Argentina - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/argentina/ Portal de noticias e análises sobre política brasileira, geopolítica, economia, tecnologia, sempre numa perspectiva democrática, progressista, anti-imperialista e multipolar! Fri, 24 Apr 2026 22:03:16 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://controle.ocafezinho.com/wp-content/uploads/2015/10/cropped-Logo_Cafezinho_tmb-32x32.png Argentina - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/argentina/ 32 32 Milei declara que as Malvinas foram, são e sempre serão argentinas https://www.ocafezinho.com/2026/04/24/milei-declara-que-as-malvinas-foram-sao-e-sempre-serao-argentinas/ https://www.ocafezinho.com/2026/04/24/milei-declara-que-as-malvinas-foram-sao-e-sempre-serao-argentinas/#comments Fri, 24 Apr 2026 22:03:16 +0000 https://www.ocafezinho.com/2026/04/24/milei-declara-que-as-malvinas-foram-sao-e-sempre-serao-argentinas/ 6 Comentários 🔥]]>
Ilustração editorial sobre Milei declara que as Malvinas foram, são e sempre serão argentinas. (Ilustração: Cafezinho / Flux Pro)

O presidente da Argentina, Javier Milei, reafirmou a soberania de seu país sobre as Ilhas Malvinas, declarando que o território foi, é e sempre será argentino.

O secretário de Finanças do Tesouro da Argentina, Pablo Quirno, reforçou a posição do governo em sua conta na plataforma X. Ele classificou a ocupação britânica iniciada em 1833 como um ato de força que contraria o direito internacional.

A Assembleia Geral da ONU aprovou a Resolução 2065 em 1965 e reconheceu a existência de uma disputa de soberania. O texto convida a Argentina e o Reino Unido a negociarem uma solução pacífica para a questão.

Essa orientação conta com o respaldo da Organização dos Estados Americanos, do Mercosul e da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos. Para o governo argentino, esses apoios reforçam o caráter legítimo da reivindicação de integridade territorial.

Quirno refutou o argumento britânico baseado na autodeterminação dos habitantes atuais das ilhas. Ele sustentou que a população local é fruto de um processo de colonização implantado após a expulsão dos residentes argentinos originais.

O secretário questionou a validade do referendo de 2013, no qual os ilhéus votaram pela permanência sob administração do Reino Unido. As autoridades de Buenos Aires denunciam ainda a exploração unilateral de recursos naturais nas águas ao redor do arquipélago.

Essas ações violam as normas internacionais e configuram apropriação indevida de bens que pertencem à Argentina. O tema surge em um contexto no qual os Estados Unidos consideram revisar seu apoio tradicional à soberania britânica sobre o território.

A Argentina mantém a reivindicação das Malvinas como política de Estado desde o conflito armado de 1982. O país insiste na solução diplomática conforme as diretrizes estabelecidas pelas Nações Unidas.

Leia mais sobre o assunto na actualidad.rt.com.


Leia também: Argentina se articula para colocar base militar dos EUA no sul do país


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Aprovação de Milei afunda e crise social escancara a face do neoliberalismo https://www.ocafezinho.com/2026/03/26/aprovacao-de-milei-afunda-e-crise-social-escancara-a-face-do-neoliberalismo/ https://www.ocafezinho.com/2026/03/26/aprovacao-de-milei-afunda-e-crise-social-escancara-a-face-do-neoliberalismo/#respond Thu, 26 Mar 2026 11:05:48 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=228855 A nova pesquisa sobre o governo de Javier Milei confirma o que já vinha sendo sentido nas ruas da Argentina: o desgaste chegou — e chegou forte. Segundo levantamento divulgado pela imprensa, a aprovação do presidente caiu para 36,4%, o pior nível desde o início do mandato.

O dado não aparece isolado. Ele dialoga diretamente com a deterioração das condições de vida da população desde o início do chamado “choque” econômico imposto pelo governo.

A promessa era simples: cortar gastos, reduzir o Estado e reorganizar a economia. O resultado, ao menos até agora, tem sido outro — recessão, perda de renda e aumento da vulnerabilidade social.

Os números ajudam a entender esse cenário.

Logo nos primeiros meses do governo Milei, a pobreza na Argentina disparou. Estudos apontam que o índice chegou a mais de 50% da população em 2024, com picos próximos de 55%, o maior nível em décadas .

Ou seja: metade do país mergulhada na pobreza em meio à aplicação do receituário liberal mais agressivo das últimas décadas.

Ainda que dados posteriores indiquem alguma melhora estatística — com índices na casa de 31,6% em 2025 — o impacto inicial foi profundo e deixou marcas sociais difíceis de reverter rapidamente .

E é justamente esse impacto que começa a aparecer na avaliação do governo.

A política de Milei foi construída sobre cortes severos: redução de programas sociais, arrocho fiscal e compressão do consumo. Para o mercado financeiro, isso pode soar como “ajuste necessário”. Para quem vive da renda do trabalho, o efeito é outro.

A conta chegou.

A inflação elevada no início do governo — que chegou a ultrapassar 200% ao ano e se aproximar de 300% em seu pico — corroeu salários e ampliou a perda de poder de compra . Ao mesmo tempo, o consumo despencou e a atividade econômica entrou em retração, pressionando ainda mais o cotidiano da população.

O resultado é um quadro cada vez mais claro: enquanto investidores celebram o ajuste, os trabalhadores enfrentam o custo real dessa política.

E esse custo é político.

A queda da aprovação para 36,4% não é apenas um número. É um sintoma. Mostra que o apoio inicial ao discurso de ruptura começa a se esgotar diante da realidade concreta.

Há, inclusive, outros indicadores que reforçam essa tendência. Levantamentos recentes apontam que mais de 53% dos argentinos já consideram o governo ruim ou péssimo, evidenciando um desgaste mais amplo .

No fundo, o que está em jogo é o próprio modelo.

O projeto de Milei parte de uma lógica conhecida: reduzir o Estado ao mínimo e confiar que o mercado reorganize a economia. O problema é que esse tipo de transição, quando feito de forma abrupta, costuma produzir efeitos sociais devastadores no curto prazo.

E é exatamente isso que a Argentina vive agora.

O governo pode argumentar que os ajustes são necessários para estabilizar a economia. Mas, enquanto isso, a população sente o peso imediato: queda de renda, aumento da desigualdade e precarização das condições de vida.

No fim, a queda de popularidade não é surpresa.

É consequência direta de uma política que trata números fiscais como prioridade absoluta — e deixa o custo social para depois.

O problema é que, na vida real, “depois” costuma chegar rápido demais.

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Milei e o escândalo cripto: o cerco se fecha https://www.ocafezinho.com/2026/03/14/milei-e-o-escandalo-cripto-o-cerco-se-fecha-2/ https://www.ocafezinho.com/2026/03/14/milei-e-o-escandalo-cripto-o-cerco-se-fecha-2/#respond Sun, 15 Mar 2026 01:46:49 +0000 https://www.ocafezinho.com/2026/03/14/milei-e-o-escandalo-cripto-o-cerco-se-fecha-2/ O presidente da Argentina, Javier Milei, enfrenta a mais grave crise moral de seu mandato. O cenário se agrava pelo fato de Milei ter chegado à Casa Rosada já cercado por polêmicas e conflitos de interesse. Sua relação com operadores do mercado financeiro e de criptomoedas torna a situação ainda mais complexa.

O escândalo envolvendo a criptomoeda $LIBRA ganhou capítulos explosivos nos últimos dias. Reportagens da imprensa argentina revelaram que peritos da Justiça recuperaram, no celular do operador cripto Mauricio Novelli, documentos que apontam para um acordo confidencial entre o entorno do presidente e os criadores do projeto.

Segundo investigações do jornal Página 12, os peritos encontraram um rascunho de contrato que ligaria o presidente ao empresário norte-americano Hayden Davis, um dos responsáveis pelo lançamento da criptomoeda. O documento, elaborado semanas antes da criação do token, sugere uma negociação prévia e secreta.

O portal El Destape aprofundou a denúncia, afirmando que um arquivo detalha um pacto de US$ 5 milhões pelo apoio presidencial ao lançamento do ativo digital. O esquema descreveria pagamentos parcelados, vinculados à promoção pública do projeto e à sua formalização.

A figura central dessa rede é Mauricio Novelli, empresário que atuou como intermediário entre o círculo de Milei e investidores internacionais. A Justiça apreendeu seus dispositivos eletrônicos e, segundo a imprensa local, encontrou contratos e comunicações que o comprometem diretamente.

Novelli era conhecido por seu acesso privilegiado ao presidente e por sua atuação como ponte para investidores estrangeiros. Investigações jornalísticas indicam que foi ele quem aproximou Milei de Hayden Davis, promotor da criptomoeda $LIBRA.

O escândalo ganhou dimensão internacional após o lançamento do token, em fevereiro de 2025, quando Milei divulgou o projeto em suas redes sociais. O gesto provocou uma disparada imediata no preço do ativo, que logo em seguida sofreu um colapso abrupto quando grandes carteiras retiraram enormes volumes de liquidez.

Pesquisadores de blockchain, segundo a agência Reuters, identificaram cerca de US$ 99 milhões retirados do mercado por um pequeno grupo de carteiras associadas aos criadores do token. Esse tipo de operação é conhecido como “rug pull”, quando os desenvolvedores inflam um ativo e depois retiram os recursos, deixando o mercado quebrar.

Com a repercussão, a Justiça argentina abriu investigação sobre o papel do presidente no episódio, apurando inclusive operações financeiras de Milei e sua irmã, Karina Milei. Paralelamente, o Congresso argentino criou uma comissão investigadora, cujo relatório preliminar concluiu que a participação de Milei foi decisiva para dar visibilidade ao projeto.

Novas evidências complicaram ainda mais a situação do presidente. O Página 12 revelou que a perícia judicial encontrou uma série de ligações telefônicas entre Milei e Novelli durante o lançamento da criptomoeda, enfraquecendo a versão oficial de que o apoio foi apenas casual.

À medida que novos documentos aparecem, o escândalo se transforma em uma das crises políticas mais graves da história recente da Argentina. O presidente que prometeu acabar com a “casta” se vê acusado de ter colocado a autoridade do cargo a serviço de um esquema privado que gerou perdas massivas para investidores.

O caso $LIBRA deixou de ser apenas um escândalo financeiro e passou a representar uma crise de legitimidade para o governo libertário. Se as investigações confirmarem o que as perícias indicam, a pergunta na Argentina não será mais sobre desgaste político, mas sobre a responsabilidade direta do presidente no que já é chamado de o maior escândalo cripto da história do país.

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Economia argentina se retrai, apesar dos empréstimos bilionários de Trump https://www.ocafezinho.com/2026/01/26/economia-argentina-se-retrai-apesar-dos-emprestimos-bilionarios-de-trump/ https://www.ocafezinho.com/2026/01/26/economia-argentina-se-retrai-apesar-dos-emprestimos-bilionarios-de-trump/#respond Mon, 26 Jan 2026 10:01:27 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=225018 A economia argentina voltou a encolher, poucos meses depois de um resgate financeiro de dezenas de bilhões de dólares articulado com o governo dos Estados Unidos e o Fundo Monetário Internacional. Para o economista político Ben Norton, o resultado confirma o fracasso do projeto libertário — ou “anarco-capitalista” — do presidente Javier Milei.

Segundo Norton, a Argentina vive um processo acelerado de desindustrialização. A indústria local está sendo devastada pela “terapia de choque” de livre mercado promovida por Milei — um desfecho previsível, já que foi exatamente o que ocorreu com a imposição de reformas neoliberais patrocinadas por Washington na América do Sul durante a “década perdida” dos anos 1980, quando a região sofreu uma profunda destruição de sua base industrial.

Hoje, afirma Norton, os únicos setores que apresentam crescimento na Argentina são os extrativos e financeirizados: a agricultura de monocultura voltada à exportação, concentrada nas mãos de grandes proprietários rurais; a mineração, dominada por multinacionais; e o setor financeiro, impulsionado por especulação e pela entrada de capital estrangeiro de curto prazo, o chamado “hot money”, que costuma deixar o país rapidamente em momentos de instabilidade.

Na prática, diz o economista, o libertarianismo de Milei está transformando a Argentina em uma colônia de recursos naturais a serviço do capital estrangeiro — em linha com uma política externa alinhada aos Estados Unidos e marcada por forte subordinação política à Casa Branca.

Os dados oficiais mais recentes reforçam esse diagnóstico. A economia argentina contraiu pelo segundo mês consecutivo em novembro, após uma eleição legislativa de meio de mandato marcada por forte turbulência política e financeira. A atividade econômica recuou 0,3% em relação a outubro, informou nesta quarta-feira o instituto oficial de estatísticas, o INDEC, depois de uma queda de 0,4% registrada no próprio mês de outubro. Na comparação com novembro do ano anterior, a retração também foi de 0,3%, resultado muito abaixo da estimativa mediana de crescimento de 2% projetada por economistas ouvidos pela Bloomberg.

Pesca, indústria de transformação e comércio varejista lideraram a queda na comparação anual. Por outro lado, agricultura, mineração e serviços financeiros registraram crescimento — exatamente os setores apontados por Norton como os únicos beneficiados pelo atual modelo econômico.

O Partido Libertário de Javier Milei conseguiu se recuperar de uma derrota severa sofrida em setembro nas eleições da província de Buenos Aires e conquistou uma vitória esmagadora nas legislativas de meio de mandato. Ainda assim, os ativos argentinos despencaram nas sete semanas que antecederam a votação de 26 de outubro, à medida que investidores apostavam que os eleitores infligiriam uma nova derrota contundente ao presidente.

