Arpeggio - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/arpeggio/ Portal de noticias e análises sobre política brasileira, geopolítica, economia, tecnologia, sempre numa perspectiva democrática, progressista, anti-imperialista e multipolar! Wed, 20 Jun 2018 00:54:53 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://controle.ocafezinho.com/wp-content/uploads/2015/10/cropped-Logo_Cafezinho_tmb-32x32.png Arpeggio - O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/arpeggio/ 32 32 Os tiros e os votos na Babilônia fluminense (e nacional) https://www.ocafezinho.com/2018/06/19/os-tiros-e-os-votos-na-babilonia-carioca/ https://www.ocafezinho.com/2018/06/19/os-tiros-e-os-votos-na-babilonia-carioca/#comments Tue, 19 Jun 2018 20:54:14 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=86682 8 Comentários 🔥]]> O sábado que passou foi um dia nublado no Leme.

Depois da série interminável de guerras entre facções, ou entre bandidos e polícia, que estouraram nos morros do bairro – Babilônia e Cerro Corá – nos últimos meses, e com mais intensidade nos últimos dias, a ponto de obrigar a prefeitura a fechar o Pão de Açúcar por algumas horas, o Leme parecia calmo e cansado.

O Fiorentina estaria vazio não fosse a equipe do cineasta Domingos de Oliveira, que ocupava desordenadamente, em meio às parafernálias de filmagem, metade da parte externa do restaurante. Oliveira e outros assistiam, num monitor improvisado, as cenas filmadas naquele dia.

Sentamo-nos do outro lado, pedimos taças de vinho branco, ajeitamos nossa cachorrinha em seu tapete, e logo apareceu, sozinho, adesivo #Lulalivre colado na camisa, Leonardo Giordano, candidato a governador pelo PCdoB.

Julio Cesar, na peça de Shakespeare, diz a seu amigo, Marco Antonio, que “a meu lado, só quero gente gorda, pessoas de cabelos luzidios, que durmam toda a noite. Aquele Cássio é magro demais. Passa uma imagem de fome, de quem pensa muito. É um indivíduo perigoso”.

Leonardo é magro como Cássio, mas o olhar calmo e a fala suave não passam imagem de pessoa perigosa. Parece antes um jovem sério e bem comportado, o que imagino que seja mesmo, e foi com essa imagem que ganhou eleições para vereador em Niteroi por duas vezes consecutivas, em 2012 pelo PT, com 2.867 votos, e em 2016 pelo PCdoB, com 3.393 votos. Vinha de Nova Iguaçu, de uma atividade pela manhã com Jandira Feghali, e logo mais teria de sair para uma outra, em Resende, no interior do estado.

Segundo ele, sua principal missão como candidato ao governo será denunciar a “intervenção federal financeira” no Rio de Janeiro. Leonardo lembra que uma comissão tripartite, formada por um membro do TCU, um do governo federal e um do governo estadual, decidem sobre todas as despesas relevantes no estado e, portanto, controlam politicamente o Rio. Como dois membros são ligados ao governo federal, o Rio perdeu completamente sua autonomia financeira. Está sendo comandado de Brasília. O quadro se agrava quando pensamos na intervenção federal na segurança pública fluminense, que segue um decreto igualmente abrangente, que submete a estrutura inteira do governo estadual ao comando do militar nomeado por Temer para chefiar a intervenção.

Militante disciplinado, o vereador tem consciência que sua candidatura ao governo do estado é uma peça num tabuleiro maior de xadrez. Conversamos sobre os outros candidatos do campo progressista. Temos Pedro Fernandes, do PDT, e agora Marcia Tiburi, do PT.

Pedro Fernandes, filiado recentemente ao PDT, é deputado estadual, eleito em 2014 (pelo Solidariedade) com 75.366 votos.

Marcia Tiburi, filósofa e escritora, disputa pela primeira vez um cargo político.

Apesar de todas as forças progressistas estarem conversando abertamente sobre aliança no estado, o flerte mais explícito, até o momento, acontece entre PCdoB e PDT, estimulado pelo namoro entre os dois partidos a nível nacional. Além disso, Leonardo Giordano tem fortes ligações com o prefeito de Niteroi, Rodrigo Neves, do PDT, coordenador da campanha de Ciro Gomes no estado. Ambos, Leonardo e Rodrigo, se elegeram pela primeira vez pelo PT em 2012, o primeiro como vereador, o segundo como prefeito. Leonardo migrou para o PCdoB em 2015. Pouco antes, Neves já tinha ido para o PV, por onde se reelegeu em 2016. A vinda de Neves para o PDT é recente, de dezembro de 2017.

Leonardo passou por algumas funções importantes na prefeitura de Neves, e hoje integra a base de apoio a sua administração.

Marcia Tiburi pode ajudar o PT a reconquistar setores da intelectualidade e da classe média, mas uma candidatura com perspectivas reais de vitória, ou mesmo de atingir o segundo turno, só poderia acontecer se for possível a construção de uma aliança ampla e plural do campo progressista, reunindo PT, PCdoB, PDT, PSB e PSOL. Com essa aliança, um candidato progressista tem chance. Sem ela, não tem. Espere-se que a esquerda fluminense, assim como a nacional, tenham juízo.

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Lava Jato infinita

Hoje, terça-feira, após uma caminhada na orla, decidi me arriscar e comprar a Folha. A proximidade das eleições e um certo desgaste da Lava Jato fizeram o jornal puxar o freio da insuportável agenda lavajateira. O recuo, no entanto, não significa muita coisa. Na página 8, um terço da página é dedicado a uma busca recente nas celas onde estão presos alguns políticos importantes, como Luiz Estevão, José Dirceu e Geddel, e na qual foram descobertos coisas terríveis como chocolates e um caderno de notas. A reportagem serve para lembrar que a Lava Jato pode descansar um dia ou dois, mas é ela que continua dando as cartas na política brasileira.

Na mesma página, há uma nota sobre nova condenação, desta vez pelo “mensalão tucano”, de Marcos Valério e dos publicitários Cristiano Paz e Ramon Hollerbach, todos já presos pelo “mensalão petista”. As penas fazem jus aos tempos lavajateiros que vivemos: exageradas. Os três foram condenados a 16 anos em regime fechado. O caso desses três, tanto no mensalão petista quanto no tucano, é escandalosamente político: serviram como bodes expiatórios.

Os partidos de esquerda tem a mania, compreensível mas equivocada, de se insurgirem apenas contra injustiças cometidas por políticos de seu próprio campo. Hoje, por exemplo, a presidenta do PT, Gleisi Hoffmann, estará sendo julgada pelo STF por uma denúncia exclusivamente baseada em delações, e ainda por cima contraditórias.

Os arbítrios judiciais do tipo lavajateiro, no entanto, ganharam muita força a partir do processo do mensalão, que criou nova jurisprudência. Tanto é assim que Lula foi condenado em segunda instância pelo TRF4 com argumentos baseados, essencialmente, em decisões anteriores do STF no julgamento da Ação Penal 470. Todas as bizarrias do julgamento do mensalão foram incrementadas e ampliadas na Lava Jato, quando o arbítrio judicial atingiu o estado de arte atual, em que se pode condenar alguém a penas severíssimas com base apenas em teorias mirabolantes inventadas por procuradores midiáticos.

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Na Folha, lideranças do movimento negro defendem Ciro Gomes

A Folha deu nota de capa para Holiday, o vereador chapado de “capitão do mato” por Ciro Gomes, durante sua entrevista à Jovem Pan. A matéria, na página 7, apesar do título, é positiva para o candidato, porque os dois entrevistados, duas lideranças do movimento negro, posicionaram-se criticamente a… Fernando Holiday.

Trecho:

Já o Ailton Santos, ativista e membro do Comitê contra o Genocídio da População Pobre, Preta e Periférica, foi mais enfático na crítica ao vereador do DEM e viu procedência na analogia de Ciro.

“De uma certa forma [o Ciro] tem razão, porque [Holiday] vem fazendo um papel bem similar ao que o capitão do mato fazia, isto é, defendia os interesses dos senhores, e hoje o vereador representa uma bandeira conservadora. A única ressalva é que o capitão do mato não tinha tantos privilégios que o vereador tem”, afirmou.

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Muita calma nessa hora

Ciro Gomes parece ter começado a semana mais fleumático do que o seu habitual. Depois da entrevista polêmica na Jovem Pan, o pedetista passou por maus bocados durante conferência em Minas Gerais. Irritou-se com o apresentador e parte da plateia e saiu antes de terminar o seu tempo. Aparentemente, a direita já identificou o ponto fraco de Ciro, o seu temperamento, e ligou sua máquina de difamação e destruição de reputação. O candidato tem de respirar fundo e não cair na pilha.

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No Painel da Folha, o destaque vem para a aproximação entre PSDB e PMDB. As duas legendas, juntas, terão o dobro da verba partidária do PT, legenda que lidera este ano, tanto em recurso partidário como em tempo de TV.

O TSE divulgou há pouco quanto cada partido vai receber este ano.

É uma grata ironia do destino que o PT, após o massacre midiático que sofreu nos últimos anos, e que culminou no golpe de 2016, seja hoje a legenda com mais recursos de tempo e dinheiro para fazer sua campanha. Isso possibilitará ao partido fazer um ataque duro contra as forças que derrubaram o governo Dilma.

Uma pena que, ainda segundo a Folha, os dirigentes do PT pareçam mais dispostos, por enquanto, a jogar duro contra um parceiro do “mesmo campo” (nas palavras de Lula), como Ciro Gomes, ao invés de se articularem para derrotar a direita fascista e neoliberal.

Uma briga entre PT e PDT, gratuita, com base puramente no mais baixo cálculo eleitoral, geraria um desperdício de recursos irracional, com derrota para todo o campo progressista. Caso a notícia da Folha seja verdadeira, o PT não apenas estaria sendo o principal estorvo à construção de uma ampla aliança do campo progressista, como  trabalhando diretamente contra qualquer possibilidade de aliança. Isso poderia resultar em fraturas difíceis de lidar, tanto num eventual segundo turno quando no exercício do governo. Mas essas notinhas de jornal sempre trazem muita intriga, e devemos lê-las sempre com pé atrás.

Quanto a disputa pelo PSB, a pressão petista pode, de fato, neutralizar a aliança com Ciro Gomes, mas dificilmente convencerá o partido a se aliar ao PT, porque as diferenças entre as duas legendas ainda é muito forte. O PDT, no entanto, poderia servir de “elo” entre PSB e PT.

Juntos, PT, PSB, PDT e PCdoB seriam líderes isolados em tempo de TV e recursos. Vamos torcer para que ainda reste algum juízo na cabeça dos dirigentes.

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A Folha, apesar de estampar, na capa, uma notícia trágica para o país, e que mostra, com uma contundência dramática, o fracasso do golpe, joga-a para o caderno de Cotidiano, pouco lido, sem fazer nenhuma menção aos responsáveis no governo por esse descalabro.

A notícia fala sobre a queda abrupta dos índice de vacinação infantil, para o patamar mais baixo em 16 anos. É para isso que Globo, Judiciário e um punhado de políticos sem escrúpulos deram o golpe? Para matar crianças?

A Globo, em seu Jornal Nacional, provavelmente fará a mesma coisa. Dará a notícia, se é que vai dar, mas sem cobrar duramente do governo uma resposta para essa tragédia.

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O Comandante do Exército, o general Villas Boas, está se encontrando com todos os candidatos a presidência da república. Ontem foi a vez de Ciro Gomes. É um momento para reiterar a importância de explicar aos militares o mal causado ao país pelas políticas e ideias neoliberais.

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À espera do Datafolha de domingo https://www.ocafezinho.com/2018/06/07/a-espera-do-datafolha-de-domingo/ https://www.ocafezinho.com/2018/06/07/a-espera-do-datafolha-de-domingo/#comments Thu, 07 Jun 2018 16:50:54 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=86423 72 Comentários 🔥]]> Começamos o dia com uma boa notícia. As movimentações em torno de uma possível candidatura “única” de direita foram abortadas por Marina Silva, pré-candidata pela Rede. Em entrevista a Jovem Pan, Marina descartou, com um lacônico “de jeito nenhum”, qualquer aliança com o PSDB.

FHC, preocupado com o desempenho declinante do nome de seu partido, Geraldo Alckmin, passou alguns dias tentando flertar com a candidata.

Como uma aliança entre Bolsonaro e Marina é impensável, a direita chegará ao pleito dividida.

A esquerda, aparentemente, também seguirá caminhos separados.

Entretanto, apesar das intrigas, sobretudo entre eleitores de Lula e Ciro, a esquerda tem uma unidade programática evidente.

PT, PDT, PCdo B e PSOL tem adotado uma linha extremamente parecida, centrada nos seguintes eixos: defesa de tributação progressiva, revogação da reforma trabalhista, aprofundamento de políticas de distribuição de renda, ampliação da participação direta da população, através do uso mais constante de plebiscitos e referendos, maior investimento em educação pública.

O eleitor vê isso e a tendência, natural e inevitável, será concentrar seus votos naquele no qual enxergar mais possibilidade de vitória.

As diferenças no momento não são propriamente programáticas ou estratégicas, e sim táticas.

Lula, o candidato do PT, principal líder de massas no país, está preso, o que obriga o partido a fazer a luta política pela via da justiça. Mesmo com poucas chances de conseguir registrar sua candidatura, o PT parece ter entendido o jogo da justiça política: mais importante do que ganhar juridicamente, é obter uma vitória na opinião pública.

A liderança de Lula nas pesquisas tem dado segurança ao partido de que está no caminho certo. Mesmo sem ser muito claro quanto a isso, o plano do PT vai se delineando na cabeça da opinião pública: levar a candidatura até o limite, e aí, na última hora, caso não consiga registrar sua candidatura, fazer uma grande mobilização social para denunciar mais esse golpe contra o direito democrático dos brasileiros, e aí indicar um outro nome, provavelmente do próprio PT.

O grande problema da estratégia petista é a ausência de um porta-voz da legenda nos debates, sabatinas, entrevistas dos quais outros candidatos vem participando. Nem tudo é pesquisa de intenção de voto. Ao avaliar uma campanha, é preciso medir o grau de penetração dos diferentes projetos junto aos núcleos formadores de opinião. Este é ponto com o qual o PT precisava se preocupar um pouco mais.

O PSOL segue firme e tranquilo com seu candidato Guilherme Boulos: a legenda não tem ambição real de ganhar a presidência, e sim ampliar a sua bancada no congresso federal e nos estados, e deve alcançar esse objetivo.

O PCdoB tem sinalizado constantemente o seu desejo de se unir numa aliança em torno de Ciro Gomes, mas tem dificuldades de fazer esse movimento sem produzir atrito com setores do PT, que não escondem o “ciúmes” que um tal gesto lhes causaria.

Ciro Gomes e o PDT, por sua vez, seguem fazendo uma campanha intensa, centrada num discurso firmemente ancorado à esquerda, sempre com referências ao “golpe de Estado” e à necessidade de uma tributação fortemente progressiva. A participação de Ciro no Roda Viva, por exemplo, alcançou níveis muito altos de audiência: o vídeo completo no Facebook atingiu quase 1 milhão de visualizações, número só comparável aos 1,3 milhão de Sergio Moro, que já está no ar há muito mais tempo. O vídeo de Guilherme Boulos, que teve um desempenho muito bom no Roda Viva, atingiu 536 mil visualizações.

No Youtube do Roda Viva, a participação de Ciro obteve 947 mil visualizações, com uma semana de exposição, contra 674 mil de Boulos, com quatro semanas, e 162 mil visualizações de Marina Silva, com 1 mês.

Há uma tendência curiosa, de qualquer forma, por parte da imprensa tradicional e de seus satélites, de pressionar o PT com perguntas em relação à possibilidade de aliança com Ciro Gomes. Dado que o PT e Lula já se manifestaram repetidamente sobre a questão, as perguntas soam quase como uma provocação, como se a imprensa quisesse ouvir, novamente, um refrão agradável a seus ouvidos.

O PT, como sempre desastrado e ingênuo em sua relação com a grande imprensa, continua caindo em todas as armadilhas que se lhe oferecem, em geral preparada pelos jornalistas mais “próximos”: Monica Bergamo, da Folha e Bernardo Mello Franco, do Globo.

Ontem (ou anteontem), por exemplo, Frei Betto, ao sair de visita ao ex-presidente Lula, deu a seguinte declaração a Bernardo Mello Franco, seu companheiro de Globo (Betto é colunista no jornal):

— Ele deixou claro que não haverá acordo com o Ciro — conta o escritor.

Mais nada. O leitor não sabe o tom de voz de Lula, se ele se referia ao momento presente, ao primeiro turno, ao segundo turno.

A frase, dita assim, a seco, sem contextualização, permitiu aos setores mais isolacionistas do PT a carregarem nas tintas, usando as mesmas palavras do título do post de Bernardo no Globo: “Lula descarta apoiar Ciro, diz Frei Betto”.

Ainda ontem, o site Poder 360, o mesmo que publicou uma pesquisa amaldiçoada (com razão) pelos petistas por divulgar apenas um cenário sem Lula, entrevistou Ricardo Berzoini, importante quadro da burocracia petista.

A manchete é, mais uma vez, hostil a Ciro: “PT precisa conter migração de votos para Ciro Gomes, diz Berzoini”.

Todo petista é abordado insistentemente sobre esse ponto. Todo petista que sai de um encontro com Lula, a primeira pergunta que se lhe faz é sobre uma aliança com Ciro Gomes. Como o PT dá respostas negativas, até porque, ao que consta, já definiu a sua estratégia, a repetição tem um efeito antipático e desagregador.

É uma armadilha montada contra o PT, não contra Ciro Gomes, e o PT, como sempre, não está percebendo. É um tiro no pé.

Se o PT pára de falar em ampliar o seu eleitorado e passa a falar em “conter a migração de votos para Ciro Gomes”, ele dá mostras de insegurança. Eleitor não tem dono. Ele deve ser conquistado pelo projeto político. Ao usar tal linguagem para se referir ao eleitorado petista, Berzoini fala como um burocrata que pensa apenas no partido, não como um quadro político que pensa no bem comum e na grande luta, maior que todos nós, para restaurar a democracia perdida.

Ao mesmo tempo, Berzoini revelou a origem dos ataques “à esquerda” a Ciro Gomes: eles vem de (ou são chancelados por) setores da própria burocracia partidária. Como seria possível “conter” essa migração sem atacar Ciro? Isso, no entanto, confunde muito o eleitor, porque Ciro Gomes tem um discurso progressista muito firme. O PT é contra as propostas de Ciro? Não é. Como estes setores do PT não podem atacar o discurso, é preciso baixar o nível.

Os setores anticiristas da militância petista tem material escasso para atacar Ciro. Então eles são muito repetitivos. São sempre os mesmos pontos. Vamos comentá-los um a um:

1) Há um vídeo de Ciro, numa entrevista, criticando a relação de Lula com empresários. A extrema-direita, espertamente, tem divulgado muito esse vídeo, visando afastar o eleitorado lulista de Ciro. Olhe o compartilhamento abaixo, do referido vídeo, editado pelo grupo pró-Bolsonaro Movimento Popular Brasileiro, disseminado por uma internauta petista:

O comentário da pessoa que compartilha o vídeo é assim:

Canalha esse Ciro! Trai, calunia e difama até amigos se julgar que isso ajuda a atingir sua alucinação de ser presidente. Escroto, com todo o respeito pelo escroto.

Agora façamos a uma análise objetiva. As palavras de Ciro, embora infelizes, não trazem nenhuma acusação grave além das conhecidas críticas contra a relação próxima de Lula com empreiteiros. O vídeo é um trecho descontextualizado de uma entrevista de Ciro Gomes feita em novembro de 2015, no Espaço Público, da TV Brasil, cujo original está aqui.

Apesar do impeachment ser aprovado em abril de 2016, alguns meses antes, em novembro de 2015 tudo parecia sob controle. Dilma havia conseguido conter os principais ataques terroristas de Eduardo Cunha. Lula ainda não fora acusado de nada. Não era o Dom Sebastião de hoje, o mártir inatacável, o preso político símbolo do grau máximo de degradação da nossa democracia. Ainda era relativamente “seguro”, para alguém no campo progressista, fazer críticas a Lula, sobretudo às suas relações (e de alguns de seus filhos) com grandes empresários. Muitos outros intelectuais respeitados, que permanecem ao lado de Lula, como Pedro Serrano, fazem até hoje duras críticas a proximidade excessiva entre Lula e donos de empreiteiras. A minha opinião é de que os comentários de Ciro são, reitero, infelizes, mas só isso. O tratamento que alguns petistas hostis a Ciro tem dado a esse vídeo é obviamente exagerado. A maioria sequer presta atenção ao vídeo em si, e sim às descrições e títulos sensacionalistas: “Ciro detona Lula”, etc. Numa discussão no Twitter, um petista disse para mim que Ciro, nesse vídeo, chamou Lula e os filhos de “ladrões”, o que é simplesmente inverdade. No afã de intrigar Ciro, petistas chegam ao paroxismo de prejudicar o próprio Lula, inventando agressões e acusações contra o ex-presidente que jamais existiram.

2) Outros vídeos (quer dizer, trechos de vídeo) que os mesmos setores tem divulgado são conversas entre Ciro Gomes e Aécio Neves, e entrevistas de Ciro, na qual Ciro diz que Aécio daria um “bom candidato”, e que o PSDB era um partido “decente”.

O Partido da Causa Operária (PCO) fez um apanhado de trechos desses vídeo de Ciro, dessa mesma época:

O primeiro vídeo, em que Ciro aparece ao lado de Aécio, dizendo que o tucano daria um bom candidato em 2010, é de de julho de 2009. Tenho visto petistas divulgado esse trecho como se fosse a prova de que Ciro teria apoiado Aécio em 2014… Ciro tem apoiado o PT, em eleições presidenciais, no primeiro e segundo turno, desde 1989. Em 2010 e 2014, Ciro não apenas apoiou Dilma como integrou a coordenação de sua campanha (especialmente em 2010).

É preciso contextualizar esse vídeo de 2009. Desde 2007, Lula vinha “namorando Aécio”, com vistas a amaciar a oposição, e facilitar sua relação com o Congresso. Até que ponto era apenas mais uma das jogadas de Lula, saberemos apenas no dia em que Lula escrever suas memórias, mas o fato é que Lula havia dado uma entrevista, em 2007, em que sinalizava apoio à candidatura de Aécio em 2010. A entrevista provocou grande repercussão e Lula conseguiu o que queria: amansou a oposição.

Leia trecho dessa matéria, de outubro de 2007, publicada logo depois da tal entrevista de Lula.

15/10/2007 – 19h20
Aécio minimiza eventual apoio de Lula e diz que seu caminho é no PSDB

da Folha Online

O governador de Minas, Aécio Neves (PSDB), minimizou um eventual apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao seu nome nas eleições presidenciais de 2010. Em entrevista para a Folha, Lula admitiu a possibilidade de apoiar a candidatura de Aécio se o tucano migrasse para o PMDB.

Sem negar uma possível candidatura em 2010, Aécio disse que houve um exagero na repercussão da declaração do presidente Lula. “Eu li a entrevista, acho que há um pouco de exagero nisso. Agradeço a referência que o presidente faz, mas acredito que nós estaremos em condições de construirmos juntos, com a participação do Democratas, e de outras forças políticas, um grande projeto de país.”

Aécio descartou mudar para o PMDB ou para qualquer outro partido para disputar o pleito de 2010. “E eu, por mais que me sinta honrado com os convites que me têm sido feitos, meu caminho é no PSDB e nisso tenho sido absolutamente claro.”

Questionado se o apoio de Lula seria uma espécie de “afago” em troca de apoio à prorrogação da cobrança da CPMF, Aécio disse não ver relação entre os temas. “Acho que a CPMF é um problema hoje pelo governo, em razão não apenas pela demora do projeto chegar ao Senado da República, mas também por uma certa desarticulação política no Senado em razão de toda essa crise. Não vejo um vínculo direto entre uma coisa e outra.” (…)

Em 2009, Ciro ainda era um deputado federal pelo PSB, da base aliada do governo Lula. O PSB tinha apoiado a reeleição de Lula desde o primeiro turno, em 2006, e defendia o governo com lealdade no Congresso. Ciro tinha sido eleito, pelo Ceará, em 2006, com 667.830 votos, a maior votação em termos relativos do país, e a segunda maior em termos absolutos. Ciro foi um dos principais batalhadores pela prorrogação da CPMF, pela viabilização do PAC e da Transposição do Rio São Francisco.

