europeia, ao mesmo tempo que prometia para breve “uma nova estratégia de defesa para a Europa” que se propõe “gastar mais, gastar melhor e gastar sobretudo com armamentos produzidos na própria Europa, utilizando-se da experiência na Ucrânia, para ultrapassar a Rússia”.

Por fim, no dia 12 de fevereiro de 2024 – em entrevista concedida à Agência AFP – o primeiro-ministro Olaf Scholz afirmou que projeto do seu governo é superar a crise econômica e assumir a liderança militar da Europa.

Nessa entrevista, Olaf Scholz conclamou os europeus a “produzirem material militar em massa” e defendeu a necessidade de que a Alemanha “abandone sua indústria manufatureira para concentrar-se na produção de armamento em larga escala”, porque “nós não estamos vivendo em um tempo de paz”.

Essas mesmas ideias foram levadas à Conferência Estratégica de Munich, realizada de 17 a 19 de fevereiro, e marcada pela difusão de uma informação “confidencial” atribuída a Bundeswehr, e vazada pelo tabloide alemão Bild, que anunciava uma invasão russa do território da OTAN para o ano 2025.

A informação foi desmentida, mas depois de já ter provocado o pânico generalizado e haver mobilizado o sentimento “russofóbico” dos participantes, recolocando a Rússia na condição do grande “inimigo externo” dos europeus, como já havia acontecido com a malsucedida invasão francesa da Rússia em 1812, e com a fracassada invasão alemã da União Soviética, em 1941.

Resumindo, tudo indica que, hoje, o objetivo comum da Alemanha de Olaf Scholz, e da Comissão Europeia de Ursula von der Leyde é criar uma “economia de guerra” no território europeu.

Uma economia de guerra liderada pela Alemanha, que abriria mão de sua indústria manufatureira para transformar-se na cabeça de um complexo militar, integrado a partir da própria Alemanha, envolvendo os demais países europeus, segundo as “vantagens comparativas” de cada um deles.

Por este caminho, é óbvio, a “Europa dos cidadãos”, idealizada por Konrad Adenauer, ou mesmo a “Europa dos mercadores”, criticada por François Mitterand, seria substituída por uma nova “Europa dos soldados e dos canhões”, como nos velhos tempos da própria Europa.

O novo projeto alemão para a União Europeia conta com o apoio dos Estados Unidos e, se tiver sucesso, confirmará o declínio e a perda de protagonismo da França, mesmo dentro da Europa.

E seria uma compensação pela destruição dos gasodutos do Báltico, o Nord Stream 1 e 2, que teriam sido fundamentais para o sucesso da economia alemã.

Esta nova configuração de forças dentro da Europa deverá ser sacramentada pela escolha do primeiro-ministro holandês Mark Rutte para o cargo de Secretário Geral da OTAN, no lugar do norueguês Jens Stoltenberg, com o apoio exatamente dos Estados Unidos, da Inglaterra e da Alemanha.

Mark Rutte é membro do Partido Popular para a Liberdade e Democracia, da extrema direita holandesa, militarista, xenófoba e anti-islâmica, mas muito próximo das posições belicistas e “russofóbicas” da Sra Von der Leyden, e do ministro de Defesa alemão Boris Pisterius.

Neste sentido, a provável escolha de Mark Rutte para o comando da OTAN deve favorecer o processo de redefinição e centralização do poder que está em curso dentro da Europa, e que aponta na direção de Berlim.

Se tudo correr como está planejado, em cinco ou dez anos mais, a Alemanha somará à sua ascendência econômica e à sua tutela financeira do Europa, sua nova preeminência militar, incluindo sua influência sobre a OTAN, através de Mark Rutte, alcançando finalmente a hegemonia dentro do Velho Continente que vem buscando sem sucesso – por vários caminhos – desde o século XIX.

Essa estratégia vem sendo concebida junto com o governo Joe Biden, mas deve se manter mesmo em caso de vitória de Donald Trump. Se Trump vencer, é possível que a Alemanha recorra a um novo Acordo de Munique, para assegurar a cobertura atômica da Inglaterra, no caso de uma iniciativa nuclear alemã que não contasse com a cobertura atômica dos Estados Unidos.

De qualquer maneira, o objetivo da Alemanha, neste momento, não é guerrear com a Rússia; é montar e comandar uma “economia de guerra” europeia, mas mesmo assim esse projeto demandará pelos menos uns cinco anos de “carência”, daí a necessidade alemã de que a Guerra da Ucrânia se prolongue na forma de uma “guerra de atrito” que não tenha vitoriosos.

Mas como ensina a história da Primeira Guerra Mundial, quando os europeus voltam às armas, eles também podem voltar à guerra, mesmo sem querê-lo: basta um erro de cálculo, provocado por uma bravata como as que costuma fazer o presidente Emmanuel Macron, ou o vazamento de uma conspiração de generais alemães para atacar a ponte da Crimeia, na Rússia, como acabou de acontecer, e toda essa cuidadosa montagem pode terminar em mais uma grande guerra europeia.

A diferença é que agora seria uma guerra da OTAN contra a Rússia e, neste caso, como disse recentemente o ex-presidente russo Daniil Mevedev, se trataria de uma “guerra assimétrica”, que obrigaria os russos a utilizar imediatamente seu armamento nuclear.

Isso significa, em última instância, que se o novo projeto alemão para a Europa for bem-sucedido, ele encerraria os 80 anos de ocupação militar unilateral e explícita do território alemão pelas tropas americanas. Mas, ao mesmo tempo, recolocaria o Velho Continente na beira do abismo.

José Luís Fiori é professor emérito da UFRJ. Autor, entre outros livros, de O poder global e a nova geopolítica das nações (Boitempo). [https://amzn.to/3RgUPN3]

Publicado originalmente na revista Observatório Internacional do Século XXI, n°. 4.

Crédito/Foto: Liesa Johannssen-Koppitz/Bloomberg/Getty Images

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Miro Borges: Escravos dos aplicativos conquistam direitos https://www.ocafezinho.com/2024/03/14/miro-borges-escravos-dos-aplicativos-conquistam-direitos/ https://www.ocafezinho.com/2024/03/14/miro-borges-escravos-dos-aplicativos-conquistam-direitos/#comments Thu, 14 Mar 2024 15:57:47 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=178049 2 Comentários 🔥]]> Em solenidade no Palácio do Planalto nesta segunda-feira (4), o presidente Lula apresentou o projeto de lei que regulamenta o trabalho dos motoristas por aplicativos. Foi uma dura negociação com as empresas de Apps para a construção dessa proposta de regulamentação.

O projeto não é dos mais avançados, mas representa um primeiro passo no enfrentamento da escravidão no setor. Ele prevê pagamento mínimo por hora de trabalho no valor de R$ 32,09, contribuição para a previdência social e auxílio maternidade.

O projeto de lei agora irá à votação no Congresso Nacional. Se aprovado, ele beneficiará cerca 1,2 milhão de trabalhadores da Uber e 99, entre outras plataformas.

O novo modelo atende a parte das demandas dos escravos do setor, mas também serve aos interesses das empresas de aplicativos, que rejeitaram a hipótese de contratação pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e tratam os funcionários como “autônomos”.

Em nota, a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec) elogiou o projeto:

As limitações da regulação do setor

“A proposta contempla as prerrogativas de uma atividade na qual a independência e a autonomia do motorista são fatores fundamentais. Certamente será usada como exemplo para muitos países que hoje discutem a regulação deste novo modelo de trabalho”.

Já a poderosa Uber festejou o projeto, afirmando ser “um importante marco visando a uma regulamentação equilibrada do trabalho intermediado por plataformas… O projeto amplia as proteções desta nova forma de trabalho sem prejuízo da flexibilidade e autonomia inerentes à utilização de aplicativos para geração de renda”.

O projeto também não conseguiu abarcar a totalidade dos escravos por App. As empresas de aplicativos por entrega, como IFood, rejeitaram qualquer acordo. Na solenidade em Brasília, Lula até mandou um recado para o inflexível empresário.

“É preciso lembrar, [senador] Jaques Wagner, que o dono do iFood é da Bahia. A gente tem que convencê-lo a entender que é prudente ele sentar na mesa de negociação para a gente fazer um bom e grande acordo… Vamos encher tanto o saco que o iFood vai ter que negociar”.

Os avanços trabalhistas e sociais

Conforme síntese publicada pela Folha, o projeto apresentado pelo governo “reconhece o motorista de aplicativo como ‘trabalhador autônomo por plataforma’. As empresas irão contribuir para o INSS com 20% sobre a remuneração mínima, que irá corresponder a 25% da renda bruta. O trabalhador terá desconto de 7,5%. A contribuição dará direito a benefícios previdenciários como auxílio-maternidade, previsto no projeto, e aposentadoria, entre outros”.

“Já o valor de R$ 32,09 corresponde ao período da chamada ‘hora em rota’ ou hora trabalhada, que começa a contar a partir do momento em que o profissional aceita o pedido de corrida até deixar o passageiro. Do total, R$ 24,07 são para cobrir os custos com a atividade profissional, como celular, combustível, manutenção do veículo, seguro, impostos, entre outros. O texto ainda prevê que a jornada de trabalho em uma mesma plataforma não poderá ultrapassar 12 horas diárias. Os trabalhadores devem realizar pelo menos 8 horas diárias para ter acesso ao piso”.