Um elemento central para a reversão desse cenário foi uma linha de socorro financeiro dos Estados Unidos, que intervieram para sustentar o peso argentino por meio de um acordo de swap cambial. Esse mecanismo foi quitado pela Argentina no início deste mês.

Para Jimena Zuniga, economista da Argentina na Bloomberg Economics, os dados recentes indicam riscos crescentes de estagflação. “Junto com os números mais recentes de inflação, os dados de atividade sugerem que riscos de estagflação estão obscurecendo o que esperávamos ser um 2026 mais promissor”, afirmou. Segundo ela, a combinação de atividade mais fraca e inflação mais elevada não é, por si só, catastrófica nem necessariamente suficiente para comprometer a trajetória rumo a uma macroeconomia mais estável e a um crescimento mais sustentável. O principal risco, porém, é político: a possibilidade de erosão da confiança pública no governo e de questionamentos sobre a sustentabilidade política do programa de Milei.

Outros indicadores reforçam o quadro de enfraquecimento. Dados divulgados na semana passada mostram que a volatilidade pré-eleitoral continuou a afetar a economia argentina no mês seguinte à votação. O setor da construção registrou em novembro sua maior queda mensal do ano, enquanto a indústria de transformação também desacelerou. Esses setores haviam acelerado em setembro e outubro, numa tentativa de se antecipar a uma possível desvalorização do peso após a eleição, o que deixou novembro especialmente fraco.

“Isso estava dentro do que esperávamos. Novembro foi um mês ruim em termos de atividade”, disse Federico González Rouco, economista-chefe da consultoria Empiria, em Buenos Aires. “Mas também acho que isso é mais estrutural. A economia ficou estagnada o ano inteiro. Se 2025 acabar mostrando crescimento, será por efeito estatístico de carregamento, e isso está ficando claro.”

Nos últimos 11 meses, a economia argentina registrou contração mensal em cinco deles e estagnação em outros dois.

Enquanto isso, a inflação mensal acelerou mais do que o esperado em dezembro, chegando a 2,8%, puxada principalmente por carne bovina, tarifas de ônibus e contas de energia elétrica. Para 2026, economistas consultados pelo Banco Central projetam desaceleração da inflação para 20,1% e crescimento econômico de 3,5%.

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Milei surpreende e quer colocar Argentina no BRICS https://www.ocafezinho.com/2026/01/21/milei-surpreende-e-quer-colocar-argentina-no-brics/ https://www.ocafezinho.com/2026/01/21/milei-surpreende-e-quer-colocar-argentina-no-brics/#respond Thu, 22 Jan 2026 01:15:01 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=224866 O bloco dos BRICS, formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, voltou ao centro das discussões geopolíticas e comerciais na América do Sul. Criado para ampliar a cooperação entre grandes economias emergentes, o grupo ganhou relevância global ao se consolidar como um polo alternativo de articulação política, financeira e comercial fora do eixo tradicional liderado por Estados Unidos e União Europeia.

O Brasil, membro fundador dos BRICS, tem desempenhado papel central nas articulações do grupo desde sua criação. Além de atuar internamente no fortalecimento do bloco, o país passou a defender, nos últimos anos, uma maior aproximação entre os BRICS e parceiros regionais estratégicos, especialmente no âmbito do Mercosul.

Nesse contexto, Argentina, Paraguai e Uruguai sinalizaram disposição para se aproximar dos BRICS. A manifestação ocorreu durante discussões recentes no Mercosul sobre novas estratégias comerciais e a ampliação de acordos internacionais. Os três países, que integram o bloco sul-americano ao lado do Brasil, indicaram abertura para iniciar negociações que possam, no futuro, resultar em algum tipo de cooperação estruturada com o grupo de economias emergentes.

A sinalização foi confirmada por lideranças do Mercosul, que destacaram a necessidade de diversificar mercados e reduzir a dependência de parceiros tradicionais. Segundo representantes do bloco, o cenário internacional marcado por instabilidade econômica, tensões geopolíticas e mudanças nas cadeias globais de produção exige uma postura mais ativa e pragmática dos países sul-americanos.

Interesse econômico e estratégico

Argentina, Paraguai e Uruguai veem nos BRICS uma oportunidade para ampliar exportações, atrair investimentos e fortalecer sua posição no comércio internacional. Setores como agronegócio, energia, mineração e infraestrutura aparecem entre os principais interessados em uma eventual aproximação, dado o perfil complementar das economias envolvidas.

China e Índia, por exemplo, são grandes importadores de alimentos e commodities agrícolas, enquanto Rússia e África do Sul mantêm interesse em parcerias energéticas e em projetos de infraestrutura. Para os países do Mercosul, o acesso mais estruturado a esses mercados pode representar ganhos relevantes em escala, previsibilidade comercial e diversificação de destinos de exportação.

Além do aspecto econômico, há também um componente político. A aproximação com os BRICS pode ampliar o peso diplomático dos países sul-americanos em fóruns internacionais, oferecendo maior margem de manobra em negociações multilaterais e reduzindo a dependência de decisões tomadas por economias centrais.

Mercosul mais ativo no cenário global

O movimento ocorre após avanços importantes do Mercosul em negociações internacionais. Um dos principais exemplos é o acordo firmado com a União Europeia, considerado histórico após mais de duas décadas de tratativas. Embora o acordo ainda enfrente etapas de ratificação e resistência em alguns países europeus, ele marcou uma mudança de postura do bloco sul-americano, que passou a se posicionar de forma mais ativa no comércio global.

Com esse avanço, o Mercosul busca ampliar seu leque de parcerias, explorando tanto acordos tradicionais quanto novas formas de cooperação com economias emergentes. A possível aproximação com os BRICS se insere nessa estratégia de diversificação e adaptação a um ambiente internacional mais fragmentado.

Especialistas ressaltam, no entanto, que qualquer avanço concreto dependerá de negociações técnicas complexas. Ainda não há um modelo definido para essa aproximação, que pode variar desde acordos comerciais específicos até mecanismos de cooperação financeira, tecnológica ou de investimentos.

Benefícios potenciais e desafios

Analistas avaliam que a aproximação entre Mercosul e BRICS pode trazer benefícios como maior acesso a grandes mercados emergentes, aumento da demanda por produtos sul-americanos e estímulo a investimentos em infraestrutura e logística. Países como Argentina, Paraguai e Uruguai poderiam ganhar competitividade e reduzir vulnerabilidades externas ao diversificar parceiros comerciais.

Outro ponto destacado é a possibilidade de integração a iniciativas financeiras dos BRICS, como o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), que financia projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável. O acesso a essas linhas de crédito poderia ampliar a capacidade de investimento dos países do Mercosul em áreas estratégicas.

Por outro lado, há desafios. Diferenças regulatórias, interesses comerciais distintos e eventuais pressões de parceiros tradicionais podem dificultar o avanço das negociações. Além disso, a própria heterogeneidade dos BRICS, que reúne economias com modelos políticos e econômicos diversos, exige cautela na construção de acordos.

Próximos passos

Por ora, a sinalização de Argentina, Paraguai e Uruguai representa um movimento político inicial, sem compromissos formais. As discussões devem avançar no âmbito técnico do Mercosul e em diálogos diplomáticos conduzidos principalmente pelo Brasil, que atua como elo natural entre os dois blocos.

Em um cenário global marcado por incertezas, a ampliação de alianças aparece como uma estratégia para fortalecer a posição dos países sul-americanos. A eventual aproximação com os BRICS, se concretizada, pode redesenhar parte da inserção internacional do Mercosul e abrir um novo capítulo nas relações entre América do Sul e as principais economias emergentes do mundo.

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Milei vende quatro hidrelétricas na Patagônia em meio ao colapso cambial da Argentina https://www.ocafezinho.com/2025/12/03/milei-vende-quatro-hidreletricas-na-patagonia-em-meio-ao-colapso-cambial-da-argentina/ https://www.ocafezinho.com/2025/12/03/milei-vende-quatro-hidreletricas-na-patagonia-em-meio-ao-colapso-cambial-da-argentina/#respond Wed, 03 Dec 2025 10:30:41 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=222386 O governo do presidente Javier Milei oficializou a privatização de quatro grandes usinas hidrelétricas localizadas na Patagônia, marcando a primeira venda de ativos estratégicos desde o início de seu mandato. As informações foram divulgadas originalmente pela Sputnik Brasil. A operação envolve propostas que somam aproximadamente US$ 685 milhões (cerca de R$ 3,6 bilhões) para a venda das usinas Alicurá, Piedra del Águila, El Chocón-Arroyito e Cerros Colorados, situadas nas províncias de Neuquén e Río Negro.

A iniciativa é considerada pelo governo argentino um marco dentro do programa de desestatizações defendido por Milei, que busca ampliar a participação do setor privado em setores tradicionais da infraestrutura. As hidrelétricas fazem parte do chamado Complexo Comahue, um dos mais relevantes sistemas de energia da América do Sul.


Barragens de Comahue: pilares da matriz energética e reguladores de rios estratégicos

Construídas entre o fim dos anos 1960 e os anos 1990, as quatro usinas formam o coração do sistema hidrelétrico da região. Elas integram o conjunto das chamadas Barragens de Comahue, responsável por abastecer grandes regiões metropolitanas e polos industriais.

Em 2023, a energia hidrelétrica representou quase 25% da capacidade instalada da Argentina, o que reforça a relevância dessas estruturas para a segurança energética nacional. Além da produção de energia, os reservatórios desempenham funções de regulação hídrica dos rios Limay e Neuquén, essenciais para o abastecimento populacional e para atividades econômicas.

O baixo custo operacional das usinas permitiu por décadas que o Estado argentino moderasse tarifas e financiasse subsídios setoriais, especialmente em períodos de instabilidade econômica — cenário que se intensificou com a crise cambial recente e com as reservas líquidas negativas do Banco Central.

No contexto atual, com vencimentos da dívida que ultrapassam US$ 7 bilhões no primeiro trimestre de 2026, a venda é vista pelo governo como um mecanismo rápido para obtenção de dólares, diante da dificuldade de acesso ao financiamento externo prometido anteriormente.


Propostas argentinas superam multinacionais presentes desde o governo Menem

A disputa pelos ativos atraiu tanto empresas nacionais quanto grupos estrangeiros. Entretanto, as melhores propostas vieram de corporações argentinas como Central Puerto, MSU e Grupo Edison, superando multinacionais que administravam os ativos desde as privatizações implementadas no governo Carlos Menem, nos anos 1990.

O ministro da Economia, Luis Caputo, celebrou o resultado e destacou o apetite do setor privado. “Isso reafirma o interesse do setor privado em investir na Argentina quando as regras são claras”, afirmou.


Privatização gera críticas por falta de regulação, avaliação por banco privado e paralisia do TCU

Apesar do anúncio oficial, a venda das hidrelétricas provocou forte reação no Congresso argentino e em órgãos de controle. A Comissão Bicameral de Privatização alertou que o governo ainda não definiu qual será a autoridade reguladora responsável por supervisionar as operações das novas concessionárias. A ausência desse marco regulatório é vista como um risco para a administração futura das redes de energia, transporte e infraestrutura.

Outro ponto de preocupação diz respeito à avaliação dos ativos. O órgão responsável pelo processo, o Tribunal de Avaliação, declarou-se impedido em diversas etapas, transferindo a análise para um banco privado. Parlamentares da oposição classificaram a decisão como um risco à integridade patrimonial do Estado, já que não houve perícia pública independente.

A isso se soma a situação do Tribunal de Contas da União argentino, paralisado desde abril após o fim do mandato de seis dos seus sete auditores. Sem funcionamento regular da corte, não há mecanismo institucional para revisão técnica posterior das privatizações. Diante da lacuna, congressistas discutem elaborar um relatório próprio caso o Executivo siga sem prestar esclarecimentos formais.


Governo amplia plano de desestatizações e mira outras barragens e setores de infraestrutura

A privatização das quatro usinas faz parte de um processo mais amplo. A Casa Rosada já iniciou procedimentos para a venda de outras sete barragens cujas concessões estão próximas do vencimento. O plano também inclui empresas ferroviárias, rodoviárias e de energia, todas listadas na chamada lei omnibus, aprovada em 2024 e que concede amplos poderes ao Executivo para avançar com privatizações.

O presidente Milei defende que a venda de ativos estatais é essencial para “atrair investimentos” e “estabilizar a macroeconomia” até 2026. Integrantes do governo afirmam que o programa reduzirá a necessidade de subsídios públicos e permitirá uma reorganização fiscal em setores considerados deficitários.


Privatizações devem alimentar debate político e judicial nos próximos meses

Analistas consideram que as vendas de ativos estratégicos na área de energia tendem a intensificar o debate político na Argentina, sobretudo em um cenário de volatilidade cambial, inflação elevada e pressões sobre o orçamento. O questionamento à falta de regulação e à ausência de auditorias oficiais indica que a disputa pode chegar aos tribunais, especialmente se novas etapas ocorrerem sem supervisão dos órgãos de controle.

Enquanto isso, investidores e operadores do setor elétrico acompanham atentamente o andamento das próximas privatizações, que devem moldar o futuro da matriz energética do país.

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Argentina não resistiu às chantagens financeiras de Trump https://www.ocafezinho.com/2025/10/27/argentina-nao-resistiu-as-chantagens-financeiras-de-trump/ https://www.ocafezinho.com/2025/10/27/argentina-nao-resistiu-as-chantagens-financeiras-de-trump/#respond Mon, 27 Oct 2025 18:33:13 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=219919 O resultado oficial das eleições legislativas de 26 de outubro de 2025 confirmou o avanço do presidente argentino Javier Milei e de seu partido, La Libertad Avanza (LLA), que venceu com 40,6% dos votos. O peronismo (Fuerza Patria) obteve 31,6% dos votos.