Ciro fazia o jogo parlamentar. Cabia-lhe seguir a orientação de Lula e “amaciar” a oposição. Assim como Lula, ele conseguiu. Com apoio de sua base, Lula conseguiu governar com tranquilidade até 2010, quando saiu com popularidade recorde, entregando o poder para sua sucessora, Dilma Rousseff, numa eleição cuja campanha Ciro Gomes foi um dos principais coordenadores.

3) A acusação de ter vindo da Arena, por sua vez, não é inverídica. Era o partido de seu pai. Mas Ciro migra para o PMDB em 1983, com 26 anos, e durante toda a sua vida militará sempre em partidos de esquerda.

4) Sobre a mudança de partidos: todas as movimentações de Ciro foram sempre à esquerda. Seguindo o caminho oposto de figuras como Aloysio Nunes, Cristóvão Buarque, etc, desde a juventude, ele foi indo cada vez mais à esquerda. Sai da Arena com 26 anos para entrar o PMDB. Sai do PMDB, quando este se imobiliza ideologicamente e entra no PSDB, esperança de social-democracia. Sai do PSDB quando este adere ao neoliberalismo e migra, em 1997, para o PPS, antigo “partidão’, muitos anos antes deste se tornar uma legenda satélite do PSDB. Tanto que o PPS apoiará Lula no segundo turno de 2002 e Ciro Gomes se tornará ministro da Integração Nacional, durante todo o primeiro mandato do presidente Lula. Durante a crise do mensalão, Ciro Gomes se manterá como um dos mais leais e combativos defensores do governo.

Quando o PPS começa a se afastar do governo Lula, Ciro Gomes migra para o PSB, partido da base aliada do governo. Por fim, quando o PSB se afasta do PT e decide lançar a candidatura de Eduardo Campos, com uma plataforma conservadora, Ciro Gomes sai do partido, estaciona alguns meses no PROS e vai para o PDT, com objetivo de manter a coerência de sua trajetória e apoiar não apenas a eleição de Dilma mas também o seu governo.

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E agora o mundo político espera ansioso a divulgação dos números do Datafolha de domingo. Evito fazer “profecias”, apenas reitero que é preciso examinar as pesquisas sem demasiada paixão. Elas entram no cálculo das estratégias políticas, naturalmente, mas não podemos exagerar sua importância. É preciso olhar além delas: para a consolidação de conceitos e projetos das respectivas candidaturas, a penetração em diferentes setores, a presença nos núcleos formadores de opinião, a costura de alianças, tanto explícitas (já definidas) quanto implícitas (sugeridas ou sinalizadas).

Esse quadro, mais a pesquisa Datafolha, de longe a mais respeitada pelos partidos (apesar de já ter pisado na bola algumas vezes), permitirá ao jogo político-eleitoral se desenhar com mais clareza. O último Datafolha, de abril, ainda trazia o nome de Joaquim Barbosa, e ainda havia uma grande esperança de que Lula poderia ser solto pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e se candidatar. Hoje essa esperança é muito restrita a setores mais ingênuos da militância, e o eleitorado já começou a entender que precisa escolher um substituto, seja no PT, onde o nome de Haddad é mais forte, seja fora do PT, onde o eleitor lulista encontrará um leque amplo de opções: Boulos, Manuela, Ciro, Marina…

Segundo este último Datafolha, com entrevistas realizadas entre os dias 11 e 13 de abril, uma semana depois da prisão do ex-presidente, o quadro de intenções de voto era o seguinte (com Lula e sem Lula):

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“Você sabe que eu te vi no Gero” https://www.ocafezinho.com/2018/06/06/voce-sabe-que-eu-te-vi-no-gero/ https://www.ocafezinho.com/2018/06/06/voce-sabe-que-eu-te-vi-no-gero/#comments Wed, 06 Jun 2018 18:06:44 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=86387 6 Comentários 🔥]]>

Obrigado pela audiencia ininterupta desde Veneza. Para de xilique. Vc sabe que eu te vi no Gero @diogomainardi pic.twitter.com/swVxT8ztAH

— Rodrigo Tacla Duran (@TaclaDuran) 5 de junho de 2018

O depoimento de Rodrigo Tacla Duran, ex-advogado da Petrobras, cuja íntegra você pode assistir aqui, pode ter sido escondido pela grande mídia, pode ter tido repercussão apenas entre os blogs antihegemônicos. Mas existiu. Alguém viu. É mais uma sementinha plantada na consciência da opinião pública sobre o que é, de verdade, a Lava Jato.

A Lava Jato foi inteiramente montada em chantagens, tortura psicológica, delações forjadas e combinadas, em grandes esquemas que envolviam propinas milionárias para procuradores, advogados, juízes e para os próprios delatores.

Os dados da Odebrecht, que serviram para a Lava Jato alimentar a mídia, em todo o período que antecedeu o golpe (e que o preparou), com uma narrativa terrorista contra a classe política, com valores, apelidos, mensagens cifradas, foram sistematicamente fraudados e alterados por executivos da própria empresa, e com a cumplicidade do Ministério Público, sempre com objetivo de emparedar essa mesma classe política, empurrando-a fatalmente para a decisão que os grandes meios de comunicação apontavam: o golpe contra a presidenta Dilma.

Ainda não sabemos o grau de organização de todo o esquema golpista, mas já é possível ver com clareza  – e provas – a função da Lava Jato no processo.

Em algum momento da nossa história, e espero que não demore muito, a Lava Jato será vista como ela realmente é: a mais destrutiva, corrupta e antijurídica operação já vista no mundo.

Ao mesmo tempo, quanto mais fica evidente o caráter golpista, corrupto e imperialista da Lava Jato, mais dura deve ser a crítica que devemos fazer às escolhas do PT para o STF, para a PGR, à sua inadmissível omissão, ou mesmo cumplicidade, durante todo o tempo em que ocupou a presidência da república, em relação à degeneração política da burocracia dos aparelhos repressivos do Estado. A aprovação irresponsável de normas de exceção, antijurídicas,  estranhas a nossa própria Constituição, como a lei da Ficha Limpa, lei da Organização Criminosa e lei da Delação Premiada, revelou-se um erro trágico que se voltou contra toda a esquerda, contra o país e contra o próprio PT. A prisão ilegal do ex-presidente Lula, e a provável cassação de sua candidatura, são as  provas mais melancólicas de quão alto tem sido o preço desse erro. Não se trata apenas de uma autocrítica de ordem política, e sim de uma constatação que nos dê ferramentas analíticas para oferecer uma narrativa coerente, franca, que nos permita derrotar a monstruosa estrutura semiótica que serviu de esteio ao golpe.

Vale fazer um grande elogio aos deputados Wadih Damous (PT-RJ) e Paulo Pimenta (PT-RS), que trouxeram, pela segunda vez, o ex-advogado da Odebrecht, o terror de Sergio Moro, para depor no Congresso, e fizeram as intervenções mais responsáveis e inteligentes.

Coube à história, sempre ela!, produzir esta maravilhosa ironia: enquanto Sergio Moro participava de regabofes nababescos, plutocráticos, ao lado do príncipe de Mônaco, Tacla Duran depunha no Congresso Nacional do Brasil, expondo, mais uma vez, as entranhas podres, corruptas, da operação liderada pelo mesmo magistrado.

Os outros parlamentares petistas usaram mal o tempo de suas falas, desviaram do tema central, fizeram perguntas descabidas ao advogado e mais atrapalharam do que ajudaram.

Apesar do elogio a Wadih e Pimenta, vale também uma pequena crítica. Ambos repetiram, inacreditavelmente, o “hoax” de que Sergio Moro havia negado ouvir o advogado alegando desconhecer seu endereço. Moro nunca disse isso. Nos despachos em que nega à defesa de Lula o pedido para ouvir Tacla Duran, o juiz afirma, textualmente, que conhece sim, o endereço, mas que cabia à defesa o ônus de informá-lo. Era uma desculpa esfarrapada, naturalmente, assim como todas as outras justificativas que inventou para não ouvir o advogado, na contramão de todos os outros países onde a Lava Jato se infiltrou, que sentiram necessidade de ouvir a versão dele.

É certo que, mais tarde, um encaminhamento da justiça brasileira destinado a Tacla Duran não foi entregue porque, segundo alegou o servidor do governo espanhol encarregado de entregá-lo, o endereço estaria “incompleto”. Mas aí é um erro que não veio de Sergio Moro e, ademais, não foi sequer erro. O endereço estava completo sim. Por alguma razão, o tal servidor espanhol não se esforçou muito, neste caso e apenas neste caso, para encontrar Tacla Duran.

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O Atlas da Violência 2018, divulgado ontem pelo Ipea, revela que 910 mil pessoas foram assassinadas com armas de fogo de 1980 a 2016… É um número aproximado da quantidade de mortos na guerra do Vietnam, somando militares e civis, vietnamitas e americanos. Durante a II Guerra, a França, um dos países que mais sofreu no conflito, perdeu 600 mil cidadãos, somando civis e militares…

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O blog Poder 360, cuja pesquisa de intenção de voto que circulou muito ontem, divulgou hoje um gráfico sobre o candidato preferido, por todos os entrevistados (eleitores ou não de Lula), para herdar seus votos. Ciro Gomes vem em primeiro lugar, com 16%, seguido de Haddad, com 12%.

O gráfico estratificado traz algumas informações que merecem uma análise.

Reitero que não gosto do método da pesquisa do Poder 360. São telefonemas feitos por robôs, e as respostas me parecem, muitas vezes, incoerentes. Dados estratificados de pesquisas anteriores não tinham pé nem cabeça e eu já fiz críticas duras. Mas aparentemente eles melhoraram a ponderação, embora permaneçam muitas coisas estranhas.

A ausência de um cenário com Lula, por sua vez, é uma decisão que introduziu uma polêmica desgastante, e desnecessária, no debate político.

De qualquer forma, é uma pesquisa que está circulando muito por aí, então gostando ou não ela tem impacto na opinião pública.

O gráfico acima, sobre qual candidato deve ser o herdeiro de Lula, segundo o eleitor, deve ser cotejado com outro dado da mesma pesquisa, com a intenção de votos de cada candidato por região.

Na região nordeste, núcleo eleitoral de Lula, o líder da pesquisa já é Ciro Gomes, com 19% dos votos.

 

A última pesquisa Datafolha, feita entre os dias 11 a 13 de abril, ou seja, já depois da prisão do ex-presidente, trazia alguns números que ajudavam a visualizar ao potencial de transferência de votos de Lula para outros candidatos.

O cenário A do Datafolha, que não traz o nome de Lula, mostrava Marina Silva e Ciro Gomes liderando os votos no Nordeste, com 16% e 15%, respectivamente. A pesquisa ainda trazia o nome de Joaquim Barbosa, o que distorce os números. Haddad pontuava apenas 1% no Nordeste e 2% no cenário nacional.

A mesma pesquisa Datafolha trazia também uma tabela com a intenção de votos de cada candidato, num cenário sem Lula (situação A), segundo a preferência partidária. Os partidários do PT (quase todos eleitores de Lula) se dividiam, em sua maioria, entre Marina e Ciro Gomes.  Mas outros candidatos, mesmo os mais surpreendentes, também herdam votos do eleitor lulista. Até Bolsonaro, por exemplo, herda um pouquinho dos órfãos do PT.

A situação mais complicada para Lula é a sua alta rejeição em algumas categorias sociais e regiões, o que pode dificultar a vida de Fernando Haddad (provável escolha petista para substituir Lula) no Sudeste e entre eleitores de maior renda.

Segundo o mesmo Datafolha de 13 de abril de 2018, 30% dos entrevistados afirmaram que o apoio de Lula a um candidato o fariam apoiar esse candidato. Isso indica um excelente potencial de transferência de Lula. Mas, por outro lado, 52% afirmaram que “não votariam” num candidato apoiado por Lula. Na região Sudeste, o percentual dos que disseram que “não votariam” num candidato apoiado por Lula sobe para 62%. Entre eleitores que ganham de 2 a 5 salários, 23% afirmam que votariam “com certeza” no candidato apoiado por Lula, contra 58% que não votariam num candidato apoiado por ele.

Em faixas de renda superiores, a situação de Lula se deteriora ainda mais.

Essas características atrapalharão um pouco a desenvoltura comunicacional e a mobilidade social da campanha lulista: seu eleitorado está demasiadamente concentrado entre pessoas que ganham renda familiar inferior a 2 salários, que é um segmento da população que participa menos dos debates nas redes.

Entre pessoas com ensino superior, 65% responderam que não votariam num candidato apoiado por Lula. Isso significa que o “escolhido” por Lula deverá herdar muitos votos do ex-presidente, mas sofrerá igualmente o peso de sua rejeição, sobretudo no Sudeste e Sul.

Esses cálculos valem com mais força para o segundo turno, e poderão ser considerados, instintivamente pelos eleitores, e mais objetivamente pelos estrategistas eleitorais dos partidos, na hora de avaliar qual o candidato que melhor pode aproveitar a herança eleitoral de Lula, a saber, herdar com mais facilidade seus votos no nordeste, e ao mesmo tempo descolar de sua rejeição no Sudeste e no eleitorado que ganha mais de 2 salários (que formam um todo numérico maior que o eleitorado que ganha menos).

 

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A “intervenção federal” que o Rio precisa: mais emprego, transporte, saúde e educação https://www.ocafezinho.com/2018/02/16/intervencao-federal-que-o-rio-precisa-mais-emprego-transporte-saude-e-educacao/ https://www.ocafezinho.com/2018/02/16/intervencao-federal-que-o-rio-precisa-mais-emprego-transporte-saude-e-educacao/#comments Fri, 16 Feb 2018 14:55:21 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=83386 7 Comentários 🔥]]> O dia amanheceu hoje com um anúncio vindo de toda parte: o presidente Michel Temer, vulgo vampirão neoliberal, vai decretar uma espécie de Estado de Sítio para o Rio de Janeiro, ou, numa linguagem mais jornalística, irá promover uma “intervenção federal” na segurança pública do Estado, com uso do Exército.

É uma solução já manjada. Toda vez que o Rio enfrenta problemas no campo da segurança pública, o governo, a Globo e a classe média apavorada/manipulada chamam o Exército, cujos tanques de guerra se posicionam às portas das favelas, fazendo pose para o Jornal Nacional.

As estatísticas mostram, porém, que as taxas de criminalidade não diminuem com a presença do exército. Ao contrário, aumentam. Confira esse gráfico, publicado pelo jornal Extra ao final de agosto de 2017, após um mês de presença do exército no Rio.

Mesmo com a presença de quase 9 mil soldados no Rio, de 28 de julho de 2017 ao final de agosto, quase todas as taxas de crime aumentaram, e muito. O número de homicídios na capital, por exemplo, cresceu 27% em agosto de 2017, mesmo com a presença do exército.

A principal “ghost news” (aquelas notícias assustadoras que nunca aparecem na mídia) do Rio, na verdade, quando se trata do tema da segurança pública, são os números que se referem ao desempenho da economia.

Os efeitos Lava Jato continuam devastando a indústria fluminense. O quadro do desempenho da arrecadação fiscal, publicado no último boletim de conjuntura econômica fluminense, do Ceperj, mostra que a indústria, principal fonte de receita fiscal do estado, pagou 6% a menos de impostos em 2017.

Entretanto, é no indicador de emprego, em especial nos setores de derivados de petróleo e máquinas e equipamentos, que encontramos os dados mais assustadores, e que explicam o caos vivido pelo Rio. Confira abaixo os gráficos que fizemos, com base em números compilados pela Firjan.

Por “concidência”, as linhas começam a desabar com muita força exatamente a partir do início da operação Lava Jato, ou seja, em meados do primeiro trimestre de 2014, ou pouco depois, ganhando intensidade a partir de 2016, com o golpe, quando dois fatores destrutivos se juntam com o mesmo objetivo de arruinar o Estado e reduzir os investimentos: Lava Jato e governo Temer.

 

 

 

O Rio de Janeiro vive ainda um outro problema, também derivado da Lava Jato. A intervenção judicial no setor de transportes está produzindo um segundo foco de destruição na economia do estado.

A corrupção endêmica e terrível do setor de transportes, ao invés de ser combatida tendo como preocupação central a melhora dos serviços oferecidos ao cidadão, assim como não provocar desemprego e perda de arrecadação, foi tratada pelas autoridades do judiciário, como Marcelo Bretas, e do Ministério Público, com a mesma irresponsabilidade vista nas investigações comandadas por Sergio Moro. Como consequência de prisões sensacionalistas, arrestos de bens, bloqueio de contas, determinados sem cuidado, apenas para gerar manchetes na Globo, linhas de ônibus estão sendo interrompidas, funcionários estão sem pagamento e a arrecadação fiscal do setor está despencando. Alguém poderia falar: ah, mas você prefere que a corrupção continue? Claro que não. Essa estratégia ianque, todavia, de afundar o país achando que daí nascerá democracia, não deu certo no Iraque nem dará certo no Rio. É preciso bom senso, responsabilidade e respeito pelas empresas de áreas estratégicas, cujos serviços e bens pertencem ao cidadão e ao Estado, não a seus donos.  Se o Judiciário quer intervir numa empresa, então que determine sua estatização, ao invés de fazer bloqueios bancários que irão paralisar o serviço e suspender o pagamento de seus funcionários.

O transporte público no Rio vive o pior momento de sua história. Os cidadãos fluminenses experimentam, diariamente, situações desesperadoras. Investimentos pesados em transportes mais modernos e eficientes, em especial trens, metrôs e corredores especiais de ônibus, poderiam gerar milhões de empregos, elevar a produtividade econômica do estado, melhorar sua arrecadação e, sobretudo, aliviar as tensões sociais que tem gerado tanta violência.

A indústria de óleo e gás, por sua vez, precisa renascer. Mas isso é uma consequência direta do golpe. A paralisia e virtual suspensão da construção da refinaria em Itaboraí, a Comperj, exigida pela Lava Jato, destruiu a oportunidade mais real, em décadas, de libertação econômica da baixada fluminense.

Os anos que se seguiram à descoberta do pré-sal, quando a Petrobras começou a investir pesado em pesquisa, desenvolvimento e refino, foram o momento em que a baixada fluminense, uma das regiões mais miseráveis e violentas do país, chegou mais perto do sonho de se desenvolver com justiça social.

Mas o governo Temer e a Globo preferem botar tanques na rua.

A crise fiscal provocada pela Lava Jato tem paralisados os serviços públicos essenciais, como saúde e educação, gerando insegurança e desespero na população, elevando as tensões sociais, a pobreza, e criando um clima propício ao aumento da violência.

 

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Parabéns Lava Jato! Americanos passam a responder por 80% das importações brasileiras de diesel https://www.ocafezinho.com/2018/02/09/parabens-lava-jato-americanos-passam-responder-por-80-das-importacoes-brasileiras-de-diesel/ https://www.ocafezinho.com/2018/02/09/parabens-lava-jato-americanos-passam-responder-por-80-das-importacoes-brasileiras-de-diesel/#comments Fri, 09 Feb 2018 18:28:41 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=83288 77 Comentários 🔥]]> Se alguém quiser uma razão concreta para os Estados Unidos terem interferido na política brasileira, sobretudo através da influência sobre as operações judiciais que derrubaram a indústria nacional de óleo e gás, os números compilados pelo Cafezinho, com exclusividade, podem ser bastante úteis.

O óleo diesel, como já dissemos em outros posts, é o principal produto importado pelo Brasil. Há uma razão histórica para isso. O Brasil concentrou toda infra-estrutura de escoamento de sua produção em caminhões movidos a diesel. Foi uma opção economicamente equivocada, especialmente quando consideramos o tipo de produto exportado pelo país: produtos extremamente pesados, como minérios, soja, café, que exigem grande quantidade de conteineres para serem embarcados.

Atualmente, todavia, os esforços para implementar ferrovias são sabotados pelos próprios latifundiários, porque estes se tornaram donos das frotas de caminhões.

Segundo o sistema Alice, gerido pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, que monitora mensalmente os dados do comércio exterior, o Brasil importou mais de R$ 20 bilhões em óleo diesel nos últimos 12 meses até janeiro de 2018. Em dólar, este valor foi de US$ 6,09 bilhões, o que correspondeu a um aumento de 92% sobre o ano anterior.

Considerando todos os produtos, as importações brasileiras cresceram cerca de 10% nos 12 meses até janeiro, totalizando US$ 153 bilhões.

O óleo diesel teve uma participação, portanto, de 4% sobre todos os produtos importados pelo Brasil.

Em quantidade, a importação brasileira de oleo diesel nos últimos 12 meses totalizou 11,7 milhões de toneladas, um recorde histórico; deste total, os EUA forneceram 79% em 2017/18.

O brutal aumento da importação brasileira de óleo diesel apenas se explica pela decisão entreguista do governo Temer, sob pressão da Lava Jato, de paralisar a produção de nossas próprias refinarias. A bem da verdade, a paralisia do parque nacional de refino já vinha acontecendo desde 2014, com o início da operação Lava Jato, cujas ações, disseminando-se por todos os órgãos de controle, pareciam ter como objetivo exatamente esse: paralisar, suspender ou cancelar todos os projetos nacionais de ampliação da nossa capacidade de refino de petróleo.

O país fornecedor que mais se beneficiou, de longe, desse aumento da demanda brasileira por óleo diesel (e derivados de petróleo em geral) foi, naturalmente, os Estados Unidos.

Simultaneamente ao aumento da importação brasileira de óleo diesel, as refinarias norte-americanas começaram a aumentar, muito rapidamente, as suas vendas para o Brasil, ampliando seu market share.

A participação das refinarias norte-americanas na importação brasileira de oleo diesel passa de 42% há dois anos, antes do golpe, para quase 80%, nos últimos 12 meses.

As exportações norte-americanas de óleo diesel para o Brasil totalizaram 9,29 milhões de toneladas, nos últimos 12 meses, e geraram, para os EUA, quase US$ 5 bilhões, um aumento (em valor) de 101% sobre o ano anterior.

Sempre é bom lembrar que o juiz Sergio Moro, em 2015, rodava o país fazendo palestras em que dizia que os projetos de construção de refinaria no Brasil não eram uma boa ideia. Moro votava um ódio particular à Abreu e Lima, cuja construção a Lava Jato não conseguiu evitar, porque já estava adiantada quando a operação começou. A Lava Jato conseguiu apenas atrasar o máximo que pode o início de sua operacionalização. Em suas palestras, Moro dizia que delatores da Lava Jato lhe haviam dito que, segundo se comentava nos corredores da Petrobras, a Abreu e Lima “não se pagava”.

Bem, em cinco anos, o Brasil importou quase US$ 30 bilhões apenas em óleo diesel. Se somarmos o que gastamos na importação de gasolina, nafta, ureia e outros derivados de petróleo, esse número pode triplicar para US$ 90 bilhões, o que dava para construir uma dúzia de Abreus e Lima.

Somente as refinarias norte-americanas, e considerando somente a exportação de óleo diesel, ganharam cerca de 50 bilhões de reais do Brasil, nos últimos cinco anos.

Vale a pena financiar um golpe, não?

 

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Agência de “ghost checking” denuncia falta de notícias sobre socialismo https://www.ocafezinho.com/2018/01/15/agencia-de-ghost-checking-denuncia-falta-de-noticias-sobre-socialismo-no-mundo-desenvolvido/ https://www.ocafezinho.com/2018/01/15/agencia-de-ghost-checking-denuncia-falta-de-noticias-sobre-socialismo-no-mundo-desenvolvido/#comments Mon, 15 Jan 2018 16:58:41 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=82711 18 Comentários 🔥]]> Inauguramos hoje a nossa “Agência de Ghost Checking”!

Seu objetivo será identificar as principais “ghost news”, notícias fantasmas, a vagar por lugares escuros e que, às vezes, irrompem bruscamente na realidade, aterrorizando os incautos!

Uma das “ghost news” mais populares da grande mídia brasileira são notícias sobre realidades ou ideologias progressistas no mundo desenvolvido.

Ninguém no Brasil pode saber, por exemplo, que as tvs públicas sempre foram (e são até hoje) âncoras fundamentais do processo democrático em todas as nações industrializadas, incluindo nos Estados Unidos.

Ninguém no Brasil pode saber que, na Alemanha, os direitos de transmissão de campeonatos esportivos internacionais são sempre adquiridos pela ARD, a tv pública do país.

Entretanto, nenhuma ghost news é mais temida pela imprensa brasileira do que sondagens políticas que revelam tendências progressistas nas sociedades desenvolvidas.

Eu acho importante, então, a gente trazer à tôna esses números, até para combater um pessimismo exagerado que tomou conta de alguns analistas progressistas.

Vamos começar pelas pesquisas mais recentes. Em junho de 2017, o líder do Partido Trabalhista inglês (Labour Party), Jeremy Corbyn, não se torna primeiro-ministro do Reino Unido por um triz. O Labour Party recebeu uma votação surpreendente, ancorada essencialmente no voto da juventude, segundo o Yougov.

