Miguel do Rosário, Autor em O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/autor/james2017/ Portal de noticias e análises sobre política brasileira, geopolítica, economia, tecnologia, sempre numa perspectiva democrática, progressista, anti-imperialista e multipolar! Fri, 03 Jul 2026 02:00:34 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.0 https://www.ocafezinho.com/wp-content/uploads/2015/10/cropped-Logo_Cafezinho_tmb-32x32.png Miguel do Rosário, Autor em O Cafezinho https://www.ocafezinho.com/autor/james2017/ 32 32 O elo perdido: a empresa no Texas que liga Eduardo Bolsonaro ao dinheiro do Master https://www.ocafezinho.com/2026/07/02/o-elo-perdido-a-empresa-no-texas-que-liga-eduardo-bolsonaro-ao-dinheiro-do-master/ https://www.ocafezinho.com/2026/07/02/o-elo-perdido-a-empresa-no-texas-que-liga-eduardo-bolsonaro-ao-dinheiro-do-master/#comments Thu, 02 Jul 2026 21:03:55 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=261262 O caso Dark Horse tem um elo perdido que ajuda a entender o obscuro financiamento do filme: André Porciúncula, capitão da reserva da PM da Bahia e ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro.

O Cafezinho teve acesso a documentos dos registros públicos americanos, listados ao final desta reportagem. Eles revelam uma sequência que a imprensa pouco explorou.

Porciúncula não tem fortuna declarada, renda conhecida ou negócios capazes de explicar a mudança patrimonial registrada nos Estados Unidos. Ainda assim, vive hoje numa mansão milionária no Texas, perto da base de Eduardo Bolsonaro.

A hipótese que emerge dos registros é que Porciúncula pode ter atuado como laranja, emprestando o nome para abrir caminho à instalação de Eduardo nos Estados Unidos.

Depois do fracasso do 8 de janeiro de 2023, quando o cerco judicial começou a se fechar sobre o bolsonarismo, o círculo íntimo de Eduardo passou a se organizar no Texas.

Em nove semanas, três estruturas foram registradas na mesma casa, a residência do influenciador Paulo Generoso em Arlington: a Liber Group Brasil, em 13 de janeiro; o Instituto Liberdade, em 8 de fevereiro; e a Braz Global Holding, em 18 de março.

A Braz Global merece atenção especial por um motivo simples: foi a única empresa em que Eduardo Bolsonaro colocou o próprio nome. Essa é uma das empresas que liga Eduardo ao dinheiro do Master.

Os sócios eram Generoso — fundador do Movimento República de Curitiba, citado pela Polícia Federal no inquérito dos atos golpistas — e Porciúncula, que em alguns registros assina apenas como Andre Esteves, além do filho do ex-presidente.

Nas outras duas estruturas, sem o nome de Eduardo, aparece ainda Raquel Brugnera, ex-servidora da Secretaria de Cultura apontada como uma das líderes do chamado Gabinete do Ódio.

As três estruturas surgiram enquanto Jair Bolsonaro se refugiava nos Estados Unidos, entre dezembro de 2022 e março de 2023 — viagem que a Polícia Federal aponta ter servido para coordenar de longe a trama golpista.

Enquanto o pai se abrigava na Flórida, a tropa do filho montava sua base no Texas.

Quem é o homem que Eduardo escolheu como sócio?

Porciúncula saiu da PM baiana, onde respondeu a processo por deserção, e chegou a Brasília em 2020 pelas mãos de Mário Frias.

À frente da Lei Rouanet, tornou-se um operador da guerra cultural bolsonarista. Assinou portaria contra o financiamento de projetos com linguagem neutra, alvo de apuração do MPF, e defendeu o uso de dinheiro público em evento pró-armas no qual, em suas palavras, “a princesa é a arma de fogo”.

O episódio rendeu a ele e a Frias representações na PGR e no TCU. Em 2022, Porciúncula tentou uma vaga de deputado federal pelo PL da Bahia, teve 82 mil votos e perdeu.

Mário Frias é peça importante nesse círculo. Ele é produtor-executivo do Dark Horse ao lado de Eduardo Bolsonaro. Ou seja: o homem que hoje assina pela mansão no Texas foi braço direito de um dos produtores do filme e sócio do outro.

A pergunta central é esta: de onde vem o dinheiro de André Porciúncula? No Brasil, os registros não mostram patrimônio compatível com o salto patrimonial posterior. Ele é capitão da reserva remunerada da PM baiana, com soldo de classe média.

Ao TSE, em 2024, declarou R$ 164 mil em bens — metade disso numa empresa de segurança considerada inapta pela Receita Federal. Sua última campanha foi bancanda integralmente pelo fundo partidário do PL: R$ 310 mil, sem doadores pessoas físicas. Não há herança registrada, empresa próspera ou fortuna declarada.

Nos Estados Unidos, também não aparece fonte de renda conhecida. Não há emprego declarado, empresa operante em seu nome ou atividade econômica registrada.

Porciúncula mudou-se para o Texas em março de 2023, o mesmo mês da criação da Braz Global. No mesmo período, abriu em Brasília uma consultoria de marketing sediada no prédio da sede nacional do PL.

É tudo o que os registros mostram sobre sua vida econômica.

Quatro meses depois de fundada, a Braz Global emprestou 140 mil dólares — mais de R$ 800 mil — à empresa de um construtor de Fort Worth. A operação pagou, no ato, a compra de três terrenos, que ficaram como garantia. O contrato previa juros de mora de 1,5% ao mês e uma cláusula que permitia exigir a quitação integral a qualquer momento.

Uma empresa recém-criada, sem licença de instituição financeira, funcionários ou histórico, atuava como financiadora imobiliária. A origem do caixa não aparece nos documentos.

Eduardo Bolsonaro tampouco apresentou fonte compatível com esse volume de recursos. Ao se licenciar da Câmara, abriu mão do salário, e ele próprio afirma viver nos Estados Unidos de “renda passiva” e de um Pix de R$ 2 milhões enviado pelo pai.

O destino do empréstimo também chama atenção. O tomador se apresenta como “Roderick Venture, pioneiro da energia renovável”. Seu nome verdadeiro é Roderick Ford.

A ficha comercial é outra: sua empresa de painéis solares tem nota baixa no Better Business Bureau; uma TV de Oklahoma documentou obra abandonada e houve denúncias de que fabricou cartas de uma companhia elétrica para cobrar por um sistema que não funcionava. Sua licença de construtor foi cassada em Fort Worth; e compradores relatam casas entregues pela metade.

Foi a esse homem que a empresa de Eduardo Bolsonaro e Porciúncula emprestou 140 mil dólares.

Enquanto empreiteiros não pagos e compradores lesados acumulavam penhoras e uma sentença judicial contra o construtor, os brasileiros encerraram a operação sem prejuízo aparente.

O fim da Braz foi tão coordenado quanto o começo. Em fevereiro de 2024, a empresa recebeu os 140 mil dólares de volta, em quitação assinada por Generoso. Em 18 de abril, foi oficialmente extinta.

No mesmo dia, Generoso, desta vez assinando como presidente, encerrou também a Liber Group.

As duas portas fecharam juntas, sem justificativa pública nos registros. Do trio criado em 2023, restou apenas o Instituto Liberdade, que hoje funciona no endereço do escritório de Paulo Calixto em Dallas, advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro.

O capítulo seguinte é o que hoje ocupa a Polícia Federal. Eduardo assinou, em janeiro de 2024, contrato como produtor-executivo do Dark Horse ao lado de Frias, com poder sobre orçamento e captação, segundo revelou o Intercept Brasil. Um aditivo chegou a qualificá-lo como “financiador” do filme.

Entre fevereiro e maio de 2025, R$ 61 milhões de Daniel Vorcaro cruzaram a fronteira rumo ao fundo Havengate, em Dallas, sob a justificativa de bancar a produção.

Em março de 2025, Eduardo mudou-se para os Estados Unidos. A PF investiga se o dinheiro do banqueiro preso sustenta a vida dele no exterior. É nesse ponto que Porciúncula reaparece. Em 27 de fevereiro de 2026, a Mercury Legacy Trust — um trust que funciona como cofre patrimonial nos Estados Unidos — comprou uma mansão de quatro quartos no Viridian, condomínio-vitrine de Arlington.

A compra foi à vista, sem banco e sem financiamento. Quem assina pela Mercury é Porciúncula.

O valor divulgado, 726 mil dólares, é apenas a avaliação fiscal. O Texas não revela preços de venda, e corretoras estimam o valor de mercado em até 789 mil dólares, podendo ser maior.

A Mercury não aparece isolada. Ela é sócia da Calixsan, gestora de Paulo Calixto e do corretor Altieris Santana — a mesma dupla que administra o Havengate, fundo que recebeu os milhões de Vorcaro.

Trust e fundo dividem o mesmo endereço em Dallas. Da antiga sede da Braz até a mansão são 21 quilômetros. É o mesmo circuito de Arlington e Dallas, três anos depois, agora atravessado pelos R$ 61 milhões do caso Dark Horse.

A gestora abriga ainda dois outros trusts sócios, o Zuma Legacy Trust e o Calixto Holdings Trust, que não aparecem nos registros estaduais americanos consultados.

As explicações de Porciúncula mudam a cada entrevista, e nenhuma fecha com os fatos conhecidos. À Folha de S.Paulo, disse que a identidade do dono da casa “não é de interesse público”. Dias depois, ao Metrópoles, assumiu ser o proprietário e afirmou ter comprado via fundo para “pagar menos juros no financiamento”.

Mas a escritura indica compra à vista. Porciúncula também disse morar na casa “há três anos”.

Há ainda uma contradição eleitoral: Porciúncula foi candidato a vereador em Salvador em outubro de 2024, o que exige domicílio eleitoral na cidade, ao mesmo tempo em que afirma viver no Texas desde 2023.

Porciúncula tinha patrimônio declarado modesto, mudou-se para o Texas no mês em que abria uma empresa junto com Eduardo, assinou uma estrutura que movimentou 140 mil dólares sem origem conhecida e, três anos depois, voltou aos registros como representante do trust que comprou uma mansão à vista.

A PF suspeita que os recursos de Vorcaro podem ter sido usados por Eduardo Bolsonaro para bancar suas aividades de lobista anti-Brasil nos Estados Unidos.