No entanto, o peronismo resistiu. O principal bloco peronista (Fuerza Patria) manteve a maior bancada na Câmara dos Deputados (97 cadeiras) e no Senado (28 cadeiras), em contraste com os 93 deputados e 20 senadores do partido de Milei (La Libertad Avanza).

Alguns meses antes, em 7 de setembro de 2025, o peronismo havia conquistado uma vitória expressiva nas eleições legislativas provinciais de Buenos Aires. Os candidatos ligados ao governador de Buenos Aires, o peronista Axel Kicillof, obtiveram 47,28% dos votos, contra 33,8% do partido de Milei. O resultado decepcionante do partido de Milei na província (que concentra cerca de dois quintos do eleitorado nacional) foi considerado um prenúncio de sua derrota nas eleições legislativas nacionais. A vitória peronista, por sua vez, reforçou a posição de Kicillof como principal liderança da oposição.

A vitória do peronismo naquelas eleições provinciais nos faz perguntar: o que aconteceu desde então para que o cenário nacional mudasse de maneira tão expressiva?

Nas eleições deste domingo, desta vez não para o Legislativo Provincial, mas para o Nacional, os peronistas tiveram cerca de 41% dos votos em Buenos Aires, o mesmo percentual do partido de Milei.

A resposta mais importante é a chantagem de Donald Trump. O triunfo de Milei nas legislativas aconteceu após um episódio desconcertante de interferência internacional.

Em 14 de outubro de 2025, durante um encontro público no Salão Oval da Casa Branca com o presidente argentino, Donald Trump fez uma ameaça direta: se o La Libertad Avanza não vencesse as eleições legislativas, os Estados Unidos não seriam “generosos” com o país.

Tratava-se de uma coação constrangedora, pois amarrava o empréstimo crucial para o país ao resultado eleitoral favorável ao governo.

Essa ação veio acompanhada de um aceno com um pacote de empréstimos e apoio financeiro que, somado a outros acordos, se aproximou da impressionante cifra de US$ 64 bilhões. Ou seja, para se ter uma ideia da importância de um valor desse para a Argentina, esse montante corresponde a quase 70% do custo total do governo federal argentino no ano de 2025.

O pacote de empréstimos e apoio financeiro inclui: US$ 20 bilhões do FMI (Acordo preliminar aprovado em abril de 2025), US$ 40 bilhões dos Estados Unidos (Pacote total que inclui uma linha de financiamento formalizada de US$ 20 bilhões e um segundo apoio de US$ 20 bilhões em negociação), e US$ 4 bilhões do Banco Mundial (Novo empréstimo anunciado), totalizando US$ 64 bilhões em valor consolidado de novos empréstimos e negociações de alto valor em 2025.

Diante de uma economia tão dramaticamente vulnerável, com a dívida externa argentina atingindo um recorde de US$ 305,043 bilhões em setembro de 2025, essa pressão de Trump se tornou um checkmate.

A fragilidade econômica da Argentina é imensa. O país possui uma dependência acentuada do capital especulativo vindo dos EUA. Além disso, o sistema cambial argentino está atrelado aos empréstimos do FMI, que é controlado por Washington. Essa combinação criou um cenário de total exposição.

O próprio movimento dos mercados após o triunfo de Milei deixou claro o risco: caso o peronismo tivesse vencido, haveria uma fuga maciça de capitais e uma queda estrondosa nas bolsas argentinas, levando a uma crise financeira. Essa insegurança empurrou todo o setor econômico e produtivo para apoiar Milei, ou, no mínimo, para retirar qualquer apoio ao peronismo.

O desempenho do LLA foi classificado como “inesperado” pela imprensa internacional, pois as pesquisas mais recentes indicavam que a popularidade de Milei estava em queda e que o cenário seria “apertado”.

O resultado na província de Buenos Aires, onde o peronismo havia vencido por ampla margem semanas antes, foi um golpe duro e inesperado para o peronismo. No entanto, a aprovação de Milei, segundo a última Atlas Intel (Outubro/2025), estava em 40%, em linha com os votos recebidos. Isso sugere que o resultado poderia ter sido muito pior para o peronismo se a popularidade de Milei não tivesse caído de forma tão acentuada nos últimos meses.

É um fato recorrente que a extrema-direita populista, por alguma questão metodológica ou de sub-representação, frequentemente fica fora do radar das pesquisas tradicionais e avança nas urnas. O resultado argentino reforça essa tendência, mostrando que o apoio a Milei era mais profundo do que os levantamentos de opinião conseguiam captar.

Embora o desempenho de Milei não seja inédito para um governo de meio de mandato, a votação ocorreu no contexto de um escândalo que salpicou o principal candidato do LLA, José Luis Espert, que renunciou por investigação ligada ao narcotráfico, mas cujo nome permaneceu nas cédulas. Além disso, a eleição registrou a menor participação (68%) desde o retorno da democracia.

Apesar da derrota, o peronismo (Fuerza Patria) continua vivo. Ao somar-se a outros blocos de esquerda e de oposição, a situação argentina mostra que o peronismo ainda é uma força nacional, competitiva, capaz de organizar a resistência a Javier Milei e voltar ao poder nas próximas eleições nacionais.

A crise econômica é estrutural e só poderá ser solucionada através de um grande projeto nacional atrelado a um reposicionamento da Argentina no mundo. Para isso, precisará romper com a dependência excessiva dos Estados Unidos e promover a aliança com outros atores importantes da geopolítica, como China, Brasil, a ASEAN e outros.

A estratégia de Milei de derrubar a inflação por meio da “asfixia violenta do consumo interno” é vista por muitos analistas como insustentável.

A guerra cultural e ideológica na Argentina ainda está em aberto. O futuro do país e do peronismo dependerá da luta popular. Os próximos capítulos serão escritos pelas ruas.

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Partido de Milei vence as eleições na Argentina com ampla maioria https://www.ocafezinho.com/2025/10/27/partido-de-milei-vence-as-eleicoes-na-argentina-com-ampla-maioria/ https://www.ocafezinho.com/2025/10/27/partido-de-milei-vence-as-eleicoes-na-argentina-com-ampla-maioria/#respond Mon, 27 Oct 2025 13:00:00 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=219892 Partido do presidente sai vitorioso nas eleições legislativas. Desempenho melhor que o esperado é visto como aval dos candidatos às reformas econômicas ultraliberais.

O presidente da Argentina, Javier Milei, obteve neste domingo (26/10) o aval dos candidatos para seguir adiante com sua reforma radical da economia, apesar das amplas críticas às medidas de austeridade por ele adotadas.

O partido de Milei, La Libertad Avanza (LLA), saiu vitorioso das eleições legislativas de meio de mandato, que renovaram metade da Câmara dos Deputados e um terço do Senado, com cerca de 40% dos votos. O resultado foi bem melhor do que o esperado por Milei e seus apoiadores. A oposição peronista obteve cerca de 25%.

A boa votação pode ser entendida como um amplo apoio da população argentina ao governo de Milei, que completará dois anos no poder em dezembro. A maior conquista foi a redução da inflação por meio de um severo plano de ajuste que, do outro lado, gerou desemprego, precariedade no mercado de trabalho e turbulência nos mercados financeiros e elevou a dívida do país.

Os escândalos e as denúncias de corrupção envolvendo o presidente e seus colaboradores próximos, incluindo sua irmã Karina, tiveram pouco efeito nas urnas.

A proximidade de Milei com o governo do presidente dos EUA, Donald Trump, os empréstimos concedidos ao país pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e a ajuda financeira do Tesouro dos EUA para apoiar o peso argentino parecem ter sido aceitos pela população.

Decisivas para reformas

As eleições foram decisivas para a agenda ultraliberal de Milei e lhe deram margem de manobra para levar adiante suas políticas de ajuste econômico e desregulamentação da economia nos dois anos finais de seu mandato.

Durante a campanha eleitoral, Milei declarou que seu objetivo era conquistar um terço das cadeiras na Câmara dos Deputados para sustentar suas reformas. Ele não só conquistou esse objetivo como também chegou muito perto de alcançar um terço do Senado, considerando a aliança estratégica com o partido de direita PRO.

Após a vitória, Milei declarou que vai implementar “as reformas que ainda faltam” e que o novo Congresso será fundamental para garantir esse ato. “Durante os próximos dois anos, temos de fazer avançar o caminho reformista que iniciamos”, disse. “Teremos, sem dúvida, o Congresso mais reformista da história da Argentina”, acrescentou.

Vitória também para Trump

Os resultados também agradaram ao presidente Donald Trump, cujo governo fez críticas após conceder um resgate financeiro vulnerável à Argentina.

Para conter a desvalorização do peso, Milei queimou bilhões de dólares em reservas cambiais. Numa ação extraordinária, o governo Trump ofereceu um resgate no valor de 40 bilhões de dólares, incluindo um swap cambial de 20 bilhões de dólares já contratado e uma proposta de linha de crédito de mais 20 bilhões.

Trump condicionou a ajuda à Argentina para uma vitória de Milei nas urnas. “Se ele vencer, ficaremos com ele; se não vencer, sairemos”, disse no início do mês, após receber Milei na Casa Branca.

Neste domingo, o presidente americano felicitou o argentino pela “vitória esmagadora” nas eleições legislativas. “Ele está fazendo um excelente trabalho! O povo argentino justificou a nossa confiança nele”, escreveu Trump na rede social dele, a Truth Social.

Mais uma chance a Milei

Analistas disseram que o desempenho melhor do que o esperado pode ser um sinal de que, diante do risco de uma nova turbulência econômica, os argentinos acharam melhor optar pelas políticas de austeridade de Milei, que, mesmo tendo subsídios usados ​​por muitos argentinos, ao menos conseguir desacelerar significativamente a inflação.

Essa foi a análise do diretor da empresa de pesquisas Zuban Córdoba, Gustavo Córdoba, que se declarou surpreso com o desempenho de Milei e que neste momento o resultado das urnas reflete a preocupação com a potencial repetição das crises econômicas dos governos anteriores. “Muitas pessoas estavam dispostas a dar outra chance ao governo”, disse ele. “Veremos quanto tempo a sociedade argentina dará ao governo. Mas o triunfo é inquestionável”, declarou à agência de notícias Reuters.

A cientista política Maria Laura Tagina, da Universidade Nacional de San Martin, disse que, apesar do índice de aprovação de Milei ter sofrido com as medidas de austeridade e os escândalos de corrupção, é possível que os argentinos desiludidos tenham decidido ficar em casa. A participação eleitoral foi de cerca de 68%, o segundo menor em mais de uma década, segundo relatos da mídia.

O  eleitorado parece dividido entre os beneficiários das reformas de Milei e aqueles que nunca enfrentaram tantas dificuldades para sobreviver. Num refeitório comunitário no subúrbio de Buenos Aires, Epifanía Contreras, de 64 anos, disse sentir que está arcando com o peso das reformas. “Não dá para viver com uma aposentadoria de 290 mil pesos por mês com a inflação atual”, disse ela. “A situação está piorando cada vez mais.”

“Voto por obrigações, nada mais”, disse o corretor imobiliário Matías Paredes, de 50 anos, cuja clientela estrangeira estava com o câmbio forte de Milei. “Nenhuma dessas figuras inspira otimismo. Estamos apenas escolhendo o mal menor.”

O que vem por aí

Os resultados posicionaram automaticamente Milei como candidato à reeleição em 2027. Ele acenou com uma reforma ministerial após a eleição, que poderá incluir membros do partido centrista PRO, um aliado frequente do governo no Congresso e que é liderado pelo ex-presidente Mauricio Macri.

De acordo com suas próprias declarações e com os membros de seu partido, o presidente pretende implementar um novo regime tributário e uma mudança substancial nas leis trabalhistas.

Milei chegou ao poder com a promessa de redução de impostos, algo que até agora não conseguiu, e que vem sendo reivindicado por diversos setores produtivos e empresariais nacionais, bem como por grupos de investimento estrangeiro. Além disso, Milei pretende modificar os procedimentos de contratação, flexibilizar as contribuições previdenciárias e restringir a representação sindical.

Publicado originalmente pelo DW em 27/10/2025

Por Alexandre Schossler com AP, Reuters e Efe

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Eleição legislativa na Argentina desafia futuro de Milei https://www.ocafezinho.com/2025/10/25/eleicao-legislativa-na-argentina-desafia-futuro-de-milei/ https://www.ocafezinho.com/2025/10/25/eleicao-legislativa-na-argentina-desafia-futuro-de-milei/#respond Sat, 25 Oct 2025 15:00:00 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=219850 Partido do presidente chega na disputa com o objetivo de inflar sua reduzida base parlamentar. Oposição, porém, ganha força em meio a escândalos de corrupção, queda de popularidade e pressões econômicas.

Os argentinos vão às urnas neste domingo (26/10) para uma eleição parlamentar que renovará metade da Câmara dos Deputados e um terço do Senado do país. O pleito deve definir o futuro político do presidente Javier Milei, cuja governabilidade, já frágil, se vê ameaçada por denúncias de corrupção e pela queda de sua popularidade.

Em 21 de agosto, a deputada Marcela Pagano, que há dois anos havia sido eleita pelo partido de Milei, A Liberdade Avança, deixou a sigla governista e lançou nas redes sociais uma série de denúncias contra o governo que implicam diretamente a irmã do presidente, Karina Milei.

Áudios vazados, que ainda passam por verificação judicial, indicam que Karina, que também é secretária-geral da Presidência, estaria envolvida em um esquema de propina em negociações envolvendo empresas farmacêuticas. Ela nega as acusações.

Para Pagano, o escândalo é um indicativo de que o Executivo argentino ignorou as necessidades da classe média e de grupos desfavorecidos, como pessoas com deficiência e aposentados, além de não exonerar os supostos envolvidos em casos de corrupção, conforme prometido por Milei.