Entretanto, esses números não foram exatamente uma surpresa. Um ano antes, a mesma Yougov fez uma pesquisa para apurar a visão que americanos, ingleses e alemães tinham do socialismo.

A maioria dos alemães e ingleses tinham uma visão favorável, ao contrário do que sentiam sobre o capitalismo. Entre os americanos, apesar da visão desfavorável da maioria, notava-se uma divisão profunda entre as gerações.

 

 

Entre jovens americanos, os pesquisadores detectaram uma postura favorável bastante firme em relação ao socialismo, compatível ao nível encontrado na Inglaterra. Entre os jovens americanos até 30 anos, 43% tinham uma visão favorável ao socialismo, 17 pontos (saldo positivo líquido) acima dos 26% que responderam ter visão desfavorável.  Na comparação com a pesquisa anterior, feita em maio de 2015, houve um incremento substantivo do número de jovens que se declararam favoráveis ao socialismo. Naquela ocasião, o saldo positivo líquido do socialismo, entre jovens, havia sido de apenas 5 pontos.

 

 

 

A força do socialismo norte-americano já tinha se mostrado nas primárias do partido democrata, em 2016, quando o senador Bernie Sanders conquistou uma maioria esmagadora dos jovens eleitores. Uma matéria publicada no Washington Post em abril de 2016 informava que o senador, autodeclarado adepto do “socialismo democrático”, havia obtido, nas primárias daquele ano, mais votos da juventude do que os votos somados de Trump e Hillary!

Passada as eleições presidenciais norte-americanas, com a vitória de Trump, o prestígio de Bernie Sanders continua crescendo. As primeiras pesquisas de intenção de voto para 2020 já o colocam bem a frente de Trump, especialmente entre jovens, mulheres, liberais, negros, mais pobres e mais escolarizados (sic). Sim, o eleitorado de Trump é majoritariamente o cidadão branco, homem, classe média, com pouca escolaridade e vivendo na área rural.

Por exemplo, entre afro-americanos, Bernie Sanders tem 63% X 10% Trump.

Segundo uma outra pesquisa, o senador Bernie Sanders é, de longe, o político mais popular dos Estados Unidos, com 54% de aprovação positiva.

 

[A tabela acima foi corrigida às 16:52 de hoje, 15/01/27. O original está aqui.]

 

Para compreender as ideologias que dividem os cidadãos daquele país em liberais e conservadores, é preciso entender que, no glossário político norte-americano, o termo liberal é muito próximo do que entendemos aqui por “esquerda”, ao passo que “conservative”, ou conservador, é o que entendemos por direita.

O típico liberal americano, ao mesmo tempo em que apoia as minorias (imigrantes, negros, hispânicos, feministas), tem uma posição muito firme sobre a importância do Estado nas políticas de distribuição de renda e apoia a universalização pública e gratuita da saúde e da educação.

Segundo uma pesquisa do Pew, por exemplo, 85% dos americanos que se declaram “sólidos liberais” defendem políticas de assistência governamental aos mais pobres, mesmo que isso implique em endividamento público. Nada mais diferente do que os falsos “liberais” brasileiros, que na verdade não tem nada de liberais: são apenas conservadores!

Os mesmos eleitores que se declaram “liberais” são os que respondem favoravelmente a perguntas sobre o socialismo.

E isso não é de hoje.

Já em 2011, uma pesquisa do Pew Research Center mostrava que a maioria (49%) dos jovens norte-americanos tinham uma visão positiva do socialismo.

Repare que entre “liberais democratas”, ou seja, liberais do Partido Democrata, 59% responderam que tinham uma visão positiva do socialismo, contra 33% com visão negativa. Entre os negros, 55% afirmavam, em 2011, que eram favoráveis ao socialismo, o que reflete uma antiga aliança, nos Estados Unidos, entre os movimentos negros e os movimentos de esquerda.

Voltando ao Reino Unido, fizemos um quadro, baseado nos números do Yougov, de fevereiro de 2016, que  mostra com bastante clareza a força do socialismo no país.

No geral, há mais britânicos que se dizem socialistas (19%) do que capitalistas (16%). A maioria (48%), porém, prefere se afastar de ambos os rótulos.

Entre eleitores do Labour Party, 42% se declaram socialistas, contra apenas 4% que se dizem capitalistas, além de 36% que preferem nenhum rótulo.

Curiosamente, o saldo socialista entre mulheres é superior ao dos homens. Apesar de menos mulheres (16%) se declararem socialistas do que homens (22%), um número ainda menor dentre elas (apenas 10%)se declara capitalista, de maneira que o saldo vai para 6 pontos.

Na divisão por idade, o socialismo ganha em quase todas as faixas, com exceção daqueles com mais de 65 anos, onde se nota “empate técnico” (capitalistas 19 X 17 socialistas).

É interessante notar ainda que a Escócia é o principal bastião socialista britânico. Nessa região do país, 26% se declaram socialistas, contra apenas 8% que se dizem capitalistas.

 

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Caros juízes do TRF4, as leis não foram escritas para Lula. Foram escritas para vocês! https://www.ocafezinho.com/2018/01/12/caros-juizes-do-trf4-as-leis-nao-foram-escritas-para-lula-foram-escritas-para-voces/ https://www.ocafezinho.com/2018/01/12/caros-juizes-do-trf4-as-leis-nao-foram-escritas-para-lula-foram-escritas-para-voces/#comments Fri, 12 Jan 2018 11:57:01 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=82675 37 Comentários 🔥]]> (A ilustração acima é do artista Sama, parceiro do Cafezinho).

Relendo o Espírito das Leis, de Montesquieu, descobri uma coisa deveras interessante.

As leis humanas, desde ao menos o Código de Hamurabi, NÃO foram escritas com o objetivo de coibir crimes de roubo, corrupção, homicídio, etc.

Repetindo: NÃO foram escritas com este objetivo.

Esses crimes não precisam de leis, porque podem ser punidos pelos costumes.

Roubou? Matou? Tem que pagar pelo crime que cometeu. Não há necessidade de lei para isso. Os costumes dão conta.

A humanidade inteira sabe que roubar e matar é errado, e 99,9% nunca leu uma Constituição.

A humanidade não precisa de lei para punir o crime.

As leis nascem com outra finalidade.

Elas nascem para conter aquilo que os antigos já entendiam como o pior de todos os despotismos, que é entregar a vida de um cidadão, e de todo um povo, nas mãos de um burocrata investido das funções de juiz!

As leis foram inventadas e escritas para proteger os cidadãos da violência judicial!

Vou começar falando de Montesquieu. No livro 12 de sua obra-prima O Espírito das Leis, o francês observa que a liberdade política não pode se limitar a uma realidade abstrata constitucional. A liberdade política apenas se materializa, apenas é real, em sua relação com o cidadão. De que adianta viver numa república regida por leis democráticas, se os cidadãos estão submetidos aos arbítrios e caprichos de seus magistrados?

A liberdade do cidadão, ensina Montesquieu, apenas está assegurada quando a sua inocência não estiver ameaçada, em especial contra os “falsos testemunhos”.

Foi Carondas que introduziu os julgamentos contra os falsos testemunhos. Quando a inocência dos cidadãos não está garantida, a liberdade também não está.

Em todo o livro 12, que trata da relação entre liberdade política e leis criminais, Montesquieu insiste na necessidade de conter o arbítrio dos juízes e, sobretudo, dos falsos testemunhos.

No capítulo XX, o pensador observa que um dos maiores perigos que as democracias oferecem à liberdade dos cidadãos é falta de limites e regras nas acusações públicas.

Acontece muitas vezes nos Estados populares que as acusações sejam públicas e seja permitido a todo homem acusar quem quiser. Tal coisa fez com que se estabelecessem leis próprias para proteger a inocência dos cidadãos. Em Atenas, o acusador que não tivesse consigo a quinta parte dos sufrágios pagava multa de mil dracmas. Ésquines, que havia acusado Ctesifonte, foi condenado. Em Roma, o acusador injusto era considerado infame, e se imprimia a letra K na sua testa. Punham-se guardas junto ao acusador para que não pudesse corromper os juízes ou as testemunhas.

Alguns capítulos antes, Montesquieu já fazia um alerta contra os perigos da “delação premiada”, ao observar que o fim da liberdade política na grandiosa Roma não teve início com os Césares. Antes deles, os romanos já imaginavam leis que culminariam no despotismo.

Deve-se fazer justiça aos Césares; não foram os primeiros a imaginar as tristes leis que criaram. Foi Sila quem lhes ensinou que não se deviam castigar os caluniadores. Logo chegariam a ser até mesmo recompensados.

Em todo o volume, Montesquieu investe contra as punições excessivas, mesmo contra os mais graves crimes, como o de lesa-majestade, porque entendia que elas trariam instabilidade e violência à república, corromperiam os próprios juízes e, por fim, arruinariam a liberdade política de todos os cidadãos.

Como todo clássico, o Espírito das Leis parece falar às nossas agruras de hoje. O pensador investe diretamente contra o punitivismo histérico Lava Jato.

Não se podem realizar grandes punições, e por conseguinte, grandes mudanças, sem colocar entre as mãos de alguns cidadãos um grande poder. Logo, é melhor, neste caso, muito perdoar do que muito punir; pouco exilar do que muito exilar; deixar os bens do que multiplicar os confiscos. Sob o pretexto da vingança da república, seria estabelecida a tirania dos vingadores.

A luta humana contra a tirania, no entanto, remonta às origens mais remotas da nossa civilização.

Infelizmente, a vida é breve e, a cada geração, a humanidade precisa percorrer novamente todo o caminho trilhado desde o início dos tempos, e assimilar, em poucos anos, uma experiência milenar de luta contra o arbítrio.

Entretanto, em nenhum outro lugar, a tese central deste post fica mais clara, de que as leis foram criadas essencialmente para nos proteger dos arbítrios e violências judiciais, do que no Código de Hamurabi, uma das primeiras leis escritas do Ocidente, e que ajudou a promover uma maravilhosa estabilidade política durante a era babilônica, berço da cultura greco-judaica-cristã-persa-muçulmana (que alguns chamam, talvez com razão, de cultura ocidental).

A primeira lei do Código de Hamurabi, conforme tradução literal do francês para o português, feita por mim mesmo, vai direto ao ponto:

§ 1 Se um homem acusa outro homem e lhe imputa um homicídio, mas não pode trazer provas contra ele, o acusador será executado.

É uma interpretação jurídica impressionantemente moderna, porque desconsidera o fator metafísico ou moral da “culpa”. O que vale é a prova!

E impõe um rigor ético absoluto ao acusador: se ele não estiver sendo verdadeiro, então será ele que será sacrificado no altar da lei!

Tanto o zé do powerpoint quanto o carcereiro de Curitiba, se fossem agentes de justiça da Babilônia antiga, não sobreviveriam muito tempo a exigências tão rigorosamente democráticas!

As cinco primeiras leis do Hamurabi parecem ter sido escritas diretamente para Dallagnol, Sergio Moro, e os magistrados do TRF4.

Da primeira já falamos. A segunda lei é um texto meio complicado, meio esotérico, mas que, à luz da conjuntura brasileira, soa como uma metáfora política. É a seguinte: se alguém for acusado de magia, poderá se defender da seguinte forma. Irá se jogar no rio: se as águas o levarem, então a sua culpa estará provada. Neste caso, o seu patrimônio ficará com o acusador. Mas se não se afogar e voltar à terra são e salvo, então sua inocência terá sido atestada por Deus, então é o acusado que ficará com o patrimônio do acusador.

Como as acusações contra Lula, pela Lava Jato, tem muito de esotérico, e como a sua culpa e, sobretudo, o seu risco de prisão, parecem ser medidos não pelas provas (que não existem), mas por sua resiliência ou não em ser tragado pelas águas tumultuosas da mídia, a segunda lei do Hamurabi se aplica perfeitamente neste caso.

Essa lei tem ainda um componente moderno em termos de justiça: há risco, e grande, para a acusação, e não apenas para o acusado.

A terceira lei de Hamurabi vai na mesma linha da primeira e é outro petardo direto no sistema grotesco de delações da Lava Jato: se um homem vai ao tribunal com falso testemunho, e não prova sua declaração, então ele será executado. Ou seja, os juristas da Babilônia já sabiam muito bem dos enganos da delação premiada!

A quarta lei também é uma continuação da primeira. Passemos para a quinta lei, que atinge, desta vez, em cheio, o juiz Sergio Moro e todos os juízes que lhe imitam:

Um juiz deve julgar um caso, alcançar um veredito e apresentá-lo por escrito. Se erro posterior aparecer na decisão do juiz, e tal juiz for culpado, então ele deverá pagar doze vezes a pena que ele mesmo instituiu para o caso, sendo publicamente destituído de sua posição de juiz, e jamais sentar-se novamente para efetuar julgamentos.

Parodiando, com todo o respeito, o famoso poema de John Donne, poderíamos advertir, portanto, aos excelentíssimos ministros do TRF4, que eles não devem entender que as leis constitucionais do Brasil foram feitas para Lula, nem para punir ninguém: as leis foram escritas, prezados juízes, para vocês!

As leis democráticas da Constituição cidadã de 1988 foram criadas para nos defender, a nós, cidadãos, pobres ou ricos, trabalhadores, desocupados ou empresários, das violências e arbítrios dos burocratas responsáveis pelo sistema de repressão!

Eu fico terrivelmente agastado, por isso mesmo, quando vejo algum parlamentar ou jornalista fazendo concessões populistas ou demagógicas à Lava Jato, operação ilegal e golpista, porque ela teria prendido grandes empresários e políticos.

Ora, todos os despotismos, desde priscas eras, para se fazerem populares, agem da mesma forma! Otávio Augusto, o sobrinho tirano de Júlio Cesar, põe fim à qualquer resquício de liberdade política que ainda existia na Antiga Roma, através justamente da perseguição e assassinato de todos os romanos ricos de sua época.

O mais irritante é que se trata de uma demagogia voltada essencialmente para a classe média, porque é ela que sofre dessa inveja patológica da elite do dinheiro, tanto mais doentia quanto ela se sente próxima, por cultura e “mérito”, dessa mesma elite.

É a classe média que goza com a prisão de “empresários”, “ricos” e “políticos”.

O povão não tem essa tara.

O povão quer trabalhar, ganhar um salário decente, levar uma vida digna e sonhar com um futuro melhor para seus filhos.

A elite do dinheiro, para exercer o controle político da classe média, entendeu que é preciso satisfazer o seu fascismo congênito: daí nasce a Lava Jato.

E a elite do dinheiro entendeu que, para derrotar as aspirações da classe trabalhadora, precisava ampliar o controle político exercido sobre a classe média.

A classe média brasileira sempre foi o exército da elite do dinheiro. Para isso, a elite do dinheiro usa a mídia, que transforma a classe média numa espécie de exército de idiotas furiosos, dispostos a qualquer tipo de violência. Todos os instintos psicopatas, doentios, foram exacerbados no processo preparatório do golpe.

Todos se lembram das manifestações do impeachment em 2015. Eram moralmente monstruosas, mas a mídia tratava de ocultar ou minimizar todos os seus “excessos”.

Jamais se via, ou não eram destaque, na cobertura da imprensa, as faixas pedindo intervenção militar, fim da democracia, fim do próprio judiciário!

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Sergio Moro, Lava Jato e Globo: o Mal que bate a nossa porta https://www.ocafezinho.com/2017/12/26/sergio-moro-lava-jato-e-globo-o-mal-que-bate-nossa-porta/ https://www.ocafezinho.com/2017/12/26/sergio-moro-lava-jato-e-globo-o-mal-que-bate-nossa-porta/#comments Tue, 26 Dec 2017 15:07:13 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=82504 79 Comentários 🔥]]> Dia 25 de dezembro de 2017. Dia de Natal.

Enquanto em todo mundo cristão se fazem homenagens ao nascimento de Jesus, o primeiro profeta de Israel que não apelava ao punitivismo, que orientava seus seguidores a lutarem exclusivamente com as armas do bom senso e da persuasão. Que pregava o amor ao próximo, mesmo que este fosse um “inimigo” ou um “criminoso”. Que não ousava ferir sequer os animais e, com isso, pôs fim aos sacrifícios que haviam marcado a religião antiga por milhares de anos. Que andava ao lado de ladrões e prostitutas, tratando-os como seus irmãos e irmãs. Que era um profeta diferente de todos os que o antecederam, porque não insultava, não agredia, não desejava o mal a nenhum povo e a ninguém. Que era, em suma, um profeta do perdão, não do castigo.

Enquanto o mundo inteiro celebra o nascimento, não apenas de um profeta, mais de uma nova filosofia, baseada não mais no ódio e na vingança, mas na fraternidade e no amor.

Enquanto isso se dá, o jornal O Globo, no dia 25 de dezembro, estampa uma manchete com o nome de Sergio Moro, ao lado de mensagem em que o juiz pede mais ódio, mais vingança, mais intervenção estatal, e menos garantias legais, menos perdão, menos liberdade.

(Eu não consegui recuperar a capa do jornal O Globo do dia 25, versão impressa ou PDF, porque não sou mais assinante do jornal, mas algum internauta poderá fazê-lo, e publicar o link aqui. Se não foi do dia 25, foi na véspera…)

(Moro foi eleito “personagem do ano” pelo grupo de empresas mafiosas de mídia, todas nascidas ou consolidadas durante os terríveis e assassinos regimes de exceção que marcaram o continente nas últimas décadas).

No mesmo dia, ou no dia anterior, alguns procuradores da Lava Jato, cúmplices do juiz Sergio Moro, sem noção qualquer do que representa a revolução de Cristo, apesar de posarem como religiosos, vomitam mensagens cheias de incontrolável ódio contra uma dessas raríssimas iniciativas do Estado em favor da liberdade: o indulto de Natal.

Deltan Dallagnol e Carlos Fernando Santos Lima, procuradores chefes da Lava Jato, passaram os últimos dias praticando todo o tipo de ofensa imaginável contra o presidente da república, contra o STF, contra o legislativo, por causa do tradicional indulto natalino, quando o Executivo, através de uma prerrogativa que lhe foi concedida pela Constituição de 1988, perdoa cidadãos brasileiros (sim, ainda são cidadãos) que tiveram bom comportamento na prisão.

DD chegou ao ponto de acusar o presidente da república de oferecer indulto em “causa própria”, chamando, explicitamente, Michel Temer, de um bandido que perdoa outros bandidos para que ele mesmo seja perdoado quando for preso.

Alguns internautas, de esquerda ou direita, consideram que eles tem a liberdade de xingar o presidente nas redes sociais, porque o fazem como cidadãos, não como procuradores.

Outros, confundindo política com torcida, alegam que Dallagnol falou uma “verdade”.

Terrível engano!

Se Dallagnol fizesse um comentário sobre futebol, externasse uma opinião sobre ideologia, falasse genericamente o que pensa do governo, do impeachment, da mídia, tudo bem! Ele não fez isso! Dallagnol chefia uma das mais (perniciosas, autoritárias e antinacionais) abrangentes operações de investigação criminal que se tem notícia no país. Ele investiga também, sob vários aspectos, o presidente da república e, portanto, teria obrigação redobrada de não fazer prejulgamento, nem demonstrar que se deixa levar por ódio e paixões políticas.

Poderia até externar, tarado medieval que é, sua crítica ao indulto de natal, mas jamais transformar essa crítica num insulto tão pesado às instituições!

Um blogueiro, sim, pode insultar o quanto quiser as instituições!

Um blogueiro não ganha salários astronômicos do Estado e não pode, como um procurador, mandar prender, mandar matar, cassar mandatos, em nome da lei!

Um procurador é um funcionário do mais perigoso – e poderoso – órgão de repressão já visto em qualquer democracia do mundo.

O Ministério Público do Brasil não encontra paralelo em nenhum outro país democrático!

Um procurador dos EUA pode ser demitido a qualquer momento pelo presidente da república, pelo governador ou pela própria população.

Um procurador brasileiro é um mandarim com poder acima de tudo e todos.

O mínimo que se pede a um procurador, portanto, é que se dê ao respeito e não haja como uma blogueira teen revoltada!

Os brasileiros esquecem tudo, mas este blogueiro não. Há alguns meses, o ex-procurador geral da república, Rodrigo Janot, denunciou os ex-presidentes Lula e Dilma, e o Partido dos Trabalhadores, de formarem uma organização criminosa. A acusação, para variar, não trazia nenhuma prova. Era apenas uma maneira de oferecer, pela enésima vez, uma capa ao Globo.

Na verdade, Janot tentava, com isso, ganhar apoio da Globo contra denúncias que, ele sabe, surgirão contra ele mesmo: ele sim, Janot, foi membro de uma organização criminosa.

Janot liderou ações para destruir as mais importantes empresas brasileiras, chamando procuradores de vários países, Estados Unidos à frente, para lhes entregar informações sensíveis contra a Petrobrás, contra a Odebrecht, contra nossos projetos em energia nuclear, contra a Embraer.

Tentemos ser lúcidos! Não estamos aqui mais falando de “teorias de conspiração” e sim de “atos de conspiração” realizados à luz do dia, à frente de todos!

Janot, Sergio Moro e procuradores da Lava Jato viajaram diversas vezes para os Estados Unidos, e colaboraram diversas vezes com autoridades deste país, sem jamais sequer comunicar ao governo brasileiro, sem mediação da nossa diplomacia, sem explicações à sociedade brasileira!, fornecendo-lhes, a estes agentes do governo americano, informações sensíveis relativas aos negócios das mais importantes empresas brasileiras, como Petrobrás, Odebrecht, Eletrobrás, Eletronuclear!

Alguém pode conceber crimes mais terríveis do que eles cometeram? Será possível que a população, ou pelo menos suas franjas mais cultas e bem informadas, esteja tão idiotizada a ponto de ter perdido completamente o bom senso?

Até quando a Globo manterá a opinião pública nacional prisioneira de uma narrativa tão fantástica, onde se idolatra entreguistas e traidores da pior espécie?

Em seu último livro, A elite do atraso, Jesse Souza chama a Lava Jato de a mais odiosa farsa sofrida pela sociedade brasileira, e faz um apelo quase desesperado à razão: “os feitos de imbecis [pela Lava Jato e pela Globo] de todo o país: uni-vos! Recuperemos a nossa inteligência”.

Voltando a Sergio Moro e a Dallagnol, não tenho outro termo: são dois sociopatas.

O Brasil já possui a terceira população carcerária do mundo.

Os esforços democráticos devem se dar sempre no sentido do desencarceramento, ou seja, de tirar gente das prisões, e, sobretudo, de reduzir o poder do Estado (em especial dos juízes) de prender mais gente.

Temos que ampliar os direitos individuais e as garantias, e não aniquilar os que já temos!

Não há impunidade no país!

Há excesso de punição!

Se há políticos e empresários, e gente rica de maneira geral, que conseguem arrastar, por décadas, processos judiciais, isso não é porque há excesso de garantias no país, e sim porque o judiciário é classista e corrupto!

É só ver a diferença com que tucanos e petistas são tratados pelo judiciário!

O processo contra Lula bateu todos os recordes em termos de agilidade na tramitação! Se a nossa imprensa plutocrática – junto com seus prepostos corruptos no judiciário, cujo exemplo mais repugnante é o ministro Luis Roberto Barroso – não fosse tão cínica, ela teria de admitir, em nome de um mínimo de honestidade intelectual, que a celeridade do processo de Lula prejudica o direito deste, de seu partido e de todos os seus representantes, de se defenderem, e não o contrário!

Já os processos contra tucanos se estendem por tempo indefinido, até prescreverem, ou são engavetados, ou acabam todos, miraculosamente, em mãos do ministro Gilmar Mendes, o que beneficia politicamente o PSDB e seus representantes!

E se alguma coisa precisa mudar, não é certamente promovendo o arbítrio contra o PSDB, contra empresários e contra membros muito bem selecionados da classe política, e sim estendendo as garantias e direitos a toda população!

A nossa “elite do atraso”, cujo porta-voz é a Globo, é tão doentiamente vinculada ao retrocesso, à injustiça, ao arbítrio, que ela prefere que o Estado violente os direitos e garantias de membros da própria elite, numa espécie de sacrifício humano de alguns de seus pares, a permitir que o regime democrático e suas liberdades se consolide no país!

Que representantes da própria esquerda se submetam a esta narrativa cínica, e que permitam que um judiciário transformado, há tempos, em capataz da elite financeira, amplie o seu poder, é motivo para entendermos o poder avassalador, quase hipnótico, da comunicação e da demagogia penal.

A pior ditadura é aquela que submete o espírito, então lutemos para preservar nossas ideias e nossa liberdade espiritual!