DOCUMENTOS DESTA REPORTAGEM:

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https://www.ocafezinho.com/2026/07/02/o-elo-perdido-a-empresa-no-texas-que-liga-eduardo-bolsonaro-ao-dinheiro-do-master/feed/ 12
Titanic continua a afundar https://www.ocafezinho.com/2026/07/01/titanic-continua-a-afundar/ https://www.ocafezinho.com/2026/07/01/titanic-continua-a-afundar/#comments Wed, 01 Jul 2026 15:17:54 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=261141 Se havia alguma dúvida sobre se a lama ética em que Flávio Bolsonaro afundou nos últimos meses chegaria às pesquisas, a nova AtlasIntel/Bloomberg de junho responde. No primeiro turno, Lula abriu quase 11 pontos de vantagem sobre o senador.

O Brasil tem 158 milhões de eleitores aptos, número consolidado pelo Tribunal Superior Eleitoral em 7 de maio deste ano. Os 10,9 pontos que separam os dois no cenário estimulado equivalem a cerca de 17 milhões de eleitores.

Lula se mantém estável, com 47,2%, algo como 74,6 milhões de votos em potencial. Flávio Bolsonaro caiu para 36,3%, o equivalente a cerca de 57,4 milhões, e segue perdendo terreno a cada rodada do instituto.

Entre os demais nomes, o único que dá algum sinal de vida é Renan Santos, e apenas o consegue justamente porque bate duramente em Flávio. Romeu Zema e Ronaldo Caiado seguem subservientes e tímidos diante do bolsonarismo, evitam qualquer crítica mais firme e, por isso, continuam fora do jogo, numa posição francamente humilhante.

O quadro não melhora quando se troca o adversário. Se a candidata fosse Michelle Bolsonaro, Lula manteria os mesmos 47,1% e ela ficaria em 19,3%, uma diferença de quase 30 pontos.

No segundo turno, o movimento é ainda mais nítido: Lula sobe e Flávio despenca. O presidente chegou a 48,8%, crescendo cerca de um ponto por mês na série da Atlas, enquanto o senador perdeu seis pontos e caiu para 42,3%.

Evolução do 2º turno: Lula 48,8% x Flávio Bolsonaro 42,3%

A pesquisa também desmonta a lenda de que, sem Lula, acaba o PT e acaba a esquerda. Fernando Haddad aparece forte, com 39,7% no primeiro turno, já à frente de Flávio.

E no segundo turno tanto Haddad quanto Geraldo Alckmin derrotam o senador. É a prova de que existe no país um eleitorado progressista que não depende de um único nome: ele vota no candidato mais à esquerda que estiver na mesa.

Em todos os cenários de segundo turno, Lula vence. O dado importa porque, se houvesse um adversário capaz de desempenhar melhor que Flávio, esse nome poderia vender ao eleitorado o velho argumento de que só ele ganharia no segundo turno.

Mas 2018 já mostrou que esse raciocínio é furado. Quem não vai bem no primeiro turno não tem como bater no peito e prometer grandeza no segundo.

O que a AtlasIntel consolida, no fim, é o esvaziamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, que ainda precisa lidar com uma crise misógina deflagrada dentro da própria campanha. Sua madrasta, Michelle Bolsonaro, veio a público dizer que foi desrespeitada e humilhada pelo enteado na queda de braço pela montagem da chapa no Ceará.

No mesmo momento, os escândalos ligados a Daniel Vorcaro, do Banco Master, seguem fermentando sem explicação. E, em vez de fazer autocrítica, a ala mais barulhenta do bolsonarismo escolheu culpar as próprias eleitoras.

Foi o que fez Paulo Figueiredo, neto do último ditador e uma das pontes da família com o trumpismo, ao dizer que as mulheres votam estatisticamente muito mal, sobretudo as solteiras, porque as casadas acompanhariam o voto do marido. A frase vai ecoar pelo resto da campanha, porque expõe a visão de mundo de quem prefere responsabilizar metade do eleitorado a rever o próprio programa e o próprio jeito de fazer política.

Baixe a íntegra da pesquisa Atlas aqui.

Veja mais gráficos abaixo.

Evolução do 2º turno: Lula x Flávio Bolsonaro

2º turno sem Lula: Alckmin (47,4%) e Haddad (46,4%) derrotam Flávio Bolsonaro

1º turno com Fernando Haddad: Haddad 39,7% x Flávio Bolsonaro 36,7%

2º turno: Lula vence todos os adversários, de +5,5 a +20,3 pontos

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https://www.ocafezinho.com/2026/07/01/titanic-continua-a-afundar/feed/ 12
China lança chip revolucionário de IA e consolida sua independência tecnológica https://www.ocafezinho.com/2026/06/30/china-lanca-chip-revolucionario-de-ia-e-consolida-sua-independencia-tecnologica/ https://www.ocafezinho.com/2026/06/30/china-lanca-chip-revolucionario-de-ia-e-consolida-sua-independencia-tecnologica/#comments Tue, 30 Jun 2026 05:25:29 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=261014 No início de 1949, as tropas de Mao Tsé-tung entraram em Pequim e, em outubro daquele ano, proclamaram a República Popular da China. O mundo assistiu surpreso ao nascimento de uma potência que boa parte do Ocidente apostava que não se firmaria.

Quase oito décadas depois, a China apresenta ao mundo uma nova revolução. Desta vez ela é tecnológica, e implode o esforço americano de dominar o planeta pelo controle absoluto do hardware e do software de inteligência artificial.

O contraste com os Estados Unidos não poderia ser maior. Em junho de 2026 (alguns dias atrás), o governo de Donald Trump liberou os modelos de IA mais avançados do país apenas a parceiros aprovados por Washington, caso do GPT-5.6, da OpenAI, dona do ChatGPT, e do Mythos 5, da Anthropic, criadora do Claude.

A China faz o oposto. Seus principais modelos de IA, como o DeepSeek V4, são lançados em código aberto, e não como sistemas proprietários e fechados. Qualquer pessoa ou empresa pode baixar, rodar e adaptar esses modelos de graça, estudar como cada um funciona por dentro e usá-los de base para construir sistemas semelhantes. Enquanto os americanos trancam sua tecnologia mais avançada, a China a entrega ao mundo, em especial ao Sul Global.

Isso expõe a fragilidade de uma Europa que se rendeu, com subserviência inacreditável, aos acordos tecnológicos anti-China costurados com os Estados Unidos. Quando Washington cortou até dos aliados o acesso aos seus modelos mais avançados, líderes europeus despertaram para o risco de depender de uma tecnologia que pode ser desligada da noite para o dia. Ao seguir nessa toada, o continente se autoisola do ecossistema de chips e IA, mais moderno e mais barato, que emerge na China.

Em 25 de maio de 2026, num congresso de tecnologia em Xangai, a Huawei mostrou um novo jeito de fabricar chips avançados, produzidos especialmente para os datacenters de inteligência artificial, sem depender dos Estados Unidos. Quem apresentou a novidade foi He Tingbo, presidente da divisão de semicondutores da empresa, na China.

Como a Huawei driblou o bloqueio dos chips

Um chip avançado é uma pastilha minúscula com bilhões de transistores, as chaves que ligam e desligam para realizar cada cálculo. Durante mais de cinco décadas, a indústria ganhou potência encolhendo esses transistores para caber mais deles no mesmo espaço, já que quanto menor a peça, mais rápido e mais barato fica o chip.

Esse é o segredo por trás da Nvidia e da TSMC. A Nvidia projeta os chips de IA mais cobiçados do mundo, mas quem os fabrica é a taiwanesa TSMC, a única capaz de gravar os transistores mais minúsculos que existem, e ela só consegue isso com máquinas de litografia da holandesa ASML, que custam centenas de milhões de dólares e não têm concorrente.

Foi nesse ponto que os Estados Unidos miraram para conter a China. Proibiram a venda dos chips mais avançados e, sobretudo, barraram a exportação das máquinas da ASML, apostando que sem essas ferramentas a China jamais alcançaria a fronteira da miniaturização.

A Huawei respondeu mudando a pergunta. Em vez de disputar transistores menores, terreno em que os americanos controlam as ferramentas, passou a buscar velocidade encurtando o caminho que a informação percorre, empilhando os circuitos em camadas, como os andares de um prédio.

A empresa diz ter aumentado em 53% a quantidade de transistores numa única geração e já ter produzido em massa 381 projetos de chip com a técnica ao longo de seis anos. O próximo celular Kirin, previsto para o segundo semestre, será o primeiro a usá-la.

A derrota da Nvidia na China

O anúncio veio quatro dias depois de a Nvidia admitir a derrota na China. Em 21 de maio, Jensen Huang, presidente-executivo da Nvidia, dos Estados Unidos, disse a investidores que praticamente entregou à Huawei o mercado chinês de IA, que ele mesmo estima em cerca de 50 bilhões de dólares.

A Nvidia chegou a controlar cerca de 95% desse mercado antes de as restrições americanas apertarem, a partir de 2022. As próprias sanções a empurraram para fora, mas o golpe final veio da concorrente chinesa, que construiu algo melhor.

O que tirou a Nvidia do jogo foi o Ascend 950PR, que entrou em produção em massa em março de 2026. O cartão Atlas 350, que o carrega, entrega 1,56 quatrilhão de cálculos por segundo, o equivalente a 150 laptops gamer de ponta ao mesmo tempo. Segundo a Huawei, o chip rende 2,87 vezes o desempenho da H20, o modelo mais avançado que a Nvidia ainda podia vender legalmente à China, por cerca de 16 mil dólares, quase o mesmo preço de antes.

Em poucas semanas, Alibaba, Tencent e a ByteDance, dona do TikTok, fizeram encomendas bilionárias de chips Ascend. A Huawei projeta receita de 12 bilhões de dólares com a venda de chips de IA em 2026, contra 7,5 bilhões no ano anterior.

A Huawei ergueu essa cadeia inteira por conta própria. Desenvolveu sua própria memória de alta velocidade, a HiBL 1.0, com 112 gigabytes e 1,4 terabyte por segundo de transferência, sem depender dos fornecedores sul-coreanos.

Durante anos, os Estados Unidos tentaram asfixiar a própria Huawei, cortando seu acesso a fornecedores ocidentais e derrubando-a do mercado de celulares premium. A empresa resistiu, voltou ao topo e provou que o cerco já não basta para travar o avanço chinês quando há capacidade industrial e decisão política por trás.