A matéria lembra também que “a proposta de legislação do Brasil vai ao encontro das regulamentações que estão sendo feitas em alguns países do mundo, em busca da proteção desses trabalhadores e da arrecadação de impostos. Chile, Espanha e Uruguai, por exemplo, fizeram reformas para incluir os motoristas de aplicativos na legislação trabalhista”.

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Jeferson Miola: Versão dos militares sobre o golpe é construída com método da Lava Jato https://www.ocafezinho.com/2024/03/14/jeferson-miola-versao-dos-militares-sobre-o-golpe-e-construida-com-metodo-da-lava-jato/ https://www.ocafezinho.com/2024/03/14/jeferson-miola-versao-dos-militares-sobre-o-golpe-e-construida-com-metodo-da-lava-jato/#respond Thu, 14 Mar 2024 15:57:45 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=178047 construção da versão diversionista dos militares sobre o golpe repete o método Lava Jato de vazamentos seletivos a partir de recortes de partes de investigações sigilosas que são “plantadas” na mídia com o objetivo de produzir uma narrativa interessada dos acontecimentos.

Alguns jornalistas e colunistas de veículos de comunicação são selecionados para receberem informações de fontes em off com o objetivo de agendarem a notícia no debate público a partir do viés dos interessados e com o enquadramento do assunto dentro da moldura pretendida.

Depois do depoimento do general Freire Gomes à PF, vigorou uma ordem unida nas editorias dos grandes meios de comunicação com a versão diversionista dos militares sobre os acontecimentos. Nem mesmo portais contra-hegemônicos ficaram imunes.

Os veículos da mídia hegemônica propagam a versão salvacionista e heróica de que o ex-comandante do Exército não prevaricou, porque teria “se omitido ativamente”, com o objetivo de impedir que Bolsonaro perpetrasse o golpe.

A favor desta versão romantizada não há, contudo, uma única imagem, vídeo, áudio; um único comunicado reservado ou um único documento entregue a alguma autoridade na época para que o general Freire Gomes pudesse comprovar que de fato ele agiu como diz ter agido.

Há, no entanto, fortes evidências que enfraquecem a versão propagada pela imprensa. A começar pela notável coesão das cúpulas das Forças Armadas em torno do empreendimento golpista e a conduta solidária do general Freire Gomes com seus pares.

Isso ficou evidenciado, por exemplo, no comunicado ameaçador de 11 de novembro de 2022, no qual os comandantes do Exército, da Marinha e Aeronáutica endossaram o questionamento de bolsonaristas ao resultado eleitoral e não aceitaram cumprir a ordem judicial para desativar os acampamentos que começavam se formar nas áreas dos quartéis como sintoma da reação inconformada da família militar com o resultado eleitoral.

Freire Gomes também participou do ato coletivo de insubordinação dos comandantes das três Forças, que decidiram renunciar antes da assunção do governo Lula para não serem obrigados a bater continência ao eleito pela soberania popular como comandante supremo das Forças Armadas.

Pesa ainda contra a versão heróico-salvacionista do general Freire Gomes a decisão dele de impedir, no dia 29 de dezembro de 2022, a apenas dois dias do final do governo anterior, a desmontagem do acampamento no QG do Exército.

O general alegou que impediu a desmontagem do acampamento no antepenúltimo dia de governo porque temia a reação do Bolsonaro. Ora, é uma alegação duvidosa, para não dizer cínica, pois Bolsonaro abandonaria o país rumo aos Estados Unidos em algumas horas.

Mas, se faltam evidências e provas para colocar em pé a versão do Freire Gomes, incrivelmente sobram convicções dos ministros do STF a respeito desta tese heróico-salvacionista.

Também em off, e também para um veículo hegemônico de comunicação, um ministro da Suprema Corte declarou [5/3] que o depoimento do general Freire Gomes à PF “é melhor e mais valioso do que uma delação”. Na visão deste ministro pauteiro da mídia, o depoimento de Freire Gomes “consolidou o quadro probatório”.

Como assim, tamanha convicção se o inquérito é sigiloso, assim como a delação do Mauro Cid? Além disso, o depoimento do general é recente, de 1º/3, e decerto sequer tenha sido transcrito na íntegra.

Apesar disso, entretanto, um ministro do STF sente-se à vontade para emitir um juízo peremptório acerca do conteúdo de um processo cujo conteúdo ele desconhece, e em relação ao qual ele ainda terá de se posicionar durante o julgamento no Supremo.

Como se observa, a construção da versão diversionista dos militares sobre o golpe está sendo feita segundo as técnicas do método Lava Jato, que consiste em seguir o itinerário jurídico que leva ao objetivo previamente traçado.

Neste caso concreto, o objetivo é a construção de uma narrativa para blindar a instituição militar e criar um cordão sanitário em torno das cúpulas das Forças Armadas e de determinados militares.

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Jornalista leva ‘chicotada’ da Globo por ter feito trabalho extra https://www.ocafezinho.com/2024/03/14/jornalista-leva-chicotada-da-globo-por-ter-feito-trabalho-extra/ https://www.ocafezinho.com/2024/03/14/jornalista-leva-chicotada-da-globo-por-ter-feito-trabalho-extra/#respond Thu, 14 Mar 2024 15:49:03 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=178042 A Rede Globo orientou a jornalista Silvana Ramiro, apresentadora de telejornais locais no Rio de Janeiro, a remover uma postagem em suas redes sociais nesta quarta-feira, 13, após a divulgação de sua participação em um treinamento de comunicação para funcionários de um banco privado.

Segundo informações da coluna Splash, no UOL, a emissora confirmou a reprimenda, destacando sua política estrita contra atividades extras de seus jornalistas que possam implicar em relações profissionais com marcas.

Vale ressaltar que este incidente não é isolado. A Globo tem histórico de advertir ou até mesmo desligar jornalistas por violações dessa norma interna.

Lívia Torres, por exemplo, foi demitida após participar de um evento da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), destacando a severidade com que a emissora trata essa política de exclusividade, que além de ser ultrapassada em tempos de internet, funciona como um aprisionamento do profissional.

A política da Globo visa preservar uma suposta “isenção jornalística”, proibindo explicitamente seus contratados de se associarem profissionalmente com marcas ou empresas.

Outros jornalistas, como Flávio Fachel, Ana Luiza Guimarães, Rodrigo Bocardi e Mônica Waldvogel, também já receberam advertências por práticas semelhantes.

Além do caso de Ramiro, a coluna Splash obteve informações sobre a remuneração dessas atividades externas, que podem variar entre R$ 15 mil e R$ 50 mil.

A necessidade desses trabalhos extras é frequentemente justificada pelos profissionais devido aos baixos salários oferecidos pela emissora, que já resultou na saída de vários jornalistas renomados.

A discussão sobre a liberação para tais atividades não parece ganhar espaço entre a alta direção da Globo, que mantém sua posição de proibir qualquer envolvimento que possa afetar a suposta neutralidade de seu jornalismo.

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Folha se ajoelha aos grandes acionistas e defende evaporação dos investimentos na Petrobras https://www.ocafezinho.com/2024/03/14/folha-se-ajoelha-aos-grandes-acionistas-e-defende-evaporacao-dos-investimentos-da-petrobras/ https://www.ocafezinho.com/2024/03/14/folha-se-ajoelha-aos-grandes-acionistas-e-defende-evaporacao-dos-investimentos-da-petrobras/#comments Thu, 14 Mar 2024 13:39:21 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=178024 3 Comentários 🔥]]> O jornal Folha de S. Paulo recentemente publicou um editorial sobre a gestão e os objetivos da Petrobras no terceiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O texto do veículo critica a posição do chefe de estado brasileiro, que defendeu que a estatal deve priorizar o interesse dos 200 milhões de brasileiros, em vez de focar exclusivamente nos retornos imediatos aos acionistas minoritários.

Segundo o editorial da Folha, a empresa “surpreendeu o mercado” na última semana ao anunciar que limitaria a distribuição de dividendos de 2023 ao mínimo obrigatório.

Essa decisão, de acordo com o jornal, alinha-se às preferências do governo atual por mais investimentos na estatal, mas que teria contrariado recomendações da diretoria da Petrobras, comandada pelo presidente da empresa, Jean Paul Prates, indicado pelo próprio Lula.

Vale lembrar que durante uma entrevista ao SBT, o presidente Lula expressou a visão de que a Petrobras não deve atender apenas aos seus acionistas, mas também considerar os interesses dos “200 milhões de brasileiros que são donos dessa empresa“.

Na visão viralatista e contaminada da Folha, as declarações de Lula sinalizaram que o governo pretende impor sua agenda “política e ideológica” na administração da Petrobras, reacendendo debates sobre a orientação estratégica da empresa.

Ora, se o governo detém a maior fatia das ações da empresa, quase 40%, nada mais natural que a agenda do próprio governo seja prioritária para o futuro da empresa. É assim que as coisas funcionam, inclusive na iniciativa privada, a quem o jornal pertence.