Caros representantes da esquerda midiática e punitiva, fujam desta armadilha enquanto é tempo! Ao povo brasileiro não interessa prender alguns políticos e empresário às custas de produzir uma jurisprudência que irá, ao longo das próximas décadas, manter milhões de brasileiros encarcerados em condições desumanas!

Lutem contra a prisão em segunda instância!

Lutem contra Sergio Moro!

Lutem contra Marcelo Bretas!

Lutem contra Dallagnol!

Lutem em favor de mais garantias, mais direitos e mais liberdade!

A impunidade e a corrupção se combatem com justiça, democracia, distribuição de renda, não com arbítrio, não com violência, não com mais… injustiça!

***

Aproveito a ocasião para me retratar, enquanto editor do Cafezinho, em favor de um amigo dileto deste blog, o jornalista Luis Nassif. Um colaborador nosso, que também já perdoei por suas palavras, manifestou-se, por um exagero retórico, de maneira injusta em relação a Nassif. Tudo por causa de um choque de narrativas relativas a Eduardo Cunha. Cunha, de fato, é tratado com uma estranha deferência pela mídia e pelo sistema de justiça. Ele é tratado pela mídia como todos os presos deveriam ser tratados, com dignidade. Enquanto Sergio Moro permitiu que presos em Curitiba se tornassem como que animais de zoológico, e fossem observados por atores e produtores do filme da Lava Jato (o que prova que a lei NÃO é para todos), enquanto Sergio Cabral, Rosinha Garotinho, Marcelo Odebrecht são expostos à execração pública, Eduardo Cunha é protegido, a ponto de alguns levantarem até mesmo suspeitas se estaria realmente preso. Entretanto, isso é outra história. Nós, internautas que compõem, a meu ver, o núcleo duro e em expansão de resistência democrática, devemos cuidar para nos mantermos unidos, fraternais e solidários uns com os outros. Peço, então, desculpas a Nassif pelas palavras de nosso colaborador e reitero o respeito e admiração que tenho por seu trabalho.

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Pesquisa Ibope confirma que impeachment foi golpe https://www.ocafezinho.com/2017/11/15/pesquisa-ibope-confirma-que-impeachment-foi-golpe/ https://www.ocafezinho.com/2017/11/15/pesquisa-ibope-confirma-que-impeachment-foi-golpe/#comments Wed, 15 Nov 2017 13:50:17 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=81256 24 Comentários 🔥]]>

Clique nas imagens para ampliar.

Um relatório com 165 páginas de uma pesquisa Ibope, feita há poucos dias e divulgada hoje, comprova que o impeachment foi mesmo um golpe.

Uma das perguntas é sobre a posição do entrevistado sobre o impeachment: você foi a favor ou contra?

50% responderam que foram a favor, outros 50% disseram que foram contra, que não sabem ou não responderam.

Ou seja, o impeachment jamais foi um desejo hegemônico da sociedade brasileira.

No Nordeste, por exemplo, 58% responderam que foram contra o impeachment, contra apenas 35% a favor.

No geral, 42% dos entrevistados afirmaram categoricamente que sempre foram contra o impeachment.

Entre a população mais pobre, que ganha até 1 salário, a maioria também respondeu que foi contra o impeachment.

É interessante notar que a manipulação midiática em favor do impeachment convenceu sobretudo a população mais jovem, com menos de 34 anos. A partir dos 35 anos, a opinião dos brasileiros seguiu dividida.

Por outro lado, é possível que nesta conta aí tenhamos muitos ex-coxinhas, que apoiaram o impeachment na época e que hoje, diante das consequências desastrosas do golpe, dizem que não o apoiaram.

A pesquisa mostra que os brasileiros não estão mais sendo enganados tão facilmente pela Globo. 64% dos entrevistados discordaram “totalmente” da frase “o pior da crise econômica já passou”.  A maioria esmagadora também considera que inflação, juros e desemprego aumentaram.

 

A maioria dos brasileiros acha que o governo deve intervir na economia, para debelar a crise, reduzir a distância entre ricos e pobres e ajudar a reduzir a pobreza. A maioria da população também rejeita o neoliberalismo, com suas teses de Estado Mínimo.

Somando-se esses dados àqueles – também presentes na pesquisa – que mostram a profunda desconfiança da população em relação aos políticos, a gente vê como essas “reformas” de Temer representam um sequestro da vontade popular.

E aqui, na tabela abaixo, a gente vê que a população já entende que o impeachment representou um golpe contra os seus próprios interesses. Perguntados se o impeachment significou melhora ou piora em relação ao governo Dilma, apenas 6% responderam que foi uma “melhora”, contra 52% que afirmaram que foi uma “piora”.

 

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O racismo da Globo e os arbítrios de um judiciário de sociopatas https://www.ocafezinho.com/2017/11/09/o-racismo-da-globo-e-os-arbitrios-de-um-judiciario-de-sociopatas/ https://www.ocafezinho.com/2017/11/09/o-racismo-da-globo-e-os-arbitrios-de-um-judiciario-de-sociopatas/#comments Thu, 09 Nov 2017 13:27:55 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=81083 739 Comentários 🔥]]> Peço desculpas pela dificuldade de acesso ao blog nos últimos dias, mas desta vez tivemos um motivo nobre. Mudamos de servidor. Limpamos nosso banco de dados. A partir de agora, o Cafezinho estará bem mais leve, estável e seguro. Estamos também iniciando algumas mudanças no layout do blog. Esperamos que até o início de dezembro, estaremos de casa nova. Mas não se preocupem: as mudanças serão para deixar o blog mais simples, leve e elegante. O que poderá mudar mesmo é que daremos um destaque maior aos vídeos, que serão posicionados numa área à parte do blog.

Dito isto, passemos às novidades do dia. É tanta coisa! No Cafezinho no Almoço, que começa 12:00, vamos falar sobre tudo isso com mais profundidade. Neste post, vamos fazer apenas alguns registros, até mesmo para organizar nossa cabeça.

O Cafezinho no Almoço poderá ser visto no vídeo abaixo:

Assuntos:

1) O racismo de William Waack.

Aqui temos dois ou três pontos a destacar. O primeiro é que é inacreditável pensar quem racista deste jaez comandou um dos principais telejornais de país majoritariamente negro por tantos anos. Que babaca! Que cretino! E imaginar que ele faz aquela observação rodeado de jornalistas, sem nenhum pudor, sem nenhum receio!

O segundo ponto é que não podemos deixar isso barato. O racismo é da Globo. A Globo, além de reacionária, golpista, é também racista. E o pior: a Globo manda no Brasil hoje. A Globo está recebendo mais de 50% da publicidade federal. Devora a publicidade institucional de todos os estados e municípios do Brasil. Devora recursos de educação, igualmente do país todo, de todas as entidades federativas. Recebe dinheiro da Lei Rouanet. Recebe verbas públicas destinadas ao audiovisual. A Globo é praticamente uma estatal, cujo dinheiro, no entanto, vai todo para o bolso dos três irmãos Marinho. Três racistas, herdeiros de um grande racista. E que empregam racistas. Evidentemente, Waack não estava ali sozinho. Ou alguém que Alexandre Garcia, apresentador do Bom Dia Brasil e ex-porta-voz da ditadura, não seja também um racista?

O terceiro ponto é uma justiça poética. Vocês viram quem estava ao lado de Waack no vídeo? Sim, ele mesmo: Paulo Sotero, diretor do Brazil Institute, do Wilson Center, aquele think tank do qual falamos tanto por aqui no Cafezinho, que foi um dos principais articuladores do golpe de Estado de 2016. O Brazil Institute é presidido por Anthony Harrington, que por “coincidência” é também CEO da Albright Stonebridge, uma das mais sinistras firmas de lobby dos Estados Unidos, com prestação de serviços ao governo americano e a corporações interessadas em comprar um Brasil vulnerável e desamparado após o impeachment criminoso de uma presidente eleita com 54 milhões de votos. Harrington é também ex-advogado sênior, e sócio, da Hogan and Lovells, outra firma de lobby, que presta serviço as petroleiras americanas, além de estar ganhando milhões de dólares prestando serviços de “auditoria” para estatais como Eletrobrás – provavelmente ajudando no processo de sua futura privatização.

2) A decisão de Moro de processar Lula por se “beneficiar” de uma reforma de cozinha.

É mais uma decisão grotesca de Sergio Moro. Sem provar que o sítio é de Lula, o juiz Sergio Moro agora quer condenar Lula por ter se beneficiado de uma reforma de cozinha… Não sei bem o que comentar sobre isso. Só queria deixar registrado. Quer dizer que depois daquele Powerpoint do Dallagnol apontando o Lula como “comandante máximo” do “petrolão”, tudo que se aponta contra Lula é isso: o “desfrute” de uma reforma de cozinha num sítio fulero, numa região pouco valorizada do interior de São Paulo?

Tanto a imprensa quanto o nosso sistema de justiça perderam completamente o senso do ridículo, e vão pagar caro por isso.

3) O aumento da pena de João Vaccari no TRF4, para 24 anos.

Também não quero me estender sobre isso. É mais um crime cometido pelo sistema de justiça. O próprio TRF4 havia concluído, em decisão anterior, que não havia provas contra Vaccari. Na decisão, não se aponta nenhuma prova. Vaccari é um homem inocente. Um preso político. O aumento da pena para 24 anos é uma decisão cruel, desumana, injusta, mas coerente com o regime de exceção vigente no país, cujo principal fiador é o sistema de justiça. João Santana e sua esposa tiveram sua pena mantida em 8 anos. A mão do regime golpista só pesa para aqueles que resistiram às torturas do MPF e embarcaram no jogo sujo do regime, delatando seus companheiros. A matéria da assessoria de imprensa do TRF4, mais a íntegra da decisão podem ser lidas aqui.

4) TRF4 chancela arapongagem ilegal de Moro em advogados de Lula.

É inacreditável. Aqui o link com matéria da assessoria de imprensa do próprio TRF4, seguida do link com a decisão. É um registro histórico do arbítrio. Esse é o Brasil do golpe.

5) A entrevista do Almirante Othon à Folha. Eu escrevi alguns comentários sobre essa entrevista na fanpage do Cafezinho, que reproduzo aqui, seguidos da íntegra do texto publicado na Folha.

Leiam a entrevista. O judiciário brasileiro se converteu no foco principal do fascismo. Condenaram até a filha do almirante, que não tem nada a ver com a história.

O juiz Marcelo Bretas é tão psicopata quanto Sergio Moro.

As “provas” contra o almirante são completamente surreais. Bretas é tão fascista que aumentou a pena do almirante por causa do seu “passado ilibado”. Sim, é isso mesmo. O fato de ter sido honesto a vida inteira foi considerado um “agravante”.

***

A entrevista do almirante Othon Pinheiro é uma bomba atômica!

Se algum brasileiro ler essa entrevista e não se indignar com a injustiça, não é um brasileiro, não é um cidadão, não é um ser humano!

Se algum brasileiro, depois dessa entrevista, ainda acreditar na operação Lava Jato, é um idiota e um fascista irremediável!

O pai da energia nuclear no Brasil foi humilhado, agredido, preso e condenado sem absolutamente nenhuma culpa.

A imprensa, criminosa, apenas após o calvário vivido pelo militar, se decide a publicar uma entrevista com ele!

É revoltante!

Quem deveriam ser presos são o juiz, os procuradores, os delegados da PF e todos envolvidos com essa barbárie!

O juiz Marcelo Bretas, um sub-Moro fascista do Rio, aplicou-lhe uma condenação sem pé nem cabeça, em que até o passado ilibado de Pinheiro foi considerado agravante!

Espero que nenhum artista alienado, depois dessa entrevista, volte a defender esse juiz incompetente e vendido à Globo!

No dia em que o Brasil voltar a ser uma democracia, construiremos uma estátua em sua homenagem, almirante, e condenaremos seus algozes!

Perdão, almirante, perdão!
***

Na Folha

Militar condenado na Lava Jato diz que foi preso por interesse internacional

MÔNICA BERGAMO
COLUNISTA DA FOLHA
07/11/2017 02h00

Acusado de receber propina de R$ 4,5 milhões de empreiteiras que tinham obras em Angra 3, o ex-presidente da Eletronuclear Othon Luiz Pinheiro da Silva ficou preso por dois anos e recebeu uma das maiores condenações da Lava Jato: 43 anos de prisão por corrupção, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e organização criminosa.

Considerado um dos mais importantes cientistas brasileiros e o pai do programa nuclear do país, o almirante Othon, 78, como é conhecido, ficou isolado em uma cela e diz que aprendeu a comer com as mãos. Solto no mês passado, ele pouco sai às ruas e chora com frequência.

Nesta entrevista à Folha, o militar, que se recupera de um câncer de pele, alega inocência e diz ter um “forte sentimento” de que sua prisão foi feita sob os auspícios de “interesses internacionais”.

*

Folha – Como o senhor se aproximou da empreiteira Andrade Gutierrez?
Almirante Othon – Em 1994, quando fui para a reserva, a primeira coisa que fiz foi prestar um concurso para o Instituto de Pesquisas Nucleares da Cnen (Comissão Nacional de Energia Nuclear).

Havia duas vagas para pesquisador. Concorri com 16 doutores e tirei primeiro lugar.

Mas nós estávamos em 1994, numa fase de muita globalização. E eu não fui chamado. A minha cara é nacionalista. E eu sou mesmo.

Como não deu certo, montei uma empresa de consultoria, a Aratec. No início de 2004, um camarada da Andrade Gutierrez, o senhor Marcos Teixeira, apareceu lá.

E o que ele queria?

Ele disse: “Nós [construtora] temos um contrato de 1982 [para as obras civis da usina nuclear de Angra 3]. Mal começamos a mexer na fundação e ele foi interrompido”.

Eles achavam que eu poderia ajudar [na retomada das obras], por ter influência militar. Eu disse “não tenho mais, saí [da Marinha] faz tempo”. Aí veio a ideia de fazer um estudo para eles.

Eu não estava no governo e nem imaginava que ia voltar [Othon foi convidado para presidir a Eletronuclear um ano depois, em 2005].

O Ministério Público Federal considerou que o estudo assinado pelo senhor para a Andrade Gutierrez era simplório e entendeu que ele é fictício.

É um desconhecimento total ou uma vontade de não querer reconhecer [a importância do trabalho]. São anos de pensamento sobre o Brasil.

O que ocorreu no país, e sobre o que falava no meu estudo? O consumo de energia cresceu e o estoque de água das hidrelétricas estacionou na década de 80. Antes disso, o Brasil poderia passar por vários anos “secos” porque tinha estoque de água. Mas isso mudou e veio o apagão.

O Brasil agora precisa de energia térmica de base.

Termelétricas têm que ser [movidas a] carvão ou [energia] nuclear. E nuclear é melhor para nós porque temos reservas [de urânio] correspondentes a 50% do pré-sal.

Nós temos que aproveitar o que a natureza nos dá.

Ah, se eu tivesse mais [usinas] nucleares. O custo do investimento é maior mas o do combustível é menor [do que o de outras alternativas].

No caso da hidrelétrica, o custo [do combustível, a água] é quase zero. E no caso da nuclear, é pequeno.

Se eu tiver a energia nuclear, eu economizo água e não chego nessa situação [de apagão]. A energia nuclear não compete com a hidrelétrica. Ela complementa. Era isso o que o estudo mostrava.

Depois o senhor foi para o governo e a obra de Angra 3 foi retomada.

Em julho [de 2005], eu soube que tinha uma lista [no governo Lula] para escolher o presidente da Eletronuclear. Eu não queria.

Mas aí eu fiz a grande bobagem da minha vida. Fui convidado. Bateu a vaidade e eu aceitei. Em outubro de 2005, assumi o cargo.

E como passou a receber dinheiro da empreiteira?

Tudo o que eu fazia na época [em que prestava consultoria] era na base do sucesso.

E coincidiu que fui para o governo e houve a decisão [de retomar Angra 3].

Quem decidiu foi o Conselho Nacional de Política Energética, do qual eu não fazia parte. Como presidente, eu apenas executei as diretrizes.

Mas passei a fazer jus [à remuneração] do trabalho [estudo para a Andrade] que eu fiz antes.

Quanto passou a receber?

Eu cobrei R$ 3 milhões, em valores de dezembro de 2004 [a Polícia Federal diz que o almirante recebeu R$ 4,5 milhões em valores atualizados].

Comecei a receber depois que houve a decisão da retomada das obras.

Como era um troço completamente diferente, eles falaram “vamos pagar através de outras empresas”. Aí virou outro crime.

Se fosse hoje, eu exigiria deles [Andrade] um contrato de confissão de dívida para que me pagassem só depois que eu saísse. Eu não receberia no cargo.

Eu tinha direito, foi um trabalho que eu fiz antes. Não era imoral nem ilegal. Apenas com a experiência de hoje eu teria feito diferente.

O Ministério Público Federal e a Justiça consideraram que era propina.

Não era propina, não foi mesmo. Eu achava que tinha direito de receber. Agora, tive o cuidado de não tomar nenhuma decisão [que beneficiasse a empreiteira], não tem nenhum ato de ofício assinado por mim.

Tivemos [ele e a Andrade]inclusive um atrito inicial, porque eu exigi que o TCU aprovasse os detalhes do aditivo [para o pagamento do serviço nas obras de Angra 3].

Eles ficaram irritadíssimos. Fui uma decepção para eles. Houve outras divergências, chegaram a parar as obras.

Oras, se eu tivesse ligação com eles, isso teria ocorrido?

Delatores da empresa afirmaram que o senhor, na verdade, cobrava percentual sobre os contratos de Angra 3.

A Andrade já tinha um ressentimento em relação a mim. E delação premiada é um processo muito danado. O cara acha que agrada [os investigadores] e senta a pua. Ele não tem compromisso.

O senhor diz que sua prisão interessa ao sistema internacional. Que evidência tem disso?

Como começou tudo isso?

Num depoimento que o presidente de uma empreiteira fazia sobre um contrato com a Petrobras. Ele mencionou que ouviu dizer algo sobre o presidente da Eletronuclear estar de acordo com um cartel.

Isso serviu de pretexto para os camaradas vasculharem a minha vida desde garoto. Havia um direcionamento.

Mas haveria um comando externo nas investigações?

Não comando, mas influência forte, ideológica. Não posso provar mas tenho um sentimento muito forte. Houve interesse internacional.

E por que haveria interesse internacional em sua prisão?

Porque tudo o que eu fiz [na área nuclear] desagradou. Qual o maior noticiário que tem hoje? A Coreia do Norte e suas atividades nucleares. A parte nuclear gera rejeição na comunidade internacional.

E o Brasil ser potência nuclear desagrada. Disso eu não tenho a menor dúvida.

Há setores que acreditam que o Brasil deveria desenvolver a bomba atômica. O país fez bem em abrir mão dela?

Eu acho que fez. O artefato nuclear é arma de destruição de massa e inibidora de concentração de força. Mas, no nosso caso, se tivéssemos a bomba, desbalancearíamos a América Latina, suscitando apreensões.

E a última coisa que a gente precisa na América Latina é de um embate.

O país, no entanto, não abriu mão da tecnologia. Se necessário, em quanto tempo faríamos uma bomba?

Em uns quatro meses. Com a tecnologia de enriquecimento que nós usamos, podemos fazer a bomba com o plutônio, como a de Nagasaki, ou com o urânio, que foi a de Hiroshima. Temos os dois porque quem tem urânio enriquecido pode ter o plutônio também.

Voltando às investigações, o senhor foi acusado de contribuir para a desvalorização da Eletronuclear.

Quando assumi, ela era chamada de vaga-lume. Em poucos anos, passou a figurar entre as centrais de melhor desempenho do mundo.

As ações se valorizaram. Como então eu contribuí para desvalorizar as ações? Nada disso foi levado em conta no meu julgamento.

O meu passado serviu como agravante. Eu peguei cinco anos de cadeia a mais porque, se eu tinha aquele passado, eu tinha que ter um comportamento [exemplar]. É a primeira vez que antecedente virou agravante. Vida pregressa ilibada virou agravante.

Tá lá, escrito [na sentença]. É só ler. Eu li. Me deu uma revolta tão grande… [levanta da mesa, chora].

Como foi a história de sua tentativa de suicídio?

Como foi isso? [Chora mais. Toma água]. Eu estava preso e vi pela televisão que fui condenado a 43 anos de prisão.

Pensei “os caras ficaram loucos”. E mais 14 anos para a minha filha [Ana Cristina]. E ela não fez nada.

Tive um desespero… não é desespero. É revolta. Uma profunda revolta. Eu queria chamar a atenção. E pensei “vou fazer um ato de revolta”.

Eu reuni os cadarços do calção e com eles eu ia me enforcar. Pela câmara, a oficial viu e [impediu]. Mais 15 minutos ela não pegava mais.

Na hora eu fiquei pau da vida. Mas depois eu vi que era bobagem. Me enterravam e em três dias tudo acabava. Vou bancar o japonês, confissão de culpa? Não. Hoje penso que tenho que ficar vivo e lutar.

O senhor resistiu à prisão?

Às 6h, eu estava dormindo, dois caras [policiais] entraram berrando no meu apartamento. Parti para cima. Fui treinado para isso a vida toda.

Disseram que eu estava armado. Não é verdade. Eu tenho arma, mas ela fica trancada em uma gaveta.

Mas eu não resisti. Se tivesse resistido, eu morria, mas pode ter certeza que um deles ia junto. Fiz treinamento na polícia de SP quando estava no programa [nuclear] secreto. Dava 200 tiros por semana.

E para onde levaram o senhor?

Primeiro para Curitiba e depois para o Rio. Cheguei a ser preso em Bangu.
Lá eu fiquei dois dias com [o bicheiro] Carlinhos Cachoeira [ri]. A gente conversava, via televisão, era ele, o [empresário Fernando] Cavendish, seis pessoas no total.

Depois fui transferido para a base de fuzileiros navais do Rio de Janeiro, onde fiquei um ano e pedrada.

O senhor ficou então sozinho?

Isolamento absoluto. De manhã, eu fazia 25 minutos de ginástica na cela. Depois andava 5 quilômetros, durante a hora de banho de sol a que eu tinha direito.

Um oficial me escoltava. Tirando esse momento, não falava com ninguém. Aí me ocorreu escrever um livro, à mão, com caneta e papel. Já terminei e pretendo lançá-lo.

Eu comia comida de praça com colher e garfo de plástico. É fogo, né? Aprendi a comer com a mão. Virei indiano. E comecei a ver novelas.

E como é estar de novo em liberdade?

Depois de passar por tudo isso, a gente fica com uma certa insegurança, sabe? Sei lá, esperando alguma coisa inesperada que não sabe o que é [chora]. Eu estou me livrando dela agora.

E também a gente começa a ver o fim da vida chegando, né? [emocionado]. A vida toda eu trabalhei construindo alguma coisa. E disso eu sinto falta. Em todo lugar eu estive na frente de combate.

O que fez ao sair da prisão?

Saí duas vezes de casa apenas. Parecia que eu estava fazendo turismo no Rio. Em dois anos [em que esteve preso], a cidade mudou muito.

No primeiro dia em casa, eu senti muito vazio. A gente fica sempre procurando alguma coisa para fazer. De vez em quando penso “o que eu tenho mesmo que fazer agora?”. E eu não tenho que fazer nada!

Estou aprendendo a ser livre de novo. É essa a sensação.

****

6) A mais recente pesquisa CUT/Vox revela que a maioria esmagadora da população é contra as reformas. E agora imagine que um governo rejeitado por 97% da população está implementando uma reforma rejeitada por 81% da população. O mesmo governo aplica toda a verba pública nos veículos que apoiam as reformas. Nenhum procurador, promotor ou juiz percebe como isso é ilegal, antiético e imoral? É muito chocante constatar como o conceito de democracia foi destruído na cabeça de nossas elites midiáticas e judiciais. Clique aqui para ler a matéria da CUT.

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https://www.ocafezinho.com/2017/11/09/o-racismo-da-globo-e-os-arbitrios-de-um-judiciario-de-sociopatas/feed/ 739
Judiciário já é o principal fator de instabilidade para eleições de 2018 https://www.ocafezinho.com/2017/11/06/judiciario-ja-e-o-principal-fator-de-instabilidade-para-eleicoes-de-2018/ https://www.ocafezinho.com/2017/11/06/judiciario-ja-e-o-principal-fator-de-instabilidade-para-eleicoes-de-2018/#comments Mon, 06 Nov 2017 10:40:59 +0000 https://ocafezinho.com/?p=81014 2 Comentários 🔥]]> José Roberto Toledo, em sua coluna de hoje, fala o óbvio. Mas o óbvio precisa ser dito. O judiciário brasileiro é a principal pedra no caminho para a normalização democrática do país.

Esta normalização, e isso também é óbvio, apenas será possível com eleições livres. Mas quem deve votar é o povo, e não os juízes.