Um ecossistema chinês totalmente autônomo

Em abril de 2026, a DeepSeek lançou o modelo V4, com 1,6 trilhão de parâmetros e janela de contexto de 1 milhão de tokens. O mais importante foi o que ele não tinha: nenhum componente da Nvidia, nem o software CUDA.

O CUDA é o trunfo mais valioso da Nvidia, mais até que os próprios chips. Criado há quase duas décadas, é a plataforma em que quase todo o mundo aprendeu a programar inteligência artificial, e foi ela que amarrou pesquisadores e empresas à Nvidia. Sem esse software, o chip de um concorrente nascia inútil.

É esse fosso que a China começou a atravessar. A Huawei desenvolveu o próprio ambiente de programação, o CANN, que ocupa o lugar do CUDA e permite que os modelos rodem direto nos chips Ascend.

Os engenheiros da DeepSeek reescreveram os blocos fundamentais do V4 para rodar nativamente sobre o CANN. Em poucas horas, Alibaba Cloud e Tencent Cloud já ofereciam o modelo a seus clientes.

Pela primeira vez na história da inteligência artificial, um modelo de fronteira foi ao ar sem hardware nem software americano em sua infraestrutura. O chip é chinês, a memória é chinesa, o software de base é chinês e o modelo é chinês.

Existem agora dois sistemas de IA se desenvolvendo em paralelo, um ancorado na tecnologia americana e outro na capacidade chinesa.

Mais que economia, isso é geopolítica e poder: romper a hegemonia americana nos chips avançados é uma vitória do Sul Global. E como a tecnologia chinesa é mais barata, ela tende a democratizar o acesso à inteligência artificial e aos celulares avançados que vão definir as próximas décadas, o que faz disso uma vitória não só da China, mas do mundo.

Fontes desse artigo.

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https://www.ocafezinho.com/2026/06/30/china-lanca-chip-revolucionario-de-ia-e-consolida-sua-independencia-tecnologica/feed/ 13
O fator geopolítico do cinema brasileiro (entrevista exclusiva com Leonardo Edde, presidente da RioFilme) https://www.ocafezinho.com/2026/06/29/o-fator-geopolitico-do-cinema-brasileiro-entrevista-exclusiva-com-leonardo-edde-presidente-da-rio-filmes/ https://www.ocafezinho.com/2026/06/29/o-fator-geopolitico-do-cinema-brasileiro-entrevista-exclusiva-com-leonardo-edde-presidente-da-rio-filmes/#comments Mon, 29 Jun 2026 12:54:05 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=260973 13 Comentários 🔥]]> A disputa pelo audiovisual deixou de ser uma briga entre estúdios e virou um capítulo da geopolítica. É assim que Leonardo Edde, presidente da RioFilme, resume a transformação do setor que acompanha há quase três décadas como produtor.

Edde é citado nos bastidores do setor audiovisual como um dos nomes cotados para presidir a Ancine a partir da próxima vaga que abrir na instituição, o que pode acontecer nos próximos meses. Boa parte da diretoria deve ser renovada, o que vai ajudar a destravar, segundo ele, as inovações necessárias para melhorar a situação do cinema nacional.

O adversário das cinematografias nacionais não é mais Hollywood no sentido antigo, segundo Edde. São hoje as maiores empresas do mundo, Alphabet, Amazon, Netflix e Apple, que tratam conteúdo como isca para vender assinatura e não como produto cultural.

Edde lembra que essa disputa sempre teve natureza política. “O cinema sempre foi político. A arte sempre foi política”, diz, antes de observar que a novidade é a escala, agora verdadeiramente global, num momento em que distribuir um filme pelo mundo se tornou um processo extremamente simplificado pela revolução digital e pela concentração das plataformas.

“Não é mais o Exército que protege as nações, é a cultura”, afirma.

Os Estados Unidos entenderam isso logo após a Segunda Guerra, quando transformaram o cinema no motor do seu soft power. O cinema americano vende, antes de tudo, o próprio modo de vida americano.

A Coreia do Sul fez a leitura mais inteligente das últimas décadas. Quando um único blockbuster de Hollywood ocupou as salas coreanas nos anos 1990, o governo percebeu que saía mais dinheiro do país para os estúdios americanos do que entrava com a exportação de carros.

A resposta foi uma política pública de Estado, perene e ambiciosa. O ápice veio com o Oscar de Parasita, que abriu caminho para as séries, a música, a culinária e até o idioma coreano conquistarem o mundo.

O Brasil tem a matéria-prima e desperdiça a oportunidade. Segundo Edde, o país exporta pouco demais para uma indústria que pretende ser sustentável, já que toda indústria audiovisual saudável é exportadora.

Hollywood tira entre 60% e 70% da receita de seus filmes do mercado externo. Sem exportar, o cinema brasileiro não se sustenta nem ajuda a projetar o país no tabuleiro internacional.

Há ainda um efeito interno pouco discutido. Filmes como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto só alcançam grande bilheteria doméstica depois de ganharem relevância em festivais lá fora.

Edde chama isso de “exportação de produto e importação de relevância”. É o atalho contra o que ele descreve como uma “cabeça colonizada”, a velha síndrome de vira-lata que ainda leva o público brasileiro a desprezar o que é nacional.

Nesse ponto a conversa encontra os Brics. Para o presidente da RioFilme, o Brasil tem a chance de deixar de ser apenas exportador de commodity e passar a liderar uma narrativa cultural própria num mundo multipolar.

O problema é que a política pública brasileira chega atrasada justamente à parte que mais cresce. O streaming, segmento mais expandido do consumo audiovisual, é o único elo da cadeia que segue sem regulação no país.

Todos os outros segmentos são regulados e contribuem para garantir espaço ao produto nacional. O ambiente digital, onde está a maior parte da audiência, escapa dessa lógica.

O resultado aparece nos números da própria agência reguladora. A [última pesquisa da Ancine](https://www.gov.br/ancine/pt-br/oca) aponta que apenas 5% do conteúdo disponível nos streamings no Brasil é nacional.

É pouco demais para o lugar onde o público de fato assiste. “É premente que a gente possa regular os streamings”, afirma, sob pena de o país perder investimento, distribuição e a disputa pela própria tela.

Edde não é inimigo das regras. “Eu sou a favor da burocracia, aliás eu nem sei o que seria sem ela”, diz, mas defende apenas a burocracia necessária, aquela que dá segurança jurídica sem asfixiar a criação.

Falta, na sua avaliação, uma política de Estado que nenhum governo possa desmontar com uma canetada. O que ele descreve como um tripé institucional, formado por Conselho Superior do Cinema, Ancine e Ministério da Cultura, virou a partir do golpe de 2016 “um monopé”, que “não para em pé sozinho”.

Há também um problema no desenho do setor. São 12 mil produtoras independentes no Brasil, a maioria no nível de entrada e muitas abertas apenas para acessar editais.

Misturar estreantes e grandes produtoras nas mesmas regras acaba travando todo mundo. A saída, para Edde, é separar políticas, com mais liberdade e mais cobrança para quem disputa o mercado mundial e mais apoio para quem ainda tenta entrar nele.

Na entrevista ao Cafezinho, Edde também foi perguntado sobre o financiamento obscuro do filme Dark Horse, bancado com dinheiro de Daniel Vorcaro, um dos maiores fraudadores financeiros da história brasileira. A operação parte justamente de quem vive tentando demonizar o sistema de financiamento público do cinema nacional.

Sua resposta foi recusar o enquadramento. “Falta de ética é falta de ética”, disse, lembrando que o senador Flávio Bolsonaro, autor do projeto sobre o pai, sequer é do ramo. “Nem ele é um produtor de cinema. Tá longe de ser.”

Para Edde, quem quer enganar ou roubar fará isso em qualquer indústria, sob qualquer pretexto. “Não é sobre cinema. É sobre corrupção, é sobre fraude.”

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https://www.ocafezinho.com/2026/06/29/o-fator-geopolitico-do-cinema-brasileiro-entrevista-exclusiva-com-leonardo-edde-presidente-da-rio-filmes/feed/ 13
Xi Jinping e a arte de vencer sem fazer nada (com dados exclusivos de comércio exterior chinês!) https://www.ocafezinho.com/2026/06/28/xi-jinping-e-a-arte-de-vencer-sem-fazer-nada-com-dados-exclusivos-de-comercio-exterior-chines/ https://www.ocafezinho.com/2026/06/28/xi-jinping-e-a-arte-de-vencer-sem-fazer-nada-com-dados-exclusivos-de-comercio-exterior-chines/#comments Sun, 28 Jun 2026 21:36:36 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=260926 15 Comentários 🔥]]> Durante décadas, a cartilha imperialista de Washington sustentou que a hegemonia global só poderia ser mantida através de intervenções militares diretas e do controle monopolista do sistema financeiro. No entanto, enquanto dados oficiais enviados pelo próprio Departamento de Defesa (Pentágono) ao Congresso indicam que os Estados Unidos queimaram US$ 11,3 bilhões em apenas seis dias de hostilidades contra o Irã em 2026 — um montante sabidamente subestimado por excluir o custo total do complexo aparato de inteligência e logística —, Pequim demonstra que a verdadeira liderança mundial se consolida por caminhos pacíficos. A potência norte-americana especializou-se historicamente na destruição sistemática da infraestrutura de nações soberanas, ao passo que a China investe no sentido oposto, financiando e erguendo ferrovias, portos e redes de energia pelo mundo; essa estratégia reflete uma visão geopolítica infinitamente mais generosa, segundo a qual sociedades com amplo acesso a bens públicos essenciais tornam-se estruturalmente afeitas à paz e à cooperação.

Os dados inéditos de comércio exterior de maio de 2026 comprovam a solidez dessa estratégia pacífica, com as exportações chinesas atingindo expressivos US$ 376,80 bilhões, um avanço de 19,20% em base anual. Esse fluxo mercantil robusto gerou um superávit mensal de US$ 105,40 bilhões, acumulando um saldo comercial de US$ 1,168 trilhão nos doze meses encerrados em maio.

Esse avanço avassalador das exportações ocorre em paralelo à redução do volume físico de importações de matérias-primas críticas como o petróleo bruto, que recuou 29,01% no mês, apontando para uma maior eficiência energética e para a liderança chinesa na transição tecnológica global. O descolamento da economia asiática frente às tentativas ocidentais de “desacoplamento” fica evidente no histórico da última década, conforme demonstrado no gráfico abaixo, elaborado pela equipe deste portal.