“Eu estava convencida de que poderíamos promover uma mudança real, mas, infelizmente, o projeto saiu dos trilhos”, afirma Pagano à DW. Ela acredita que o “milagre argentino”, que muitos economistas em todo o mundo elogiaram devido à queda maciça da inflação no governo Milei, cobra um preço alto.

“Mais de 25 mil pequenas e médias empresas tiveram que encerrar ou suspender suas atividades devido à falta de demanda e ao aumento dos custos energéticos. O poder de compra a partir dos salários formais caiu cerca de 20% em termos reais, enquanto os rendimentos informais e as pensões mínimas perderam mais de 30% do seu valor em relação à inflação”, relata Pagano.

Denúncias da deputada Marcela Pagano abriram escândalo de corrupção no governo Milei | Arquivo Pessoal

Os custos sociais do ajuste fiscal proposto por Javier Milei também pressionam sua popularidade, que antes superava 50%. Às vésperas da eleição, apenas 39,9% dos argentinos aprovam sua gestão, enquanto 55,7% a desaprovam. Os resultados podem derrubar os votos em seus apoiadores.

O apoio popular era justamente o principal pilar de governabilidade de Milei. Com uma base legislativa menor que a da oposição peronista, o presidente tem recorrido a decretos e vetos para implementar sua agenda. A expectativa é que as eleições legislativas ampliem o número de deputados alinhados ao governo, mas analistas avaliam que as dificuldades econômicas e políticas devem continuar impedindo que Milei conquiste uma maioria estável no Congresso.

Tratamento de choque com efeitos colaterais

Aparentemente, os efeitos colaterais do tratamento de choque na economia são maiores do que a cura em si. Milei impôs medidas drásticas ao país, que tinha uma dívida externa de 278 bilhões de dólares (R$ 1,5 trilhão): demitiu dezenas de milhares de funcionários públicos, extinguiu ministérios e cortou subsídios para medicamentos, eletricidade, água, gás e transporte público, alguns dos quais essenciais à vida em sociedade.

O símbolo dessa política radical de austeridade é uma motosserra, com a qual ele personifica o corte do Estado. De fato, há resultados além do controle da hiperinflação. Milei conquistou o primeiro superávit orçamentário desde 2010, por meio de um ligeiro boom nas importações e lucros recordes para empresas exportadoras dos setores de mineração e energia.

No entanto, os sucessos macroeconômicos não mudaram a vida da parcela mais pobre da população. A frase “meu mês acaba no dia 20” tornou-se um dito popular para muitos argentinos, pois o salário simplesmente não é suficiente para os dez dias restantes.

Especialistas estimam que um em cada dois argentinos precisa recorrer às suas poupanças todos os meses para conseguir pagar as contas. Os motivos: um peso argentino supervalorizado, com preços semelhantes aos dos EUA e da Europa, e o aumento do desemprego, salários congelados e aluguéis elevados devido à liberalização do mercado imobiliário.

“Muitas pessoas estão trabalhando ainda mais, outras estão adiando as compras que pretendiam fazer para o futuro. As famílias estão se endividando. Estamos há dois trimestres em recessão, o que levou a uma queda no consumo”, afirma o analista político Sergio Berensztein.

Trump pretende lançar um pacote financeiro para ajudar a Argentina, mas apenas se Milei se sair bem nas eleições parlamentares | Jonathan Ernst/REUTERS

Trump tenta ajudar Milei

Devido à crise econômica, Milei pediu ajuda a um de seus maiores amigos políticos dentro da ultradireita: o presidente dos EUA, Donald Trump, que, em troca, elogiou Milei como seu “presidente favorito”. Washington quer montar um pacote financeiro em forma de swap cambial no valor de 20 bilhões de dólares (R$ 107 milhões) para a Argentina.

Mas não sem interferir na campanha eleitoral: “Se ele ganhar, continuaremos com ele. Se não ganhar, vamos embora”, disse Trump na última semana, vinculando a ajuda financeira ao sucesso de Milei nas eleições parlamentares deste domingo.

Pode ser por pouco: as pesquisas preveem uma disputa acirrada entre o partido de Milei, A Liberdade Avança, e os peronistas do Fuerza Patria, que voltaram a se destacar principalmente depois da vitória nas eleições provinciais de Buenos Aires no início de setembro.

Os peronistas também contam com o fato de que a euforia dos jovens eleitores, alguns dos maiores apoiadores do atual governo, diminuiu, derrubando sua popularidade.

Muitos jovens se dizem desiludidos com o desempenho do presidente: “Em 2023, a eleição presidencial foi decidida pelos votos dos jovens. Embora Milei ainda possa contar com um grande apoio entre eles, isso já não acontece mais na mesma medida”, afirma Berensztein.

De modo geral, mais homens do que mulheres votaram em Milei: “No interior do país, ele ainda é visto como uma voz contra o sistema, embora nunca tenha visitado muitas dessas províncias”, diz.

Campanha prejudicada por escândalos

O resultado da eleição parlamentar também depende da capacidade do presidente – que em uma de suas mais recentes e memoráveis aparições na campanha eleitoral se apresentou como um astro de rock – de se livrar dos escândalos de corrupção que abalam seu governo.

Ao escândalo que envolve sua irmã, apelidado de “Karinagate”, se somou o caso de José Luis Espert, um correligionário de Milei acusado de ligações com um traficante de drogas.

“O resultado das eleições parlamentares não é tão decisivo quanto a forma como o governo lidará com o resultado. É claro que é importante para Milei vencer as eleições, mesmo que seja por uma pequena margem, para ganhar capital político e frear o ímpeto dos peronistas”, afirma Berensztein.

“Mas uma vitória não resolve os problemas da Argentina. Milei precisa aprender a construir pontes e, acima de tudo, mudar seu estilo confrontador”, conclui.

Publicado originalmente pelo DW em 25/10/2025

Por Oliver Pieper

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Milei vende soberania argentina a Donald Trump por 20 dinheiros https://www.ocafezinho.com/2025/10/15/milei-vende-soberania-argentina-a-donald-trump-por-20-dinheiros/ https://www.ocafezinho.com/2025/10/15/milei-vende-soberania-argentina-a-donald-trump-por-20-dinheiros/#respond Wed, 15 Oct 2025 12:58:17 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=219330 O que deveria ser uma celebração de apoio financeiro transformou-se em um ato de submissão explícita. A visita do presidente argentino Javier Milei à Casa Branca, que prometia ser um marco de respaldo internacional, culminou em uma demonstração de ingerência que abalou tanto a soberania nacional quanto os mercados financeiros. A festa foi arruinada por uma única frase de Donald Trump, que converteu uma promessa de ajuda em uma crua extorsão.

Financistas e especuladores em Buenos Aires e Wall Street aguardavam com otimismo os anúncios de Washington. O clima era de euforia, com os ativos argentinos registrando uma alta inicial de mais de 5%. Contudo, a expectativa foi frustrada quando Trump, olhando diretamente para Milei, condicionou o futuro da ajuda financeira ao resultado das próximas eleições. “Estamos aqui para te dar apoio nas próximas eleições”, afirmou, para em seguida sentenciar: “Mas se ele não vencer, não perderemos nosso tempo: não seremos generosos com a Argentina”.

A reação foi imediata e devastadora. A promessa de um swap de 20 bilhões de dólares, que funcionaria como um crédito vital para as reservas do Banco Central, virou pó. Ações e títulos da dívida argentina, que antes subiam, despencaram até 10%. A estabilidade financeira, que Milei foi buscar em Washington, foi trocada por uma ameaça direta que transformou o mercado em um campo de batalha político. A mensagem era clara: ou o projeto ultraliberal de Milei se mantém, ou o capital externo não apenas se retira, mas atuará para desestabilizar a economia.

O acordo, que já era limitado — servindo exclusivamente como garantia para o pagamento da dívida em moeda estrangeira e evitando um default —, agora se revelou um instrumento de chantagem. Não houve reinterpretação capaz de suavizar o impacto. A visita, que contou com a presença de figuras-chave como o chanceler Gerardo Werthein e os ministros Luis Caputo e Patricia Bullrich, terminou sem nenhum anúncio concreto de ajuda, apenas com a imposição de uma condicionalidade que ataca frontalmente a soberania do povo argentino. Trump ainda se deu ao luxo de atacar um possível adversário de Milei em 2027, referindo-se a Axel Kicillof como um “comunista de extrema esquerda”.

A instabilidade foi amplificada por um relatório do Morgan Stanley, que já previa um cenário de desvalorização do peso, projetando o dólar acima de 2.000 pesos em caso de derrota do oficialismo. A fala de Trump apenas confirmou o que os analistas já temiam: a economia argentina tornou-se um joguete nas mãos de interesses estrangeiros. Um analista local resumiu o sentimento geral ao classificar Trump como um “megalomaníaco que acredita que sua opinião pode virar o voto a favor de Milei”.

Ao final, o encontro que deveria selar uma parceria estratégica serviu para expor a fragilidade de um governo que, em troca de um apoio condicional e volátil, parece disposto a rifar sua autonomia. A grande questão que fica não é se a ajuda virá, mas a que custo para a soberania e para o futuro da Argentina.

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O insólito show de rock de Milei em meio a escândalo e crise na Argentina https://www.ocafezinho.com/2025/10/09/o-insolito-show-de-rock-de-milei-em-meio-a-escandalo-e-crise-na-argentina/ https://www.ocafezinho.com/2025/10/09/o-insolito-show-de-rock-de-milei-em-meio-a-escandalo-e-crise-na-argentina/#respond Thu, 09 Oct 2025 19:00:00 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=218837 Javier Milei interpretou clássicos do rock argentino para tentar ‘recuperar a mística’

Vestido com jaqueta de couro preta, o presidente argentino Javier Milei cantou músicas de Charly García e Los Ratones Paranoicos diante de milhares de pessoas. Pulou, ergueu os braços em um palco em meio a fogos de artifício e encerrou dizendo: “Vou tomar banho e me vestir de presidente”.

A Argentina tem uma longa história de shows de rock para todos os gostos, mas o protagonizado na noite de segunda-feira (06/10) pelo presidente foi diferente: um ato político com efeitos incertos.

O show aconteceu em um pequeno estádio de Buenos Aires enquanto o país enfrenta graves desafios econômicos e vários escândalos afetam o governo do presidente roqueiro.

O mais recente desses casos polêmicos foi a renúncia, no domingo, do candidato governista a deputado por Buenos Aires, José Luis Espert, por supostos vínculos com um empresário acusado de tráfico de drogas nos Estados Unidos.

O episódio acontece no momento em que o governo de Milei busca assistência financeira direta dos EUA antes das eleições legislativas do dia 26 deste mês, nas quais tenta ampliar sua base em um Congresso que já lhe impôs vários contratempos.

É por isso que o show apresentado por Milei nesta semana é considerado algo inusitado até por especialistas.

“Para a Argentina, neste momento tão difícil, (…) não parece seguir os padrões de como deve ser conduzida uma política nacional”, disse Lara Goyburu, cientista política argentina que dirige a empresa de consultoria Management & Fit, à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC).

Mas o que o presidente libertário buscava com um ato desse porte?

‘Foi estranho’

O show serviu de prévia para o lançamento de seu livro La Construcción del Milagro (A Construção do Milagre, em tradução livre), que reúne de ensaios pessoais a anotações sobre o início de seu governo, em dezembro de 2023.

O show presidencial incluiu fogos de artifício | AFP

De fato, depois de cantar e em seguida se vestir “como presidente” de terno e gravata, Milei retornou ao palco para transmitir diversas mensagens políticas.

Ele relembrou o início de sua carreira política alguns anos antes, destacou algumas conquistas de seu governo, como a redução da pobreza, e pediu confiança de que conseguirá “acabar com a inflação” no país.

Também houve mensagens durante o show que ele fez com a Banda Presidencial, da qual faz parte junto com outros membros de seu partido, La Libertad Avanza, interpretando clássicos do rock argentino.

Durante o show, o presidente também fez ataques à oposição. Ele se referiu ao movimento kirchnerista, liderado pela ex-presidente Cristina Kirchner, com uma mensagem: “Eles ganharam um round, mas não a batalha”.

No mês passado, La Libertad Avanza sofreu sua pior derrota eleitoral, perdendo para a oposição peronista nas eleições legislativas da província de Buenos Aires, a mais populosa do país.

Desde então, o governo enfrenta novos desafios.

Após o show, Milei vestiu o terno “de presidente” | AFP

As dificuldades financeiras e monetárias da Argentina levaram o presidente dos EUA, Donald Trump, a oferecer apoio do Tesouro americano ao aliado Milei.

O ministro da Economia argentino, Luis Caputo, esteve em Washington na segunda-feira (06/10) para negociar o pacote de assistência financeira, ainda indefinido. Por isso, não participou do ato político-musical em Buenos Aires.

Também esteve ausente José Luis Espert, que renunciou na véspera à principal candidatura a deputado do governo após suspeitas de ter recebido financiamento de Federico “Fred” Machado, empresário cuja extradição para os EUA, por acusações de narcotráfico, foi aprovada na terça-feira (07/10) pelos poderes Judiciário e Executivo argentinos.

O episódio se soma ao vazamento de áudios de um ex-diretor da Agência Nacional para a Deficiência (Andis, na sigla em espanhol), que sugerem pagamento de propina a Karina Milei, irmã do presidente e secretária-geral da Presidência.

No início deste ano, o próprio Milei foi citado em outra polêmica ao promover a criptomoeda $Libra, investigada pela Justiça como um possível esquema de fraude. Ele nega ter cometido qualquer irregularidade.