Mas não é isso que está acontecendo.

Ainda faltam algumas semanas para 2018, e o judiciário já começou a criar turbulências e mal estar para o processo democrático do ano que vem, com ações esdrúxulas de “antecipação de campanha” contra Lula e Bolsonaro. Não por coincidência, ambos não são os candidatos da mídia, que, esta sim, já começou a fazer campanha em prol de um candidato supostamente moderado e que, por óbvio, será um tucano.

Para cúmulo do absurdo, aquele que será o presidente do TSE a partir do início do ano que vem, Luiz Fux, deu entrevista neste fim de semana antecipando seu voto em relação ao principal candidato, Lula. E o voto de Fux, também por óbvio, em se tratando de alguém com a ética e a moral de Fux, já está sinalizado: será o voto da Globo, ou seja, contra Lula.

Eugênio Aragão, ex-ministro da Justiça, numa de suas entrevistas, deu um recado inteligente: a justiça eleitoral é uma excrescência, sobretudo porque o seu poder de fogo costuma apontar sempre para as manifestações mais vigorosas e saudáveis da democracia: a participação política, coletiva e individual, tanto do cidadão comum quanto dos possíveis candidatos. A justiça eleitoral quer transformar a própria democracia num grande delito, numa grande “campanha eleitoral antecipada”.

Naturalmente, nenhum juiz terá coragem de coibir as “campanhas antecipadas” da grande mídia nacional. Essa aí pode tudo, inclusive dar prêmio aos juízes que deveriam julgá-la…

Não é a tôa que muitas democracias importantes, como os EUA, não admitiriam jamais que a opinião de meia dúzia de juízes valha mais que o voto de milhões. Lá, não existe “justiça eleitoral”.

No Brasil, a excrecência é agravada pelo fato do acúmulo de poder. O fato de ministros do STF acumularem também cargos na justiça eleitoral lhes aumenta um poder já doentio e antidemocrático.

Deus proteja a democracia brasileira de seus juízes!

***

No Estadão

Voto de juiz vale mais

Por Jose Roberto de Toledo
06 Novembro 2017 | 02h38

A campanha presidencial será muitas coisas, menos serena e previsível. Nem é por causa dos #ParadisePapers da vida que, vira e mexe, tiram o sono de candidatos. O principal criadouro de incertezas é a judicialização da eleição. Líderes das pesquisas, Lula e Bolsonaro logo serão julgados por “campanha antecipada”. São os primeiros de muitos julgamentos com impacto determinante nas urnas. A despeito da eleição, a política continuará sendo, em 2018 e além, uma derivada da Justiça.

“Campanha antecipada” é jabuticaba eleitoral brasileira. O tipo de dispositivo legal que encena ignorar o óbvio: que todo político está permanentemente em campanha, antes mesmo de ter certeza de que será candidato. Ou as bilionárias emendas ao orçamento transacionadas com parlamentares pelo atual e por todos os governos passados visam o estrito interesse público?

As emendas não são tão cobiçadas à toa. São armas de campanha, tão ou mais poderosas do que o horário eleitoral na TV e no rádio. Com uma diferença fundamental: só estão disponíveis para quem já está lá e faz parte do clube dos eleitos. Por isso, contra elas quase nenhum partido grita “campanha antecipada”.

Do mesmo modo, o prazo determinado e cada vez mais curto para a campanha eleitoral “oficial” beneficia quem já tem cargo eletivo, já é conhecido e possui eleitorado cativo. Campanhas longas favoreceriam a competição, pois dariam tempo de o público se familiarizar com candidatos desconhecidos – ou de descobrir que os nem tão desconhecidos assim são candidatos.

É falacioso o argumento de que campanhas curtas são mais baratas. Os bilhões liberados em emendas nos últimos meses provam o contrário. Mas não é só isso. As estruturas financiadas com dinheiro público para deputados e senadores manterem escritórios nos seus redutos eleitorais são campanha mais do que antecipada: são comitês eleitorais permanentes. O mesmo vale para as estruturas de comunicação de seus gabinetes.

Nos últimos tempos, as mídias sociais tornaram o conceito de campanha antecipada ainda mais cínico. A quase totalidade dos parlamentares têm conta própria e terceirizada no Facebook, Twitter, Instagram etc. Alguns, de tão viciados nessas plataformas, estão trocando as visitas de fim-de-semana às chamadas bases eleitorais por “lives” – as transmissões de vídeo a vivo pela internet. É parte da campanha virtual sem fim.

Foram vídeos transmitidos via mídias sociais que levaram o Tribunal Superior Eleitoral a julgar Lula e Bolsonaro. O que estará em julgamento não é nada amplo ou profundo. É o detalhe do detalhe. O candidato pode fazer quase tudo, menos pedir voto e dizer que é candidato. Mentir e dizer que não é o que é pode.

O faz-de-conta se torna ainda mais ridículo ao se acompanhar as investigações sobre o quanto a Rússia conseguiu influir nas eleições presidenciais do ano passado nos EUA. Em um dos exemplos mais eloquentes, US$ 250 gastos em “impulsionamentos” no Facebook foram suficientes para os russos insuflarem dois grupos antagônicos a fazerem manifestações de rua ao mesmo tempo e no mesmo lugar. Resultado: pancadaria generalizada.

No Brasil, isso não parece estar entre as preocupações do Judiciário. Terceiros podem fazer campanha para candidatos – os próprios candidatos não. Quer dizer, podem desde que neguem.

A campanha antecipada não é o único vetor da judicialização eleitoral. O ministro Fux, do ex-Supremo, antecipou seu voto para o julgamento mais importante: contra Lula, condenado, obter registro como candidato. Outros acham que o petista conseguirá, mesmo que sua candidatura venha a ser cassada depois. Seja como for, votos nos tribunais pesarão tanto ou mais que os nas urnas.

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A ingenuidade de Celso Rocha de Barros https://www.ocafezinho.com/2017/11/04/ingenuidade-de-celso-rocha-barros/ https://www.ocafezinho.com/2017/11/04/ingenuidade-de-celso-rocha-barros/#comments Sat, 04 Nov 2017 16:21:37 +0000 https://ocafezinho.com/?p=80927 21 Comentários 🔥]]> Celso Rocha de Barros escreve como um equilibrista caminha sobre uma corda estendida entre dois arranha-céus. Não podia ser diferente, claro. O papel da Folha, em todo esse processo de golpe, sempre foi um pouco mais sofisticado do que o da Globo.

Na divisão de tarefas entre os golpistas, à Globo coube a função mais brutal. A Globo é violência e maldade em estado puro. Para citar um exemplo: as charges de Chico Caruso, expondo Dirceu e Genoíno nus, após terem sido condenados sem prova, sempre me pareceram o que faria um cartunista de um folhetim nazista. Afora isso, a Globo mente de uma maneira assombrosamente descarada.

À Folha ficou reservado um papel mais ambíguo, mais cínico, e por isso não menos diabólico. Os métodos usados pela Folha são mais traiçoeiros. Por isso ela sempre teve necessidade de colunistas e abordagens diferenciados, puxados à esquerda, críticos ou questionadores de alguns pontos das narrativas centrais da mídia corporativa.

No meio de tanta pressão e cinismo, nasceu esta flor: Celso Rocha de Barros, que já tinha uma história na internet brasileira, e cujo último artigo eu me proponho a analisar neste post.

Barros, Laura Carvalho, Janio Freitas, o próprio Bernardo Mello Franco, são alguns colunistas que procuram fazer, cada um à sua maneira, um contraponto ideológico ao pensamento único do main stream.

Claro, é tudo muito controlado, como numa experiência de laboratório. Os tons de crítica precisam ser cuidadosamente calibrados, de maneira que tudo permaneça rigorosamente o mesmo.

Há limites diferenciados de liberdade, naturalmente, a depender de temas, atmosfera e a posição de cada um.

Janio de Freitas, por exemplo, por ser o veterano, uma vaca sagrada do jornalismo (e o falo sem ironia, e com profundo respeito), é o único jornalista da Folha, quiçá de toda a imprensa corporativa brasileira, a quem se dá a liberdade de criticar o eixo central das grandes narrativas: a Lava Jato.

A liberdade singular, única, de Freitas, em meio ao cenário incrivelmente devastado da imprensa nacional, tem uma explicação: seus oitenta e cinco anos de idade, seu talento inegável, os milhares de assinantes que, possivelmente, apenas aceitam continuar contribuindo por sua causa, além da questão estratégica já referida acima.

Naturalmente, todo mundo tem mais ou menos consciência das semelhanças entre jornalismo e teatro. Há muito jogo de cena em toda parte.

A melhor coisa trazida pela internet, afinal, foi a transparência.

Os próprios jornalistas – boa parte deles, ao menos – são os últimos que ainda tentam se iludir a si mesmos. Outro dia, eu assisti a um vídeo de um encontro informal de jornalistas, em São Paulo, e achei até divertido o esforço deles em criar um mundinho de fantasia, completamente afastado da vida, da política, da polêmica. Um dos convidados era um jornalista da Globo e talvez isso explique o clima pesado, de censura velada, de sorrisos amarelos, do evento. Não acho que esse tipo de encontro fosse possível em qualquer país que não o Brasil, terra da hipocrisia, do medo, da Globo.

O sonho atual destes jornalistas, secretamente apavorados com o desemprego, e ao mesmo tempo tentando se agarrar, com desespero, a algum fiapo de dignidade, é que não existisse Lula ou PT. Lula é um tema infinitamente constrangedor, assim como o golpe de Estado de 2016. O seu sonho profissional, a meu ver, o que lhes permitiria se sentirem dignos e satisfeitos consigo mesmos, é que a força política eleitoral dominante fosse o PSDB, e apenas o PSDB. Eles seriam, então, jornalistas de “oposição”. Com isso, poderiam fazer reportagens-denúncia bombásticas, que não se tornariam campanhas midáticas de demolição do governo, nem seriam transformadas em conspirações do ministério público. Mas lhes renderiam prêmios de jornalismo.

Poderiam fazer um jornalismo moderadamente progressista, sem que, com isso, fossem confundidos com os violentos e ruidosos mujiques da classe trabalhadora organizada.

Não era assim a década de 90?

Entretanto, pude perceber, ainda falando daquele evento que assisti pela internet, que existe um tema que os obriga a olhar, ainda que ligeiramente, meio que à medo, para a vida real, e lhes dificulta um pouco a tendência de falar de jornalismo como quem discute física de partículas: a ascensão de Jair Bolsonaro e as últimas movimentações do MBL, para censurar exposições.

Eles tratam esses temas, porém, com uma superficialidade assombrosa, porque não podem, jamais, associá-los às campanhas midiáticos-judiciais dos últimos tempos. Aliás, para eles, essas campanhas nunca existiram. Então eles não conseguem explicar ou entender porque o fascismo avança tão rápido no país.

Mas voltemos ao texto de Celso Rocha de Barros, que reproduzo abaixo. Em seguida, faço alguns comentários.

***

Desde que PT caiu, reveses do combate à corrupção se acumulam

Por Celso Rocha de Barros, na Folha

Neste exato momento, as evidências contra Michel Temer são o que PT e PSDB sempre sonharam encontrar um sobre o outro. Quando Dilma caiu, não havia contra ela delação que fosse nem sequer comparável à de Lúcio Funaro contra Temer. Se FHC tivesse sido gravado naquela conversa com Joesley, cairia antes do raiar do dia seguinte.

E, no entanto, Temer acaba de sobreviver a mais uma denúncia. Além da gambiarra de Gilmar Mendes no TSE, já são duas fugas pelo porão do Congresso.

E isso tudo enquanto o Brasil ainda vive sob os efeitos da Lava Jato, a maior investigação de corrupção da história.

Todos os quadros importantes do governo Temer são pesadamente envolvidos nos escândalos. E o que é pior: os escândalos parecem ter destroçado PT e PSDB, que se alternavam no poder, mas deram a Presidência ao PMDB, que foi parceiro de todos os partidos em todos os escândalos.

Ninguém nunca achou que a Lava Jato conseguiria pegar todos os corruptos. Se Temer fosse um caso isolado de picareta que conseguiu fugir, menos mal. Mas há razões para ter medo de que não seja só isso.

Precisamos lidar com a possibilidade de que a janela em que os governantes brasileiros estiveram submetidos à lei, aberta quando o PT chegou ao poder, esteja se fechando.

Os governos petistas eram claramente mais fracos que seus antecessores de centro-direita: eram francamente minoritários no Congresso, nunca tiveram um único veículo de grande mídia que os apoiasse, e estavam sempre sob suspeita do empresariado. A opinião pública teria destroçado o PT se Lula tivesse indicado para o Supremo alguém tão partidário quanto Gilmar Mendes.

Nesse contexto, o jornalismo de denúncia teve uma era de ouro, Joaquim Barbosa prendeu os acusados do mensalão enquanto o grupo deles ainda estava no poder, e a Lava Jato começou seu trabalho.

Desde que o PT caiu, os reveses do combate à corrupção se acumulam. A boa notícia é que a melhor imprensa não deixou de denunciar os escândalos contra Temer; mas o apoio de todos os grandes veículos às reformas acaba colocando um limite no tom e na ênfase. O empresariado provavelmente preferia um governo liberal e honesto, mas, já que não há nenhum em oferta, acaba aceitando um liberal e corrupto. E a esquerda na oposição simplesmente não é forte o suficiente para sustentar politicamente quem enfrentar o novo grupo no poder.

Veja que o problema não é que o PT fosse inocente. É que ele era mais fraco. Sergio Moro nunca correu risco nenhum de ser escrachado pela opinião pública enquanto processava Lula, mas Rodrigo Janot foi massacrado por desmascarar Temer. Não há como comparar o poder de fogo dos blogs petistas anti-Moro com o da atual turma chapa branca.

Na última quarta-feira, após a vitória de Temer, o deputado Cunha Boy Carlos Marun (PMDB-MS) dançou para as câmeras cantando “Tudo está no seu lugar”, de Benito di Paula.

As coisas não estão onde deveriam estar, Marun, mas, ao que parece, estão voltando para onde estavam antes. A janela de transparência de 2003-2016 parece estar se fechando sob governos mais fortes que os petistas. Resta torcer para que Justiça e imprensa tenham acumulado forças suficientes nesse período para sobreviver na nova fase.

Até agora, só perderam.

***

A tese de Barros, se eu bem entendi o artigo, é que a ascensão do PT criou os três fundamentos para a luta contra a corrupção no país: transparência das despesas públicas, autonomia dos órgãos de investigação, respeito absoluto à liberdade de imprensa.

O que veio à tôna, porém, derrubou o próprio PT e, junto com ele, os tais fundamentos, de maneira que estaríamos entrando numa era de muito menos transparência, com enorme risco, portanto, ao combate à corrupção nos anos vindouros.

E o que veio à tôna?

Ora, cada um dos fundamentos produziu o veneno que derrubaria o governo Dilma.

1) A transparência das despesas públicas criou enormes constrangimentos para os grupos que sempre se acostumaram a tratar a coisa pública como se lhe pertencesse. Isso do lado da classe política. No que toca a imprensa, a transparência petista, levada a cabo sem se fazer acompanhar da necessária ampliação da comunicação política, fez com que os governos petistas ficassem amarrados ao que a imprensa autorizava ou não. A imprensa agora conseguia monitorar os mínimos gastos de cada ministério. Se um ministro comprava uma tapioca de maneira irregular, não importava que isso era uma ninharia administrativa que o próprio sistema corrigiria automaticamente adiante: transformava-se num escândalo. Se o governo despejava dinheiro na Globo, isso não tinha importância, nem era notícia. Mas se o governo decidia, timidamente, democratizar uma ínfima parcela da publicidade institucional, isso era descrito na imprensa como tentativa de controlar a opinião pública. O governo aceitava essa interpretação sem nenhum tipo de luta, porque não tinha armas para lutar. Não tinha mídia. E tinha medo.

2) A autonomia dos órgãos públicos, igualmente desacompanhada de aumento do controle político desses mesmos órgãos, permitiu que eles fossem instrumentalizados pela oposição derrotada, em especial pela grande imprensa, que lhes insuflou o corporativismo, a vaidade, a prepotência, até produzir monstros como Joaquim Barbosa, Sergio Moro, Dallagnol.

3) O respeito absoluto à liberdade de imprensa se converteu, em pouco tempo, na entrega da opinião pública aos adversários. Dois anos após sua vitória em 2002, o governo Lula e o PT parecem desistir do embate de narrativas. Esta teria sido a mais perigosa das “concessões” de Lula. Para governar, Lula fez diversas concessões já conhecidas: entregou o Maranhão aos Sarney, o Rio de Janeiro ao PMDB, aliou-se a antigos adversários – e, por fim, deixou a opinião pública com a Globo.

As vitórias do PT em 2006, 2010 e 2014 se dão com apoio maciço das camadas mais pobres, não por convencimento da opinião pública hegemônica – ou seja, da opinião pública das classes dominantes.

Não são mais, por isso mesmo, vitórias políticas e sim vitórias eleitorais.

A derrota eleitoral tripla da opinião pública hegemônica é que explicará a consolidação desse profundo desprezo pelas urnas, expresso no golpe de 2016.

O problema do artigo de Barros – e francamente não posso culpá-lo por isso, em vista do lugar onde ele escreve – é uma série de omissões fundamentais para se entender a conjuntura política nacional.

Quando ele fala que a imprensa, diante de um governo fraco (o petista, sem maioria no congresso, e minoritário também na opinião pública hegemônica), se sentiu mais confiante para fazer denúncias, ele omite, por exemplo, que a mídia brasileira é a mais concentrada e plutocrática do mundo ocidental. Isso gera uma instabilidade política estrutural que não podemos naturalizar.

Quando fala que a Lava jato é a “maior investigação de corrupção da história”, Celso faz sua própria concessão à narrativa central da mídia. A Lava Jato destruiu as principais empresas de engenharia, de construção civil e pesada do país, e foi responsável direto por mais de 4 milhões de empregos destruídos. A Petrobrás e o pré-sal já começaram a ser vendidos, quatro hidrelétricas da Cemig foram privatizadas, e Temer determinou que a Eletrobrás também será sacrificada. Não creio que algum analista político responsável negue que essas coisas são consequência direta da Lava Jato.

A Lava Jato consolidou tantas violações às garantias fundamentais e direitos básicos dos réus, sempre com objetivo de extrair delações premiadas, que seria cansativo repeti-las aqui.

O processo de desnacionalização da economia, iniciado pela Lava Jato, feito às pressas e a preço vil, também confirmam que a Lava Jato é a “maior investigação de corrupção da história”.

A queda abrupta dos investimentos públicos e privados, a suspensão de projetos estratégicos de soberania, como a construção do submarino nuclear e de Angra 3, a anulação de investimentos em pesquisa e tecnologia, tudo isso nos leva a concordar que a Lava Jato realmente foi grande.

Celso observa, prudente, que “o problema não é que o PT fosse inocente”. Eu acho sempre gracioso quando profissionais de ciência política se vêem obrigados a fazer concessões desse tipo ao senso comum, mas tudo bem, isso é inevitável. “É que ele [o PT] era mais fraco”, complementa.

Entretanto, aí vem as duas frases muito interessantes:

“Sergio Moro nunca correu risco nenhum de ser escrachado pela opinião pública enquanto processava Lula, mas Rodrigo Janot foi massacrado por desmascarar Temer. Não há como comparar o poder de fogo dos blogs petistas anti-Moro com o da atual turma chapa branca.”

E aí você vê o talento de Celso, escondendo sujeitos numa frase, predicados na outra, a depender do momento.

Os blogs não são progressistas, de esquerda, que lutam pela democracia e contra o regime de exceção. São “petistas” e “anti-Moro”.

Já o outro lado, dos chapa-brancas, é uma “turma”.

Janot é massacrado por “desmascarar Temer”, mas não se diz quem o massacra.

O que Moro faz com Lula certamente não se pode chamar “processo”, a menos que se queira usar o sentido kafkiano do termo: é uma perseguição abjeta, corroborada pela opinião de milhares de juristas do país, embora esse fato seja solenemente ignorando pela “imprensa”.

Quanto ao “poder de fogo” da turma chapa-branca, em comparação aos “blogs petistas”, seria interessante acrescentar a informação de que a munição vem sendo dada pelo próprio governo, que nunca despejou tanto dinheiro na grande mídia como agora, ao mesmo tempo em que se rasgou qualquer escrúpulo republicano que pudesse haver no uso de recursos públicos.

Os recursos da Secom estão indo exclusivamente para veículos alinhados com o governo aprovado por 3% da população. Lembram das reportagens da Folha esquadrinhando para onde iam os recursos de publicidade de estatais e governo federal? Nunca mais apareceram.

Esse é o “poder de fogo”, Celso, da “turma chapa-branca”. O dinheiro pontual que chega na sua conta bancária tem uma origem: Michel Temer. Talvez seja por isso que o núcleo de Temer fique tão irritado quando questionados ou criticados na grande imprensa por colunistas como Celso. Não entendem como isso seja possível. Afinal, não pagam justamente para que isso não aconteça?

A conclusão do artigo de Celso oferece ao leitor, por isso mesmo, uma perspectiva ingênua.

A janela de transparência de 2003-2016 parece estar se fechando sob governos mais fortes que os petistas. Resta torcer para que Justiça e imprensa tenham acumulado forças suficientes nesse período para sobreviver na nova fase.

Os novos governos não são exatamente “mais fortes” que os petistas. O governo Temer é fraco. Sua força deriva exatamente da mesma “Justiça” e “imprensa”, ou Celso esqueceu da quantidade gigante de vitórias de Temer e seus aliados na justiça e da proteção de que goza na imprensa?

O próprio Celso, pouco antes, ao passar um pano no chapa-branquismo ao dizer que a “imprensa não deixou de denunciar os escândalos contra Temer”, admite que “o apoio de todos os grandes veículos às reformas acaba colocando um limite no tom e na ênfase”.

Que “reformas” são essas?

Foram discutidas numa campanha eleitoral? Ou melhor, estão sendo discutidas na imprensa hoje? Não. A imprensa, portanto, não apenas dá apoio às reformas; ela mente à população, ao escamotear o teor das próprias reformas.

Este “limite no tom e na ênfase” é, na verdade, um eufemismo para descrever o apoio canino que a grande imprensa brasileira dá ao governo Temer.

Outra coisa, a imprensa brasileira descobriu uma fórmula inteligente para sustentar e apoiar um governo sem exagerar muito na forma: faz uma agressiva campanha para destruiu ou invisibilizar qualquer movimento, organização ou iniciativa que possa oferecer um risco ao governo.

Quando o PT estava no poder, a Folha chegou a fazer matéria, de página inteira, com um casal que foi à Esplanada dos Ministérios protestar contra Dilma. Hoje, Lula reúne milhares de pessoas em suas caravanas e a Folha mobiliza toda a sua equipe para não dar nada.

Quanto à Justiça, não foi ela que proibiu Lula de assumir um ministério e, em seguida, permitiu que Moreira Franco o fizesse?

Não foi ela que prendeu Delcídio do Amaral e soltou a irmã do Aécio?

Não foi a Justiça que prendeu Vaccari e soltou Rocha Loures?

Não foi a Justiça, sob o silêncio acumpliciado da imprensa, que censurou Caetano Veloso, quando ele tentou fazer um show para os sem teto de São Bernardo do Campo?

Não é a Justiça que condenou Lula sem provas, e que provavelmente chancelará a condenação na segunda instância, ainda sem provas, para beneficiar o candidato da mídia?

Não foi a Justiça – sob a cumplicidade da mídia – que permitiu que juízes e procuradores ocupassem, e ocupem até hoje, os palanques da política, desde que sejam em favor do golpe, mas que imediatamente punem e investigam quando juízes se manifestam contra o golpe?

A “nova fase”, Celso, de que você fala, é um regime de exceção, já em vigor, dominado justamente pela “imprensa” e pela “justiça”.

É claro, portanto, que esses dois acumularam força suficiente para sobreviver à “nova fase”, pois a nova fase vivida pelo Brasil é justamente um mundo sombrio, triste e autoritário, dominado por corporações judiciais e midiáticas.

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Imprensa lavajatense reage mal a depoimento de Tacla Duran https://www.ocafezinho.com/2017/11/03/imprensa-lavajatense-reage-mal-depoimento-de-tacla-duran/ https://www.ocafezinho.com/2017/11/03/imprensa-lavajatense-reage-mal-depoimento-de-tacla-duran/#comments Fri, 03 Nov 2017 12:57:27 +0000 https://ocafezinho.com/?p=80872 13 Comentários 🔥]]> Para entender a Lava Jato, é preciso atentar para o fato de que ela nunca foi apenas uma operação policial.

A Lava Jato é uma operação midiática.