Gráfico do Saldo Comercial da China (10 Anos)

A solidez dessa musculatura mercantil serve de base para uma profunda transformação na percepção pública mundial, tema central de debate no programa The Point, apresentado pela jornalista Liu Xin na rede estatal CGTN. O debate partiu de dados reveladores: a pesquisa da Gallup de 2025 registrou que a aprovação global da liderança da China atingiu 36%, ultrapassando a dos EUA (31%), a maior vantagem chinesa em duas décadas. Esse avanço foi corroborado pelo índice de soft power da Brand Finance de 2026, no qual a China se destacou como a única grande potência mundial a registrar alta, contrastando com o derretimento de 4,6 pontos na pontuação norte-americana.

Durante a mesa-redonda, o pesquisador brasileiro Renato Penelope, diretor do Conselho de Cidadãos Brasileiros em Pequim, analisou a repercussão dessas mudanças na América Latina. Ele apontou uma contradição de interesses no Ocidente: embora elites midiáticas e forças locais tentem impor governos conservadores alinhados à retórica norte-americana, a estabilidade das relações com Pequim permanece inabalável. Penelope citou o exemplo do Brasil, cuja parceria vai além da exportação de commodities agrícolas e minerais e se estende para iniciativas de financiamento sustentável (como os títulos públicos Panda Bonds em moeda chinesa) e intercâmbio de alta cultura, que vão desde a divulgação de clássicos da sociologia brasileira de Darcy Ribeiro até grandes exposições de Cândido Portinari no Museu Nacional de Pequim.

Leia também: China é a grande vencedora da nova aventura imperialista dos EUA no oriente médio.

Em termos de governança política, o jurista e analista italiano Ivan Cardilo desmistificou o jargão ocidental que rotula a China como uma “ditadura de partido único”. Cardilo asseverou que o público global está se tornando mais pragmático ao avaliar a democracia por seus resultados efetivos. Enquanto a alternância partidária ocidental muitas vezes esconde governos paralisados e submetidos a pressões fiscais idênticas, a governança chinesa se estrutura na accountability direta de servir ao povo, assumindo responsabilidade direta pelos projetos e permitindo o planejamento estratégico previsível de longo prazo. Essa aproximação factual é estimulada pela política de isenção de vistos (visa-free) da China para dezenas de nações, abrindo espaço para que cidadãos estrangeiros observem a realidade de perto, superando o filtro das agências de comunicação hegemônicas.

Por fim, a professora Zhang Xiaoyu, da Universidade de Comunicação da China, destacou que a consolidação da imagem internacional do país se sustenta também em uma nova indústria cultural descentralizada e conectada com a juventude digital. Em vez de imitar a distribuição imperialista de Hollywood, Pequim exporta novos formatos criativos e tecnológicos, como a febre de literatura online (webnovels), produtos de design colecionáveis como a marca Labubu, e conteúdos dinâmicos com a estética China cool amplamente disseminada no TikTok. Para Xiaoyu, a própria concepção de democracia para o cidadão chinês baseia-se em pilares palpáveis, como o acesso facilitado a refeições baratas, educação pública acessível e saúde de qualidade, oferecendo ao Sul Global uma alternativa soberana e sustentável à modernidade endividante norte-americana, onde até antigos presidentes levaram mais de duas décadas para liquidar suas dívidas estudantis.

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Pesquisa Indexa mostra Lula consolidando vantagem sobre Flávio Bolsonaro https://www.ocafezinho.com/2026/06/23/pesquisa-indexa-mostra-lula-consolidando-vantagem-sobre-flavio-bolsonaro/ https://www.ocafezinho.com/2026/06/23/pesquisa-indexa-mostra-lula-consolidando-vantagem-sobre-flavio-bolsonaro/#comments Tue, 23 Jun 2026 22:52:26 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=260504 13 Comentários 🔥]]>  

Nova rodada nacional da Indexa Pesquisas reforça um movimento que vem aparecendo de forma cada vez mais consistente nos levantamentos eleitorais: o presidente Lula segue ampliando, de maneira gradual, sua vantagem na corrida de 2026.

No cenário estimulado de primeiro turno, Lula aparece com 42% das intenções de voto, contra 31% de Flávio Bolsonaro. Em maio, o placar era de 39% a 30%.

A vantagem, portanto, passou de 9 para 11 pontos percentuais. É um crescimento modesto, mas politicamente relevante porque ocorre junto com a queda dos indecisos, que recuaram de 10% para 6%.

Ronaldo Caiado aparece com 5%, seguido por Romeu Zema e Renan Santos, ambos com 3%. Joaquim Barbosa e Augusto Cury têm 1% cada, enquanto Samara Martins e Cabo Daciolo não pontuam.

No segundo turno contra Flávio Bolsonaro, Lula também melhora sua posição. O petista vai de 46% para 47%, enquanto Flávio recua de 41% para 40%.

Com isso, a vantagem de Lula no confronto direto sobe de 5 para 7 pontos. Nulos e brancos ficam em 9%, e os indecisos permanecem em 4%.

Um dos dados mais importantes da pesquisa está no grau de decisão do eleitorado. Entre os eleitores de Lula, 81% dizem que o voto já está decidido, contra 74% entre os eleitores de Flávio Bolsonaro.

Ou seja, além de liderar, Lula tem hoje um eleitorado mais firme. Apenas 19% dos seus eleitores admitem que podem mudar de voto, enquanto esse percentual sobe para 26% entre os apoiadores de Flávio.

A fidelidade em relação a 2022 também favorece o presidente. No primeiro turno, 84% dos que votaram em Lula dizem que votariam nele novamente, enquanto 69% dos que votaram em Jair Bolsonaro declaram voto em Flávio.

No segundo turno, Lula retém 93% de seus eleitores de 2022. Flávio Bolsonaro retém 85% dos eleitores de Jair Bolsonaro.

Regionalmente, Lula mantém uma vantagem expressiva no Nordeste, onde marca 52% no primeiro turno, contra 26% de Flávio. No Norte, Lula também lidera com 45%, contra 30%.

No Sudeste, maior colégio eleitoral do país, o dado é politicamente relevante: Lula tem 38% no primeiro turno, seis pontos à frente de Flávio, que aparece com 32%. No segundo turno, Flávio marca 44% e Lula 42%, diferença dentro da margem de erro.

Isso mostra que a direita ainda encontra força no Sudeste, mas não consegue abrir ali uma vantagem confortável. Para Lula, sustentar competitividade na região é decisivo.

No Sul, Lula e Flávio aparecem praticamente empatados no primeiro turno, com 37% a 36%. No Centro-Oeste, o placar é de 35% para Lula e 34% para Flávio.

A pesquisa também mostra Lula à frente entre as mulheres, com 45% contra 28% de Flávio. Entre os homens, a disputa é mais apertada: 38% a 34% para Lula.

Por faixa etária, Lula lidera em todos os grupos. Entre os jovens de 16 a 24 anos, tem 42%, contra 27% de Flávio.

No eleitorado com ensino superior, Lula registra 45%, contra 30% de Flávio. Entre os eleitores com renda de até dois salários mínimos, o presidente tem 43%, contra 28%.

O recorte religioso confirma uma das principais dificuldades do campo progressista: entre evangélicos, Flávio lidera por 44% a 28%. Mas Lula vence entre católicos, sem religião e outros grupos religiosos.

Outro ponto importante é o desempenho de Lula no eleitorado de centro. No primeiro turno, ele tem 35% nesse segmento, contra 16% de Flávio; no segundo turno, vence por 47% a 32%.

Esse dado indica que a polarização segue forte, mas Lula conserva maior capacidade de atração fora de sua base ideológica imediata. A terceira via, por enquanto, continua fragmentada e sem força nacional.

A Indexa ouviu 2.000 eleitores entre 18 e 20 de junho. A pesquisa foi registrada no TSE sob o número BR-08944/2026, tem margem de erro de cerca de 2,2 pontos percentuais e nível de confiança de 95%.

O levantamento custou R$ 164 mil e foi realizado com recursos próprios do Instituto Indexa Pesquisas. Não chega ao patamar de pesquisas nacionais mais caras, como as do Datafolha, que superam R$ 300 mil, mas está longe de ser um levantamento barato ou improvisado.

O conjunto dos dados aponta para uma tendência clara: Lula não cresce de forma explosiva, mas consolida uma vantagem lenta, firme e cada vez mais difícil de ignorar.

 

 

Para baixar a íntegra da pesquisa Indexa, clique aqui.

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Datafolha mostra Lula em recuperação e Flávio perdendo fôlego entre abril e junho https://www.ocafezinho.com/2026/06/23/datafolha-mostra-lula-em-recuperacao-e-flavio-sem-folego-entre-abril-e-junho/ https://www.ocafezinho.com/2026/06/23/datafolha-mostra-lula-em-recuperacao-e-flavio-sem-folego-entre-abril-e-junho/#comments Tue, 23 Jun 2026 22:00:30 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=260488 12 Comentários 🔥]]> A sequência de pesquisas Datafolha de abril, maio e junho desenha um movimento claro na disputa de 2026. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva melhora em todas as modalidades de voto, enquanto o senador Flávio Bolsonaro perde capacidade de crescer no confronto direto.

O segundo turno resume a virada. Em abril, Flávio aparecia numericamente à frente, com 46% contra 45% de Lula. Em maio Lula assumiu a dianteira com 47% a 43%, placar que se repetiu em junho.

A inversão não veio de um único mês fora da curva. O ganho de Lula aparece ao mesmo tempo na espontânea, no primeiro turno e na avaliação do governo, o que aponta para tendência e não para ruído.

No primeiro turno estimulado, Lula sobe de 39% em abril para 41% em junho. Flávio cai de 35% para 31%, e a diferença entre os dois salta de quatro para dez pontos em apenas dois meses.

Na intenção espontânea, aquela em que o eleitor cita um nome sem ver lista, Lula vai de 26% para 30%. Flávio oscila de 16% para 17% e fica parado, com a vantagem de Lula passando de dez para treze pontos.

A avaliação do governo acompanha o movimento eleitoral. Lula tinha 45% de aprovação e 51% de desaprovação em abril e maio, e chega a junho com 48% e 49%.

O saldo sai de -6 para -1 no período. Não é uma aprovação confortável, mas é a primeira recuperação consistente do ano.