Portanto, a estratégia do governo Lula em usar os lucros da petrolífera para o reinvestimento, fazendo com que a Petrobras inicie a transição para se transformar em uma empresa de energia renovável, por exemplo, é ambiciosa, correta e desenvolvimentista, pensando a médio e longo prazo.

O editorial também menciona o modelo de gestão defendido por Lula, que visa alinhar a Petrobras com sua missão histórica de garantir o abastecimento do mercado brasileiro, mantendo preços competitivos e uma rentabilidade satisfatória para os acionistas, afastando de vez a política predatória do grande capital, que durante os governos de Temer e Bolsonaro entupiram suas contas de dinheiro as custas do desfinanciamento da Petrobras.

Para completar a condição de porta-voz dos interesses de acionistas minoritários, a Folha usa como referência de “boa gestão” o modelo implementado após a derrubada da presidente Dilma em 2016, sob o governo de Michel Temer, que nomeou Pedro Parente para a presidência da empresa.

É bom lembrar que a gestão de Parente foi responsável pela implementação da PPI, que garantiu lucros exorbitantes as custas do povo brasileiro entre 2016 e 2022.

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Igor Felippe Santoss: É problema de governo, camarada https://www.ocafezinho.com/2024/03/13/igor-felippe-santoss-e-problema-de-governo-camarada/ https://www.ocafezinho.com/2024/03/13/igor-felippe-santoss-e-problema-de-governo-camarada/#respond Wed, 13 Mar 2024 13:19:04 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=177939 Por Igor Felippe Santos

O publicitário João Santana, que trabalhou em diversas campanhas políticas no Brasil e na América Latina, concedeu uma entrevista à Folha de S. Paulo em maio de 2023. Na conversa, foi perguntado sobre a comunicação do governo Lula 3. Deu a seguinte resposta: “Fala-se muito que o governo tem problema de comunicação, mas acho que, na verdade, a comunicação sofre problemas de governo”.

Mais do que um problema na área da comunicação, o governo padece da falta de uma estratégia para enfrentar a profunda crise nacional e a nova conformação política com a intensa polarização com a ascensão da extrema-direita

A pesquisa Genial/Quaest aponta uma queda persistente da aprovação do trabalho do Lula e do governo federal, em comparação com os levantamentos anteriores do mesmo instituto. O sinal amarelo acendeu, mas ainda não houve uma mudança qualitativa. O quadro repete o padrão das pesquisas realizadas durante as eleições de 2022, especialmente entre os dois turnos.

O país continua dividido entre o campo esquerda, que construiu uma frente ampla no processo de resistência ao governo Bolsonaro, e a extrema-direita, que sustenta sua hegemonia na direita com capacidade de mobilização e intensa luta ideológica.

Os números da pesquisa expressam, a grosso modo, a polarização entre aqueles que aprovam e desaprovam o trabalho do presidente Lula (51×46), com impactos no deslocamento do segmento que não se alinha automaticamente na disputa.

A esquerda tem maioria ampla na região Nordeste (68×31), enquanto a direita tem mais força no Sudeste (52×44) e no Sul (57×40). A esquerda tem vantagem entre aqueles que têm escolaridade até o ensino fundamental (59×38), enquanto a direita é superior entre os que têm ensino superior (53×45).

Em relação às faixas de renda, a esquerda tem apoio amplo entre quem ganha até dois salários mínimos (61×36), mas desvantagem entre aqueles que recebem mais de cinco salários mínimos (44×54). Na faixa de dois a cinco salários mínimos, a direita tem consolidado a sua superioridade (52×45).

No tópico referente a religião, a direita mantém ampla ascendência entre os evangélicos (62×35), ao passo que a esquerda tem maioria entre os católicos (58×39).

Os indicadores da avaliação do governo pioraram nos últimos 12 meses. Eventualmente, podem até melhorar por questões conjunturais no próximo período. É natural que determinados segmentos – cada vez mais estreitos – se desloquem entre os dois polos.

A questão é que a moldura da fotografia do momento segue um padrão, com dois polos que dividem a sociedade e tem mais ou menos apoio em certos indicadores.

Diante disso, cabe ao governo atuar sobre a situação concreta e fazer a disputa na sociedade, apresentando um projeto de Nação e conduzindo uma agenda pública.

Ao mesmo tempo, implementar políticas capazes de melhorar efetivamente a vida da população. Assim, poderá fortalecer a adesão dos seus apoiadores, atrair o segmento flutuante e incidir na base do adversário

Até agora a Esplanada dos Ministérios optou por gerenciar a burocracia, retomar políticas públicas exitosas 20 anos atrás e negociar com adversários sem demarcar a diferença de projeto. Lula é o único que participa do debate público geral e se posiciona diante de questões relevantes.

O ministro Fernando Haddad tem aberto discussões na sua área, assim como fazia o então ministro Flávio Dino. Para além disso, é um silêncio constrangedor.

Em um quadro desfavorável com a dilapidação do Estado, com a pressão do grande capital e do Congresso Nacional, dificilmente gerenciar a burocracia terá resultados sem construir uma força na sociedade para impulsionar mudanças na política e na economia.

O governo não pode abrir mão de fazer o debate público com a sociedade, defender o programa apresentado nas eleições e apontar quem são os adversários da sua implementação. Dessa forma, pode colocar sua base em movimento e evidenciar os responsáveis pelas dificuldades.

O quadro de polarização está consolidado e a extrema-direita intensifica a disputa. Mesmo com o cerco a Jair Bolsonaro, tenta manter iniciativa política. Do seu lado, o governo tem uma política “água com açúcar”, amarrado pela frente ampla, que neutraliza os esforços da esquerda de fazer os enfrentamentos.

Desse modo, jogar toda a responsabilidade pela queda da aprovação da gestão na comunicação simplifica o problema, embora essa área tenha limites evidentes. O buraco é mais embaixo, porque a política de comunicação é um desdobramento da política do governo. Qual a estratégia do governo para enfrentar a crise brasileira e isolar a extrema-direita?

A melhora a conta gotas na economia não representou uma mudança substancial na vida das pessoas. Essa situação contrasta com as promessas de unir e reconstruir o país por meio da “retomada da democracia” com a derrota de Jair Bolsonaro.

A ausência do debate público com a sociedade e a frustração das expectativas da população abrem margem para a extrema-direita atrair o segmento que flutua na polarização e avançar sobre a base de apoio do Lula.

Enquanto o governo optar por simplesmente gerenciar uma burocracia enferrujada que não renderá nada de substantivo para a população, a extrema-direita vai surfar nas suas contradições para atacar e ampliar a sua base.

*Igor Felippe Santos é jornalista e analista político com atuação nos movimentos populares.

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Jeferson Miola: Com bandeira da anistia, extrema-direita se posiciona uma conjuntura à frente https://www.ocafezinho.com/2024/03/03/jeferson-miola-com-bandeira-da-anistia-extrema-direita-se-posiciona-uma-conjuntura-a-frente/ https://www.ocafezinho.com/2024/03/03/jeferson-miola-com-bandeira-da-anistia-extrema-direita-se-posiciona-uma-conjuntura-a-frente/#respond Sun, 03 Mar 2024 16:48:04 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=177235 Por Jeferson Miola

O ato na avenida Paulista organizou a estratégia de luta da extrema-direita para o período imediato, que tem no horizonte as condenações e prisões do Bolsonaro, de alguns dos generais e oficiais implicados, e outras lideranças do golpe.

Com a bandeira da anistia, a extrema-direita se posiciona, portanto, uma conjuntura à frente, inclusive devendo politizar a eleição municipal com este debate.

Dada a robustez das provas incriminadoras, a intelligentsia bolsonarista sabe que, a essa altura dos acontecimentos, a prisão da liderança golpista é apenas uma questão de tempo; de quando vai acontecer.

Portanto, é plausível se considerar que Bolsonaro não discursou na Paulista para se defender do indefensável ou para reverter o irreversível, mas com o objetivo de armar a extrema-direita para essa nova conjuntura que se avizinha, pós-prisões.

Neste sentido, a proposta de anistia não tem o objetivo imediatista de constranger o STF a suspender os julgamentos e condenações em andamento, inclusive a dele próprio, Bolsonaro, e de alguns oficiais graúdos, mas funciona como palavra de ordem para articular, mobilizar e colocar em movimento a extrema-direita na próxima conjuntura.

Com uma retórica cínica, Bolsonaro inverte os papéis e responsabiliza o governo e o STF pela inviabilização do entendimento nacional e da pacificação do país devido às condenações que ele e os bolsonaristas delirantemente consideram injustas e ilegítimas.

Há quem tenha enxergado desespero e covardia do Bolsonaro, que teria recuado para evitar mais complicações com a polícia e a justiça. Não parece, no entanto, ser este o caso.

A moderação do discurso não teve só o objetivo de evitar a autoincriminação. Parece ter sido estratégia para produzir a narrativa cândida e sóbria de um inocente que é perseguido pelo sistema e está sendo injustamente punido.

O general-senador Hamilton Mourão, “líder do Alto Comando do Exército no Senado”, é autor de projeto de outubro de 2023 que anistia todos que “tenham sido ou venham a ser acusados ou condenados” pelos crimes tipificados nos artigos 359-L e 359-M do Código Penal – tentativas de abolição do Estado de Direito e de deposição de governo legitimamente constituído [grifo meu].