José Luis Espert foi um aliado fundamental de Milei até renunciar à sua candidatura a deputado esta semana em meio a um escândalo | AFP

A corrupção passou a liderar, em agosto e setembro, as menções nas pesquisas da consultoria Management & Fit sobre os problemas que mais afetam os argentinos, superando a insegurança e a inflação.

“Além do descontentamento com a situação atual, começa a surgir uma desconfiança acerca de uma futura melhora”, afirma Goyburu, analista político da Management & Fit.

Segundo Goyburu, Milei buscou com o ato musical inusitado “recuperar a mística” que mobilizou sua base eleitoral em 2023, especialmente entre jovens que o veem como distante da classe política tradicional.

“Diante da fuga dos eleitores moderados, procurou-se reforçar o núcleo duro”, explica. “Foi algo incomum, disruptivo e inovador para a prática política nacional, sem dúvida. Mas é assim que Milei tem se mostrado como figura da vida pública argentina, e ele conseguiu chegar até aqui.”

Para Goyburu, “é uma incógnita o que pode acontecer depois das eleições do dia 26”.

‘Retorno ao planeta Terra’

Especialistas afirmam que, com o show, Milei correu o risco de alienar ainda mais setores da população que nunca votaram nele ou que o apoiaram apenas no segundo turno de 2023.

O show presidencial recebeu críticas de opositores e até de políticos que tiveram relação próxima com Milei no passado, como o ex-ministro da Economia Ricardo López Murphy.

“Volte ao planeta Terra, presidente. O país precisa do senhor aqui”, escreveu Murphy, atualmente deputado, na rede social X (antigo Twitter). “As imagens transmitem uma mistura de constrangimento, raiva e dor.”

O crescente descontentamento social pode complicar a administração de Milei, dizem analistas | Getty Images

Marina Acosta, doutora em ciências sociais e responsável pela comunicação da consultoria argentina Analogías, afirma que o governo de Milei atravessa “seu pior momento”, com queda nos índices de aprovação da gestão e na imagem do presidente.

Sinal disso é uma pesquisa recente da Bloomberg/AtlasIntel, realizada entre os dias 10 e 14 de setembro: 53,7% dos entrevistados afirmaram “desaprovar” o presidente argentino, enquanto 42,4% afirmaram que o “aprovam”. O restante (3,8%) não sabe.

Esta é a pior avaliação de Milei desde que ele tomou posse. Sobre o governo, na mesma pesquisa, 49,5% dos entrevistados o definem como “ruim ou muito ruim” enquanto 33,4% o consideram “bom ou excelente”.

A analista Shila Vilker, da empresa de pesquisas e opinião pública Trespuntozero, diz que nos dois meses anteriores às eleições legislativas na província de Buenos Aires, o apoio ao governo e ao presidente Milei caiu cerca de 10 pontos percentuais, ficando em 39,9%.

No ano passado, estes percentuais estavam entre 50% e 52%.

Segundo Acosta, Milei prometeu ajustar a “casta” política, combater a corrupção e melhorar a economia, mas muitos argentinos percebem que o ajuste recai sobre a população em geral. Além disso, surgem novos escândalos e o preço do dólar voltou a subir.

“O governo enfrenta um problema sério: ficou sem bandeiras para defender”, disse Acosta à BBC News Mundo. “O ato buscava reafirmar a identidade de um espaço que tem poucos resultados para mostrar à população.”

Preocupações além da inflação

De acordo com a analista Shila Vilker, da empresa de pesquisas e opinião pública Trespuntozero, a percepção dos argentinos sobre a economia pesou na queda recente na popularidade de Milei.

Dados oficiais mostram que a economia tem dado sinais de estagnação e alguns especialistas especulam sobre riscos de recessão — o que Milei e sua equipe descartam.

Recentemente, Milei reconheceu, em entrevista a um canal de televisão local, que a economia está “paralisada” e atribuiu o fato à oposição no Congresso.

Segundo algumas pesquisas, a própria derrota em Buenos Aires foi influenciada pela desaceleração da economia e a dificuldade das pessoas de adquirir produtos básicos e pagar suas contas.

A preocupação dos argentinos já não é tanto com a inflação, que caiu no governo Milei.

Em 2023, o índice anual chegou a 211,4%. Em 2024, foi de de 117,8%. Para 2025, a expectativa é que a inflação anual seja de 28,2%, segundo o Levantamento de Expectativas do Mercado (REM) divulgado pelo Banco Central.

Economistas atribuem a queda inflacionária ao forte ajuste fiscal e monetário implementado pelo governo Milei.

Mas, segundo analisa o economista Enrique Szewach, reduzir a inflação “não está sendo suficiente” para convencer a população.

O custo de vida continua alto e faltam políticas de geração de empregos, ele aponta.

Nos últimos tempos, os salários não acompanharam o ritmo dos preços. O salário mínimo, por exemplo, teve perda de 30% no poder de compra durante o governo Milei, segundo dados do Centro de Pesquisa e Formação da República Argentina (CIFRA), divulgados no início de setembro pelo jornal Clarín.

“Nas diferentes pesquisas que realizamos, nos últimos meses, baseadas em focus groups [grupos focais], as classes média e baixa, não pobre, e que representam cerca de 24 milhões de pessoas, responderam que ‘comprar é um estresse’ e ‘o dinheiro acaba muito antes do fim do mês'”, aponta Guillermo Olivetto, especialista em consumo.

“Até pouco tempo, muitos diziam que o esforço valia a pena e apoiavam [as medidas de Milei].”

Há preocupações também com o acesso a empregos, inclusive os formais.

Dados do Instituto de Estatísticas e Censos (Indec) divulgados em 18 de setembro mostram que, no segundo trimestre deste ano, o desemprego foi de 7,6% — levemente inferior aos três meses anteriores, quando o indicador foi de 7,9%, e igual ao último trimestre de 2024.

Mas, segundo dados da Secretaria do Trabalho divulgados pela imprensa local, entre novembro de 2023 e abril deste ano caiu o total de empregos registrados, tanto privados quanto públicos. A redução foi de 258.300 postos de trabalho.

E, de acordo com o Indec, os trabalhadores informais chegaram a 43,2% da população ativa no segundo trimestre deste ano. Este índice é levemente superior aos 41,6% do trimestre anterior.

Além disso, os preços de serviços públicos como transporte, água, luz e telefonia aumentaram porque o governo Milei reduziu ou eliminou os subsídios que eram aplicados pelos governos anteriores.

Para completar, a alta de investimentos estrangeiros que o governo esperava atrair não ocorreu, observam os economistas.

Em um comunicado no mês passado, a União Industrial Argentina (UIA) elogiou a “organização macroeconômica, a queda na inflação e o equilíbrio fiscal” do governo Milei, mas criticou o custo de produção e as taxas de juros.

Em seu levantamento mensal, a UIA informou, nesta semana, que a atividade industrial caiu 3% em agosto em relação ao mesmo mês do ano passado.

O Banco Central da República Argentina (BCRA) fixou, em janeiro deste ano, em 29% a taxa básica de juros, chamada de Taxa Normal Nominal (TNA). Porém, este índice pode variar de acordo com o banco ou segmento econômico.

Entre julho e agosto, por exemplo, os juros para as pequenas e médias empresas saltaram de 44% para mais de 60%, segundo reportagem do jornal Clarín.

Publicado originalmente pela BBC News em 08/10/2025

Por Gerardo Lissardy – BBC News Mundo

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O peronismo venceu a austeridade e a fome de Milei https://www.ocafezinho.com/2025/09/08/o-peronismo-venceu-a-austeridade-e-a-fome-de-milei/ https://www.ocafezinho.com/2025/09/08/o-peronismo-venceu-a-austeridade-e-a-fome-de-milei/#respond Mon, 08 Sep 2025 18:00:00 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=216970 Fuerza Patria obteve uma vitória retumbante sobre La Libertad Avanza, na província de Buenos Aires. Os candidatos do governador Kicillof obtiveram 47,28% dos votos, conquistando seis dos oito distritos eleitorais. Já os libertários obtiveram 33,71%.

O peronismo triunfou, e não em qualquer lugar; foi na circunscrição eleitoral mais importante da Argentina, a província de Buenos Aires. Fê-lo de forma incontestável, com mais de 13 pontos de vantagem sobre La Libertad Avanza. Foi uma derrota retumbante para o presidente Javier Milei, que, como estratégia, nacionalizou esta eleição provincial e polarizou seu conteúdo com o kirchnerismo.

Uma decisão que não só colocou em risco a sorte de seu partido nas eleições nacionais de outubro, como também coloca sua administração em risco, pois as derrotas devem ser administradas com sabedoria, especialmente se a derrota deste domingo for agravada pela crise econômica que afeta diretamente os bolsos e as necessidades de todos os argentinos. Como se não bastasse, há também o escândalo político em torno das propinas para medicamentos na agência de assistência a deficientes. Cristina Kirchner o lembrou disso, dizendo-lhe em um tweet que “apontar o dedo e estigmatizar os deficientes, enquanto sua irmã recebe 3% de propina em seus medicamentos, é letal”. Por sua vez, Axel Kicillof justificou a vitória do Fuerza Patria com a unidade alcançada, fruto da generosidade de Sergio Massa e CFK, antes de finalmente destacar que esta colheita de votos mostra que “há outro caminho, e estamos começando a segui-lo”.

O resultado final, que mostra uma contagem provisória de 97,85% das seções eleitorais, deu a Fuerza Patria 47,28% dos votos e La Libertad Avanza 33,71%. Assim, o peronismo venceu em seis dos oito distritos eleitorais, pintando quase toda a província de Buenos Aires de azul-celeste. Milei ficou com muita tinta roxa não utilizada.

No final das contas, ficou claro que o peronismo venceu essas eleições, mas também ficou claro que Milei as perdeu. Embora possa parecer óbvio, um truísmo, a verdade é que ambas as forças políticas jogaram todas as suas cartas. O peronismo, unido, começou a recuperar seu status de alternativa política, e Milei conseguiu garantir que essa derrota finalmente destruísse seu modelo econômico e político. Resta saber como ela lidará com essa final, que, por enquanto, ainda tem dois anos pela frente.

Felicidade Peronista

A vitória esmagadora foi resultado de um processo eleitoral complexo e não menos problemático. O primeiro revés surgiu com o fechamento das listas do Fuerza Patria, mas as divergências foram contidas e avanços foram feitos em um contexto de unidade, frágil, mas ainda assim, unida. A partir daí, os votos peronistas começaram a se acumular, onde o modelo de governo e o papel que Axel Kicillof impôs ao Estado de Buenos Aires tiveram um impacto significativo: prover os mais necessitados e garantir educação e saúde públicas. O completo oposto do modelo de Milei.

Outro detalhe importante (e que os libertários minimizaram) foi a prisão de Cristina Fernández de Kirchner. A proibição visava deixar o principal partido da oposição sem liderança, mas, acima de tudo, sem futuro. Ontem à noite, com os resultados das eleições, ficou claro que essa manobra fracassou, pois a prisão, mesmo que domiciliar, não esfacelou o kirchnerismo, mas deu aos militantes um impulso para alcançar a vitória deste domingo. CFK não se esqueceu disso e disse isso a Milei em seu tuíte, alertando para o que acontecerá em pouco mais de um mês: “No próximo dia 26 de outubro, kirchnerismo e peronismo… Mais do que nunca!”

Cristina não só se expressou por meio de um tuíte, como também enviou uma mensagem gravada ao local onde o movimento peronista portenho se reuniu em La Plata, onde agradeceu à população da província “por decidir frear um presidente que parece não entender que precisa governar para todos”. Em seguida, parabenizou os prefeitos com uma menção especial “a Axel (Kicillof), Sergio (Massa), Juan (Grabois) e também a Máximo (Kirchner), que está comigo aqui na San José 1111”.

Por sua vez, Axel foi mais preciso, lembrando e destacando “aqueles que ouviram com sabedoria e generosidade” o apelo à unidade e que “terminou numa vitória esmagadora. Obrigado, Sérgio, obrigado, Cristina, a mulher injustamente condenada que deveria estar neste palco”.

Todas as frases falam de unidade, alegria, compromisso e triunfo, mas, ao mesmo tempo, representam o desafio de administrar os resultados porque, embora tenhamos vencido uma eleição, esta ainda é uma eleição provincial, não uma eleição qualquer, não uma eleição qualquer, mas uma eleição de Buenos Aires. Agora vem outra, em outubro, também complexa, para a qual é necessário fortalecer a unidade que apoia e clama pelo voto a favor da dignidade e da empatia.

Em suma, como Kicillof afirmou ontem à noite, o resultado demonstrou que “há outro caminho, e estamos começando a segui-lo”. Uma frase que poderia muito bem ser considerada a definição típica de um candidato presidencial.

Enquanto isso, veremos como o governo nacional lida com esse cenário.

A Derrota Libertária

Nas últimas duas semanas, à medida que surgiam detalhes sobre os subornos na Agência Nacional para a Deficiência (Andis), com Karina Milei como uma das principais culpadas, as pesquisas mostravam que a distância entre Fuerza Patria e La Libertad Avanza estava aumentando. Um detalhe que parece ter sido ignorado pelos think tanks libertários. O peronismo, vale ressaltar, recebeu as mesmas pesquisas e decidiu não divulgá-las para manter o entusiasmo militante.

Nas últimas duas semanas, o governo perdeu o protagonismo, o controle da agenda e da política. Há muito tempo, perdeu o controle da economia. Todos esses fatores contribuíram para a derrota deste domingo.