A base de Lula se concentra onde sempre esteve. No Nordeste a aprovação chega a 64% em junho, e entre quem ganha até dois salários mínimos sobe para 54%, contra 50% em abril.

O recorte de gênero também favorece o governo neste mês. Entre mulheres a aprovação é de 53%, ante 43% entre homens, e na escolaridade fundamental Lula mantém 59%.

A resistência continua dura em blocos específicos. No Sul a desaprovação fica em 61%, entre evangélicos em 64% e, nas rendas acima de dez salários mínimos, chega a 60% em junho.

Um cruzamento ainda não permite conclusão. Os arquivos disponíveis não abrem voto ou aprovação por idade, de modo que não dá para afirmar que os jovens puxaram a melhora de Lula.

O quadro que emerge é assimétrico. Lula cresce onde já era forte e reduz a própria vulnerabilidade no agregado, enquanto Flávio preserva um núcleo fiel sem mostrar fôlego para ampliá-lo.

Os relatórios completos estão disponíveis para download: a íntegra da avaliação de governo e a íntegra da intenção de voto.

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Exclusivo! China bate recorde de comércio enquanto o Ocidente queima bilhões em guerras e genocídios https://www.ocafezinho.com/2026/06/16/exclusivo-china-bate-recorde-de-comercio-enquanto-o-ocidente-queima-bilhoes-em-guerras/ https://www.ocafezinho.com/2026/06/16/exclusivo-china-bate-recorde-de-comercio-enquanto-o-ocidente-queima-bilhoes-em-guerras/#comments Tue, 16 Jun 2026 20:39:15 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=258907 12 Comentários 🔥]]> A corrente de comércio da China bateu 6,71 trilhões de dólares e o superávit disparou 49% em dois anos, enquanto Washington e Bruxelas torram fortunas em guerras.

A China fechou o ciclo de doze meses encerrado em abril de 2026 com uma corrente de comércio de 6,71 trilhões de dólares e exportações globais de 3,93 trilhões, os maiores números de sua história. O superávit comercial do país saltou de 0,78 para 1,17 trilhão de dólares em apenas dois anos, um avanço de quase 50% que consagra Pequim como a maior potência exportadora do planeta.

O salto veio no auge da ofensiva ocidental contra a China e seus parceiros. Enquanto os Estados Unidos queimam bilhões de dólares em bombas e bloqueios navais na guerra que travam contra o Irã desde fevereiro, e a Europa compromete outros 90 bilhões de euros para financiar o conflito na Ucrânia deflagrado sob o estímulo de Washington, Pequim escolheu investir em comércio e seguiu acumulando dinheiro.

Nesse tabuleiro, o Brasil desponta como um dos grandes ganhadores da expansão chinesa. A corrente de comércio entre os dois países alcançou 203,3 bilhões de dólares no mesmo período, o maior valor já registrado na relação bilateral.

As compras chinesas de produtos brasileiros somaram 126,5 bilhões de dólares no último ciclo, segundo os dados oficiais da Administração Geral das Alfândegas da China (GACC), depois de recuarem para 104,6 bilhões no período anterior. A retomada veio puxada pela soja e pelo petróleo bruto, num momento em que a China reforça suas fontes de alimento e energia fora da órbita ocidental.

A soja liderou a pauta com 39,1 bilhões de dólares, seguida pelo petróleo bruto e combustíveis, com 30,7 bilhões, e pelo minério de ferro, com 30 bilhões. Os três produtos confirmam o Brasil como fornecedor decisivo das cadeias de alimento, energia e siderurgia da maior economia exportadora do mundo.

No setor de energia, o Brasil ganhou terreno justamente quando o mercado encolhia. As importações chinesas de combustíveis fósseis caíram de 519 para 440 bilhões de dólares em três anos, mas as compras de petróleo brasileiro saltaram de 21,7 para 30,7 bilhões entre os dois últimos ciclos.

O avanço ocorreu enquanto os fornecedores tradicionais perdiam espaço. A Federação da Rússia seguiu na liderança, com 82,2 bilhões de dólares em vendas de combustíveis à China, ainda que abaixo dos 98 bilhões de dois anos antes, e a Arábia Saudita apareceu logo atrás entre os países analisados, com 44,1 bilhões.

O caso do Irã ilustra o tamanho da distorção provocada pela guerra e pelas sanções ocidentais. Os registros oficiais da alfândega chinesa apontam importações iranianas de combustíveis de apenas 3,2 milhões de dólares, uma cifra que fala mais sobre o bloqueio naval e a reclassificação de cargas do que sobre o fluxo real entre Teerã e Pequim.

Na ponta das vendas chinesas ao Brasil, o destaque foi o capítulo de veículos e autopeças, que cresceu cerca de 77% em dois anos. O total passou de 5,8 bilhões de dólares no ciclo encerrado em abril de 2024 para 10,2 bilhões em 2026, impulsionado pela chegada dos automóveis elétricos chineses ao mercado sul-americano.

A parceria com a China é estratégica e tende a se aprofundar, sustentada pela convergência dentro dos BRICS e pela construção de um comércio menos dependente do dólar. Enquanto o Ocidente aposta suas fichas na guerra, Pequim transforma comércio em poder e abre ao Brasil a chance de crescer junto.

 

 

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Lula bota a cabeça fora d’água em nova pesquisa BTG/Nexus https://www.ocafezinho.com/2026/06/15/lula-bota-a-cabeca-fora-dagua-em-nova-pesquisa-btg-nexus/ https://www.ocafezinho.com/2026/06/15/lula-bota-a-cabeca-fora-dagua-em-nova-pesquisa-btg-nexus/#comments Mon, 15 Jun 2026 19:02:36 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=258677 13 Comentários 🔥]]>  

O levantamento BTG/Nexus de junho é favorável ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva em quase todas as tabelas. Nenhum recorte aponta movimento estrutural a favor do senador Flávio Bolsonaro, do PL.

No primeiro turno do cenário estimulado, Lula vai a 42% contra 33% do adversário, e a vantagem que era de cinco pontos em abril e maio salta para nove em junho.

O interesse declarado pela eleição subiu a 77%, o maior patamar da série, e 94% dizem que pretendem comparecer às urnas. A disposição para votar não sinaliza abstenção fora do comum neste ciclo.

Esse número contraria uma tese cara à oposição, a de que a abstenção castigaria o petista. Flávio Bolsonaro prospera no ambiente da despolitização, e quando o brasileiro se interessa pela política o voto antissistema perde força e migra para Lula.

A qualidade do voto acompanha a quantidade. Entre os que já escolheram um nome, 81% do eleitorado de Lula diz ter a decisão tomada, contra 77% do de Flávio, uma base menos volátil.

A escala de polarização exibe simetria quase perfeita, com 26% de lulistas convictos e 26% de bolsonaristas convictos. Os não polarizados somam 21%, mas apenas 8% rejeitam os dois polos ao mesmo tempo, o que explica por que a terceira via segue inviável no país.

Esse centro, porém, não é equidistante. Entre os não polarizados, Lula tem 35% no primeiro turno contra 26% de Flávio, e recuperou o espaço que havia perdido nos meses anteriores.

Há um dado que desmonta a narrativa do voto refém. Setenta e nove por cento do eleitorado de Lula diz votar nele por considerá-lo o melhor candidato, e só 16% o fazem apenas para derrotar o adversário.

Do outro lado, a convicção encolhe. Entre os eleitores de Flávio, os que o veem como melhor candidato caíram de 65% em maio para 61%, enquanto 31% admitem votar nele apenas para barrar Lula.

No segundo turno o quadro fica mais nítido. Lula sobe a 49% e Flávio recua a 43%, a maior distância já registrada na série da BTG/Nexus nessa simulação.

O voto que se desloca não vem da indecisão, vem do próprio campo bolsonarista. São eleitores que apoiavam Flávio e agora optam por Lula, um trânsito mais firme do que a oscilação típica do indeciso.

A migração inclui quem normalmente escaparia ao petismo. Entre os não beneficiários do Bolsa Família, Lula passou de 42% no fim de março para 46%, à frente dos 45% de Flávio, o que enfraquece o argumento de que sua vantagem dependeria só da transferência de renda.

Os estratos do segundo turno confirmam as bases tradicionais do petista e acrescentam novidades. Lula vence entre mulheres por 55% a 37%, entre eleitores de 60 anos ou mais por 56% a 39%, no Nordeste por 66% a 28% e entre quem não tem religião por 60% a 26%.

A recuperação mais expressiva está nas grandes cidades. Lula lidera nas capitais por 50% a 40% e nas regiões metropolitanas por 52% a 38%, números que apontam vantagem no Rio, em São Paulo, em Belo Horizonte e em Porto Alegre, e que mostram um avanço que já não se explica só pelo Nordeste.

Mesmo no terreno mais hostil há erosão bolsonarista. Lula mantém 34% entre evangélicos no segundo turno, perto de 16 milhões de eleitores, o suficiente para obrigar pastores alinhados à direita a moderar o discurso sob risco de perder fiéis.

O resultado, no entanto, não autoriza triunfalismo, e os pontos frágeis estão à vista. Flávio lidera entre homens, no Sul, entre evangélicos e na faixa de 25 a 40 anos, e mantém vantagem entre quem ganha mais de cinco salários mínimos.

Dois recortes preocupam mais do que os demais. Lula perde entre o ensino médio por 41% a 49% e na faixa de dois a cinco salários por 43% a 46%, eleitorado de classe média com peso de influência e onde o petista precisa crescer.

O Sudeste aparece empatado em 45% a 45%, o que faz da região o grande termômetro da disputa.

A aprovação do governo trouxe o dado mais simbólico da rodada. Pela primeira vez em meses Lula coloca a cabeça fora d’água, com 48% de aprovação, cerca de 76 milhões de eleitores, contra 47% de reprovação, índice que recuou de 51% em março.

A imagem vem da gíria das pesquisas americanas, em que um governante fica embaixo d’água quando a desaprovação supera a aprovação e emerge quando o sinal se inverte. Por essa régua, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afunda perto de dezenove pontos no agregador de junho, enquanto Lula aparece um ponto acima da superfície.

O saldo positivo se concentra onde o lulismo é mais denso, com 65% de aprovação no Nordeste, 61% no ensino fundamental, 61% entre quem ganha até um salário mínimo e 55% acima dos 60 anos. A maior força está entre os sem religião, um contingente de cerca de 22 milhões de eleitores, em que a aprovação alcança 58%.