A iniciativa tem potencial de agitar o clima político, catalisar a mobilização do extremismo e amplificar a polarização social. Quase um milhão de pessoas já se manifestaram a favor ou contra o Projeto de Lei no site do Senado em poucas horas.

Como a medida beneficiaria políticos, parlamentares, empresários, funcionários públicos, comunicadores, policiais, populares e, obviamente, os militares, o Congresso sofrerá uma pressão poderosa.

Pressionadas pelas fileiras e por delinquentes fardados da alta hierarquia, as cúpulas militares farão um lobby pesado, com fortes ameaças e pressões sobre deputados e senadores.

A aprovação da anistia pela maioria de direita e extrema-direita do Congresso é uma hipótese realista. As chances de isso acontecer são ainda maiores na Câmara, fator que aumentará o preço a ser pago pelo governo Lula pelas chantagens e achaques do Arthur Lira.

Qual o cenário do Brasil no caso de aprovação da anistia pelo Congresso? E na eventualidade de o STF declarar sua inconstitucionalidade? É imponderável, mas não se pode descartar um ambiente de caos, de conflitos políticos e institucionais e recrudescimento das ameaças militares diante da impunidade.

A militância extremista se sentirá ainda mais empoderada e autorizada a continuar esgarçando o Estado de Direito com padrão crescente de violência política.

Essa militância, que na quase totalidade acredita que o TSE fraudou a eleição para eleger Lula [88%], e entende que há uma ditadura do STF no Brasil [94%], considerará que os atos terroristas em Brasília em dezembro de 2022 e os atentados de 8 de janeiro de 2023 foram não só legítimos, como também legais, porque praticados em reação à eleição “roubada”..

As organizações sociais, partidárias, os movimentos do campo democrático, os setores liberais comprometidos com a democracia, a esquerda e o progressismo precisam urgentemente se unir e acumular forças para construir uma potente reação democrática a esta ofensiva da ultradireita e dos fascistas.

A rememoração dos 60 anos do golpe militar em 31 de março representa uma oportunidade para o lançamento da luta democrática prioritária neste momento histórico, e que se organiza em torno das consignas Ditadura Nunca Mais!, e Sem Anistia! para criminosos que atentaram contra a democracia.

Ilustração: Nando Motta   // 

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Rodrigo Perez: A nova fase do bolsonarismo https://www.ocafezinho.com/2024/02/28/rodrigo-perez-a-nova-fase-do-bolsonarismo/ https://www.ocafezinho.com/2024/02/28/rodrigo-perez-a-nova-fase-do-bolsonarismo/#respond Wed, 28 Feb 2024 19:31:04 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=177049 O ato de 25/02 inaugurou um novo momento na história da cultura política que aprendemos a chamar de “bolsonarismo”. Identificar o que mudou e o que permaneceu é mais importante do que especular o número total de manifestantes que compareceram à Avenida Paulista.

Se é fato que a Secretária de Segurança Pública de São Paulo mentiu ao divulgar que foram 750 mil, também seria falso dizer que o ato foi um fracasso.

Sim, havia muita gente nas ruas, o que mostra a força de Jair Bolsonaro como líder popular. Nada surpreendente para quem acompanha o processo político brasileiro com alguma sobriedade. No entanto, o evento não modificou a situação jurídica do ex-presidente.

O caminho de Jair Bolsonaro para a cadeia está pavimentado, e ele não irá sozinho. Aliados civis e militares o acompanharão. O próprio Bolsonaro sabe disso e implorou por anistia, em uma das arregadas mais constrangedoras do anedotário político brasileiro.

O “Sem anistia” não é apenas palavra de ordem. É a tradução da situação política atual do Brasil.

Diferente do que aconteceu no final da década de 1970, as forças democráticas não precisam negociar com um governo autoritário para viabilizar o fim da ditadura. A anistia decretada em 1979 foi um acordo que, de alguma forma, beneficiou todas as forças políticas envolvidas.

Os opositores desejavam voltar ao país e retomar suas atividades em situação de normalidade democrática. Os agentes da ditadura queriam ter a certeza de que não sofreriam um ajuste de contas no futuro. Sentaram-se à mesa e pactuaram a ficção do esquecimento, que é exatamente o que significa a anistia.

Hoje, a situação é completamente diferente. A democracia é o regime instituído. Somente os bolsonaristas ganhariam com uma possível anistia. As forças democráticas, que estão no poder, não precisam negociar. Então, sem antistia!!!

Mas retomando o fio: o que muda no Bolsonarismo? Acredito que muita coisa. Explico.

O bolsonarismo nasceu em 2014, quando o então deputado Jair Bolsonaro se consolidou como fenômeno midiático na internet e pela primeira vez se lançou à corrida presidencial.

No primeiro momento, suas ambições foram frustradas porque seu partido, na época o PP de Ciro Nogueira, preferiu apoiar a reeleição da presidenta Dilma.

Mas os anos seguintes mostraram que a aquele parlamentar de baixo clero, controverso, algo tosco e que por anos havia sido um outsider da própria democracia tinha conseguido assumir o papel de crítico do sistema político que setores numericamente relevantes da sociedade acreditavam estar estruturalmente corrompido.

A linguagem crítica e disruptiva não foi abandonada nem no período em que Bolsonaro foi presidente.

Na campanha eleitoral de 2022, depois de quatro anos de governo, ele ainda se dizia “inimigo do sistema”. Vimos, então, o surgimento da inusitada figura do “presidente outsider”, de alguém que mesmo ocupando o principal cargo da República se apresenta como adversário do “sistema”.

Com o fim do governo e com as autoridades policiais e jurídicas fechando o cerco, ficava a dúvida sobre o que aconteceria com o bolsonarismo. Creio que a resposta veio domingo. Por partes:

1°) Apesar de ainda manter o apoio dos militares das forças armadas e das forças auxiliares, o bolsonarismo caminha para a desmilitatização. A punição dos generais envolvidos na conspiração golpista provocará um efeito cascata e os fardados pensarão muito bem antes de se aventurarem novamente.

A linha de ação será dada pelo STF, liderado por Flavio Dino, que antes de renunciar ao Senado apresentou projetos que tratam exatamente do tema da politização dos militares. Dino propôs a proibição de acampamentos na frente dos quartéis e deseja o fim da aposentadoria compulsória para juízes, promotores e militares que tenham cometido crimes graves.

O texto sugere que essas pessoas sejam expulsas do serviço público. Dino no STF será ainda mais implacável com os bolsonatistas que Alexandre de Moraes. A escolha de Lula foi perfeita.

2°) Os grandes empresários também tendem a recuar. Bolsonaro perdeu a eleição, está inelegível, o golpe não vingou e a economia caminha relativamente bem. Botar dinheiro na agitação política se tornou investimento de altíssimo risco, sem retorno no horizonte.

Isso não significa que esses endinheirados tenham mudado de opinião. Provavelmente, em 2026 apoiarão o candidato ungido pelo bolsonarismo, mas o tempo das travessuras golpistas acabou.

3°) Os políticos profissonais não vão colocar o pescoço no cutelo por causa de um agente político com pouquíssima perspectiva de poder. Na Avenida Paulista somente estiveram presentes os parlamentares que devem seu mandado a Jair Bolsonaro.

Entre os governadores, foram apenas aqueles que estão interessados no espólio. Alguns se preocuparam em telefonar para ministros do STF pedindo desculpas prévias.

Com a exceção de Tarcísio de Freitas, todos desceram do palanque quando Malafia subiu o tom nos ataques do poder judiciário. O centrão ficou em Brasília, interessado em abocanhar ainda mais o orçamento. Prioridades, né?

4°) Restou a Bolsonaro a base neopentecostal, o que não é pouca coisa. Não seria exagerado dizer que o conglomerado de igrejas evangélicas neopentecostais se tornou o mais poderoso e capilarizado movimento social e político em atuação no Brasil. MST, MTST, Movimento Negro Unificado, movimento estudantil, movimento feminista, movimento LGBT.

Nenhum deles chega sequer perto da capacidade de formação politica que as igrejas neopentecostais possuem. Bem sabemos que os vínculos entre o bolsonarismo e o cristianismo neopentecostal não são novos.

Mas até aqui, esses grupos religiosos eram parte da coligação bolsonarista, disputando espaço com outros atores. Agora, passam a ser força hegemônica, praticamente a única. Não à toa, no ato da Avenida Paulista, vimos um Bolsonaro acuado e com medo, enquanto Michele conclamava o “povo de Deus” a ocupar ainda mais o Estado e Silas Malafaia, dono e financiador do ato, dominava o palanque.

Nesse novo cenário, o bolsonarismo se enfraquece ou se fortalece? Depende se que queremos ver o copo meio cheio ou meio vazio.

É equivocado acreditar que bolsonarismo e cristianismo neopentecostal possuem exatamente os mesmos projetos para o país. Há muitos pontos de contato, mas também existem divergências, como na área da segurança pública, tão cara ao bolsonarismo. As igrejas defendem a socialização pela fé, algo bem distinto da máxima “bandido bom é bandido morto”. Certamente, o bolsonarismo raiz terá que ceder algo. Por outro lado, ganhará em diversidade.