Foi concebida para derrubar o governo Dilma, criminalizar o PT e destruir a indústria brasileira de óleo e gás, com objetivo de beneficiar multinacionais do petróleo, em especial as norte-americanas.

A Lava Jato foi concebida para dar o golpe no Brasil e entregar o poder político a bandidos do mercado financeiro e à Globo.

Depois do golpe, ela tenta disfarçar, fingindo que investiga ali, investiga acolá, sabendo que tudo irá resultar em pizza.

Mas o objetivo foi cumprido: houve o golpe e o Brasil foi entregue a bandidos sem nenhum tipo de compromisso com a população e totalmente obedientes às diretrizes do mercado financeiro, lá fora, e à Globo, aqui dentro.

As histórias de que o golpe foi dado com objetivo de “parar a Lava Jato” são ingênuas. O golpe foi dado pela Lava Jato. E agora que não importa mais se a Lava Jato continua ou não, porque o serviço já foi feito.

Depois da Lava Jato, o Brasil suspendeu projetos de construção de refinarias, paralisou as refinarias já construídas, e passou a importar quantidades recordes de derivados de petróleo de refinarias norte-americanas.

Depois da Lava Jato, o Brasil iniciou a entrega do pré-sal, já vendeu partes importantes da Petrobrás, já destruiu ou quase destruiu suas principais indústrias, paralisou o projeto de energia nuclear, e agora se prepara para privatizar a Eletrobrás, entregando ao estrangeiro a matriz energética mais limpa do mundo.

Os “prêmios” de Sergio Moro na Globo e nos Estados Unidos tem essa explicação.

A Lava Jato sempre atacou pela mídia, que ela também corrompeu, desde o início.

Ao escolher a dedo para quem irá entregar vazamentos ilegais, a Lava Jato corrompe e controla a mídia, que se deixa corromper e se deixa controlar, até porque entendeu que tinha os mesmos objetivos políticos.

A mídia brasileira, corrupta, plutocrática e antinacional, identificou-se imediatamente com a Lava Jato.

Hoje, a Lava Jato planta uma matéria na Folha, intitulada “Fugas e cidadania estrangeira atrasam processos da Lava Jato com Moro“, que não passa de uma tentativa grosseira de atacar Rodrigo Tacla Duran.

A matéria não traz nenhum fato novo, nenhuma denúncia, nenhum documento, nada.

É apenas uma matéria chapa-branca em relação a Sergio Moro.

Uma matéria, em suma, vendida à Lava Jato.

Ora, Tacla Duran fez denúncias importantes.

Tem documentos.

Tacla Duran não está preso nas masmorras da Globo em Curitiba. Ou seja, não está sob tortura, como ocorre com todos os delatores da Lava Jato.

Não está fazendo “delação premiada”, pelo menos não com o Brasil.

Tacla Duran está simplesmente apresentando a sua versão dos fatos, de maneira livre e espontânea.

O que disse Tacla Duran?

Que a Lava Jato ameaçou sua família.

Que a Lava Jato falsificou documentos, ou aceitou, deliberadamente, documentos falsos.

Ele poderia simplesmente não falar nada. Silenciar-se.

Não.

Recebeu dois deputados brasileiros críticos à Lava Jato e gravou um depoimento franco e corajoso.

Como reage a imprensa brasileira?

Está curiosa para saber o que aconteceu?

Informou seus leitores sobre o teor das denúncias de Tacla Duran?

Não.

A imprensa lavajatense reagiu com silêncio e omissão, num primeiro momento.

E agora, com essa matéria na Folha, com um contra-ataque chapa-branca-policial da… Lava Jato.

Lava Jato e imprensa lavajatense sentiram o golpe.

Daqui a pouco, publicaremos, aqui no Cafezinho, a transcrição completa do áudio de Tacla Durán.

Leia o resumo do áudio escrito por Romulus Maya e publicado aqui no Cafezinho.

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Ibope: 70% dos pobres acham governo Temer pior que Dilma https://www.ocafezinho.com/2017/10/27/ibope-70-dos-pobres-acham-governo-temer-pior-que-dilma/ https://www.ocafezinho.com/2017/10/27/ibope-70-dos-pobres-acham-governo-temer-pior-que-dilma/#comments Fri, 27 Oct 2017 17:30:05 +0000 https://ocafezinho.com/?p=80493 7 Comentários 🔥]]> O CNI/Ibope disponibilizou, há pouco, os dados estratificados da última pesquisa de aprovação do governo.  São números que devemos analisar com atenção.

Neste post, eu me concentrei na parte da pesquisa que compara os governos Temer e Dilma. O pesquisador pergunta ao entrevistado se ele acha o governo Temer melhor, igual ou pior que o governo Dilma.

No total, 59% responderam que o governo Temer é pior.

É interessante, porém, olhar os dados estratificados. Neles, veremos que, para o Nordeste, 72% acham o governo Temer pior que Dilma. Entre homens e mulheres de 25 a 54 anos, 62% acham  o governo Temer pior. Entre os mais pobres, com renda familiar até 1 salário, 69% acham o governo Temer pior que o governo Dilma.

Isso mostra que o povo pode não estar indo às ruas, porque ainda não vislumbrou uma estratégia segura.

Mostra também que o apoio do PSDB, Globo, judiciário e direita ao governo golpista está ficando cada vez mais caro politicamente.

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CNJ quer aplicar lei da mordaça contra juízes de esquerda https://www.ocafezinho.com/2017/10/24/cnj-quer-aplicar-lei-da-mordaca-contra-juizes-de-esquerda/ https://www.ocafezinho.com/2017/10/24/cnj-quer-aplicar-lei-da-mordaca-contra-juizes-de-esquerda/#comments Tue, 24 Oct 2017 15:07:19 +0000 https://ocafezinho.com/?p=80336 226 Comentários 🔥]]> Primeiramente, uma propaganda do meu Curso de Blogosfera Política. Inscrevam-se!

O Conselho Nacional de Justiça, provocado pelo corregedor João Otávio Noronha, acaba de inaugurar uma lei da mordaça contra juízes progressistas e de esquerda.

Trata-se de um esforço bem previsível do golpismo. Na mesma linha da “escola sem partido”. Ao mesmo tempo em que fica mais claro, para a maior parte da população, que o impeachment foi um golpe sórdido das elites contra os pobres, o judiciário, cúmplice criminoso desse processo, quer intimidar todos os seus membros que ainda defendem valores genuinamente democráticos.

No mesmo dia em que o juiz Sergio Moro está no Fórum do Estadão, em evento coordenado pelo Centro de Debates de Políticas Públicas (CDPP), um think tank profundamente conservador, de um liberalismo ortodoxo, dirigido apenas por economistas de direita, tucanos e/ou oriundos da ditadura (como Affonso Celso Pastore), o CNJ aprovou a abertura de procedimento administrativo contra juízes do Rio de Janeiro que se posicionaram publicamente, em manifestação popular, contra o processo de impeachment, que eles criticaram duramente como um golpe e que previram, profeticamente, que significava ataque aos direitos políticos de todos os brasileiros.

Sergio Moro, no evento do Estadão, defendeu a prisão cautelar como forma de “evitar a corrupção”.

É um gênio.

A prisão cautelar é o principal instrumento do arbítrio, porque é a prisão que se dá antes que o réu tenha a chance de se defender, antes que tenha a oportunidade de oferecer ao Estado e à sociedade a sua própria versão dos fatos.

Na edição de hoje do Cafezinho no Almoço, eu discorro sobre esse fatos. E falo também sobre a quarta parte da série “Quem ganhou com o golpe?”.

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Após poupar Aécio e Temer, consórcio midiático-policial avança sobre Pimentel https://www.ocafezinho.com/2017/10/23/apos-poupar-aecio-e-temer-consorcio-midiatico-policial-avanca-sobre-pimentel/ https://www.ocafezinho.com/2017/10/23/apos-poupar-aecio-e-temer-consorcio-midiatico-policial-avanca-sobre-pimentel/#comments Mon, 23 Oct 2017 13:52:40 +0000 https://ocafezinho.com/?p=80269 6 Comentários 🔥]]> A notícia, em área nobre da capa do jornal O Globo de hoje, e ocupando a página 3 inteira de alto a baixo, com direito a infográfico encabeçado por Pimentel, não deixa dúvidas: o consórcio midiático-policial (que inclui um judiciário transformado também em polícia), permanece eufórico com a musculatura adquirida após o golpe.

Após Aécio e Temer serem preservados, a mão invisível do golpismo avança contra o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel.

O show, afinal, tem de continuar.

A reação de Pimentel tem sido a pior possível, em se tratando de um petista, ou seja, em se tratando de alguém do “grupo de risco”.

Um Aécio ainda consegue escapar do laço judicial permanecendo muito quieto, escondido em casa e longe dos holofotes. Isso porque o “establishment”, comandado por aiatolás de mídia e barões do judiciário (chamá-los-ei agora assim) é organicamente tucano.

Um petista pode ser salvo exclusivamente pelo povo. Esta é a dura lição que deveria ter sido aprendida após o suicídio político de Dilma Rousseff, que tentou fugir da crise transformando o Palácio do Planalto num “aparelho”, deixando que a mídia massacrasse diariamente, sem contraponto, o seu governo e o partido que o sustentava.

Se o governador quiser fugir do script que a Globo já começou a escrever para ele, e que termina invariavelmente com longas temporadas na prisão, ele precisa descer à arena de luta e mostrar suas armas. Pimentel é um governador com boa avaliação popular, que, no entanto, irá se esfarelar rapidamente caso ele não ofereça sua própria narrativa à população.

Confiar na justiça, a esta altura do campeonato, não é mais apenas estupidez. É resignação com a própria morte. É suicídio. Parodiando Carmen Lucia, o cinismo do sistema brasileiro de justiça venceu o escárnio.

Até o momento, porém, a única reação de Pimentel parece ser dar entrevistas montadas à Globonews. Ou seja, dar mais força ao adversário.

Não sou contra políticos progressistas darem entrevistas à imprensa conservadora. Muito pelo contrário: acho que deveriam dar muito mais entrevistas. Porém: 1) as próprias entrevistas deveriam ser mais ousadas; 2) deveriam ser equilibradas com entrevistas para outros órgãos alternativos.

O preconceito de alguns figurões do PT com a imprensa alternativa é inexplicável. O partido apenas tem sobrevivido, nos últimos anos, porque essa outra imprensa pôs em cheque, em parte importante da opinião pública, a narrativa única da grande mídia.

Esse questionamento às verdades midiáticas deu todas as vitórias que a esquerda conheceu nos últimos anos. Se Dilma tivesse montado uma sofisticada estratégia de comunicação desde o início da primeira gestão, talvez não fosse derrubada por um golpe cuja principal força veio dos velhos e tradicionais meios, porta-vozes da elite mais retrógrada e egoísta do planeta.

Por isso mesmo, há uma espécie de “justiça poética” também por trás de todas as agruras vividas pelo PT: o partido não lutou.

Em muitos aspectos, não luta até hoje.

Não há nenhuma estratégia organizada entre governadores, prefeitos e parlamentares petistas, para reagir ao avanço do golpismo, que precisa silenciar e intimidar todas as forças políticas que discordam das ações do novo regime liderado apenas pró-forma por Michel Temer, mas que, na verdade, é comandado de fora do país, pelas forças do mercado financeiro internacional.

Nessa conjuntura, um dos fatos mais espantosos não é somente a destilação, pela Globo, de um cinismo tão absoluto, tão puro, que faria inveja ao mais rigoroso produtor de uísque escocês: me parece igualmente espantosa a facilidade com que a Globo engambela tantos setores sociais, da esquerda à direita.

A esquerda ainda acreditou que a Globo queria “derrubar” Temer, esquecendo que Temer é apenas um fantoche do mercado financeiro que pode ser substituído facilmente por qualquer outro. Quando critica Temer, ou Aécio, a Globo (que pauta o comportamento de todo o sistema nacional de comunicação) apenas produz a dramaturgia necessária para haver ao menos um simulacro de democracia. Para a Globo e seus tentáculos judiciais, é muito conveniente que o presidente seja fraco o suficiente para que não ouse ir além dos limites demarcados por suas diretrizes macro-econômicas e políticas, embora forte o bastante para aprovar as reformas que deseja no Legislativo e enterrar investigações contra si.

Para alcançar esse objetivo, o consórcio midiático-policial cercou o castelo onde se alojou o novo regime (implementado lá por ações do próprio consórcio) com canhões semióticos de onde dispara, diariamente, ataques contra todas as forças organizadas que poderiam impedir ou atrasar as iniciativas do novo regime.

A direita também é ludibriada pela Globo, mas de uma outra forma. A postura “liberal” da Globo, na acepção norte-americana, é uma máscara para encobrir uma filosofia profundamente antiliberal, trevosa, baseada na repressão policial e judicial contra dissidentes políticos, na ausência de limites a estes aparelhos de repressão, na concordância com todas as teses de que o Brasil sofre com “excesso” de garantias individuais. É o liberalismo à brasileira. No passado, nossos liberais professavam a fé na liberdade durante o dia e açoitavam seus escravos à noite. No presente, os mesmos liberais discorrem sobre as maravilhas da liberdade econômica durante o dia e aplaudem, à noite, notícias de que a “luta contra a corrução” não vai mais respeitar as liberdades políticas.

A direita xucra, por sua vez, acredita que a Globo é “do mal” porque põe, uma vez por ano, um gay dando uma bituquinha em outro gay. É claro que esses são adversários que interessam imensamente à Globo. A melhor coisa para um grupo fascista que não quer ser visto como tal é receber críticas de grupelhos ainda mais fascistas. É o mesmo tipo de confusão que assistimos, nos últimos anos, com radicais de direita chamando Aécio e tucanos de “comunistas”.

Em Estado Pós-Democrático, seu último livro, Rubens Casara se refere constantemente ao “psicopoder”, que é, entre outras definições, o poder opressivo que se internaliza dentro da cabeça dos cidadãos, e que eles acabam usando contra si mesmos, autocensurando-se o tempo inteiro, intimidados com as intermináveis novelas político-judiciais que assistem na televisão. Isso quer dizer que os ataques midiáticos ao PT não visam somente o partido e seus filiados, mas toda a população, que se sente ameaçada, direta ou indiretamente, por conta de suas próprias opiniões, que precisa esconder, adaptar ou transformar completamente, para se sentir mais segura no trabalho, em casa, junto à família.

Para completar o quadro de caos institucional (caos que interessa ao grande capital, porque um sistema político organizado não permitiria uma “experimentação” tão irresponsável como a que vivemos no Brasil), o ministro Marco Aurelio Mello, do STF, acaba de autorizar que a Polícia Federal também possa fechar acordos de delação premiada.

Ou seja, mesmo com todas as denúncias, o Estado policial ganhou mais uma poderosa arma.

A PF agora poderá emular o jogo sujo do Ministério Público e pressionar indivíduos, fragilizados e apavorados (independente se são ricos ou pobres, quase todos se intimidam ao se verem nus e vulneráveis diante do aparelho repressor do Estado, ainda mais quando sabem que este conta, invariavelmente, com o apoio da grande mídia), a corroborarem narrativas e powerpoints pre-escritos com objetivos políticos minuciosamente calculados.

A decisão do STF pode deflagrar ainda uma outra crise institucional, que poderíamos chamar aqui de “guerra dos delatores”. MP de um lado, intimidando réus a falarem uma coisa, e PF de outra, chantageando e torturando gente para afirmarem outra coisa.

Mais caos, mais abusos, mais autoritarismo.

Enquanto isso acontece, a imprensa mancheteia que os hospitais do Rio estão cancelando a maior parte das cirurgias não emergenciais. A gente sabe o que isso significa: morte.

Isso é resultado direto da Lava Jato e da insanidade judicial e política que tomou conta de todo país. Com a criminalização de tudo, da política, das empresas, dos processos eleitorais, a economia é paralisada. Sem crédito no BNDES, nem em lugar algum, os empresários buscam preservar seu capital de giro simplesmente não pagando os impostos, quebrando as finanças públicas.

Ainda na grande imprensa, leio que o “Fisco vai bloquear cem mil empresas”, a maioria micro e pequenas empresas. Quebrado, acéfalo, dominado por corporações estrangeiras e interesses do mercado financeiro, o governo perdoa dívidas bilionárias de latifundiários e banqueiros e avança, rosnando e babando, para cima dos pequenos empresários, já imensamente fragilizados pela crise.

Ah, mas não tem problema. O Financial Times, quando aborda o Brasil, não está preocupado com a crise nos hospitais do Rio, nem com a quebradeira das empresas, e sim, exclusivamente, com o sucesso das iniciativas federais para entregar o pré-sal às petroleiras multinacionais. Estas fazem lobby para sequer pagarem impostos no Brasil. Querem explorar o nosso petróleo, contratar engenheiros estrangeiros, e só.

Há uma articulação no congresso que poderá significar mais de um trilhão de reais em isenção fiscal para as petroleiras operantes no país.

Diante deste cenário, só nos resta lutar por mais conscientização política do povo. Este é o trabalho mais importante e mais difícil, já que o processo de golpe do qual fomos vítimas ancorou-se justamente no mais concentrado sistema de mídia do planeta.

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Lucio Funaro e a desmoralização da “delação premiada” https://www.ocafezinho.com/2017/10/16/lucio-funaro-e-desmoralizacao-da-delacao-premiada/ https://www.ocafezinho.com/2017/10/16/lucio-funaro-e-desmoralizacao-da-delacao-premiada/#comments Mon, 16 Oct 2017 13:34:30 +0000 https://ocafezinho.com/?p=79972 6 Comentários 🔥]]> (Banksy)

Um dos principais “operadores” do PMDB, o doleiro Lucio Funaro, afirmou, em sua delação premiada, que Eduardo Cunha pediu – e recebeu – R$ 1 milhão para convencer alguns deputados federais a votarem em favor do impeachment.

Funaro disse ainda que Geddel Vieira Lima ficava com 65% das propinas que o PMDB obtinha de seus esquemas. Cunha e ele, Funaro, ficavam com o resto meio e meio.

Como de praxe, o “vazamento” da informação de Funaro foi para um órgão amigo da Lava Jato, a Folha de São Paulo. A Lava Jato precisa estar, constantemente, molhando a mão da imprensa para mantê-la pendurada, bem chapa-branca, à sua própria narrativa.

O Globo, por sua vez, repercute a notícia de uma maneira bem curiosa.

Ou seja, nenhuma indignação. A transformação do congresso num grande mercado, onde os “aliados” têm um preço, é tratada com normalidade.

Na farsa do “mensalão”, construiu-se, ou se tentou construir, na opinião pública, uma indignação histérica porque o governo teria “comprado” deputados para aprovar reformas importantes.

Agora o governo compra deputados, à luz do dia, para suspender investigações criminais contra si mesmo, e a mesma imprensa trata a coisa como um fato normal. Com um detalhe macabro: o “mercado” torce em favor de Temer, o que mostra que o sr. mercado não dá muita bola para ética, democracia ou interesse nacional.

Eu demorei para tratar o assunto da delação de Funaro porque não acredito em delação. Acho que é sempre uma excrescência. Pelo jeito, não sou apenas eu. A “opinião pública” também está cansada. O partidarismo nojento do sistema de justiça desmoralizou o instituto da delação premiada em tempo recorde.

Como saber se Funaro disse a verdade? Cunha pode ter pedido R$ 1 milhão, sim, ou pode ter pedido R$ 100 milhões. Ou o pedido pode ter sido de Michel Temer. Enfim, como saber?

A única coisa que sabemos é que sempre há um interesse por trás da delação.

Desde que começamos a fuçar, com mais atenção, as conspirações que levaram ao impeachment, já tínhamos identificado, por exemplo, que uma das estratégias mais bem sucedidas de seus operadores na mídia e no sistema de justiça era justamente intimidar a classe política.

Intimidada, a classe política se engajaria, quase com desespero, em prol das reformas neoliberais, com muitos políticos experientes intuindo, com acerto, que seriam preservados da fúria policial caso entregassem o serviço em tempo recorde.

E assim foi.

Mídia e “mercado” tratam de blindar os políticos que trabalham firmes em prol do desmonte do Estado.

Naturalmente, esse controle não é absoluto. Alguns políticos são toscos demais e acabam se empolgando demasiadamente com a liberdade que a mídia lhes oferece. É o caso de Geddel.

Não podemos esquecer, porém, que a Lava Jato e a Globo lideraram uma conspiração para derrubar uma presidenta honesta e substituí-la por um governo onde Geddel Vieira Lima fazia parte do “núcleo duro”, junto com Moreira Franco e o próprio Michel Temer.

Assim foi o golpe.

Impôs à população um governo não eleito, impopular, rejeitado pela população, cercado de ministros e forças ligadas ao partido derrotado nas últimas quatro eleições, que está implementando um programa não discutido com a sociedade.

Ou seja, o golpe trouxe profunda infelicidade e humilhação ao país, como era previsto.

Dilma, com todos os seus problemas, sempre foi defendida nas ruas por grupos sociais importantes. Que grupos sociais estão nas ruas, hoje, a defender o governo Temer?

O sistema de justiça, por sua vez, parece fazer questão de confirmar que é mesmo o núcleo mais importante do golpe.

Os ataques a Lula, a Dilma, e a blindagem a algumas peças estratégicas da oposição, como se testemunhou em tantas ocasiões, a Moreira Franco, Aécio Neves, Serra, FHC, significam que o sistema brasileiro de justiça tem lado,  e não é o lado da população, da democracia e da soberania nacional.

Rubens Casara, em seu recém-lançado Estado Pós-Democrático (compre aqui e leia: é um livro essencial!), no capítulo dedicado ao “Poder Judiciário”, observa que

(…) os meios de comunicação de massa conseguem fixar sentidos e produzir ideologias, o que interfere na formação da opinião pública e na construção do imaginário social. Assim, o “bom juiz”, construído/vendido por essas empresas de comunicação e percebido por parcela da população como herói, passa a ser aquele que considera os direitos fundamentais empecilhos à eficiência do Estado, ou do mercado. Para muitos, alguns por ignorância das regras do jogo democrático, o “bom juiz” é justamente aquele que, ao afastar direitos fundamentais, nega a concepção material de democracia – democracia não só como participação popular na tomada de decisões, mas também como concretização dos direitos e garantias fundamentais. Esse “bom juiz” é peça-chave à manutenção do Estado Pós-Democrático.

Note-se que o distanciamento em relação à população gerou em setores do Poder Judiciário, mesmo entre aqueles que acreditam na democracia, uma reação que se caracteriza pela tentativa de produzir decisões judiciais que atendam à opinião pública (ou, ao menos, aos anseios externados pelos meios de comunicação de massa). Tem-se o populista judicial, isto é, o desejo de agradar ao maior número de pessoas possível através de decisões judiciais como forma de democratizar a justiça aos olhos da população, mesmo que para tanto seja necessário afastar direitos e garantias previstos no ordenamento. Assim, não raro, juízes de todo o Brasil passaram a priorizar a hipótese que interessa à mídia ou ao espetáculo em detrimento dos fatos que podem ser reconstruídos por meio do processo. No Brasil, a Ação Penal (AP) 470, conhecida como o caso Mensalão, e o caso Lava Jato (na realidade, um complexo de casos penais) são exemplos paradigmáticos.

Em outra parte do livro, no capítulo intitulado “O sistema de justiça criminal e sua tradição autoritária”, Casara denuncia a figura do “juiz-inquisidor”:

O juiz-inquisidor da atualidade, muitas vezes com o apoio dos meios de comunicação, que reforçam versões desfavoráveis aos réus e propagam o sentimento de medo na população, confunde as funções de julgar e acusar, afastando-se do dever que lhe é atribuído nas legislações democráticas: o de concretizar direitos e garantias fundamentais de todos, inocentes ou culpados. Na pós-democracia, desaparece a noção do dever do agente estatal de garantir direitos fundamentais.

A consequência da confusão ou da promiscuidade entre as funções de “acusar” e “julgar” é o fenômeno, ainda que muitas vezes inconsciente para o juiz, do “primado da hipótese” descrita na acusação sobre o fato ocorrido no mundo-da-vida (Franco Cordero). Com isso, tem-se a quebra da imparcialidade do julgador. Confirmar a acusação, a partir de uma espécie de certeza delirante, passa a ser a missão do juiz inquisidor, o que gera um comprometimento desse ator jurídico com a versão da acusação e impede o distanciamento necessário para um julgamento justo, no qual o respeito aos direitos e garantias fundamentais se faça presente.

Brandindo suas “certezas delirantes”, juízes e procuradores, inconscientes ou não, pautam a agenda política, desviam o foco da indignação popular e, pior, chancelam golpes de Estado, jogando o país numa crise econômica e política de proporções catastróficas para a população.