A reprovação domina nos mesmos segmentos em que Flávio é competitivo. O governo fica em desvantagem entre evangélicos, com 61% de desaprovação, no Sul, com 59%, e entre o trabalhador formal, com 57%, além do ensino médio e da faixa de dois a cinco salários, a classe média que Lula ainda precisa reconquistar.

O cientista político Antônio Lavareda, ao comentar o agregador da CNN, fez a ressalva necessária. A tendência de fechamento da boca da curva é boa notícia para o governo, mas uma desaprovação ainda próxima de 50% continua a alimentar as pretensões da oposição.

Lavareda também resume o que distingue este momento dos anteriores. Há poucos meses Flávio vivia um viés de alta, e agora, depois de uma forte crise de reputação, atravessa uma fase de declínio no primeiro e no segundo turnos, a ponto de a permanência de sua candidatura poder ser questionada antes das convenções de julho.

A pauta internacional entrou de vez na disputa, e aqui o petista joga no campo que domina. Lavareda observa que o fator Trump veio para ficar, ao lado da economia, e a sondagem mostra 42% atribuindo o tarifaço a Flávio contra 39% a Lula.

A classificação das facções como organizações terroristas pelos Estados Unidos, que a direita imaginava ser um gol, não funcionou assim. Trinta e sete por cento dos brasileiros enxergam na medida uma ameaça à segurança e à soberania nacional, percepção que sobe para 44% entre os não polarizados.

O contraponto está no tema que mais cresce. Segurança pública e violência lideram a lista de preocupações com 33% das menções, à frente da saúde e da corrupção, e avançaram inclusive desde maio.

Esse é o terreno em que a esquerda não pode ceder. A direita se vendeu por anos como especialista em segurança, e cabe ao governo disputar essa bandeira em vez de deixá-la livre para o adversário.

Lula lidera, melhora e ganha estabilidade, enquanto Flávio mantém base expressiva mas recua e acumula mais rejeição, 52% ante os 47% do presidente. Lula também aparece como único nome possível para 38% do eleitorado, contra 25% do adversário.

Nada está decidido, e a eleição segue incerta para ambos os lados, mas a corrente de junho corre a favor de Lula.

Clique aqui para baixar a íntegra da pesquisa.

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Quaest abre novo rombo em Flávio “Titanic” https://www.ocafezinho.com/2026/06/10/quaest-abre-novo-rombo-em-flavio-titanic/ https://www.ocafezinho.com/2026/06/10/quaest-abre-novo-rombo-em-flavio-titanic/#comments Wed, 10 Jun 2026 14:58:10 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=257410 154 Comentários 🔥]]> Se a censura do ministro Kassio Nunes Marques à AtlasIntel pretendia conter a entrada de água no barco de Flávio, o efeito político pode ter sido o contrário.

A decisão suspendeu a divulgação de uma pesquisa AtlasIntel registrada no TSE, sob suspeita de indução ao eleitor, com restrição também a impulsionamento e republicação do levantamento.

A Folha registrou que o TSE adiou a análise do caso depois de Kassio votar para manter a censura pedida por Flávio Bolsonaro.

O mesmo texto informou que a Atlas/Bloomberg apontava queda de seis pontos de Flávio no segundo turno contra Lula após o caso “Dark Horse”, com áudios ligados a Daniel Vorcaro.

Agora veio a Quaest. E a nova rodada não tampa o furo. Abre outro no casco.

Não dá para saber se é só o caso Vorcaro. Pode ser também o “tariFlavio”, a submissão a Trump, a dificuldade de parecer moderado, ou simplesmente a força eleitoral de Lula.

O fato é que Flávio perdeu terreno onde mais precisava ganhar. Não é apenas uma fotografia ruim, é uma sequência.

No segundo turno contra Lula, Flávio aparecia na frente em abril, por 42% a 40%. Em maio, Lula virou por 42% a 41%.

Em junho, a Quaest mostra Lula com 44% e Flávio com 38%.

Em abril, Lula estava dois pontos atrás de Flávio. Agora está seis pontos à frente.

Parece variação de planilha, mas é gente. O Brasil tem 158,8 milhões de eleitores aptos, segundo o TSE, e cada ponto percentual vale cerca de 1,6 milhão de pessoas.

E a conta mostra para onde foi esse eleitor. Flávio perdeu 4 pontos no período e Lula ganhou exatamente os mesmos 4.

Não houve fuga para o branco nem para a indecisão. Brancos e nulos caíram de 16% para 14%, e os indecisos subiram só de 2% para 4%.

No agregado, é como se uns 6 milhões de eleitores tivessem cruzado direto do lado de Flávio para o lado de Lula. Em dois meses.

Em números absolutos, os 44% de Lula equivalem hoje a quase 70 milhões de eleitores. Os 38% de Flávio, a uns 60 milhões.

Claro que a urna encolhe esses números. No segundo turno de 2022, a abstenção foi de 20,6% e, entre quem compareceu, brancos e nulos somaram menos de 5%.

Repetindo esse padrão em 2026, sobram cerca de 120 milhões de votos válidos. E a divisão da Quaest entre os dois, 44 a 38, equivale a 54% a 46% dos válidos.

Na urna, isso daria a Lula cerca de 64 milhões de votos, contra 56 milhões de Flávio. Uma vantagem de quase 9 milhões.

Para comparar, Lula venceu Bolsonaro pai em 2022 com 60,3 milhões de votos e margem de 2,1 milhões. Hoje ele estaria acima da própria marca, com uma folga quatro vezes maior.

Esse é o primeiro rombo. O segundo é mais fundo, porque aparece entre independentes.

Nesse grupo, Lula saiu de 26% em abril para 29% em maio e chegou a 37% em junho. Flávio fez o caminho inverso, caiu de 33% para 31% e depois despencou para 24%.

A margem entre independentes saiu de 7 pontos a favor de Flávio para 13 pontos a favor de Lula. É uma virada de 20 pontos de margem no eleitorado menos alinhado.

Isso muda a natureza da disputa. Flávio ainda tem base, mas começa a perder o miolo.

No primeiro turno, a curva repete o alerta. Lula foi de 37% em abril para 39% em maio e segue em 39% em junho.

Flávio fez o caminho oposto. Subiu a 33% em maio e desabou para 29% em junho, com a margem dobrando de 5 para 10 pontos.

E aqui o destino do voto é diferente do segundo turno. O eleitor que saiu de Flávio não foi para Lula, que ficou parado.

Foi para a dúvida e para nomes novos. Os indecisos dobraram de 5% para 10%, enquanto Aécio Neves estreou no cenário com 2% e Joaquim Barbosa com 1%.

Nem a direita alternativa aproveitou a queda. Caiado foi de 4% para 3% e Zema, de 4% para 2%.

Em gente, são uns 6 milhões de eleitores abandonando Flávio em um mês. E 8 milhões a mais sentados no muro, esperando para decidir.

O detalhe mais interessante está nos recortes. O Nordeste segue forte para Lula, mas a novidade não está só no território mais previsível.

No Sudeste, Lula saiu de 31% contra 36% de Flávio em abril para 37% contra 28% em junho. A margem mudou de menos 5 para mais 9.

No Centro-Oeste e Norte, Lula foi de 26% contra 36% para 32% contra 30%. A margem saiu de menos 10 para mais 2.

Também há deslocamento social. Na renda de 2 a 5 salários mínimos, Lula foi de 31% contra 36% para 39% contra 28%.

No ensino médio, Lula saiu de 30% contra 37% para 34% contra 32%. São recortes de meio de eleitorado, não apenas redutos naturais do lulismo.

A rejeição também piora o diagnóstico. Flávio fica travado em 39% no grupo que o conhece e votaria nele.

Ao mesmo tempo, o grupo que conhece e não votaria sobe de 52% em abril para 54% em maio e 56% em junho. O desconhecimento cai de 9% para 5%. Mais exposição, mesmo teto.

A imagem de moderação também sangra. Em abril e maio, 39% diziam que Flávio era mais moderado que a família Bolsonaro, mas esse número cai para 33% em junho.

No mesmo período, os que dizem que ele não é mais moderado sobem para 50%. O figurino de bolsonarismo palatável está rasgando antes da campanha começar.

Então chega o Caso Master. A Quaest mostra que 55% dizem já saber das conversas e negociações de Flávio com Vorcaro.

Os números seguintes são devastadores. Para 65%, Flávio errou ao pedir financiamento a Vorcaro, 60% dizem que as conversas levantaram suspeitas e 58% consideram que ele pode estar escondendo envolvimento ilegal no caso do Banco Master.

A pesquisa ainda mostra 62% dizendo acreditar que Flávio sabia que Vorcaro estava envolvido em corrupção. São percepções do eleitorado, não sentença judicial, mas em eleição percepção afunda casco.

Entre independentes, o quadro é ainda mais perigoso para ele. São 67% dizendo que Flávio errou, 63% vendo suspeitas nas conversas e 64% dizendo que ele pode estar escondendo envolvimento ilegal.

As notícias sobre Flávio e Vorcaro não destroem sua base dura. Mas endurecem seu teto.

No total, 50% dizem que continuam sem votar em Flávio e 12% afirmam que a vontade de votar nele diminuiu. Apenas 6% dizem que a vontade aumentou.

Entre independentes, 57% dizem que continuam sem votar nele e 15% dizem que a vontade diminuiu. Esse é o mesmo grupo em que Lula abriu 13 pontos no segundo turno.

Os outros cenários de segundo turno dizem menos neste momento. Zema, Caiado e Renan aparecem mais como nomes de prateleira do que como alternativas reais na disputa.

A disputa central continua sendo Lula contra Flávio. E nesse confronto, a Quaest não entregou uma boia ao senador.

Entregou mais água. Flávio ainda flutua porque o bolsonarismo é grande, mas o centro já começa a se afastar do convés.

Base fiel mantém navio visível. Eleitor independente decide se ele chega ao porto.

 

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Colapso catastrófico ou vitória redentora? O futuro de Ciro Gomes nas eleições do Ceará https://www.ocafezinho.com/2026/06/04/colapso-catastrofico-ou-vitoria-redentora-o-futuro-de-ciro-gomes-nas-eleicoes-do-ceara/ https://www.ocafezinho.com/2026/06/04/colapso-catastrofico-ou-vitoria-redentora-o-futuro-de-ciro-gomes-nas-eleicoes-do-ceara/#comments Thu, 04 Jun 2026 22:43:19 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=256444 14 Comentários 🔥]]> Não dá para entender a eleição do Ceará sem olhar para dois números, a aprovação de Lula e a aprovação do governador Elmano de Freitas.