Como assim?

Isso mesmo, leitor e leitora. “Diversidade”.

Estamos acostumados a ouvir essa palavrinha sempre associada à esquerda, mas os tempos são complexos e os repertórios se misturam mesmo. No mundo inteiro, a extrema direita está buscando ampliar suas bases sociais, incluindo minorias, como pessoas com deficiências, mulheres e negros.

Como para a extrema direita brasileira a imigração não é questão central, essa ampliação à diversidade é até mais viável do que para suas congêneres do norte global, fundadas na islamofobia, ou também na latinofobia, como acontece nos EUA.

A imagem do bolsonarista típico encarnada no homem, branco e rico tende a ser superada, ou melhor, diversificada. As igrejas são frequentadas majoritariamente por pobres, negros e mulheres. As mulheres serão cada vez mais importantes para o identitarismo bolsonarista.

Aqui, Michele e Damares possuem papel fundamental, como representantes de um curioso feminismo conservador, baseado na figura da mãe, mulher biológica, acionada para contrapor a ideia de que a condição feminina é gesto de afirmação identitária, usada pelas esquerdas para acolher as pessoas trans.

Esse neobolsonarismo buscará avançar, portanto, sobre grupos sociais que historicamente são a base do lulismo e foram fundamentais para o desfecho das eleições de 2022.

Basta saber como reagirão os diversos segmentos da esquerda brasileira, cada vez mais isolada nas universidades e nos seus frágeis movimentos sociais, e sobrevivendo apenas da imensa força política do presidente Lula.

Rodrigo Perez é professor e historiador da UFBA

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Rodrigo Perez: O BBB 24 e os limites do identitarismo https://www.ocafezinho.com/2024/02/16/o-bbb-24-e-os-limites-do-identitarismo/ https://www.ocafezinho.com/2024/02/16/o-bbb-24-e-os-limites-do-identitarismo/#comments Fri, 16 Feb 2024 18:03:27 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=176105 1 Comentário 🔥]]> Por Rodrigo Perez

Que o Big Brother Brasil é o principal produto da indústria cultural brasileira há mais de duas décadas não é novidade pra ninguém. É impossível ficar indiferente às repercussões sociais do reality global. Talvez não seja nem desejável.

Qualquer brasileiro minimamente atento ao que está acontecendo ao seu redor já ouviu falar em Davi. No carnaval de Salvador, o participante soteropolitano foi um verdadeiro fenômeno, sobretudo depois que o seu “calma calabreso” virou meme. O grupo baiano “La Fúria” já fez até música. É a velocidade das redes pautando a totalidade da realidade.

Aqui neste ensaio, desejo explorar um aspecto dessa edição do BBB, especialmente no que se refere à trajetória de Davi no programa: estamos vendo em rede nacional a manifestação explícita dos limites daquele que é o pensamento político hegemônico no campo das esquerdas.

Como assim? Explico.

Se convencionou chamar de “identitarismo” o tipo de sensibilidade política que ampliou as experiências de opressão para além da materialidade econômica.

Movimentos sociais organizados por mulheres, por pessoas LGBTs e por negros passaram a afirmar suas trajetórias de opressão a partir de suas condições de existência. O resultado foi a ampliação dos agentes sociais que, em tese, seriam os opressores.

No vocabulário político feminista, os homens, privilegiados no patriarcado, são os opressores.

Na linguagem LGBT, o opressor é o homem heterossexual.

Para o movimento negro, os opressores são os brancos em geral.

Assim, a dicotomia “Rico opressor privilegiado X pobre oprimido” foi ficando cada vez mais em segundo plano entre as prioridades políticas da esquerda contemporânea. O BBB 24 nos leva a questionar essa hierarquia de prioridades.

Rodriguinho é tão negro quanto David, e não há nada em comum entre eles. O pagodeiro paulista chegou a dizer, em tom de menosprezo, que ao entrar no programa, Davi tinha deixado apenas o carro na garagem, seu instrumento de trabalho em um aplicativo de transporte. Já ele, Rodriguinho, havia deixado uma carreira artística consolidada.

O leitor e a leitora podem argumentar que o discurso de Rodriguinho se deve à falta de “letramento racial”. Talvez. Certo mesmo é que ele tem consciência de classe. Rodriguinho sabe
que é rico, mesmo sendo negro. Sabe também que Davi é pobre, ainda que seja negro também. Essa diferença fundamental grita mais alto do que qualquer eventual semelhança que poderia ser construída por meio da identidade racial.

Wanessa Camargo e Yasmin Brunet se tornaram as principais algozes de Davi. Mobilizando o vocabulário feminista, a cantora e a modelo já disseram que Davi é “machista” e “manipulador”.

Duas mulheres ricas e criadas em berço de ouro transformam o homem pobre em perpetrador de opressão e de violência psicológica. Davi seria, portanto, o opressor, enquanto Wanessa e Yasmin seriam as oprimidas.

A linguagem de gênero, aqui, cumpre um papel ideológico, no sentido marxista do termo: a nuvem de fumaça que esconde o verdadeiro conflito, a verdadeira experiência de opressão, aquela que opõe ricos e pobres.

Davi é motorista de aplicativo, trabalhador precarizado. Por mais que eventualmente sua linguagem aparente agressividade ou flerte com o politicamente incorreto, jamais será privilegiado pelo simples motivo de que no capitalismo, independente de quem sejam, os pobres não têm acesso a privilégios.

Yasmin, Wanessa e Rodriguinho. Por mais diferentes que sejam, são ricos e sabem perfeitamente disso. A identidade aqui é produzida pela experiência comum do privilégio material. A diversidade, na prática, fica em segundo plano.

Quem diria, não? O BBB está mostrando em rede nacional que aquilo que foi escrito por uns certos barbudos no século XIX ainda faz sentido.

Rodrigo Perez é historiador e professor da UFBA

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Miro Borges: Justiça penhora grana de chefão do MBL https://www.ocafezinho.com/2024/02/12/miro-borges-justica-penhora-grana-de-chefao-do-mbl/ https://www.ocafezinho.com/2024/02/12/miro-borges-justica-penhora-grana-de-chefao-do-mbl/#comments Mon, 12 Feb 2024 17:50:04 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=175788 1 Comentário 🔥]]> A seita golpista e direitista MBL (Movimento Brasil Livre) não está com essa bola toda. Sua principal referência, o deputado Kim Kataguiri, patina nas pesquisas para as eleições da capital paulista.

Na sondagem mais recente, do Instituto Atlas, divulgada em dezembro, o jovem provocador surge com 5,3% das intenções de voto – atrás de Guilherme Boulos (29,5%), Ricardo Nunes (18%), Ricardo Salles (17,6%) e Tabata Amaral (6,2%). Além disso, ele corre o risco de ser descartado por seu partido, o União Brasil, que já anunciou o apoio ao atual prefeito.

Esse aparente desgaste eleitoral decorre, entre outros fatores, da desmoralização de várias lideranças desse grupelho.

Algumas já deixaram o MBL, como o vereador Fernando Holiday, e outros tombaram pelo caminho, como o ex-deputado estadual Arthur do Val, vulgo Mamãe Falei.

Eleito na onda bolsonarista de 2018 com 478 mil votos – o segundo mais votado em São Paulo –, ele foi cassado em maio de 2022, por unanimidade, após o vazamento de áudio com bravatas misóginas sobre as mulheres ucranianas – “são fáceis porque são pobres”.

Os rolos de Renan Santos

Na época, ele justificou sua “turnê de solidariedade” à Ucrânia citando o coordenador nacional da seita, Renan Santos. Segundo afirmou, o riquinho viajava a países europeus “só para pegar loiras”.

Na semana retrasada, foi a vez desse sujeito – metido em vários rolos – reaparecer na imprensa com a notícia de que a Justiça penhorou cerca de R$ 100 mil em cotas de um fundo de investimento. Renan dos Santos foi condenado em uma ação por ofensa ao jornalista José Roberto Burnier, da TV Globo.

Como relembra o site Metrópoles, “ao criticar a cobertura feita pela imprensa do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2015, Renan escreveu em suas redes sociais que Burnier era um ‘canalha’. Além disso, a página do MBL exibiu montagem fotográfica na qual o jornalista foi retratado como uma prostituta oferecendo seus serviços para Dilma. Na publicação, Burnier, que está na Globo desde 1983 e que participou de coberturas importantes, é chamado de um ‘esquerdista global de joelhos para o PT’”.

Renan Santos foi condenado pela Justiça em 2020 a pagar uma indenização de R$ 20 mil. Ele não pode mais recorrer, já que o processo transitou em julgado.

“Há ainda um questionamento em relação à atualização dos valores, que incluem juros e correção monetária. Burnier apresentou cálculos segundo os quais a dívida seria de cerca de R$ 75 mil, considerando também os honorários advocatícios… A penhora das cotas de Renan no fundo de investimento foi determinada pelo juiz Caio Moscariello Rodrigues em 18 de janeiro para garantir o pagamento enquanto a Justiça decide qual é o valor correto”.