Até agora, Mieli apenas reconheceu que perdeu. “Sem dúvida, politicamente, tivemos uma derrota clara. Temos que aceitar os resultados, e eles não foram positivos, e devemos aceitá-los”, foi a declaração de Milei, que quase o retratou como um estadista. Ele imediatamente reafirmou seu modelo econômico: “Além deste resultado, quero ressaltar a todos os argentinos que o rumo não mudará, mas sim se redobrará”. Uma decisão temerária que Milei justificou dizendo que a porcentagem de votos obtida pelo Fuerza Patria é o teto e a obtida pelo LLA representa o piso com o qual ele concorrerá em outubro.

O presidente falou em autocrítica, mas não destacou ninguém em particular, muito menos mencionou demissões. Não é de se admirar. A estratégia eleitoral foi arquitetada por sua irmã Karina e Lule Menem, que impulsionaram a ideia de candidaturas puras porque alegavam que a marca La Libertad Avanza era a que tinha força. De nada adiantou.

O paradoxo é que esses dois nomes e sobrenomes se repetem em duas situações críticas que o governo ainda vive: o retumbante fracasso eleitoral de 7 de setembro e, sobretudo, os subornos para benefícios por invalidez. E Milei parece disposta a cortar um dos braços antes de expulsar a irmã, aquele que ela disse que removeria se um imposto fosse aumentado.

A derrota, sem dúvida, é difícil de engolir.

Terceiro Lugar

Todos que acompanhavam os resultados das eleições de Buenos Aires se concentraram intensamente nos dois primeiros candidatos. Mas havia mais. O terceiro lugar ficou com os candidatos do Somos Buenos Aires, a versão da província de Buenos Aires das Provincias Unidas (Províncias Unidas), que reúne vários governadores que buscam revitalizar a ampla avenida central. Eles obtiveram 5,25% dos votos e venceram nos distritos de Roque Pérez, Saladillo, San Nicolás, General Juan Madariaga e San Cayetano. Três dos governadores que compõem essa coalizão, Maximiliano Pullaro, de Santa Fé, Martín Llaroyora, de Córdoba, e Claudio Vidal, de Santa Cruz, parabenizaram Kicillof nas redes sociais. Um gesto democrático, como faltam em Milei e La Libertad Avanza.

Publicado originalmente pela Página 12 em 08/09/2025

Por Felipe Yapur

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Escândalo de corrupção, queda de popularidade e ataque a pedradas nas ruas: as difíceis semanas de Javier Milei na Argentina https://www.ocafezinho.com/2025/08/30/escandalo-de-corrupcao-queda-de-popularidade-e-ataque-a-pedradas-nas-ruas-as-dificeis-semanas-de-javier-milei-na-argentina/ https://www.ocafezinho.com/2025/08/30/escandalo-de-corrupcao-queda-de-popularidade-e-ataque-a-pedradas-nas-ruas-as-dificeis-semanas-de-javier-milei-na-argentina/#respond Sat, 30 Aug 2025 11:00:00 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=216382 O índice de confiança no governo Milei diminuiu em 13,6%, segundo a Universidade Torcuato di Tella, em Buenos Aires

A cena foi de caos e marcou o ápice de duas semanas críticas para o presidente argentino, Javier Milei.

Na quarta-feira (27/8), Milei precisou ser retirado às pressas durante um ato de campanha na província de Buenos Aires.

Manifestantes cercaram sua comitiva e, entre gritos e insultos, atiraram pedras e outros objetos contra um veículo da sua caravana eleitoral.

O ataque obrigou o presidente a suspender o comício e aumentou as tensões frente às eleições provinciais, no próximo dia 7 de setembro, e do pleito legislativo de meio de mandato, em 26 de outubro.

Para Milei, as eleições são fundamentais. O presidente precisa aumentar o número de legisladores aliados no Congresso argentino e saber se detém capital político para buscar a reeleição, daqui a dois anos.

Tudo indicava que seu partido, A Liberdade Avança, chegaria como favorito para as eleições de meio de mandato, graças ao controle da inflação e ao dólar que não trazia maiores desagrados. Mas o panorama mudou.

Em reportagem publicada na segunda-feira (25/8), o jornal argentino La Nación destacou que a primeira quinzena de agosto foi a pior do mandato de Milei, em termos da confiança do público no seu governo.

O jornal informou que, segundo a Universidade Torcuato di Tella, em Buenos Aires, o Índice de Confiança no Governo caiu, em um mês, de 2,45 para 2,12 pontos, o que representa uma queda de 13,6%.

Milei foi evacuado às pressas de um comício na província de Buenos Aires, depois que um grupo de manifestantes atirou pedras contra ele | EPA

A avaliação foi realizada antes de 20 de agosto, quando ocorreu a publicação de áudios que relacionam a secretária e irmã do presidente, Karina Milei, a um escândalo referente a uma suposta rede de subornos na Agência Nacional de Incapacidade (Andis, na sigla em espanhol).

Os mercados reagiram negativamente ao ocorrido, segundo a agência de notícias AFP. Houve aumento do índice de risco país, que avalia o custo do endividamento do governo em moeda estrangeira.

Aqui apresentamos um resumo do que ocorreu na Argentina nas últimas duas semanas.

Os áudios vazados

Os áudios vazados foram gravados secretamente no ano passado. Neles, uma voz atribuída ao ex-diretor da Andis, Diego Spagnuolo, afirma que Karina Milei receberia suborno sobre o pagamento de remédios a pessoas com incapacidade.

Depois do vazamento, Spagnuolo foi destituído e o advogado Gregorio Dalbón, representante legal da ex-presidente argentina Cristina Fernández de Kirchner (2007-2015), apresentou uma denúncia à Justiça argentina.

“Karina leva 3%”, diz o ex-funcionário do governo em uma das gravações, segundo a agência AFP.

Spagnuolo também representou legalmente Milei e era presença assídua na residência presidencial. Ele também garante ter informado o presidente sobre o esquema de corrupção.

Os áudios vazados acusam a irmã e secretária do presidente argentino, Karina Milei, de ter supostamente recebido suborno na compra de medicamentos para pessoas com incapacidade | Reuters

A irmã do presidente ainda não se manifestou sobre o escândalo, embora o caso tenha dominado as manchetes e as discussões nas redes sociais na Argentina.

Por outro lado, o presidente negou os fatos pouco antes do ato de campanha do qual foi evacuado às pressas.

“Tudo o que ele diz é mentira”, declarou ele. “Vamos levá-lo à Justiça e demonstrar que ele mentiu.”

Na última sexta-feira (22/8), o juiz federal Sebastián Casanello emitiu 16 mandados de busca relativos ao caso. Na ocasião, foram confiscados os telefones de Spagnuolo e de diretores da empresa farmacêutica Suizo Argentina, mencionada nas gravações vazadas.

Golpes legislativos e o aumento do risco país

O caso envolvendo Karina Milei veio a público depois que, em 21 de agosto, a Câmara Baixa do Congresso argentino derrubou o veto presidencial a uma lei que declara situação de emergência no atendimento a pessoas com incapacidade e aloca mais fundos ao setor.

Paralelamente, o Senado argentino rejeitou uma série de decretos presidenciais, que pretendiam reduzir o orçamento estatal, e aprovou o aumento dos valores destinados à saúde e às universidades públicas.

O analista político argentino Andrés Malamud resumiu, na sua conta no X (antigo Twitter), o histórico legislativo do governo nos últimos meses.

“Desde que assumiu, o governo enfrentou 34 votações legislativas”, segundo ele.

“Foram 17 até março de 2025 e ganhou 15. Houve 17 desde abril de 2025 e perdeu 16. A composição do Congresso não se alterou, o dano foi totalmente autoinfligido.”

As derrotas parlamentares, somadas à queda da confiança pública, fizeram com que o risco país voltasse a subir para 829 pontos básicos, um nível que não era observado desde o mês de abril.

Analistas indicam que este nível de risco dificulta para o governo conseguir dinheiro nos mercados internacionais para pagar a dívida que vence no ano que vem. Tudo isso representa um desafio para o programa de cortes comandado por Milei desde sua posse, em dezembro de 2023.

O presidente Javier Milei afirma que as acusações contra sua irmã Karina (foto) são mentirosas e que pretende levar o caso à Justiça | Getty Images

Por outro lado, duas pesquisas realizadas pelas empresas de comunicação La Sastrería e Trespuntozero, publicadas na quinta-feira (28/8) também pelo jornal La Nación, mostram uma deterioração inédita da avaliação do governo Milei no país.

A imagem do seu governo caiu oito pontos nas últimas seis semanas. Milei caiu para o terceiro lugar no ranking de avaliação de dirigentes políticos, atrás do governador da província da Buenos Aires, Axel Kicillof, e da ex-presidente Cristina Kirchner — seus dois principais opositores.

Uma das pesquisas analisou a percepção do público sobre o caso dos supostos subornos.

62,5% dos entrevistados acreditam que os áudios refletem episódios graves de corrupção no governo, enquanto 32,8% consideram que se trata de uma operação política, que é a posição defendida pelo governo argentino.

Por isso, o partido A Liberdade Avança mantém expectativas moderadas sobre seu desempenho nas eleições de domingo, 7 de setembro. E também promove o discurso de que a oposição realizaria “todo tipo de fraude” na votação.

Publicado originalmente pela BBC News em 28 agosto 2025

Por Ronald Alexander Ávila-Claudio e Agustina Latourrette

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Carreata de Milei é apedrejada em meio a escândalo de corrupção https://www.ocafezinho.com/2025/08/28/carreata-de-milei-e-apedrejada-em-meio-a-escandalo-de-corrupcao/ https://www.ocafezinho.com/2025/08/28/carreata-de-milei-e-apedrejada-em-meio-a-escandalo-de-corrupcao/#respond Thu, 28 Aug 2025 17:00:00 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=216328 Remédios para pessoas com deficiência teriam sido comprados a preços inflacionados em troca de propina. Escândalo vai impactar eleições regionais

Uma pesquisa realizada pela consultoria Management & Fit revela que 73% dos moradores de Buenos Aires consideram o suposto caso de corrupção entre a Agência Nacional de Deficiência (ANDIS) e o governo de Javier Milei como “grave” ou “muito grave”. A preocupação é significativa inclusive entre os eleitores de La Libertad Avanza, partido de Milei, o que pode ser decisivo nas próximas eleições legislativas e regionais.

Segundo a pesquisa, realizada entre os dias 25 e 26 de agosto, 94,5% dos moradores de Buenos Aires têm conhecimento do escândalo de corrupção e 73,2% o consideram “muito grave” ou “relativamente grave”.

O estudo aponta ainda que há um impacto significativo do escândalo entre os próprios eleitores de Milei: 37% dos que apoiam o defensor da motosserra também veem o assunto como algo sério.

Os consultores da Management & Fit alertam que a situação é grave, pois é um percentual alto a se considerar em uma eleição polarizada.

Nesta quarta-feira (27), Milei foi atacado com pedras e garrafas por manifestantes durante uma carreata organizada pelo partido do qual faz parte, na cidade de Lomas de Zamora, ao sul da Grande Buenos Aires. Segundo o G1, imagens que circulam nas redes sociais mostram Milei acenando para as pessoas na caçamba de uma picape, quando começa um tumulto.

O presidente estava acompanhado do deputado José Luis Espert, um dos principais candidatos às eleições legislativas de outubro. De acordo com o porta-voz do governo, não houve feridos.

A culpa é do governo

Para 60% dos entrevistados, a responsabilidade sobre o escândalo de corrupção é do governo La Libertad Avanza (LLA) é da irmã do presidente, Karina Milei, secretária-geral da Presidência.

Da mesma forma, 59,2% dos entrevistados acreditam que as gravações de áudio são verdadeiras e revelam “uma rede de corrupção dentro da administração”.

Neste cenário, os entrevistados exigem respostas do governo: 81% dos entrevistados acreditam que o presidente Javier Milei deve dar uma resposta pública e, desses, 61,3% exigem que ele o faça com urgência.

Eleições Argentinas

Nesta quarta-feira, tem início a campanha para as eleições de meio de mandato na Argentina. No próximo domingo, 31 de agosto, ocorrem as eleições na cidade de Corrientes, para legislativo e executivo. O governo e todas as cadeiras da Câmara Baixa e Alta estão em disputa.

No domingo seguinte, 7 de setembro, a eleição vai ocorrer na província de Buenos Aires, para o legislativo. E em 26 de outubro ocorrem as eleições nacionais de meio de mandato, em que serão eleitos parte dos deputados das câmaras alta e baixa do Congresso: 24 dos 72 senadores e 127 dos 257 deputados.

O caso de suborno da ANDIS

O vazamento de gravações de áudio atribuídas a Diego Spagnuolo, ex-diretor da ANDIS, deu origem ao “Caso Spagnuolo”. As gravações, que analistas e opositores atribuem ao então funcionário, revelam uma suposta rede de corrupção e exigências de propina de provedores de serviços de assistência a pessoas com deficiência.

O dinheiro, segundo as gravações de áudio, era destinado à secretária-geral da Presidência, Karina Milei — irmã do presidente — e sua equipe. Spagnuolo falou de quantias significativas de dinheiro, afirmando que “Karina recebe 3% e 1% vai para a operação”.

O suposto mecanismo envolvia a farmácia Suizo Argentina, ligada a Eduardo “Lule” Menem (primo do presidente da Câmara dos Deputados, Martín Menem), mencionada como beneficiária e protetora do esquema. Spagnuolo chegou a afirmar ter alertado o presidente Javier Milei sobre o roubo.

A resposta do governo incluiu a demissão de Spagnuolo e a nomeação de Alejandro Vilches como auditor da ANDIS, encarregado de conduzir uma auditoria completa na agência.

O advogado Gregorio Dalbón, defendor da ex-presidente Cristina Kirchner, entrou com uma queixa criminal contra Milei, Karina Milei, Eduardo “Lule” Menem, o próprio Spagnuolo e o dono da Farmácia Suizo Argentina, Eduardo Kovalivker, por crimes como fraude, estelionato, associação criminosa e suborno.