Lula tem 62% de aprovação no estado, contra 34% que desaprovam. Entre as mulheres chega a 65%, e entre os eleitores com mais de 60 anos vai a 74%.

A força aparece em todas as faixas de renda e cresce na base. Quem ganha até um salário mínimo aprova o presidente em 67%.

A única fratura clara é religiosa. Entre católicos a aprovação é de 71% e cai para 38% entre evangélicos.

Aprovação de Lula no Ceará

Essa aprovação já é voto. No primeiro turno Lula tem 60% das intenções contra 21% de Flávio Bolsonaro, e no segundo turno vence por 61% a 28% no estado.

Segundo turno para presidente no Ceará

O segundo número decisivo é a aprovação de Elmano, de 57% contra 34%. Entre mulheres sobe para 60% e entre os maiores de 60 anos chega a 73%.

O eleitorado de Elmano é o mesmo de Lula, mais pobre, mais feminino e mais velho. Ele tem 60% de aprovação entre quem ganha até um salário e só cai para 49% acima de dois salários.

Aprovação do governador Elmano de Freitas

Essa aprovação ainda não virou intenção de voto por inteiro, mas em eleição majoritária ela converge. Quem aprova um governo tende a votar nele, ainda mais com um presidente tão forte no estado.

Os cruzamentos confirmam o vínculo. Entre quem já declara voto em Elmano, Lula é aprovado por 87%, enquanto entre os eleitores de Ciro a avaliação de Lula racha em 50% a 47%.

Por que o espontâneo engana

O voto espontâneo parece favorável a Ciro, mas esconde a disputa real. Ele tem 18% e Elmano 14%, com 59% que ainda não sabem em quem votar.

A diferença vem da renda. Entre quem ganha mais de dois salários Ciro tem 30% e Elmano 19%, mas entre quem ganha até um salário Ciro cai para 12% e quase empata com os 10% de Elmano.

É nessa faixa que estão os indecisos. Entre os mais pobres, 67% não sabem em quem votar, contra 40% no topo da pirâmide de renda.

Esse indeciso de baixa renda é o mesmo eleitor que aprova Lula e vota em Lula. Na hora de decidir, ele tende a ir para Elmano.

O interesse pela eleição reforça o ponto. Entre os mais pobres, 45% dizem ter pouco ou nenhum interesse hoje, e esse eleitor entra na disputa mais tarde.

Ciro surfa num recall que vai acabar

A vantagem de Ciro na estimulada, 44% contra 33%, vive de memória. O eleitor cearense ainda não percebeu que o Ciro de hoje não é o aliado de Lula e de Cid Gomes do passado.

Segundo turno para governador do Ceará

O Ciro de 2026 caminha com Flávio Bolsonaro e com Capitão Wagner. Quando o eleitor descobrir isso, a tendência é migrar para Elmano.

Por isso ele se esconde. Circula em ambientes controlados, fala só de segurança e foge dos temas que o expõem.

Ciro não fala de Trump, não fala de Flávio e não fala do tarifaço, que ameaça produtos cearenses. Até Caiado e Zema reclamam da tarifa, mesmo jogando a culpa em Lula, mas Ciro fica calado.

Ele chegou a gravar um vídeo passando pano na decisão dos Estados Unidos de tratar facções como terroristas. O problema não é uma invasão improvável, é o flanco aberto para chantagear empresas, governos e a própria classe política brasileira.

O bolsonarismo usa Ciro como bobo da corte, um espantalho de esquerda para bater em Lula. Quando não precisar mais, vai cuspi-lo, porque exige fidelidade canina ao que há de mais reacionário.

Nesse caminho ele leva aliados junto, como Mauro Filho e Roberto Cláudio. E a persona agressiva que construiu desde 2022 afasta justamente as mulheres e os moderados, que decidem o voto mais perto da eleição.

A eleição não está decidida. A estimulada mostra Ciro na frente, mas o voto das mulheres, dos mais pobres, a terceira idade, os indecisos e a aprovação de Lula e Elmano, contam outra história.

A disputa real está no cidadão, especialmente de baixa renda, eleitor de Lula, que ainda não entrou ainda no clima eleitoral. Quando a campanha vai nacionalizar, a vantagem de Ciro tende a minguar, e Elmano pode repetir a performance que obteve em 2022.

Baixe aqui a íntegra da pesquisa Ipsos / Ipec.

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Flavio Bolsonaro também cai na Real Time Big Data https://www.ocafezinho.com/2026/06/01/flavio-bolsonaro-tambem-cai-na-real-time-big-data/ https://www.ocafezinho.com/2026/06/01/flavio-bolsonaro-tambem-cai-na-real-time-big-data/#comments Mon, 01 Jun 2026 23:22:41 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=254937 14 Comentários 🔥]]> A aritmética eleitoral brasileira raramente cabe num decimal, e a pesquisa Real Time Big Data divulgada neste fim de semana é um bom exemplo disso. Quando o instituto registra Lula com 45% no segundo turno contra 40% de Flávio Bolsonaro, o que parece uma diferença modesta de cinco pontos se traduz, no eleitorado de 158 milhões de pessoas aptas a votar em outubro, em quase oito milhões de votos de vantagem. É a primeira vez no ciclo de 2026 que o petista abre uma distância que escapa da margem de erro, e o número chega num momento em que o governo precisava de ar.

O levantamento foi registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BR-05864/2026, ouviu 2 mil eleitores entre 29 e 30 de maio e trabalha com margem de dois pontos para mais ou para menos. Cada ponto percentual, nesse universo, vale cerca de 1,6 milhão de eleitores, e é com essa régua que vale a pena ler o resto da pesquisa. O quadro de junho inverte o de maio, quando Flávio liderava o segundo turno por um ponto. Em trinta dias, Lula somou pouco mais de três milhões de votos e o adversário perdeu mais de seis, um deslocamento de quase dez milhões de brasileiros que mudaram de lado ou abandonaram a candidatura bolsonarista.

A pesquisa espontânea, aquela em que o eleitor responde sem nenhum cartão de candidato à frente, confirma que a polarização continua sendo a gramática da disputa. Lula cresceu de 31% para 33% e Flávio oscilou de 24% para 25%, enquanto a fatia de indecisos encolheu de 24% para 21%. São quase cinco milhões de eleitores que saíram da zona cinzenta do não sei num único mês, e quase todos foram parar nos dois polos. O debate sobre terceira via ocupa as colunas da imprensa corporativa, mas o eleitor comum, pego de surpresa, ainda recita o duelo que partiu o país em 2022.

No primeiro turno estimulado a fotografia é parecida. Lula aparece com 38%, o equivalente a cerca de sessenta milhões de votos, contra 31% de Flávio, quase 49 milhões. A distância de sete pontos significa mais de onze milhões de eleitores de folga, espaço suficiente para o Planalto ditar o ritmo do debate nacional sem a sufocação das pesquisas anteriores. Os dois líderes recuaram dois e três pontos respectivamente com a entrada de Aécio Neves e Joaquim Barbosa no tabuleiro, mas o estrago real ficou do lado da oposição.

A direita se fragmenta e Renan Santos colhe os cacos

O dado mais subestimado da pesquisa não está nos líderes, e sim no terceiro lugar. Renan Santos, do Missão, dobrou de tamanho na estimulada, de 3% para 6%, e converteu em quase cinco milhões de votos novos o desgaste do bolsonarismo. Ele agora divide a terceira posição com Ronaldo Caiado, que governa Goiás e oscilou de 5% para 6%, enquanto Romeu Zema patina nos mesmos 4%. A soma dessas candidaturas desenha um eleitorado conservador que procura saída fora da tutela do clã, e o discurso antissistema do MBL se mostra mais eficiente para capturar esse voto do que a tese de bolsonarismo moderado que Flávio tenta vender.

A fratura tem endereço geracional. Entre os eleitores de 16 a 34 anos, Renan Santos saltou de 4% para 9% em um único mês, enquanto Lula e Flávio recuaram dois pontos cada nessa faixa. É na juventude que o duelo principal mais se aperta e onde o discurso digital da nova direita encontra o terreno mais fértil.

Há aqui um paralelo histórico que merece registro. O mesmo movimento que Jair Bolsonaro fez em 2018, quando canibalizou a direita tradicional pela borda mais radical, começa a se voltar contra o próprio herdeiro. Renan Santos ocupa o nicho do insurgente digital que já não pertence ao sobrenome Bolsonaro, e essa fratura, se persistir até a convenção de julho, pode condenar a oposição a chegar dividida ao primeiro turno. A divisão da direita é, hoje, o maior ativo eleitoral de Lula, mais do que qualquer índice de aprovação.

A leitura por gênero reforça o ponto. As mulheres são pouco mais de metade do eleitorado, perto de 82 milhões de eleitoras, e nesse contingente Lula mantém uma liderança de doze pontos no primeiro turno, 41% contra 29%. Em números absolutos, isso representa perto de dez milhões de mulheres de diferença, um colchão que sozinho explica boa parte da vantagem nacional. Entre os homens a disputa é um empate técnico, 34% a 33%, o que mostra que a eleição de 2026, como a de 2022, será decidida no voto feminino.

O recorte religioso, levantado na rodada de maio, ajuda a entender o teto de cada lado. Entre os evangélicos, Flávio lidera com folga, 41% contra 31% de Lula, no único grupo em que o bolsonarismo se impõe. Entre católicos o jogo se inverte, 43% a 31% para o petista, e entre quem não tem religião a vantagem de Lula chega a 44% contra 33%. A muralha evangélica segue sustentando a oposição enquanto o restante do país pende para o governo.

A geografia do voto repete o mapa conhecido, com uma nuance. Ainda em maio, o Nordeste blindava Lula com 52% contra 25%, e o Sul era de Flávio, 43% a 32%. Norte, Sudeste e Centro-Oeste apareciam empatados, as três regiões que costumam decidir a eleição no detalhe.

O alerta amarelo mora no andar de cima

Se a pesquisa traz uma boa notícia para a esquerda, ela vem acompanhada de um sinal que o Planalto erraria em ignorar. Entre os eleitores que ganham mais de cinco salários mínimos, Lula despencou dez pontos num só mês, de 38% para 28%, a pior variação de todo o levantamento. O voto que saiu dele não migrou para Flávio, que também recuou nesse extrato, e sim para a terceira via, com Renan Santos saltando para 11% e Caiado segurando 10%.