Charge: Guabiras

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A campanha histérica da mídia contra a soberania energética do Brasil https://www.ocafezinho.com/2024/01/22/a-campanha-histerica-da-midia-contra-a-soberania-energetica-do-brasil/ https://www.ocafezinho.com/2024/01/22/a-campanha-histerica-da-midia-contra-a-soberania-energetica-do-brasil/#respond Mon, 22 Jan 2024 11:16:32 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=173658 Essa campanha histérica da mídia contra Abreu e Lima, Comperj e refinarias em geral fez os internautas lembrarem como os mesmos personagens ficaram tristes, a ponto de negarem a sua existência, com a descoberta do pré-sal.

Hoje o Brasil exporta mais de 50 bilhões de dólares em petróleo, por ano. É nosso principal produto na balança comercial.

Refinar um pouco mais de petroleo aqui mesmo, de maneira a reduzir importações de diesel russo e americano é, para dizer o mínimo, prudente e necessário, pois se acontecer alguma guerra pro lado de lá, vamos ficar numa situação ridícula: cheios de petróleo bruto mas com nossos caminhões, onibus e carros parados, faltando diesel e  gasolina e com preços estratosféricos (atingindo nossa competitividade).

O pessoal do agronegócio deveria romper com essa cultura colonizada e burra, porque seriam também prejudicados.

Aliás, o agro deveria ser o maior aliado de um projeto de construir ferrovias e refinarias no Brasil, porque são estruturas que aumentariam muito a sua produtividade!

O Brasil precisa de grandes refinarias também por outra razão estratégica: controlarmos aqui, com nossos recursos e nosso ritmo, a transição energética do país!

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Editorial de O Globo critica reindustrialização do Brasil https://www.ocafezinho.com/2023/07/09/editorial-de-o-globo-critica-reindustrializacao-do-brasil/ https://www.ocafezinho.com/2023/07/09/editorial-de-o-globo-critica-reindustrializacao-do-brasil/#comments Sun, 09 Jul 2023 16:37:53 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=160028 Editorial do jornal O Globo deste domingo (09/07) criticou política de reindustrialização do país defendida pelo governo Lula. Mas, ao contrário do que sugere O Globo, reindustrialização tem papel estratégico para o desenvolvimento sustentável .

Por Theófilo Rodrigues

Aos poucos o Brasil vem retomando a normalidade política e econômica e o debate público que caracterizou o período da Nova República no país. Após seis anos de anormalidade democrática, a esfera pública brasileira volta a discutir as grandes questões que cercam o futuro do país.

Os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro levaram a política econômica neoliberal ao momento mais alto de sua trajetória no país, com o Teto de Gastos e a privatização de setores importantes da indústria brasileira. Mas aquele conturbado momento democrático brasileiro – golpe contra Dilma Rousseff em 2016, prisão do líder da oposição no ano da eleição em 2018, condução desastrosa das políticas públicas de saúde no contexto da pandemia em 2020 – fizeram com que o debate sobre a política econômica acabasse sendo marginalizado na esfera pública.

A eleição de Luís Inácio Lula da Silva em outubro de 2022, com o apoio de uma frente ampla que reuniu em uma única coalizão diferentes e contraditórios projetos, possibilitou que agora esse debate sobre os rumos da economia nacional volte a ser discutido com prioridade.

É sob esse registro que o editorial publicado pelo jornal O Globo neste domingo (09/07) reintroduz de forma saudável a velha disputa entre desenvolvimento e neoliberalismo que marcou o país na década de 1990. Intitulado “Reindustrialização proposta por Lula é erro à luz dos fatos”, O Globo defende que “recursos do governo sob pressão fiscal devem ser usados em educação, saúde e ajuda a pobres, não em subsídios”.

Neoliberalismo progressista

O projeto político do grupo Globo, do qual o jornal O Globo faz parte, pode ser caracterizado por aquilo que a literatura especializada conceituou como o “neoliberalismo progressista”. De acordo com a filósofa norte americana Nancy Fraser, o neoliberalismo progressista é um projeto político que reúne a agenda neoliberal de redução do papel do Estado nas políticas públicas, com uma agenda de reconhecimento progressista de diversas identidades usualmente discriminadas.

Não há dúvidas de que o grupo Globo possua hoje uma agenda de valorização de identidades minoritárias, com uma participação cada vez maior de questões como a igualdade racial, sexual e de gênero em seus veículos. Os ataques reacionários de Jair Bolsonaro e seus fanáticos apoiadores contra a empresa comprova esse perfil da Globo. Assim como não há dúvidas de que a Globo possui uma agenda econômica neoliberal mais identificada com a fração financeira da burguesia brasileira. Daí sua defesa da autonomia do Banco Central e da manutenção dos juros altos. O editorial publicado hoje reafirma esse posicionamento político.

Reindustrialização e sustentabilidade na agenda do governo

Diferentemente da perspectiva apresentada pelo jornal O Globo, o governo federal liderado pelo presidente Lula aposta em outra direção. As críticas diárias ao presidente do BC, Roberto Campos Neto, indicam que o governo federal não compactua com a política de concentração de renda imposta pelo mercado financeiro. Mais do que isso, todos os sinais de políticas públicas apresentadas pelo governo nesses seis primeiros meses foram na direção do retorno da industrialização do país como instrumento para a geração de empregos e a redistribuição de renda.

No Ministério da Saúde, a ministra Nísia Trindade tem repetido à exaustão que sua prioridade é a construção de um complexo industrial de saúde. “A retomada da política industrial e do complexo econômico-industrial da saúde é uma oportunidade estratégica para o Brasil, tanto para garantir a saúde como um vetor de desenvolvimento, como também pensando no papel internacional do nosso país. Isso tem sido tema constante”, disse a ministra em recente reunião do Conselho Nacional do Desenvolvimento Industrial no Palácio do Planalto.

No Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação a agenda é semelhante. De acordo com o secretário-executivo do MCTI, Luis Fernandes, o ministério vai investir R$ 41 bilhões nos próximos quatro anos na nova política industrial do país. Esses recursos são do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) e serão operados pela FINEP na forma de crédito e subvenção econômica em instrumentos de estímulo à inovação nas empresas. “O esforço que estamos empreendendo agora para promover uma nova industrialização no Brasil deve incorporar um forte componente de estímulo e apoio à inovação empresarial como um dos pilares, talvez o pilar central, desse esforço”, explica Luis Fernandes. Aliás, a própria ministra Luciana Santos tem reiterado que a bioeconomia terá papel fundamental nesse processo de reindustrialização.

Esse tema apareceu nesta semana na Reunião de Ministras, Ministros e Altas Autoridades de Meio-Ambiente, Ciência, Tecnologia e Inovação, no âmbito da 14ª Convenção de Meio Ambiente e Desenvolvimento do Grupo 77 + China, que foi realizado em Havana. Representando a ministra Luciana Santos, o secretário de Ciência e Tecnologia para o Desenvolvimento Social, Inácio Arruda, afirmou que o Brasil fará investimentos em dez programas nacionais em áreas estratégicas, como saúde, transformação digital, transição energética, setor espacial, nuclear e defesa. “Também priorizamos a estruturação de um programa integrado de desenvolvimento da Amazônia, com foco na biotecnologia e na exploração sustentável da biodiversidade da região”, disse o secretário.

Quem também concorda com essa visão é a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. “Podemos fazer um processo de reindustrialização centrado nas metas do Acordo de Paris, fazer uma transição para uma agricultura de baixo carbono, ter uma matriz elétrica limpa e segura, inclusive, para produzir hidrogênio, e podemos ser um enorme lastro para novos parques industriais de produção de carros elétricos”, defendeu Marina alguns meses atrás.

Em abril, o tema da viagem do presidente Lula para a China foi a industrialização, com forte ênfase na questão ambiental. Na ocasião, foi anunciado um empréstimo de mais de R$ 6 bilhões da China para o BNDES. Segundo o presidente do BNDES, Aloísio Mercadante, os recursos serão repassados em duas operações e devem financiar projetos, no Brasil, de infraestrutura, transição ecológica, energia limpa e industrialização.

Não há contradição entre reindustrialização e investimento em políticas sociais

Ao afirmar que os “recursos do governo sob pressão fiscal devem ser usados em educação, saúde e ajuda a pobres, não em subsídios”, o editorial de O Globo sugere uma contradição insuperável entre investimentos em políticas sociais e em políticas de desenvolvimento. A realidade, no entanto, indica que essa é uma falsa contradição; ao contrário, as duas políticas são complementares, pois a industrialização sustentável permite que o país gere empregos e renda e tenha como consequência um alto impacto socioambiental positivo.

O que podemos ver é que o jornal O Globo e o governo federal liderado por Lula possuem concepções distintas sobre as políticas econômicas para o futuro do Brasil. E é saudável que esse debate transcorra na esfera pública sem que seja interditado por fake News como ocorreu no passado recente. Mais saudável ainda seria se essas duas concepções – e diversas outras – pudessem desfrutar do mesmo espaço nos veículos de comunicação consolidados.

Theófilo Rodrigues é cientista político.