Operações de busca e apreensão ordenadas pela Justiça argentina apreenderam aproximadamente US$ 200 mil de Kovalivker, além de dois celulares e uma máquina de contagem de notas de Spagnuolo.

Além das gravações de áudio, investigações jornalísticas revelaram que a Farmácia Suizo Argentina fechou acordos multimilionários com ministérios como Segurança e Defesa e ganhou um contrato de mais de 15 bilhões de pesos para o Hospital Posadas, que apresentava inúmeras irregularidades.

Publicado originalmente pelo Brasil de Fato em 27/08/2025

Com informações da teleSur

Edição: Maria Teresa Cruz

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Milei prega o último prego no caixão do sistema de saúde da Argentina https://www.ocafezinho.com/2025/05/27/milei-prega-o-ultimo-prego-no-caixao-do-sistema-de-saude-da-argentina/ https://www.ocafezinho.com/2025/05/27/milei-prega-o-ultimo-prego-no-caixao-do-sistema-de-saude-da-argentina/#respond Tue, 27 May 2025 13:57:39 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=209530 O governo da Argentina anunciou uma série de mudanças nas diretrizes de saúde pública, com foco na reestruturação do modelo sanitário nacional e na retirada formal do país da Organização Mundial da Saúde (OMS). As medidas foram divulgadas nesta segunda-feira (26), por meio de comunicado do Ministério da Saúde, conforme informado pela imprensa local.

O documento estabelece que o atual modelo de tratamento será substituído por uma abordagem centrada na prevenção, com base em critérios técnicos.

“O novo modelo será construído sobre evidência científica, priorizando estratégias que reduzam a incidência de doenças e aumentem a segurança dos pacientes”, informou o governo.

A saída da Argentina da OMS foi confirmada no mesmo anúncio. “Hoje, a evidência indica que as receitas da OMS não funcionam, porque não estão baseadas em ciência, mas em interesses políticos e estruturas burocráticas que resistem a revisar seus próprios erros”, afirma o texto divulgado pelo Ministério da Saúde.

A decisão foi comunicada dias após a visita a Buenos Aires de Robert Kennedy Jr., secretário de Saúde dos Estados Unidos, que é aliado político do presidente Javier Milei.

Os dois governos vêm adotando medidas alinhadas, principalmente nas áreas de saúde e relações exteriores. Os Estados Unidos deixaram a OMS em fevereiro deste ano, durante o segundo mandato do presidente Donald Trump.

Entre os principais pontos do plano argentino está a reestruturação dos órgãos que compõem o sistema nacional de saúde. O objetivo, segundo o comunicado oficial, é “ordenar, atualizar e tornar mais transparentes estruturas e processos que, por anos, funcionaram com sobreposições, normas obsoletas e escassa supervisão”.

Outra medida prevista é a reavaliação do uso de autorizações emergenciais para medicamentos de alto custo, com foco em tratamentos para doenças raras e pediátricas. “O Ministério da Saúde proporá discutir o uso desse tipo de autorização para medicamentos de altíssimo custo”, informou a pasta.

No setor alimentar, o governo anunciou que passará a restringir o uso de aditivos sintéticos considerados potencialmente nocivos. O comunicado menciona a possibilidade de reexaminar ingredientes utilizados pela indústria de alimentos, destacando seu eventual vínculo com o crescimento de doenças crônicas.

“A iniciativa também questiona o papel de certos ingredientes utilizados pela indústria alimentícia e seu possível vínculo com o aumento de doenças crônicas”, afirmou o ministério.

Entre as propostas mais discutidas está a exigência de que vacinas sejam submetidas a estudos clínicos com grupos placebo antes da aprovação.

O governo argentino declarou que, em determinados casos, a ausência de grupos de controle compromete a confiabilidade dos resultados. “Um exemplo claro dessa necessidade é a vacina contra a Covid-19, aplicada sem grupo de controle e sob condições de aprovação excepcionais”, diz o comunicado.

A retirada da Argentina da OMS é justificada, segundo o governo, não apenas por razões técnicas, mas também por questões financeiras. O país afirma que a manutenção da filiação à organização representa um custo anual de aproximadamente US$ 10 milhões, valor que inclui despesas com salários, diárias e assessores da missão argentina junto à entidade internacional.

A aproximação entre os governos de Milei e Trump tem sido refletida em decisões semelhantes, com destaque para o alinhamento político na condução de políticas sanitárias.

O presidente argentino tem reiterado a intenção de reformular as relações multilaterais do país, com foco em estruturas consideradas mais eficientes e com menor custo.

A OMS, criada em 1948, é vinculada à Organização das Nações Unidas (ONU) e tem como funções a coordenação de respostas internacionais a crises sanitárias e a oferta de apoio técnico aos sistemas de saúde de países-membros. Sua sede está localizada em Genebra, na Suíça.

A Argentina, até então integrante da OMS, participava de iniciativas globais de vigilância epidemiológica, programas de vacinação e estratégias de combate a pandemias. Com a saída, o país deixa de ter representação ativa nas decisões e orientações da entidade, que atualmente conta com 194 membros.

O Ministério da Saúde argentino informou que a retirada será formalizada por meio dos canais diplomáticos apropriados, e que continuará desenvolvendo políticas próprias de prevenção e tratamento de doenças. O governo também declarou que buscará parcerias bilaterais com outros países para cooperação técnica e científica.

Ainda segundo o comunicado, a nova política de saúde pública será submetida a revisão permanente e deverá incluir mecanismos de avaliação externa. O plano prevê a criação de novos critérios para incorporação de tecnologias, insumos médicos e protocolos clínicos no sistema nacional.

O Ministério da Saúde não informou prazos para a implementação integral das mudanças. A pasta declarou que a transição será feita de forma gradual e conforme cronogramas específicos que ainda serão divulgados.

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Milei exalta sonegadores como heróis e ataca quem paga impostos https://www.ocafezinho.com/2025/05/22/milei-exalta-sonegadores-como-herois-e-ataca-quem-paga-impostos/ https://www.ocafezinho.com/2025/05/22/milei-exalta-sonegadores-como-herois-e-ataca-quem-paga-impostos/#comments Thu, 22 May 2025 19:26:46 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=209324 1 Comentário 🔥]]> Em entrevista polêmica, Milei afirma que sonegadores são heróis por escaparem do sistema que, segundo ele, funciona como um roubo institucionalizado

O presidente da Argentina, Javier Milei, do Partido Libertário, gerou polêmica ao se referir a contribuintes que sonegam impostos como “heróis”. Em declarações contundentes, o mandatário sugeriu que aqueles que cumprem rigorosamente com as obrigações tributárias podem não ter “habilidade ou audácia” para burlar o sistema.

Segundo a CNN. as afirmações foram feitas durante entrevista ao programa “Otra Mañana”, da emissora A24, na última segunda-feira (19). O foco da discussão foi a proposta do governo de regularizar cerca de US$ 300 bilhões em recursos mantidos pelos argentinos fora do sistema financeiro formal, muitas vezes em dinheiro físico.

Ainda não foi definido se a medida será implementada por meio de legislação ou decreto presidencial. No entanto, a iniciativa não exigirá a declaração da origem dos valores, segundo informações da equipe econômica.

“O que é ilegal?”, questionou Milei. “Quem se protegeu de políticos corruptos não é criminoso, é herói.”

O líder argentino argumentou que esses recursos, popularmente conhecidos como “dinheiro no colchão”, representam uma fuga à carga tributária excessiva e, se reinseridos no sistema bancário, poderiam dinamizar a economia nacional.

Em tom provocativo, Milei equiparou o Estado a um assaltante:

“Lamento por quem não conseguiu se livrar [dos impostos], mas quem evitou não cometeu nenhum erro”, declarou. “Se alguém escapou do fisco, ótimo. Não vou puni-lo por ter fugido do ladrão [o governo].”

E completou: “Devo premiar quem ficou preso [pagando impostos] só porque outro soube escapar dessa cadeia imposta pelos políticos? Talvez faltou a alguns a capacidade ou a ousadia para se libertar.”

A declaração reforça o discurso antiestatista do presidente e promete acirrar o debate sobre reformas fiscais na Argentina.

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Argentina revela maior depósito de ouro, cobre e prata dos últimos 30 anos: Um marco para a mineração global https://www.ocafezinho.com/2025/05/10/argentina-revela-maior-deposito-de-ouro-cobre-e-prata-dos-ultimos-30-anos-um-marco-para-a-mineracao-global/ https://www.ocafezinho.com/2025/05/10/argentina-revela-maior-deposito-de-ouro-cobre-e-prata-dos-ultimos-30-anos-um-marco-para-a-mineracao-global/#respond Sat, 10 May 2025 21:41:58 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=208458 A descoberta de um gigantesco depósito mineral na Cordilheira dos Andes pode reposicionar a Argentina como um novo protagonista mundial no setor de mineração.

Localizado na província de San Juan, o novo megadepósito de ouro, cobre e prata foi anunciado pela mineradora Vicuña, formada pela parceria entre as empresas BHP (Austrália) e Lundin Mining (Suécia/Canadá).

Este achado representa o maior depósito das últimas três décadas e tem o potencial de transformar a economia argentina, gerando novas perspectivas para o país, tanto no mercado global quanto regional.

O Depósito e Suas Dimensões

O depósito, que abrange os projetos Filo del Sol e Josemaría, estende-se além das fronteiras argentinas, alcançando a região chilena de Atacama. O anúncio revela a magnitude dos recursos minerais encontrados, com números que impressionam até os especialistas mais experientes da indústria:

Cobre:

Confirmado: 12,8 milhões de toneladas

Estimado: 25,1 milhões de toneladas

Ouro:

Confirmado: 32,2 milhões de onças

Estimado: 48,7 milhões de onças

Prata:

Confirmado: 659 milhões de onças

Estimado: 808 milhões de onças

Com mais de 80 milhões de onças de ouro e prata e dezenas de milhões de toneladas de cobre, o projeto se classifica entre os maiores da história moderna da mineração. Esses números colocam a Argentina em uma posição estratégica no mercado global de recursos minerais.

Impacto Econômico e Potencial para o Setor

A descoberta coloca a Argentina em um novo patamar no cenário global de mineração, ao lado de potências como Chile, Peru e Canadá.

Segundo o jornal Clarín, o país espera que, até o fim da próxima década, seja um dos 10 maiores produtores mundiais de cobre. Em 2023, o Chile, maior produtor de cobre atualmente, exportou cerca de US$ 50 bilhões em cobre, o que equivale a todo o setor agroindustrial da Argentina.

Com isso, a descoberta não só promete um impacto direto na balança comercial, mas também deve impulsionar a criação de milhares de empregos e contribuir para um aumento substancial da receita tributária do país.

A exploração de grandes quantidades de cobre e metais preciosos pode resultar em uma diversificação econômica significativa em um momento crítico para a economia argentina.

A Vicuña e o Futuro do Projeto

Dave Dicaire, gerente geral da Vicuña, afirmou em comunicado oficial que a descoberta amplia a base de recursos da empresa e fortalece sua posição estratégica na região andina. “Estamos em uma posição ótima para continuar avançando no desenvolvimento de um distrito minerador de grande potencial”, declarou.

O próximo passo será a elaboração de um relatório técnico integrado, que será finalizado no primeiro trimestre de 2026 e detalhará o plano de exploração, o cronograma de implementação e as projeções econômicas para o projeto.

A Vicuña reafirma seu compromisso com práticas de mineração sustentável, ressaltando a importância de respeitar as comunidades locais e o meio ambiente.

Desafios e Oportunidades Geopolíticas

A descoberta do depósito traz à tona questões geopolíticas, já que a região dos Andes é rica em minerais estratégicos vitais para setores como energia renovável, tecnologia e indústria de eletrônicos. Minerais como cobre, prata e ouro são essenciais para a fabricação de painéis solares, turbinas eólicas, baterias, microchips e outros componentes tecnológicos.

Especialistas acreditam que o projeto pode promover um reposicionamento geopolítico da Argentina, ao atrair investimentos internacionais e ampliar sua participação nas cadeias globais de fornecimento de recursos naturais.

Além disso, a descoberta coloca a Argentina em uma posição de maior relevância para acordos bilaterais com países ricos em recursos naturais, como Chile, Bolívia e Peru.

Sustentabilidade e Desafios Socioambientais

Apesar do grande potencial econômico, o projeto levanta questões sobre os impactos ambientais e sociais. A região da Cordilheira dos Andes abriga comunidades indígenas, ecossistemas sensíveis e áreas de reserva natural que exigem cuidados especiais.

A Vicuña afirmou que o projeto seguirá rigorosos protocolos ambientais internacionais e manterá um diálogo constante com as comunidades locais e autoridades argentinas para garantir que a mineração seja realizada de forma responsável e sustentável.

A empresa se comprometeu a adotar práticas de mineração moderna, limpa e inclusiva, com base em evidências científicas e no engajamento contínuo com a sociedade.

Impacto Regional e Expectativas

A descoberta tem implicações significativas não apenas para a Argentina, mas também para toda a América do Sul. O Chile, que compartilha parte da jazida, pode se beneficiar de parcerias bilaterais e operações integradas.

Já a Bolívia e o Peru, outros países ricos em recursos minerais, observam atentamente os desenvolvimentos, uma vez que o projeto pode levar a novos investimentos e ajustes nas políticas regionais.

Além disso, a descoberta tem o potencial de impulsionar a infraestrutura logística da Argentina, modernizar o setor mineral e criar polos de tecnologia de mineração.

A exploração do depósito também pode resultar em reformas regulatórias e ambientais que tornem o país mais atrativo para investimentos estrangeiros.