O culpado, neste caso, não é apenas Sergio Moro. Os tribunais superiores tem responsabilidade direta nesta situação. Um impeachment escancaradamente ilegal foi o ponto culminante de um processo interminável de ilegalidades aceitas pelo judiciário.

A “delação” de Lucio Funaro serve apenas como uma humilhação a mais, além de servir para reafirmar o poder das instâncias burocráticas, que não teriam sido “compradas” por Eduardo Cunha. Não, os juízes são mais elegantes: são comprados por prêmios, palestras em Washington, entrevistas e reportagens lisonjeiras. Desde que, é claro, se mantenham servis à narrativa central do golpe, desde que se comportem direitinho nestes difíceis momentos de “pausa democrática”…

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Alex Cuadros: a leviandade jornalística a serviço do império https://www.ocafezinho.com/2017/10/13/alex-cuadros-leviandade-jornalistica-servico-do-imperio/ https://www.ocafezinho.com/2017/10/13/alex-cuadros-leviandade-jornalistica-servico-do-imperio/#comments Fri, 13 Oct 2017 17:22:31 +0000 https://ocafezinho.com/?p=79865 15 Comentários 🔥]]> A batalha mais difícil que teremos de enfrentar, para recuperamos a imagem do país, não é a política, cujo debate, mal ou bem, em virtude da internet, oferece um pouco de pluralidade e, sobretudo, profundidade.

Não é nem mesmo a jurídica, na qual os vencedores de hoje virão a ser os derrotados de amanhã, desde que a verdade, com sua força interna, se imponha sobre as “convicções”.

O front de guerra mais perigoso, mais traiçoeiro, é aquele da imprensa tradicional, porque ela é o instrumento principal do poder ideológico das classes e países dominantes, usado para perpetuar situações de extrema desigualdade que produzem sofrimento e miséria em toda parte.

Eu enfatizo o termo “imprensa tradicional”, porque refiro-me não apenas àqueles órgãos de imprensa suspeitos de sempre, mas a todas as histórias que se penduram, de maneira superficial e preguiçosa, nas narrativas consolidadas por aqueles órgãos, ou por seus subsidiários nos países periféricos.

O caso de Alex Cuadros, um jovem jornalista norte-americano que passou alguns anos morando no Brasil, como correspondente da Bloomberg, primeiro, e depois como colaborador de outras empresas, é emblemático.

Cuadros veio ao Brasil com uma missão curiosa: seria uma espécie de correspondente especializado na vida e negócios dos ultrarricos brasileiros.

Naturalmente, uma missão assim pressupõe que o jornalista em questão tenha uma personalidade suficientemente forte para enfrentar o assunto com desassombro: o investimento da Bloomberg nessa nova “editoria” certamente não visava produzir relatos de um repórter deslumbrado pela riqueza alheia. A agência pedia descrições vívidas, interessantes, informativas.

Encerrado o trabalho, Cuadros permaneceu no Brasil e escreveu um livro sobre os bilionários brasileiros, intitulado Brazillionaires, que foi traduzido e vendido por aqui também. Eu comprei o livro pela Amazon, ainda em inglês e o li.

É um livro que oferece passagens interessantes. Traz até a informação sobre a “mansão dos Marinho” em Paraty, ligada as histórias obscuras de lavagem de dinheiro, que os Marinho negam que pertençam a eles. O capítulo sobre a família Marinho, aliás, é o mais interessante do livro.

Mas outros capítulos revelam que Cuadros não conseguiu fugir do senso comum que, certamente, rodeava seu círculo de amizades enquanto morava no Brasil e, sobretudo, suas leituras da imprensa tradicional. A comparação entre a construção de usinas hidrelétricas, responsáveis por assegurar a soberania energética do país e, com isso, o nosso desenvolvimento, com “pirâmides do Egito” é uma das coisas mais estúpidas que eu tive a oportunidade de ler.

Ao mesmo tempo, é uma comparação que, de forma inconsciente, externa um sentimento imperialista em relação ao Brasil. Cuadros não encontraria jamais espaço para afirmar isso sobre a construção de usinas, refinarias ou hidrelétricas nos EUA, que podem até ser criticadas do ponto-de-vista ambiental, mas jamais comparadas com obras faraônicas que não teriam nenhum uso prático para os povos do Egito Antigo.

Já o Brasil, ah o Brasil! Construir refinarias, hidrelétricas, usinas nucleares, certamente só poderia ser uma iniciativa faraônica feita com intuito de enriquecer empreiteiras e roubar. Sergio Moro, com menos inocência que Cuadros, falaria coisas semelhantes em suas “palestras” para o mercado financeiro.

Hoje, Cuadros escreve sobre o Brasil para o site da New Yorker (não sei se os textos vão também para a edição impressa) e foi aí que voltei a encontrá-lo, e a me decepcionar – não apenas com Cuadros mas também com a New Yorker.

A New Yorker que eu conhecia, e gostava, publicava reportagens incômodas, originais, profundas, de gente como Gore Vidal e Truman Capote.

Os textos de Cuadros são notinhas superficiais, curtas, desinteressantes, escritas com um espírito preguiçoso e leviano, que apenas copiam clichês da mídia tradicional brasileira.

Seu último texto na New Yorker é uma resenha sobre recentes ameaças de golpe militar e… Jair Bolsonaro. Se o Brasil vivesse uma situação normal, talvez eu gostasse do texto, porque fala mal de Bolsonaro e dos militares. Mas não estamos numa situação normal. É um desses textos superficiais que, ao não mencionar nenhuma das causas reais dos processos políticos atuais, apenas reforça as mesmas narrativas que produziram as declarações de oficiais em prol de um novo golpe e o próprio Bolsonaro.

Quando Cuadros sai da mera descrição dos fatos relativos as ameaças militares e do anedotário sobre Bolsonaro, ele diz que “nesse meio tempo, deputados de distintas identidades ideológicas se uniram para minar o poder do judiciário”.

A afirmação é típica: ela integra o núcleo duro da narrativa dominante no Brasil, e é mentirosa.

O dever do jornalismo não pode ser, jamais, repetir o senso comum. A afirmação de Cuadros poderia vir de um esquerdista alienado, que acredita na Lava Jato e em Sergio Moro (uma categoria em declínio, felizmente), ou de um representante da antipolítica, que rejeita todos os partidos. Ou de um eleitor de Bolsonaro.

Sim, porque as pesquisas mostram que o principal apoio à Lava Jato e a Sergio Moro vem dos eleitores de Bolsonaro.

Nas manifestações em favor do impeachment, os mesmos grupos que defendiam uma “intervenção militar” foram migrando para a defesa de Sergio Moro – e isso não porque esses grupos se tornaram mais democráticos, e sim porque a “intervenção judicial” abraçou o autoritarismo brutal que esses grupos clamavam.

Quando partidos e políticos se unem em críticas ao judiciário, não é para “minar o seu poder”, como afirma Cuadros, e sim para tentar reconduzi-lo aos trilhos constitucionais.

Como Cuadros é um leitor da Folha de São Paulo e do colunista Josias de Sousa, talvez ele não saiba que vem florescendo, no Brasil, uma rica bibliografia contra o autoritarismo do judiciário brasileiro, assinada por nossos mais competentes juristas. Eu o aconselharia a ler as colunas de Lenio Streck, no Conjur, por exemplo.

Em “Estado pós-democrático”, livro lançado há poucos dias, o juiz de Direito Rubens Casara também faz uma denúncia sombria, dolorosa, terrível, contra o fascismo judicial que vem se alastrando no país – sobre o qual o jornalista Alex Cuadros, justamente pelo vício de ler a realidade brasileira apenas através de seus grandes meios de comunicação, não deve ter informação suficiente.

Cuadros omite dos leitores da New Yorker que foram esses mesmos meios de comunicação que apoiaram o golpe de 64, que sustentaram a ditadura, construíram a atmosfera que levou ao golpe de 2016, chancelam os ataques de Temer aos direitos sociais, e teceram a narrativa que fez Bolsonaro e o golpe militar se tornarem um risco real à democracia brasileira.

Curioso, eu acabei entrando num artigo de Alex Cuadros, também publicado no site da New Yorker, em julho, sobre a condenação de Lula.

O título diz tudo: “A mais importante condenação criminal da história brasileira”.

Se esse post fosse apenas sobre este artigo, e não sobre a leviandade jornalística, de uma forma mais geral, eu poderia intitulá-lo como “O mais vergonhoso artigo da história da New Yorker”.

No entanto, é um artigo curto, incrivelmente desonesto e superficial, ou seja, totalmente na contramão da ideia que eu tinha da New Yorker, no qual Cuadros apenas alinhava os principais chavões que sustentam a narrativa da imprensa corporativa do Brasil.

Durante toda a era Lula/Dilma, a imprensa brasileira vendeu a tese de que uma das funções mais importantes da imprensa era fazer a “crítica ao poder”. É um conceito nobre, mas sua prática, pela própria imprensa, sempre se revelou falsa: porque o único poder que ela efetivamente criticava era o poder do presidente da república. Ora, o poder jamais, em nenhum país democrático, está concentrado exclusivamente em mãos do presidente da república. Há o poder da própria mídia, que muitas vezes é superior. Há o poder das corporações privadas. O poder do mercado. O poder, sobretudo, do judiciário e dos estamentos jurídicos & policiais do Estado. Este último poder, aliado à mídia, tornou-se um monstro que, após devorar o voto de 54 milhões de eleitores e a própria democracia brasileira, vem engolindo direitos sociais, garantias individuais, patrimônio nacional, esperança, e não parece disposto a parar.

Onde está, na imprensa brasileira, a crítica a esse poder?

Não está.

E, com certeza, também não está nas resenhas preguiçosas de Alex Cuadros para a revista New Yorker.

A “condenação” de Lula por Sergio Moro é baseada na delação de um torturado, Leo Pinheiro, que mudou sua versão em relação ao apartamento de Lula apenas depois de ter seus pedidos de habeas corpus sistematicamente negados e não ter nenhuma esperança de um julgamento imparcial enquanto não fizesse o jogo sujo da Lava Jato.

Sobretudo, é uma condenação que não apresenta uma mísera prova contra o ex-presidente. Tanto é assim que centenas de juristas, perplexos e indignados, escreveram e publicaram, em tempo recorde, um livro com artigos denunciando essa condenação.

Ao não mencionar essas críticas, Alex Cuadros falseou a realidade e se alinhou à turma de Bolsonaro, aos golpistas, e contra todos que lutam por justiça social e por um Estado democrático de Direito no Brasil.

É também um artigo profundamente vulgar do ponto-de-vista intelectual, porque trata o judiciário como um poder isento, ignorando todos os absurdos que estamos testemunhando no país, e que culminaram com o suicídio do reitor da universidade federal de Santa Catarina, Luis Carlos Cancellier, acusado e preso em mais um desses intermináveis e insuportáveis processos kafkianos em que agentes do Estado se transformam em furiosos justiceiros.

A leviandade de Alex Cuadros, no entanto, tem uma função importante. Como todo jornalista da “imprensa tradicional”, Cuadros tem uma sensibilidade extremamente apurada para a autocensura e para a necessidade de ser manter fiel às narrativas centrais. Seu artigo sobre Lula é, portanto, apenas mais um entre milhares de textos escritos por jornalistas corrompidos por um sistema que é tanto mais brutal quanto é invisível.

Eu vou publicar um trecho (traduzido por mim) do artigo de Cuadros e identificar seus erros de análise.

Lideranças sindicais e políticos de esquerda convocaram um protesto contra o que eles consideram ser uma perseguição política, praticada por uma conspiração de direita para enterrar as chances de Lula retornar à presidência. “Isso não é democracia”, declarou Lindbergh Farias, senador pelo Partido dos Trabalhadores (PT), em vídeo divulgado em sua página de Facebook.

O problema com essa teoria é que a Operação Lava Jato também atacou políticos de direita. O atual presidente, Michel Temer, que ajudou a orquestrar o impeachment da sucessora de Lula, Dilma Rousseff, é um dos que vários líderes conservadores que enfrentam acusações de corrupção (ele nega as acusações). Na verdade, políticos poderosos de direita e esquerda começaram, discretamente, a se unir contra a Operação Lava Jato. Nos bastidores, o PT tem notadamente agido com o partido de Temer com dois objetivos: anistiar políticos que usaram dinheiro de caixa 2 e restrição ao poder dos procuradores. No mês passado, Lula inclusive defendeu Temer publicamente, acusando o procurador-geral de “pirotecnia” e dizendo que ele deveria ser punido caso suas alegações não forem provadas.

Em sua condenação, Moro citou o escritor inglês do século XVII, Thomas Fuller: “Que você não esteja nunca tão alto, que a lei fique acima de você”. Isso é um conceito muito novo no Brasil.

Vamos começar pelo final, pela frase de Fuller que Moro achou no Google. É bem sintomático que Moro cite alguém do século XVII. Se estivesse mais conectado aos debates contemporâneos sobre direitos humanos e garantias individuais, Moro poderia citar, por exemplo, Luigi Ferrajoli, que o comparou, a ele, Sergio Moro, a um juiz da Inquisição. O depoimento de Ferrajoli, no entanto, foi omitido na grande mídia e, por isso, Alex Cuadros não o leu.

Sobre a frase em si, é mais uma dessas citações idiotas de Sergio Moro, como aquela outra de Roosevelt. Ora, no Brasil, ela deveria ser invertida para algo como: que a Lei nunca esteja tão alto, que esteja acima das garantias individuais.

O populismo penal que serve de fundamento aos arbítrios da Lava Jato, sobre punir “ricos e poderosos” é muito típico do fascismo. Ora, a ditadura militar também atingiu alguns “ricos e poderosos”. Os políticos cassados pela ditadura também seriam “poderosos”, e todos os empresários que não pactuaram com o regime foram perseguidos. Famílias de classe média, com dinheiro para pagar os melhores advogados do país, não conseguiram salvar seus filhos de tortura e assassinatos políticos. A Excelsior, principal tv do país, a Panair, importante companhia aérea, e inúmeros jornais prestigiados e “poderosos” foram censurados e perseguidos pela ditadura. Ou seja, perseguir “poderosos” não é nenhuma prova de democracia. No caso da Lava Jato, a perseguição a “poderosos” teve como premissa destruir os únicos setores da indústria brasileira que competiam internacionalmente, e que tinham capacidade tecnológica para fazer os investimentos necessários em áreas estratégicas, em especial no campo da energia.

Além do mais, há uma falácia aqui. Se a Lava Jato atinge políticos de vários partidos, o foco sempre foi o PT. Foi contra o partido dos trabalhadores que toda a narrativa lavajatiana se organizou. Os empresários presos tiveram suas relações com PT e Lula devassadas, enquanto as mesmas relações que tinham com outras agremiações eram omitidas, abafadas. Nenhum tesoureiro ou marketeiro de outros partidos foi preso. E vejam bem: a gente tem que tomar muito cuidado com essas armadilhas do punitivismo. Não interessa à democracia brasileira prender os tesoureiros ou marketeiros ou políticos de todos os partidos. O Estado não tem de perseguir ninguém.

Alex Cuadros não é um bom observador político, pois em caso contrário não poderia deixar de considerar que as ações da Lava Jato (prisões, vazamentos, depoimentos) sempre foram agendadas de olho numa agenda política que visava atingir o PT.

A perseguição a políticos de direita, como Michel Temer, não veio do núcleo original da Lava Jato. Foi um ensaio desastrado do procurador-geral, e que logo esbarrou na tradicional blindagem do establishment. Nem há comparação, de qualquer forma, entre as denúncias envolvendo Temer, Aécio, Geddel, que trazem gravações, malas de dinheiro, e as que envolvem políticos do PT, a começar por Lula, que jamais oferecem uma prova física e ficam a rodear teorias, estas sim ridiculamente conspiratórias, sobre propriedades de apartamento, sítios e pedalinhos, sem que se aponte conexões concretas, plausíveis, com esquemas de corrupção.

Volto a sugerir a Cuadros que leia o livro de Casara sobre o estado pós-democrático. Nele, há a denúncia sobre o uso de métodos democráticos apenas nas aparências, entre os quais justamente esta simulação de imparcialidade, que consiste em dar uma na ferradura após duzentos golpes no ferro.

O judiciário não é um poder absoluto. Suas decisões podem e devem ser criticadas. Se podemos apontar uma consequências positiva da Lava Jato é destruir, para sempre, a falsa conexão entre judiciário e justiça. Outra consequência importante é desmascarar o chapa-branquismo das narrativas da imprensa tradicional. Ela finge que é crítica ao poder apenas quando detecta que o poder migrou para outra parte. No Brasil, a imprensa é, historicamente, crítica à democracia e a toda forma de poder organizado da população, em especial de suas camadas mais humildes.

O nosso judiciário prende e persegue “ricos e poderosos” brasileiros e depois corre para o Brazil Institute, do Wilson Center (que eu chamo no Cafezinho de “think tank da CIA”), para prestar contas aos “ricos e poderosos” dos Estados Unidos, a começar pelo próprio presidente do Brazil Institute, Anthony Harrington, CEO da Albright Stonebridge, uma firma de lobby que atende aos interesses do governo americano e de suas principais corporações.

Entretanto, seria demais esperar que estes assuntos sejam tratados pela New Yorker ou seus repórteres neste momento. Se a imprensa norte-americana tradicional abordar os atuais esquemas de dominação de seu país sobre o nosso, será apenas daqui a algumas décadas.

O final do artigo de Cuadros é tão desonesto quanto absurdo:

Essa é uma disputa que desafia categorias ideológicas, jogando a maioria da classe política contra o público. Lula ajudou milhões de pobres do país, mas se alinhar com ele ajuda a minar a luta contra a impunidade.

De que tipo de impunidade fala Cuadros? Ele se refere à falácia midiática que fala em impunidade no quarto país, no mundo, que mais encarcera gente? Ou da impunidade de juízes e procuradores criminosos, que violam direitos e garantias fundamentais? Cuadros não parou para pensar que a corrupção no judiciário, que é igual ou maior à da classe política, é agravada por seu autoritarismo e pelo fato de que, à diferença do Executivo e do Legislativo, que oferecem brechas à participação popular, ele é absolutamente fechado à qualquer brisa democrática?

Cuadros não parou jamais para pensar que se o judiciário condena sem provas (e não sou eu que o digo, mas centenas de juristas importantes), então não há, obviamente, nenhum combate à impunidade ou à corrupção, e sim uma instrumentalização inescrupulosa de um poder burocrático do Estado com finalidades políticas as mais escusas?

Alinhar-se com Lula, prezado Cuadros, contra procuradores e juiz, não é “enfraquecer” o judiciário, tampouco contribuir para a impunidade. Muito pelo contrário. O judiciário, como qualquer poder, precisa ser escrutinizado, reformado, aperfeiçoado, pela crítica constante, dura, da população. E a luta contra a corrupção, como sabem todos que conhecem e estudam a história do Brasil, tem de ser expurgada de seus oportunistas, no judiciário, na política e, sobretudo, na mídia, porque estes costumam, com frequência, usá-la para impor formas muitos mais terríveis de corrupção.

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O discurso fascista de Fachin no Congresso da Ajufe https://www.ocafezinho.com/2017/10/11/o-discurso-fascista-de-fachin-no-congresso-da-ajufe/ https://www.ocafezinho.com/2017/10/11/o-discurso-fascista-de-fachin-no-congresso-da-ajufe/#comments Wed, 11 Oct 2017 18:49:51 +0000 https://ocafezinho.com/?p=79803 21 Comentários 🔥]]> O judiciário aderiu a uma agenda conservadora e autoritária com uma euforia tão pouco sensata, que nada parece capaz de sensibilizá-lo.

O único juiz do Supremo que, pelo jeito, se manifestou contra as decisões jurídico-policiais por trás do suicídio do reitor, foi Gilmar Mendes, justamente aquele que, nesses anos todos, mais abusou da própria autoridade, para investir, sempre com apoio entusiástico da mídia, contra o governo popular, partidos de esquerda e movimentos sociais.

Durante o julgamento do mensalão, Gilmar foi um dos dragões mais ferozes em defesa da condenação sem prova, um dos que mais usou, sem nenhum pudor, o ódio político como critério de justiça, e que mais soube explorar a falta de caráter e a venalidade da mídia corporativa para corroborar suas próprias decisões jurídicas.

E hoje, quando, num salto mortal triplo-escarpado de casuísmo político, Gilmar Mendes se arvora defensor do garantismo penal, pede limites para o arbítrio judicial e se posiciona contra esse regime exceção instaurado pela aliança da mídia com o judiciário, o establishment que ele mesmo, Gilmar, ajudou a construir, se volta contra o próprio criador.

No entanto, quem está certo, neste momento, é Gilmar Mendes, e não o establishment fascista-midiático!

É o mesmo caso dos eleitores de Bolsonaro que fazem críticas a Globo.

Não são apenas os filhos se rebelando contra o pai, ou criaturas se voltando contra o criador, são irmãos xipófagos disputando qual das cabeças vai dar as ordens!

Desde que o establishment imperialista, bancado pelo Departamento de Estado, petroleiras e fundos abutres continuem distribuindo prêmios e os convidando para seminários no Wilson Center, os juízes brasileiros estão determinados a levar o país a mergulhar em abismos cada vez mais profundos.

O deputado Wadih Damous resumiu a situação numa frase trágica: o Supremo não é mais guardião da Constituição e sim do Estado de Exceção.

O país está sendo sufocado com a quantidade crescente de casos de autoritarismo judicial. E o pretexto de que era para “combater a corrupção” se desfaz na realidade: aumentaram as vendas de sentença. E uma das operações judiciais onde há mais corrupção, abuso de poder e extorsão contra empresários é justamente a Lava Jato, transformada numa “instituição” à parte na sociedade brasileira.

O ministro Luiz Edson Fachin, do STF, participou ontem de um evento no Tribunal Regional Federal da Quarta Região (TRF4), aquele mesmo que julgará Lula em segunda instância e que poderá decretar (pela enésima vez, nos últimos tempos) o fim da nossa democracia: porque condenar sem provas o principal candidato presidencial apenas para inviabilizá-lo politicamente nada mais é do que mais um golpe sujo contra o direito político de todos os brasileiros.

Pois bem, e o que disse Fachin? Levou alguma palavra de conforto aos milhares de brasileiros que estão preocupados com o avanço do fascismo, incluindo o fascismo judicial, que, historicamente, sempre veio antes do fascismo político propriamente dito?

Na vizinha Santa Catarina, na aprazível e bucólica Florianópolis, um reitor querido pela comunidade acadêmica, amigos e familiares, foi “suicidado” pelo regime de exceção, que decretou sua prisão arbitrária, cautelar, sem provas, sem direito à defesa, e depois proibiu-lhe, igualmente sem nenhum escrúpulo, que adentrasse a universidade que era toda a sua vida.

Os togados em Porto Alegre, presentes ao VI Fórum Nacional de Juízes Federais Criminais (Fonacrim), promovido pela Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe), trouxeram alguma palavra de solidariedade aos milhares e milhares de brasileiros, que, assim como o reitor, são presos e perseguidos injustamente por um judiciário classista, reacionário e midiático?

Não.

Ao contrário, o representante do STF, o ministro Luiz Edson Fachin, que poderia jogar um pouco de luz naquele ambiente envenenado de hipocrisia e egoísmo corporativo, chegou lá disposto a jogar o seu punhado de livros na fogueira do autoritarismo.

O que disse Fachin, e o que disseram as principais “autoridades” presentes, como os desembargadores do TRF4 e membros da Ajufe, organizadora do congresso?

Na página do TRF4, há uma matéria sobre o evento, que reproduzimos abaixo.

Voltamos em seguida.

No site do TRF4

Ministro Fachin: a extinção do foro privilegiado urge!

09/10/2017 17:52:05

VI Fonacrim reuniu ministros e magistrados federais na sede do TRF4

Juiz Roberto Veloso (E), presidente da Ajufe, falou sobre os 45 anos da entidade

Deputado Federal Rodrigo Pacheco (D), que preside a CCJ da Câmara dos Deputados, participou do evento

Antes da abertura do Fonacrim, os desembargadores Thompson Flores, presidente do TRF4, Ricardo Pereira, corregedor da 4ª Região, e Fernando Quadros receberam os ministros Fachin, do STF, e Joel Paciornik, do STJ, e o presidente da Ajufe, juiz Roberto Veloso

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Edson Fachin esteve hoje (9/10) no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) participando do VI Fórum Nacional de Juízes Federais Criminais (Fonacrim), promovido pela Associação dos Juízes Federais do Brasil (Ajufe).

Fachin, que é o relator dos processos da Operação Lava Jato no STF, afirmou que cabe ao Poder Judiciário fazer valer a Lei Penal igual para todos. “O foro privilegiado é uma exceção não justificada no sistema republicano e sua extinção urge!”, declarou o ministro.