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O “imperialismo do bem” da colunista da Folha https://www.ocafezinho.com/2023/06/22/o-imperialismo-do-bem-da-colunista-da-folha/ https://www.ocafezinho.com/2023/06/22/o-imperialismo-do-bem-da-colunista-da-folha/#comments Thu, 22 Jun 2023 20:02:51 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=158099 5 Comentários 🔥]]> Abri o site da Folha nesta manhã e logo me deparei com um título que, à primeira vista, pensei ter um tom irônico: Intervenção do Tio Sam para proteger eleição brasileira soa como ‘imperialismo do bem’. Imaginei que a colunista Lúcia Guimarães, que “vive em Nova York desde 1985” (é o que consta na primeira frase da sua bio), fosse criticar tal conceito estapafúrdio de “imperialismo do bem”.

Para minha surpresa, contudo, não há ironia alguma no artigo, que trata da matéria que saiu ontem (21) no jornal britânico Financial Times sobre as movimentações do governo Biden para que sua posição contrária a um eventual golpe de Estado no Brasil ficassem bem evidentes para integrantes do governo Bolsonaro e militares brasileiros.

A colunista candidamente se pergunta:

Existe imperialismo do bem? Se o seu filho torturado apodrecia numa cela brasileira, cortesia de generais, a resposta poderia ser: “Presidente Jimmy Carter, dá uma prensa no Ernesto Geisel!”
Se o seu filho foi preso por um general guatemalteco protegido por Ronald Reagan, a resposta seria: “Abaixo o imperialismo ianque!”

A postura da colunista não é, infelizmente, isolada. No próprio artigo que ela linka, sobre Jimmy Carter e a relação dos EUA com a ditadura brasileira, Elio Gaspari escreve no subtítulo que “A democracia brasileira lhe deve muito”. Sim, querido Gaspari, os militantes mortos, torturados e desaparecidos e a sociedade civil brasileira que lutou arduamente para restaurar a democracia deveria agradecer ao sr. Jimmy Carter, que tomou a muy corajosa atitude de estabelecer uma cordial antipatia com o regime de Geisel.

Parece piada, mas o nosso viralatismo é um problema crônico e sério.

Continuando com a tese da colunista, ela atribui a movimentação do governo Biden para desencorajar o golpe de Bolsonaro a mais um acesso de bondade dos americanos, um “imperialismo do bem” versão século XXI.

Eu, que enxerguei um cálculo político do governo Biden, já que Bolsonaro é um aliado muito próximo de Donald Trump, devo estar errado. Talvez minha mente não seja pura o suficiente para enxergar toda a bondade que os americanos reservam a nós, os cucarachos. (Quem sabe se eu me mudar pra Nova York…)

No final do artigo da colunista, a cereja do bolo: uma crítica à “hostilidade” do governo Lula em relação aos EUA. Decerto Lula deveria abandonar a altivez nas relações internacionais e, em sinal de profundo agradecimento, seguir todo e qualquer comando dos americanos, esses heróis altruístas que certamente só pensam no melhor para a democracia brasileira.

Alguém avisa o Lula que os EUA são imperialistas sim, mas é um “imperialismo do bem”…

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Governo arrecada mais e investe menos https://www.ocafezinho.com/2021/03/23/governo-arrecada-mais-e-investe-menos/ https://www.ocafezinho.com/2021/03/23/governo-arrecada-mais-e-investe-menos/#comments Tue, 23 Mar 2021 15:17:21 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=122149 7 Comentários 🔥]]> Separamos alguns textos e gráficos sobre o desempenho da receita federal até o mês de fevereiro deste ano.

Foi um mês bom em termos de arrecadação fiscal, considerando o cenário econômico difícil vivido pelo país. Uma pena que isso não esteja se traduzindo em combate eficiente à pandemia, nem em auxílio decente aos cidadãos e empresas em crise, tampouco em investimentos em infra-estrutura que poderiam gerar empregos e melhorar nossa produtividade.

Isso sem falar em educação, um setor que foi completamente abandonado pelo governo federal no momento mais dramático, em que milhões de crianças e adolescentes estão sem poder frequentar escolas por causa da pandemia. Era um momento para fazer grandes investimentos em ensino à distância, oferecer internet a baixo custo (ou gratuita) às famílias de baixa renda, enfim, usar a pandemia para acelerar a integração dos trabalhadores à era digital.

O neoliberalismo na prática tem sido isso: endurece com o pagador de impostos, ao mesmo tempo em que debilita os serviços públicos, ou os trata com indiferença.

A lógica é que o Estado precisa arrecadar mais para melhorar sua performance no pagamento da dívida pública.

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Arrecadação federal bate recorde para meses de fevereiro

União arrecadou R$ 127,74 bilhões no mês passado

Publicado em 22/03/2021 – 15:41
Por Wellton Máximo – Repórter da Agência Brasil – Brasília

Depois de iniciar o ano em queda, a arrecadação federal reagiu e bateu recorde em fevereiro. No mês passado, o governo arrecadou R$ 127,74 bilhões, alta de 4,3% em relação a fevereiro de 2020, descontada a inflação oficial pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Esse é o maior valor registrado para meses de fevereiro ao considerar o IPCA.

O valor veio acima do previsto pelos agentes financeiros. Segundo a pesquisa Prisma Fiscal, divulgada todos os meses pelo Ministério da Economia, os analistas de mercado projetavam arrecadação de R$ 118,16 bilhões no mês passado.

Com o resultado de fevereiro, a arrecadação federal soma R$ 296,49 bilhões nos dois primeiros meses do ano. Isso representa alta de 0,81% em relação ao primeiro bimestre de 2020, também descontando o IPCA. Em janeiro, a arrecadação federal tinha registrado queda de 1,5% em relação ao mesmo mês de 2020, considerando a inflação oficial.

Fatores

Segundo a Receita Federal, três fatores contribuíram para a melhoria da arrecadação no mês passado. O primeiro foi a recuperação da economia, principalmente da indústria e do comércio eletrônico. O segundo decorreu da arrecadação extraordinária de R$ 5 bilhões de Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ) e de Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) em fevereiro, que não ocorreu no mesmo mês de 2020.

O terceiro fator a impulsionar a arrecadação no mês passado foi o aumento das importações, que elevou o pagamento de Imposto de Importação em R$ 2,1 bilhões em relação ao observado em fevereiro do ano passado. Esses três fatores contrabalançaram a elevação de R$ 6,08 bilhões (em valores corrigidos pelo IPCA) nas compensações tributárias entre fevereiro de 2020 e de 2021.

Por meio da compensação tributária, uma empresa que previu lucros maiores do que o realizado e pagou IRPJ e CSLL por estimativa em um exercício pode pedir abatimento nas parcelas seguintes, caso tenha prejuízo ou lucre menos que o esperado. Por causa da pandemia da covid-19, que impactou o resultado das empresas, o volume de compensações aumentou de R$ 6,97 bilhões, em fevereiro de 2020, para R$ 13,42 bilhões, em fevereiro de 2021.

Setores

Na divisão por setores da economia, os tributos que mais contribuíram para o crescimento da arrecadação foram o IRPJ e a CSLL, cuja receita subiu 40,35% em fevereiro na comparação com o mesmo mês do ano passado, em valores corrigidos pelo IPCA. Apesar da compensação mais alta, algumas grandes empresas registraram expansão nos lucros e houve o recolhimento extraordinário de R$ 5 bilhões de uma grande empresa, não detalhado pela Receita Federal.

Em seguida, vem o crescimento de 41,83% na arrecadação de Imposto sobre Importação e de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), vinculado às importações. Por causa da alta do dólar, o valor importado sobe em reais, impulsionando a arrecadação. Em terceiro lugar, ficou a alta real (acima da inflação) de 16,16% do IPI sobre mercadorias produzidas no país, refletindo a recuperação da indústria no início de 2021.

O último fator a contribuir para a melhoria da arrecadação em fevereiro foi a receita com o Programa de Integração Social (PIS) e a Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins), com expansão de 2,22% acima da inflação. Esses tributos incidem sobre o faturamento e refletem o comportamento das vendas.

Edição: Fernando Fraga

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Theófilo Rodrigues: O PT precisa ser perdoado? https://www.ocafezinho.com/2020/07/11/theofilo-rodrigues-o-pt-precisa-ser-perdoado/ https://www.ocafezinho.com/2020/07/11/theofilo-rodrigues-o-pt-precisa-ser-perdoado/#comments Sat, 11 Jul 2020 15:11:46 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=111941 28 Comentários 🔥]]> Em sua coluna no Globo de hoje, o ex-diretor de redação do jornal, Ascânio Seleme, publicou um daqueles artigos que merece ser guardado como registro histórico. Intitulado “É hora de perdoar o PT”, o texto sugere que a nação só poderá se reencontrar se os 30% de eleitores que apoiam o PT forem readmitidos no debate público. O motivo? Só com esse reencontro será possível “construir uma alternativa ao bolsonarismo”, sustenta o autor.

“Esse agrupamento político, talvez o mais forte e sustentável da história partidária brasileira, tem que ser readmitido no debate nacional. Passou da hora de os petistas serem reintegrados”, reconhece Seleme.