Conclusão

A descoberta do maior depósito de ouro, cobre e prata dos últimos 30 anos na Argentina representa um marco não apenas para o setor de mineração, mas para a economia do país como um todo.

Com recursos minerais de dimensões excepcionais, a Argentina se posiciona como uma potência emergente no mercado global de mineração.

Contudo, a verdadeira medida de seu sucesso dependerá da capacidade do governo, das empresas e das comunidades locais de equilibrar o desenvolvimento econômico com a preservação ambiental e o bem-estar social.

A província de San Juan, onde o depósito foi encontrado, certamente verá um novo papel global na mineração, com efeitos que reverberarão por toda a América do Sul.

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A ofensiva discursiva de Milei contra o jornalismo: acusações, desinformação e tensão institucional https://www.ocafezinho.com/2025/05/02/a-ofensiva-discursiva-de-milei-contra-o-jornalismo-acusacoes-desinformacao-e-tensao-institucional/ https://www.ocafezinho.com/2025/05/02/a-ofensiva-discursiva-de-milei-contra-o-jornalismo-acusacoes-desinformacao-e-tensao-institucional/#respond Fri, 02 May 2025 11:56:24 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=207819

Em mais um ataque retórico que já não surpreende, mas continua preocupando, o presidente argentino Javier Milei intensificou seu confronto com a imprensa por meio de uma série de publicações nas redes sociais, nas quais lançou acusações infundadas e fez ataques pessoais. O chefe de Estado não apenas reafirmou sua tese de que jornalistas “treinam” para provocar entrevistados, como também chegou a sugerir que deveriam ser ainda mais “odiados” pela sociedade.

Durante o Dia do Trabalhador, Milei elevou o tom. Em sua conta oficial na rede X (antigo Twitter), publicou uma enxurrada de perguntas retóricas para justificar a atitude de seu assessor Santiago Caputo, que dias antes havia intimidado um repórter fotográfico antes de um debate eleitoral. O presidente insinuou que jornalistas perseguem, assediam, empurram com microfones e até invadem a privacidade de figuras públicas com drones e luzes potentes, com o objetivo de agredir ou expor.

“É lícito que jornalistas usem drones na casa de uma pessoa? É lícito que mintam, caluniem e difamem sem permitir defesa?”, escreveu. E concluiu: “Por isso odeiam as redes sociais. Hoje não podem extorquir nem chantagear. Suas receitas caem e por isso batem”.

Sem apresentar provas ou dados verificáveis, Milei compartilhou a imagem de uma suposta cartilha de “treinamento” jornalístico, onde se ensinaria a “empurrar, pisar e até cuspir” propositalmente para provocar uma reação do entrevistado. A imagem serviu de gatilho para uma nova rodada de acusações, com a repetição de uma frase que se tornou frequente em seu discurso: “Não odiamos o suficiente os jornalistas”.

A resposta de profissionais da comunicação foi rápida. Fontes de instituições acadêmicas ligadas ao ensino de jornalismo, assim como representantes do setor midiático, desmentiram categoricamente a existência de tais práticas. Explicaram que o chamado media training, ao qual Milei se refere, não é voltado para jornalistas, mas sim para autoridades, dirigentes ou porta-vozes — com o objetivo de prepará-los para entrevistas, e não de estimular hostilidade.

O ataque também tem nomes. Milei passou a apontar diretamente comunicadores como Diego Brancatelli, Nacho Girón e Paulino Rodríguez, numa estratégia de personalização que busca criar inimigos visíveis para sua narrativa. Esses ataques elevaram o alerta em organizações que atuam em defesa da liberdade de imprensa.

Tanto o Foro de Periodismo Argentino (FOPEA) quanto a Associação de Entidades Jornalísticas Argentinas (ADEPA) expressaram preocupação com o progressivo enfraquecimento das garantias institucionais para o exercício livre do jornalismo no país. Em notas públicas, destacaram o efeito intimidador desse tipo de retórica, que atinge não só jornalistas, mas a qualidade democrática como um todo.

Embora Milei se diga vítima de uma suposta conspiração midiática, seu discurso parece mais voltado a enfraquecer os contrapesos críticos do que a resolver problemas concretos. Em um contexto econômico e social frágil — com mais de 200 mil pessoas desempregadas em La Plata e na Grande La Plata, segundo o último levantamento do INDEC —, o confronto permanente com a imprensa se revela mais como uma manobra de distração do que como política de governo.


2 de maio de 2025
Fonte: Infoplatense

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Intimidação a jornalista expõe assessor poderoso de Milei https://www.ocafezinho.com/2025/05/02/intimidacao-a-jornalista-expoe-assessor-poderoso-de-milei/ https://www.ocafezinho.com/2025/05/02/intimidacao-a-jornalista-expoe-assessor-poderoso-de-milei/#respond Fri, 02 May 2025 11:54:25 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=207815

Depois de Javier e Karina Milei, a figura mais poderosa do governo argentino é Santiago Caputo, assessor presidencial sem cargo formal no Executivo. Ao longo do primeiro ano da administração ultraliberal, Caputo, de 39 anos, construiu a imagem de estrategista oculto, um “monge negro” nos bastidores do poder. Nas últimas semanas, no entanto, passou a protagonizar episódios que o colocaram sob os holofotes. O mais recente ocorreu na noite de terça-feira, quando intimidou um fotógrafo durante um ato público. O episódio gerou denúncias e repúdio de entidades sindicais e de direitos humanos. Javier Milei saiu em sua defesa nas redes sociais, repetindo a frase que se tornou seu bordão: “O povo ainda não odeia o suficiente os jornalistas”.

Na ocasião, realizava-se em Buenos Aires um debate televisivo entre os candidatos às eleições legislativas de 18 de maio, consideradas chave para Milei. Em disputa com o ex-presidente Mauricio Macri, Milei aposta no seu porta-voz, Manuel Adorni, como candidato no reduto eleitoral macrista. Para apoiá-lo, Caputo foi até os estúdios de TV onde ocorreria o debate.

Enquanto aguardava para entrar, o assessor — integrante do “triângulo de ferro” do governo, como o próprio Milei define — foi cercado por jornalistas. O fotógrafo Antonio Becerra, do jornal Tiempo Argentino, o fotografou a curta distância, enquanto outros profissionais registravam o momento de longe. Caputo se irritou. Primeiro, colocou a mão na frente da câmera. “Não tire fotos minhas (…) Você está sendo desrespeitoso”, teria dito. Em seguida, pegou o crachá de imprensa de Becerra, leu e tirou uma foto com seu celular.

Caputo, que controla tanto a Secretaria de Inteligência do Estado (SIDE) quanto a agência arrecadadora ARCA, já havia sido denunciado em março por ameaçar o deputado opositor Facundo Manes. Segundo Manes, ao fim da abertura das sessões parlamentares, Caputo lhe disse: “Vou jogar o Estado inteiro contra você”. O deputado denunciou o assessor à Justiça por ameaça coativa. Nesta quarta-feira, Manes ampliou a denúncia, incluindo a intimidação ao fotógrafo.

Em nota, a Anistia Internacional denunciou o ocorrido: “Num contexto de ataques permanentes à imprensa crítica, e em um país cujo presidente repete quase diariamente que o povo ‘não odeia o suficiente os jornalistas’, o assessor presidencial Santiago Caputo intimida deliberadamente um repórter fotográfico por ter tirado uma foto sua, credenciado e em ato público”. O Foro de Periodismo Argentino (FOPEA) também repudiou “a atitude intimidatória” do assessor.

A Faculdade de Jornalismo da Universidade Nacional de La Plata classificou o episódio como “um ato de intimidação de extrema gravidade”, que atenta contra “o livre exercício do jornalismo”. A instituição alertou que “essas tentativas de intimidação contra trabalhadores da comunicação não apenas ferem a liberdade de imprensa, mas também criam um precedente perigoso para a convivência democrática”. Lembrou ainda que, dias atrás, o jornalista crítico do governo Roberto Navarro foi agredido por um desconhecido e que o fotógrafo Pablo Grillo permanece internado após ser ferido pela polícia durante uma operação repressiva ordenada pelo Executivo.

O governo reagiu com uma defesa cerrada de Caputo. O porta-voz da Casa Rosada, Adorni, tentou justificar o episódio dizendo que Caputo só queria ver “se tinha saído bem na foto”. Já Milei usou suas redes para compartilhar mensagens de apoio ao assessor, inclusive de aliados como Agustín Laje, que escreveu: “Como é que funciona? Os jornalistas podem enfiar uma câmera na sua cara e te importunar enquanto você conversa com alguém, mas você não pode tirar uma foto deles? Eles se acham acima de tudo e de todos”.

Na quarta-feira, o presidente continuou sua ofensiva contra os “jornalistas ensobrados” (supostamente subornados), afirmando que “os jornalistas que choram ataque à liberdade de expressão são a escória mais imunda do jornalismo que quer mentir com total impunidade”. Como já tem feito em diversas ocasiões, repetiu: “Não odiamos o suficiente os jornalistas”.

Javier Lorca
Javier Lorca é jornalista especializado em política e direitos humanos, colaborador de diversos veículos na Argentina.
1º de maio de 2025
El País

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Argentina se articula para colocar base militar dos EUA no sul do país https://www.ocafezinho.com/2025/04/29/argentina-se-articula-para-colocar-base-militar-dos-eua-no-sul-do-pais/ https://www.ocafezinho.com/2025/04/29/argentina-se-articula-para-colocar-base-militar-dos-eua-no-sul-do-pais/#respond Tue, 29 Apr 2025 13:04:33 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=207749 O almirante Alvin Holsey, novo comandante do Comando Sul dos Estados Unidos, iniciou nesta semana uma visita à cidade de Ushuaia, no extremo sul da Argentina.

A viagem faz parte de um esforço conjunto com o governo argentino para consolidar o projeto de uma base naval conjunta na região, segundo informações da agência Sputnik.

A iniciativa prevê a instalação de uma base militar na Base Naval Austral, localizada no canal de Beagle. A área é considerada estratégica por conectar os oceanos Atlântico e Pacífico, além de servir como ponto de apoio logístico para missões com destino à Antártica.

A agenda do almirante Holsey rompe com o padrão de autoridades estrangeiras que normalmente concentram compromissos em Buenos Aires.

A presença do militar em Ushuaia ocorre quase um ano após a visita da então comandante do Comando Sul, Laura Richardson, que esteve no mesmo local em abril de 2024, acompanhada pelo presidente argentino Javier Milei. Na ocasião, foi anunciada a intenção de desenvolver uma base militar bilateral.

Luciano Anzelini, doutor em Ciências Sociais, avalia que a visita de Holsey representa um avanço na consolidação do projeto.

Segundo ele, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos passou a considerar regiões antes negligenciadas, como o Ártico e a Antártica, em seus documentos estratégicos.

“O Atlântico Sul, a projeção antártica e a natureza bioceânica da região desempenham um papel cada vez mais relevante, especialmente no contexto da disputa global com a China”, afirmou.

Anzelini observa que a atuação dos Estados Unidos na região está inserida em uma lógica geopolítica de contenção da influência chinesa no Cone Sul. Ele aponta que a Argentina, em função de sua situação econômica, tem se alinhado aos interesses norte-americanos.

Apesar das declarações oficiais, o projeto da base naval ainda não teve obras iniciadas. Moisés Solorza, analista internacional radicado em Ushuaia, afirma que quase um ano após o anúncio conjunto, não há registros de atividades de construção na Base Naval Austral. Ele atribui a paralisação aos cortes orçamentários realizados pelo governo Milei em projetos de infraestrutura.

Solorza também menciona a presença de empresas dos Estados Unidos na região, destacando a instalação de um radar pela empresa LeoLabs em 2023, na cidade de Tolhuin, próxima a Ushuaia.

A empresa é apontada por especialistas como potencial fornecedora de informações estratégicas para os governos norte-americano e britânico.

Além da atuação dos Estados Unidos, há registros de movimentações militares de países europeus na região. Solorza cita exercícios com armamentos reais e drones conduzidos pelas Forças Armadas do Reino Unido nas Ilhas Malvinas.

Também menciona um novo acordo de cooperação entre os governos do Chile e do Reino Unido para o desenvolvimento da indústria naval no sul chileno, considerado parte de uma disputa mais ampla pelo controle da área austral.

O canal de Beagle, onde está localizada a Base Naval Austral, é historicamente uma zona de interesse estratégico. Além de sua importância logística para operações marítimas, a região é considerada sensível do ponto de vista político por envolver disputas históricas entre países sul-americanos e a presença de bases militares de potências externas.

A atuação do Comando Sul dos Estados Unidos na América do Sul tem sido objeto de análises por parte de centros de pesquisa e observadores internacionais, que acompanham a crescente militarização de áreas remotas.

A visita do almirante Holsey é vista como parte desse contexto, marcado pela reconfiguração das alianças estratégicas no hemisfério sul e pelo reposicionamento dos Estados Unidos em regiões que ganham destaque em disputas globais.

A visita ocorre em um momento de redefinição das prioridades externas do governo argentino. Desde a posse de Javier Milei, a política externa do país tem se aproximado dos Estados Unidos em diferentes frentes, incluindo segurança, comércio e cooperação militar.

A instalação da base em Ushuaia, se concretizada, poderá representar um marco na ampliação da presença norte-americana na região. A proposta ainda depende de negociações técnicas e orçamentárias, além de eventuais autorizações legislativas.

Enquanto os planos seguem em fase preliminar, analistas acompanham o impacto político e geoestratégico da iniciativa para os países do Cone Sul e para o equilíbrio regional diante da crescente presença de atores como China e Reino Unido em áreas de interesse no sul do continente.

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