Fachin apontou a seletividade do Direito Penal brasileiro como uma característica que precisa ser combatida. “Em regra, temos um sistema injusto, seletivo e desigual entre o segmento social mais abastado e aquele dos cidadãos desprovidos de privilégios”, analisou Fachin.

O ministro defendeu com veemência que a Lei Penal deve ser igual para todos, chamando a atenção para os excessivos recursos utilizados pelas defesas das classes privilegiadas, “que acabam por perpetuar as causas penais e levar os processos à prescrição”.

Ele reconheceu que cabe às cortes superiores firmarem o entendimento de que a execução da pena deve ocorrer já em segunda instância. “A inefetividade da Justiça em certos segmentos sociais tem a causa mais evidente na morosidade da prestação jurisdicional, com um sistema recursal irracional”, afirmou.

Fachin reafirmou a importância da liberdade de expressão e da imprensa livre e referiu o fim da invisibilidade do juiz como uma herança do século vinte. “Atualmente, o magistrado precisa prestar contas à sociedade e à ordem jurídica do país”. Ele reconheceu que muitos avanços recentes na prestação jurisdicional se devem à persistência dos juízes de primeiro grau, acompanhados pelos julgadores da segunda instância.

O ministro concluiu dizendo que os avanços na aplicação da Lei Penal são visíveis e que o aprimoramento do sistema está sujeito a altos e baixos até atingir um balizamento. Ele frisou que a Constituição escolheu o Direito Penal como instrumento de tutela e proteção dos direitos fundamentais e apontou a importância da independência do Ministério Público e de institutos como o da colaboração premiada, que definiu como um “importante meio de produção de prova”.

Fachin finalizou conclamando os colegas a seguirem com determinação e persistência: “cabe a nós, magistrados, impor resposta aos que tiverem seus crimes comprovados. Devemos estar conscientes que a parcela privilegiada pela seletividade do sistema penal se empenha em fazer crer que estamos colocando em perigo garantias individuais, mas devemos seguir adiante, ainda que falhas possam ocorrer. Os tempos de agora são íngremes e precisamos seguir agindo com ousadia, temperança, confiança, serenidade e firmeza”.

VI Fonacrim

O desembargador federal do TRF4 Fernando Quadros da Silva é coordenador do VI Fonacrim. O evento é promovido pela Ajufe e objetiva debater e propor soluções práticas para os rumos da Justiça criminal brasileira. Quadros abriu o fórum apontando a relevância do Direito Penal na situação atual do país.”É imprescindível que nós, juízes, façamos um debate sobre o tema, mantendo a distância de paixões político-partidárias”.

O presidente do TRF4, desembargador federal Carlos Eduardo Thompson Flores, falou que é um orgulho para a corte sediar esse evento, ressaltando a importância de os magistrados debaterem e contribuírem nas reformas dos códigos, por serem eles “os que usam, atualizam e dão vida aos textos legais”. Thompson Flores criticou a falta de participação dos juízes na confecção do novo Código de Processo Civil, dizendo que sem a experiência daqueles que aplicam a legislação, existe a possibilidade de que as leis nasçam mortas.

O presidente da Ajufe, juiz federal Roberto Carvalho Veloso, lembrou que o VI Fonacrim homenageia os 45 anos da Ajufe, sendo a entidade uma defensora do Poder Judiciário. “O Judiciário é um dos pilares da democracia e seu enfraquecimento só interessa àqueles que tramam em segredo contra a Justiça do país”, declarou Veloso.

É tudo tão grotesco que não sei nem por onde começar. Vamos começar pelo final. O presidente da Ajufe, o juiz federal Roberto Carvalho Veloso declarou que o “judiciário é um dos pilares da democracia e seu enfraquecimento só interessa àqueles que tramam em segredo contra Justiça do país”.

Esses juízes parecem saídos de um romance barato do século XIX. A sua capacidade de produzir clichês hipócritas e cínicos é realmente assombrosa.

Que o judiciário é um dos pilares da democracia, não tenho dúvidas. O problema é que a recíproca não é verdadeira. A democracia não parece ser um dos pilares do judiciário.

É um caso de amor não correspondido. A democracia pode até amar o judiciário – embora disso eu tenha sérias dúvidas. Mas definitivamente o judiciário não ama a democracia. Se amasse, o judiciário, ou para ser mais exato, os juízes que se arvoram “donos” do judiciário, deveriam defender que o judiciário experimentasse um banho de democracia: que mais juízes fossem eleitos, que o Conselho Nacional de Justiça tivesse mais membros eleitos pela sociedade civil, e que os concursos para juiz fossem, da mesma forma, profundamente democratizados.

Em outras palavras, o judiciário só poderá ser um “pilar para a democracia” se ele também for democrático, o que não é o caso.

No caso brasileiro, o judiciário é o coveiro da nossa democracia, e não um “pilar”. Juízes tem derrubado, prendido, suspendido, perseguido, prefeitos, governadores, presidentes, deputados, senadores, vereadores, reitores, empresários e cidadãos comuns, com uma leviandade de fazer corar o comandante máximo da Coréia do Norte.

Quanto à acusação, pelo presidente da Ajufe, contra “aqueles”, sinistros homens das sombras, que “tramam em segredo contra a justiça do país”, eu gostaria de me incluir nessa. Visto a carapuça alegremente. Só não concordo com essa história de tramar “em segredo”. Eu falo abertamente, em vídeos diários, posts, entrevistas, na rua, nos bares, em casa.

Entretanto, o que o presidente da Ajufe chama de “enfraquecimento do judiciário”, eu chamaria de fortalecimento da democracia, das garantias do cidadão, de seus direitos políticos e jurídicos, contra os arbítrios dos judiciário.

A frase de Veloso embute um terrível vício de origem: ele, assim como boa parte dos juízes, se confunde com o próprio judiciário, como se a instituição lhe pertencesse.

O judiciário não pertence a Ajufe, Veloso. O Judiciário pertence ao povo. E quando um juiz viola o direito de um cidadão, rico, pobre, sem-terra, grande empresário, um político desconhecido ou o maior líder popular do país, ele está violando o direito do povo.

A sua frase, Veloso, pode ser facilmente voltada contra si mesmo. Você e seus pares, bêbados de mídia e autoritarismo, é que “tramam em segredo” pelo enfraquecimento do judiciário.

Cada vez que um juiz se corrompe com prêmios, elogios na imprensa, afagos da comunidade privilegiada que ele frequenta, ele está “enfraquecendo” o judiciário.

Não são os críticos do judiciário que o enfraquecem, e sim os seus áulicos! A crítica que, nós, cidadãos, fazemos ao judiciário é para, ao contrário do que pensa o presidente da Ajufe, fortalecê-lo, porque o autoritarismo judicial em curso é que vem minando o prestígio que o judiciário ainda possuía.

O judiciário é nosso, Veloso! Não é de Sergio Moro, não é de Fachin, não é do TRF4, não é do juízes. O judiciário, assim como a democracia, pertence exclusivamente ao povo e a cada um dos cidadãos!

Mas vamos ao assunto principal do post: a presença de Fachin no seminário promovido pela Ajufe no TRF4. Todas as suas frases, ao menos aquelas recolhidas pela assessoria de imprensa do TRF4, são bizarras.

Para não me perder, eu vou reproduzir o texto de novo, mas desta vez fazendo comentários intercalados, entre colchetes e em negrito.

***

Fachin, que é o relator dos processos da Operação Lava Jato no STF, afirmou que cabe ao Poder Judiciário fazer valer a Lei Penal igual para todos. “O foro privilegiado é uma exceção não justificada no sistema republicano e sua extinção urge!”, declarou o ministro.

[Primeira cretinice do ministro. Diante de um STF acovardado e submetido aos ditames da grande mídia, o “foro privilegiado”, cujo nome certo é foro especial, só é privilegiado quando o cidadão é do PSDB ou vem protegido por essa capa invisível tecida, nas sombras, pela grande mídia. Se o sujeito estiver no caminho de uma estratégia qualquer de lawfare chancelada pela mídia, o “foro privilegiado” se converte, automaticamente, numa armadilha, porque ele estará em mãos de juízes obedientes às forças inimigas e não terá chance de recorrer a mais ninguém. Que o diga José Dirceu, Genoíno e todos os publicitários condenados no julgamento da Ação Penal 470].

Fachin apontou a seletividade do Direito Penal brasileiro como uma característica que precisa ser combatida. “Em regra, temos um sistema injusto, seletivo e desigual entre o segmento social mais abastado e aquele dos cidadãos desprovidos de privilégios”, analisou Fachin.

[Segunda cretinice, tingida de um populismo barato, autoritário e profundamente hipócrita. A Lava Jato inaugurou, de fato, um novo tipo de democracia judicial, que é: barbárie para todos. Ao invés de revisar as violências cometidas pelo Judiciário contra as camadas mais humildes da população, a instituição passou a usar o mesmo tipo de violência contra alvos seletos das elites empresariais e políticas, desde que estas violências fossem defendidas pela mídia, naturalmente. Prisões cautelares por tempo indeterminado e negação sistemática de habeas corpus foram usadas como forma de coação para que réus fizessem as delações “premiadas” exatamente nos termos que procuradores e juiz desejavam. Um senador foi preso, de maneira ilegal, também neste sentido: para coagi-lo a delatar e “mudar de lado”. Vazamentos ilegais foram feitos com objetivo explicitamente político de comover a opinião pública. O próprio TRF4, num de seus despachos favoráveis aos crimes de Sergio Moro, decretou o estado de exceção, ao dizer que a Lava Jato tinha direito a tomar medidas “excepcionais”. A condução coercitiva, não prevista no código do processo penal, a menos que realizada após recusas sistemáticas e injustificadas do réu em comparecer em juízo, passou a ser adotada como um novo “normal”. Centenas de importantes juristas, inclusive alguns com grande projeção internacional, como Luigi Ferrajoli, se manifestaram duramente contra essas medidas, mas como isso não saiu na Globo, então os excelentíssimos ministros do STF, como Luiz Edson Fachin, fingem que não existiram. O discurso de Fachin, além disso, traz o insuportável fedor da hipocrisia: o tal “sistema injusto” criticado por ele vem sendo sustentado, fundamentalmente, pelo judiciário, principal sustentáculo do latifúndio, da violência policial e do golpe. O povo votou numa presidente que lutava contra injustiça e que foi derrubada por um golpe jurídico-midiático-judicial que implementou um regime voltado exclusivamente em favor dos ultrarricos. Fachin e todo STF, e boa parte do judiciário, foram cúmplices desse crime.]

O ministro defendeu com veemência que a Lei Penal deve ser igual para todos, chamando a atenção para os excessivos recursos utilizados pelas defesas das classes privilegiadas, “que acabam por perpetuar as causas penais e levar os processos à prescrição”.

[Aí o ministro Fachin espeta em sua própria toga o brochinho do fascismo judicial, que, como todo fascismo, precisa se pintar de cores populistas. Dizer que a “Lei Penal deve ser igual para todos” é apenas uma maneira doentia de praticar exatamente o contrário do que diz a frase: primeiro por se tratar de uma frase idiota e sem sentido. A razão de ser de qualquer processo penal é justamente aplicar, de maneira individualizada e humana, penas diferenciadas e originais, a depender de uma avaliação criteriosa do próprio juiz, após ouvir atentamente acusação e defesa. A Lei Penal não pode ser igual para todos porque os casos penais são inteiramente diferentes entre si. Condenar uma pessoa paraplégica, como já vimos acontecer, a anos de regime fechado, porque foram encontrados algumas gramas de maconha em seu quarto, é apenas um exemplo caricatural desse “lei penal igual para todos”. Os brasileiros não querem que o judiciário purgue seus crimes de violência estendendo-os a alguns bodes expiatórios da classe política e do empresariado, como fez na Lava Jato. Os brasileiros pedem uma justiça branda, ágil e justa, como preconizava Cesare Beccaria. Quanto aos “excessivos recursos”, eles apenas são “excessivos” para os juízes preguiçosos, que aparentemente querem continuar recebendo seus gordos salários sem precisar trabalhar, porque, para os réus ainda não condenados, e que, portanto, ainda são inocentes até prova em contrário, cada recurso é uma oportunidade de fazer a luta sagrada por sua honra e liberdade. No caso de um homem inocente, os recursos nunca serão excessivos. Além do mais, Fachin sabe muito bem que os “recursos” podem ser julgados rapidamente, desde que os magistrados assim o desejem. Se prescrevem, é porque interessa que prescrevam. A demora do julgamento dos recursos não interessa aos réus, porque a espera por uma decisão final do judiciário é, muitas vezes, um longo calvário de angústia para o cidadão. Que maldição carregam essas togas sombrias que parecem eliminar, do coração dos juízes, toda imaginação, toda solidariedade, todo sentimento humano em relação aos cidadãos que aguardam, ansiosos, culpados ou não, por uma decisão que poderá significar o pior castigo possível: o fim da liberdade?]

Ele reconheceu que cabe às cortes superiores firmarem o entendimento de que a execução da pena deve ocorrer já em segunda instância. “A inefetividade da Justiça em certos segmentos sociais tem a causa mais evidente na morosidade da prestação jurisdicional, com um sistema recursal irracional”, afirmou.

[Reparem só: “inefetividade da justiça em certos segmentos sociais”. Fachin fala como se o judiciário fosse “efetivo” em relação aos mais pobres. Todo o seu raciocínio se ancora na convicção fascista de que a justiça apenas se materializa na prisão, e jamais na liberdade, quando deveria ser exatamente o contrário. O ato mais nobre da justiça não é, certamente, encarcerar outro ser humano, culpado ou não. O ato mais nobre da justiça é conceder a liberdade, seja através da comprovação da inocência, seja através do perdão da culpa. A filosofia penal humanista aceita a prisão não como “castigo” e sim como uma decisão, difícil, dolorosa, de reeducar um determinado cidadão para o convívio social, ou então para salvaguardar a segurança de outras pessoas, no caso de assassinos e estupradores. Ao chamar o sistema recursal de “irracional”, Fachin ofendeu todos os juristas e representantes do povo, que fizeram essas leis. O sistema recursal não é irracional. Irracional, Fachin, é o juiz que condena sem provas. Provavelmente, o sistema de recursos, como se dá no Brasil, foi criado justamente como um anteparo do cidadão contra um judiciário historicamente autoritário, fechado em si mesmo, corporativo, que entende o processo penal como um “jogo” que ele, juiz, só ganha se condenar. ]

Fachin reafirmou a importância da liberdade de expressão e da imprensa livre e referiu o fim da invisibilidade do juiz como uma herança do século vinte. “Atualmente, o magistrado precisa prestar contas à sociedade e à ordem jurídica do país”. Ele reconheceu que muitos avanços recentes na prestação jurisdicional se devem à persistência dos juízes de primeiro grau, acompanhados pelos julgadores da segunda instância.

[Como assim “reafirmou a importância da liberdade de expressão e da imprensa livre?”. Por que não defendeu também, então, uma imprensa mais democrática, mais plural, e livre da herança da ditadura? É fácil entender a frase de Fachin: é um salamaleque servil à única força social que o judiciário respeita: a grande mídia corporativa. Fachin não ficou sabendo que um juiz condenou Luis Nassif por “ofender” a moral de Eduardo Cunha, ao mesmo tempo em que todas as ofensas cometidas contra lideranças petistas são aceitas e perdoadas pelo judiciário? Isso é “liberdade de expressão e imprensa livre”.

Quanto à necessidade do magistrado “prestar contas à sociedade e à ordem jurídica do país”, trata-se de mais uma daquelas enjoativas manifestações de hipocrisia. Que sociedade? Que ordem jurídica? O judiciário brasileiro prestou contas para os 54 milhões de eleitores que tiveram seus votos roubados pelo golpe? O judiciário brasileiro prestou contas à ordem jurídica aos milhares de juristas que vem protestando contra o regime de exceção implementado pelo próprio… judiciário? Quanto aos “avanços recentes na prestação jurisdicional”, devidos a “persistência de juízes de primeiro grau”, isso parece uma piada macabra. Que avanços? Que juízes de primeiro grau? Trata-se de um elogio criminoso a juízes de primeira instância que praticam crimes, que promoveram um profundo retrocesso na “prestação jurisdicional” do país, segundo a opinião de inúmeros juristas importantes. Como esses juristas raramente são entrevistados no Jornal Nacional, então Fachin, competente representante do regime de exceção e obediente lacaio da Globo, finge que eles não existem. Os “julgadores da segunda instância”, por sua vez, tem se mostrado, há tempos, burocratas que raramente destoam das condenações de primeira instância, sobretudo quando as decisões de primeira instância, por mais ilegal que sejam, vem acompanhadas de chancela midiática ou fazem parte de narrativas e conspirações que não podem ser obstruídas.]

O ministro concluiu dizendo que os avanços na aplicação da Lei Penal são visíveis e que o aprimoramento do sistema está sujeito a altos e baixos até atingir um balizamento. Ele frisou que a Constituição escolheu o Direito Penal como instrumento de tutela e proteção dos direitos fundamentais e apontou a importância da independência do Ministério Público e de institutos como o da colaboração premiada, que definiu como um “importante meio de produção de prova”.

[Fachin mente. Não há nenhum “avanço” na aplicação da Lei Penal. O Brasil vive um dos mais sombrios períodos de exceção de sua história. Todos os índices de violência explodiram depois do golpe judicial: homicídios, estupros, assaltos, etc. A violência contra lideranças rurais, contra sem-teto, contra qualquer representante do povo, nunca foi tão grande, e o judiciário não é mais um anteparo. Ao contrário, o judiciário tem se aliado, cada vez mais, às mais violentas e sórdidas elites, com a cumplicidade de magistrados como Luiz Edson Fachin. A maneira como a expressão “proteção aos direitos fundamentais” foi jogada no meio de um parágrafo, sem qualquer preocupação de ordem sintática ou de coerência textual, é bastante emblemática. A presença na mesma frase de expressões como “direitos fundamentais” e “colaboração premiada” reflete a degeneração de caráter dos nossos juízes. Ora, a colaboração premiada tem sido visivelmente deturpada. Ao invés de ser um “importante meio de produção de prova”, a colaboração premiada tem sido um importante meio de produção de mentiras. Fachin sabe disso. Como é possível ser tão desonesto?]

Fachin finalizou conclamando os colegas a seguirem com determinação e persistência: “cabe a nós, magistrados, impor resposta aos que tiverem seus crimes comprovados. Devemos estar conscientes que a parcela privilegiada pela seletividade do sistema penal se empenha em fazer crer que estamos colocando em perigo garantias individuais, mas devemos seguir adiante, ainda que falhas possam ocorrer. Os tempos de agora são íngremes e precisamos seguir agindo com ousadia, temperança, confiança, serenidade e firmeza”.

[O texto da assessoria do TRF4 termina com uma incitação de Fachin ao justiçamento. O ministro não pede aos juízes que trabalhem em defesa dos réus perseguidos pelo Estado e pela mídia. Não, isso não. Provavelmente porque, na cabeça desse Fachin midiático pós-Lava Jato, isso não existe. É paranoia. O Executivo, o Legislativo, os partidos e a comunidade jurídica não-punitiva é que são corruptos. O judiciário é perfeito! É o símbolo da justiça universal!

As críticas ao judiciário são postas de lado como vindas da “parcela privilegiada pela seletividade do sistema penal”. A quem Fachin se refere? Aos petistas, não creio, porque seria um tanto ridículo, mesmo para um juiz, dizer que os petistas fazem parte da “parcela privilegiada pela seletividade do sistema penal”. A menos que Fachin considere que ser preso por Sergio Moro, em prisão cautelar por tempo indeterminado, ter habeas corpus negados, e ser condenado sem provas, seja um “privilégio”. Fachin está chamando as centenas de juristas que tem manifestado preocupação com o avanço do fascismo judicial de insanos? E que história é essa de que “devemos seguir adiante”? Seguir para onde? Para o abismo? O judiciário não admite críticas? As violências sistemáticas contra a família Lula, contra o reitor suicidado, contra movimentos sociais, contra o regime democrático brasileiro, violentado por um golpe urdido por Eduardo Cunha, Michel Temer, empresários corruptos e Globo, não representam perigo para as garantias individuais?]

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Conclusão: a Ajufe promoveu um evento no TRF4, com presença de Fachin, com objetivo pouco disfarçado de preparar o terreno para o avanço do autoritarismo judicial, que inclui a confirmação da condenação de Lula, a blindagem de Sergio Moro e a defesa judicial de todas as políticas de desmonte de Estado promovidas pelo governo Temer.

O texto do TRF 4 termina com uma citação ao discurso de Fachin em que ele fala de “ousadia, temperança, confiança, serenidade e firmeza”.

Ora, é mais uma piada sinistra, porque essas virtudes são justamente aqueles que não vemos no judiciário. Quer dizer, talvez ele seja ousado, porque, de fato, é ousado destruir um país dessa magnitude em tão pouco tempo e humilhar tanta gente através da perseguição injusta e obsessiva a seus representantes.

É como se toda aquela síndrome de impunidade, que o próprio judiciário gosta tanto de apontar na sociedade e nos “poderosos”, tivesse sido transferida para o juiz. O juiz brasileiro não tem medo de nada, porque se sente impune. Que diferença para os juízes da antiga Atenas, que eram sorteados entre os cidadãos, tinham mandatos de apenas um ano, ao cabo dos quais eram, por sua vez, julgados por todos os cidadãos! Se alguma de suas decisões fosse considerada negativa para a coletividade, os juízes eram duramente punidos. Tomar uma decisão judicial, na democracia original, implicava em risco, e por isso o juiz tinha de considerar, com muito cuidado, as consequências de todos os seus atos.

Agora… falar em temperança, serenidade, firmeza para um judiciário completamente enlouquecido como o nosso? Rá!

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Datafolha: 55% dos paulistanos não votariam “de jeito nenhum” em Doria para presidente https://www.ocafezinho.com/2017/10/10/datafolha-55-dos-paulistanos-nao-votariam-de-jeito-nenhum-em-doria-para-presidente/ https://www.ocafezinho.com/2017/10/10/datafolha-55-dos-paulistanos-nao-votariam-de-jeito-nenhum-em-doria-para-presidente/#comments Tue, 10 Oct 2017 12:27:25 +0000 https://ocafezinho.com/?p=79717 86 Comentários 🔥]]> O Datafolha acaba de publicar a íntegra da pesquisa que fez em São Paulo, nos dias 4 e 5 de outubro, sobre a avaliação do prefeito João Doria junto aos paulistanos.

O resultado é previsível.

Os paulistanos não viram com bons olhos as viagens de seu prefeito Brasil e mundo a fora, usando verba pública para se autopromover a candidato a presidente.

Doria caiu nas pesquisas presidenciais e caiu a sua aprovação como prefeito.

Vamos analisar, em primeiro lugar, o aumento da rejeição do paulistano aos sonhos presidenciais de Doria.

Segundo o Datafolha, o percentual de paulistanos que diz não votar “de jeito nenhum” em Doria para o cargo de presidente da república saltou de 42% em abril para 55% agora. Na pesquisa de abril (realizadas dias 06 e 07), 26% dos paulistanos diziam que votariam “com certeza” em Doria para presidente: esse percentual minguou para 18% agora.

Repare que apenas 2% disseram “não saber”. Ou seja, o paulistano está consolidando sua opinião sobre o prefeito de maneira muito convicta.

 

Analisando-se os dados acima segmentados, por faixa de renda, idade, escolaridade, constata-se que a rejeição a Doria está se consolidando, como era se esperar de um candidato tão tipicamente tucano, ou seja, tão identificado com os ricos, entre as classes mais pobres.

Entre a população que ganha até 2 salários, 62% disseram que não votariam em Doria para presidente “de jeito” nenhum. Já entre os que ganham mais de 10 salários, esse percentual cai para 38%.

Os gráficos mais impressionantes da pequisa, porém, são esses que reproduzo abaixo:

Doria perdeu prestígio em todas as classes sociais, inclusive entre os mais abastados, que formam a sua principais base de apoio político.

Entre os mais pobres, que ganham até 2 salários, 74% responderam que o prefeito “fez menos” pela cidade do que eles esperavam.

As perguntas do Datafolha, porém, tem a marca da malícia da Folha, que precisava quebrar a crista do prefeito, de maneira a negociar melhor contratos de publicidade e outras benesses. Doria é um tucano meio verde, com tendência a  esquecer que seu poder e prestígio dependem do apoio que ainda desfruta na grande mídia, a qual, por sua vez, ajuda a conter os cães ferozes do judiciário e do ministério público dentro de seus canis. Se o prefeito fosse petista, a mídia não ajudaria a contê-los e ele já estaria sufocado por processos e demandas judiciais.

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