Por óbvio, o articulista não está dialogando com os 30% que apoiam Bolsonaro, nem com os 30% da população que possuem identificação com o lulismo. O sujeito oculto no discurso, ou seja, aquele que precisa readmitir o PT, é o público do seu jornal, a parcela de 30% do eleitorado que gira entre o centro e a centro-direita no espectro político brasileiro.

Trata-se de uma autocrítica indireta do jornal, feita por quem já não é mais seu porta voz, mas que possui alta influência na redação. O que Seleme está dizendo é que o #Somos70% contra Bolsonaro só existirá se a centro-direita estiver disposta a readmitir a participação de petistas em lugar privilegiado no debate público. Na prática, isso significaria voltar a chamar petistas para ocuparem espaços privilegiados nas rádios, nos jornais, nas revistas e nas televisões do grupo Globo, como, aliás, ocorria na década de 90.

O problema é o que Seleme exige para que esse perdão do PT ocorra. O partido não precisa apenas reconhecer seus erros acerca dos desvios éticos na condução do país, como o mensalão e a Lava Jato. Mais do que isso, o PT precisaria reformular o seu próprio programa e retirar dele agendas como a democratização da mídia e a democracia participativa.

De acordo com Seleme, para que esse perdão seja possível, o partido precisaria ultrapassar “a índole autoritária que um dia foi semeada no coração do PT e vicejou”. Mas o que seria essa “índole autoritária”? O articulista explica: “a tentativa de censurar a imprensa através de um certo ‘controle externo da mídia’ (…), ou de trocar a gestão administrativa por ‘conselhos populares’”.

Ora, o grande erro cometido pelo PT em seus quatro governos entre 2003 e 2016, e que teve como consequência o crescimento do bolsonarismo na sociedade brasileira, foi justamente não ter avançado nessas duas agendas. Não obstante a realização das conferências nacionais de políticas públicas e a criação da TV Brasil, essa agenda foi tímida.

Sem políticas públicas que enfrentassem o oligopólio da mídia e garantissem maior pluralidade e diversidade da informação, e sem políticas públicas de efetiva participação popular, o PT não conseguiu disputar consciências, ou, em última instância, hegemonia. Afinal de contas, hegemonia não se constrói apenas com políticas públicas que favoreçam o consumismo, como fez o partido ao longo de seus 13 anos de governo.

Ao exigir que o PT abra mão de um programa que, diga-se de passagem, nunca foi efetivamente posto em prática, Seleme está propondo o seguinte: para derrotarmos Bolsonaro, precisamos dos 30% dos votos de vocês, mas sob a nossa hegemonia, a hegemonia neoliberal.

O Brasil precisa de um grande pacto nacional entre todos os democratas para que o governo Bolsonaro não prospere em suas intenções autoritárias? Certamente que sim.  Mas esse pacto só ocorrerá se todas as forças políticas estiverem dispostas a ceder, sem exigências excessivas que desconfigurem a identidade programática de qualquer um dos atores. Do contrário, estaremos apenas trocando um autoritarismo por outro.

Theófilo Rodrigues é cientista político.

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Expectativa de vida dos brasileiros aumenta para 76,3 anos em 2018 https://www.ocafezinho.com/2019/11/28/expectativa-de-vida-dos-brasileiros-aumenta-para-763-anos-em-2018/ https://www.ocafezinho.com/2019/11/28/expectativa-de-vida-dos-brasileiros-aumenta-para-763-anos-em-2018/#comments Thu, 28 Nov 2019 15:21:19 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=103151 1 Comentário 🔥]]> 28/11/2019 10h00 | Última Atualização: 28/11/2019 10h47

Agência IBGE — A expectativa de vida dos brasileiros aumentou em 3 meses e 4 dias, de 2017 para 2018, alcançando 76,3 anos. Desde 1940, já são 30,8 anos a mais que se espera que a população viva. Os dados são das Tábuas Completas de Mortalidade, divulgadas hoje pelo IBGE.

Para as mulheres, espera-se maior longevidade: 79,9 anos. Já a expectativa de vida ao nascer para os homens ficou em 72,8 anos em 2018. Mas essa diferença, chamada de “sobremortalidade masculina”, é mais acentuada conforme a faixa etária. Um homem de 20 a 24 anos tinha, em 2018, 4,5 vezes menos chances de chegar aos 25 anos do que uma mulher.

“Esse fenômeno pode ser explicado por causas externas, não naturais, que atingem com maior intensidade a população masculina”, explica o pesquisador do IBGE Marcio Minamiguchi, ressaltando que, em 1940, não havia essa discrepância evidente entre os sexos nos grupos mais jovens. “A partir de meados da década de 80 as mortes associadas às causas externas passaram a desempenhar um papel de destaque. É um fenômeno proveniente da urbanização e inclui homicídios, acidentes de trânsito e quedas acidentais, entre outros”, complementa.

Para ambos os sexos a maior esperança de vida ao nascer foi observada em Santa Catarina: 79,7 anos. Outros estados com valores elevados, acima dos 78 anos, são o Espírito Santo, São Paulo, Distrito Federal e Rio Grande do Sul. No outro extremo, está o Maranhão, com a expectativa em 71,1 anos, e o Piauí, em 71,4 anos. Ou seja, uma criança nascida no Maranhão, conforme a taxa de mortalidade observada em 2018, esperaria viver em média 8,6 anos a menos que uma criança nascida em Santa Catarina.

Cabe ressaltar que a expectativa de vida muda conforme o ano de nascimento da pessoa e o sexo. Por exemplo, quem está com 30 anos agora terá um tempo médio de vida diferente de quem acabou de nascer, é a chamada projeção de sobrevida.

• Aos 30 anos: 48,7 de expectativa de sobrevida, ou seja, expectativa de vida de 78,7 anos
• Aos 40 anos: 39,5 de expectativa de sobrevida, ou seja, expectativa de vida de 79,5 anos
• Aos 50 anos: 30,7 de expectativa de sobrevida, ou seja, expectativa de vida de 80,7 anos
• Aos 60 anos: 22,6 de expectativa de sobrevida, ou seja, expectativa de vida de 82,6 anos
• Aos 70 anos: 15,3 de expectativa de sobrevida, ou seja, expectativa de vida de 85,3 anos
• Aos 80 anos ou mais: 9,6 de expectativa de sobrevida, ou seja, expectativa de vida de 89,6 anos ou mais

Mortalidade infantil cai para 12,4 mortes para cada mil nascidos vivos

A pesquisa mostrou também que as taxas de mortalidade infantil mantiveram a tendência de queda. O número de mortes antes de completar 1 ano de idade caiu de 12,8 a cada mil nascidos vivos em 2017 para 12,4 por mil em 2018. Já até os 5 anos de idade, o índice declinou 3,4%, de 14,9 por mil para 14,4 por mil.

“A mortalidade infantil tem causas normalmente evitáveis e, principalmente nesses primeiros anos de vida, está muito relacionada às condições em que a criança vive. Conforme melhoram as condições de saneamento básico da população e o acesso a vacinas e atendimentos de saúde, diminuem os índices de morte infantil. Se conseguirmos reduzir a taxa atual pela metade, isso significará menos 15 a 20 mil mortes de crianças por ano”, comenta Minamiguchi.

Quanto aos estados, a menor taxa de mortalidade infantil foi encontrada no Espírito Santo: 8,1 óbitos de crianças menores de 1 ano para cada mil nascidos vivos. Já a maior foi a do Amapá, com 22,8 por mil.

A mortalidade das crianças menores de 1 ano é um importante indicador da condição de vida socioeconômica de uma região. As taxas no Brasil estão melhorando gradativamente, mas ainda estão longe das encontradas nos países mais desenvolvidos do mundo, mesmo nos estados do Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo, com índices abaixo de 10 por mil. Japão e Finlândia, por exemplo, possuem taxas abaixo de 2 por mil. Dentre os países que compõem os Brics, o Brasil está mais próximo da China, que tem mortalidade infantil de 9,9 por mil.

Relatório completo.

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Polícia faz operação para prender milicianos na Baixada Fluminense https://www.ocafezinho.com/2019/11/28/policia-faz-operacao-para-prender-milicianos-na-baixada-fluminense/ https://www.ocafezinho.com/2019/11/28/policia-faz-operacao-para-prender-milicianos-na-baixada-fluminense/#respond Thu, 28 Nov 2019 14:31:29 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=103147 Na Polícia Civil

ASCOM – Assessoria de Comunicação
28/11/2019 07h29 – Atualizado em 28/11/2019 7h29

A Secretaria de Estado de Polícia Civil (SEPOL) por meio da Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF) faz na manhã desta quinta-feira, dia 28 de novembro, uma operação para desarticular uma organização criminosa de milícia na Baixada Fluminense. Ao todo são 35 mandados de prisão preventiva e 93 mandados de busca e apreensão.

De acordo com as investigações o grupo é responsável por dezenas de homicídios nos últimos anos além de ocultação de cadáver através da criação de cemitérios clandestinos, extorsões, exploração de serviços como gato net, venda de cigarros e exploração de transporte alternativo como moto táxi.

Cerca de 300 policiais civis participam da operação e cumprem mandados em Belford Roxo, Nova Iguaçu, Duque de Caxias, São Pedro da Aldeia e Rio de Janeiro.

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