A tentação seria minimizar o número, porque a alta renda é uma fatia estreita do eleitorado, longe dos milhões que se movem nas faixas mais baixas. Mas a importância desse grupo não está no volume de votos e sim no peso que ele exerce sobre o mercado, a imprensa e a formação de opinião das classes médias urbanas. Quando o topo da pirâmide se desloca dez pontos por causa do ruído em torno da reforma tributária e da pressão das tarifas, o que se mede não é uma perda eleitoral imediata e sim um termômetro de humor que costuma escorrer para baixo. A direita liberal entendeu isso antes do governo e ocupou o espaço.

O contraste com a base do petismo é didático. Na faixa de até dois salários mínimos, que reúne a maioria dos 158 milhões de brasileiros aptos a votar, Lula mantém 45% contra 28% de Flávio, o cinturão de proteção social que sustenta a candidatura governista intacto. É na classe média, de dois a cinco salários, que mora o segundo recado da pesquisa: Flávio caiu quatro pontos e perdeu a liderança que tinha em maio, empatando com Lula em 35%. O eleitorado assalariado e do comércio, que dá o tom da economia das cidades, escapou das mãos do bolsonarismo sem se entregar de vez ao governo.

No agregado, a avaliação do trabalho de Lula acompanha a melhora. A desaprovação caiu de 52% para 50% e rompeu a barreira simbólica da maioria absoluta negativa, enquanto a aprovação subiu um ponto, para 43%. O avanço da nota regular e o recuo do péssimo sugerem que parte dos descontentes migra para uma posição morna, e é nessa zona morna que se ganham eleições no segundo turno. O governo ganha fôlego para negociar a agenda econômica sem o peso de uma rejeição majoritária às costas.

Por fim, um dado que o Planalto deveria transformar em bandeira. Cerca de 22% dos eleitores apontam Lula, espontaneamente, como o principal responsável pela troca da escala 6×1 pela 5×2, um tema que fala diretamente à classe média assalariada e à juventude trabalhadora. São justamente os grupos onde a disputa de 2026 está mais aberta, e onde a terceira via de direita tenta plantar bandeira. A pesquisa de junho mostra um favorito que controla o jogo no segundo turno e amplia a dianteira no primeiro, mas que precisa decidir se quer disputar o andar de cima ou consolidar de vez o chão de fábrica que o elegeu duas vezes.

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Cinco pesquisas, uma direção: a candidatura de Flávio se deteriora https://www.ocafezinho.com/2026/05/28/perdeu-o-playboy-meio-ideia-confirma-deterioracao-crescente-de-flavio-bolsonaro/ https://www.ocafezinho.com/2026/05/28/perdeu-o-playboy-meio-ideia-confirma-deterioracao-crescente-de-flavio-bolsonaro/#comments Thu, 28 May 2026 17:05:19 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=252666 139 Comentários 🔥]]> O estrago não se limita a um arranhão na campanha de Flávio Bolsonaro. Marca o início de uma deterioração mais funda da candidatura da extrema direita.

O gatilho veio no áudio em que o senador negocia R$ 134 milhões com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar um filme sobre o pai. Mas Lula já reagia antes da crise, e parte do eleitorado começava a se descolar de Flávio.

Depois de Atlas, Quaest, Datafolha e BTG/Nexus, a Meio/Ideia divulgada nesta quinta-feira (28) confirma a piora. A repercussão do escândalo, alimentada pela divulgação diária de novas revelações sobre a roubalheira do banqueiro, acelera um movimento já em curso.

Cinco institutos apontam na mesma direção em poucas semanas. Quando pesquisas independentes convergem assim, a tendência supera a margem de erro de qualquer uma delas isoladamente.

No primeiro turno espontâneo, Lula tem 33% contra 18,7% de Flávio. O presidente se manteve estável, enquanto o senador, em alta desde fevereiro, recuou.

No estimulado, Lula abre 7 pontos: 38,5% a 31,5%.

A virada fica mais nítida no segundo turno. No começo de maio a disputa estava empatada tecnicamente, com Lula em 45,3% e Flávio em 44,7%.

O quadro mudou. Flávio caiu para 41,4% e Lula subiu para 46,5%, cinco pontos de diferença a favor do presidente.

A queda do senador move a virada. Em três semanas ele perdeu pouco mais de 3 pontos, enquanto Lula avançou cerca de 1.

Como resumiu Pedro Doria, diretor de jornalismo do Meio:

“A queda de Flávio foi grande em três grupos onde não pode perder. Entre os jovens, na centro-direita e nos que ganham mais de 5 salários. Os jovens e os moderados de direita são fundamentais num 2º turno apertado. Os brasileiros de maior renda são onde está a briga com Lula.”

Entre os eleitores de 16 a 24 anos o tombo impressiona. Flávio tinha 55,2% no começo de maio e despencou para 39,5%.

Lula percorreu o caminho inverso. Saltou de 30% para 48,6% e converteu uma desvantagem de 25 pontos em vantagem de 9.

Na faixa de renda mais alta o golpe se repete com a mesma força. Entre quem ganha mais de 5 salários mínimos, Flávio tinha 30 pontos de vantagem e agora aparece atrás.

Lula subiu de 30,6% para 48,6% nesse grupo, enquanto Flávio recuou de 60,4% para 41,5%. É justamente o território onde a direita costuma dominar.

Há uma simetria curiosa nos números. Lula chega exatamente a 48,6% tanto entre os mais jovens quanto entre os mais ricos, os dois grupos em que a direita apostava para vencer.

Na centro-direita, o senador caiu de 96,3% para 78,3%. Lula avançou de 2,5% para 15,2%, crescimento capaz de decidir um segundo turno apertado.

O mesmo movimento aparece entre os eleitores sem posição política definida. Lula passou de 40,7% para 45,3%, enquanto Flávio caiu de 35,9% para 30,2%.

Um dado incomoda o campo bolsonarista. Numa simulação sem Lula, Fernando Haddad aparece à frente de Flávio no primeiro turno, com 36,5% a 32,7%.

O número desmonta a tese de que a esquerda ficaria órfã sem Lula na disputa. Muda o nome, permanece a vantagem.

A pesquisa perguntou diretamente sobre o caso do áudio. Para 44% dos entrevistados, o episódio piorou a opinião sobre Flávio.

Outros 30,8% disseram que nada mudou, 14,5% afirmaram ter hoje uma opinião melhor e 10,7% não souberam responder.

O dado isolado é nebuloso, e o tamanho real do estrago aparece melhor na intenção de voto do que nessa pergunta. Ainda assim, ele revela uma resiliência relevante do senador.

Somados os que não mudaram de opinião e os que passaram a admirá-lo mais, chega-se a 45,3% do eleitorado intacto diante do episódio. A base dura da direita seguiu firme.

A leitura mais precisa é que o caso não derrubou Flávio sozinho. Ele se somou a um incumbente forte, que já recuperava aprovação e intenção de voto antes do vazamento.

No campo da avaliação, os dados mostram leve recuperação do presidente e do governo. A aprovação de Lula está em 46,6% contra 51,4% de desaprovação.

A avaliação do governo soma 35,6% de ótimo e bom contra 25,4% de péssimo. As notas para economia, segurança pública e educação também melhoraram na margem.

Soma-se a isso a aprovação na Câmara, na quarta-feira (27), da PEC que encerra a escala 6×1 e reduz a jornada para 40 horas semanais. A proposta segue agora para o Senado.

A vitória tem forte apelo popular e reforça o momento positivo do governo. Não garante novo crescimento nas pesquisas, mas ajuda Lula a sustentar a liderança, ainda que modesta.

A Meio/Ideia ouviu 1.500 eleitores por telefone entre 23 e 27 de maio, com margem de erro de 2,5 pontos. O levantamento custou R$ 27,6 mil, com recursos do próprio Meio.

Conduzida por telefone, a pesquisa custa uma fração do que cobram institutos como Datafolha e Quaest em levantamentos presenciais, cujos orçamentos ficam entre 300 e 400 mil reais.

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Datafolha: retração dos bolsonaristas moderados consolidam a liderança de Lula https://www.ocafezinho.com/2026/05/26/datafolha-retracao-dos-bolsonaristas-moderados-consolidam-a-lideranca-de-lula/ https://www.ocafezinho.com/2026/05/26/datafolha-retracao-dos-bolsonaristas-moderados-consolidam-a-lideranca-de-lula/#comments Wed, 27 May 2026 01:14:09 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=251781 13 Comentários 🔥]]> Mapeamento detalhado das estratificações do Datafolha revela que a rejeição moral de Flávio Bolsonaro feriu sua aprovação entre jovens, sulistas e independentes, enquanto o atual presidente consolida ampla vantagem no eleitorado moderado de centro.

A mais recente pesquisa nacional do instituto Datafolha, realizada entre os dias 20 e 21 de maio de 2026, consolidou um ponto de virada estrutural na corrida presidencial. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ampliou sua liderança no primeiro turno para confortáveis nove pontos (40% contra 31% de Flávio Bolsonaro) e, de forma ainda mais significativa, quebrou o empate numérico no segundo turno, abrindo uma vantagem de 47% a 43% sobre o senador do PL.

Mais do que meras oscilações estatísticas, o detalhamento das estratificações do levantamento revela um fenômeno profundo de micro-sociologia eleitoral: a desidratação sistemática das candidaturas de extrema-direita em suas franjas moderadas e independentes, impulsionada pelo escândalo que vincula Flávio Bolsonaro ao Banco Master do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, e a sutil, porém decisiva, migração do eleitorado de centro em direção à estabilidade governamental.

A perda de tração de Flávio Bolsonaro, que recuou quatro pontos na média geral do primeiro turno em apenas uma semana, não ocorreu de forma homogênea. O senador fluminense sofreu uma sangria localizada, porém letal, exatamente nos segmentos que deveriam sustentar sua estratégia de se apresentar como uma face ‘moderada’ e tolerável da dinastia de extrema-direita.

Os estragos foram brutais entre os jovens de 25 a 34 anos (onde o senador desabou de 40% para 29%), na região Sul do país (recuo de 48% para 35%) e, crucialmente, no eleitorado de centro-direita moderado.

Para compreender a anatomia dessa queda, é preciso analisar o mapeamento ideológico exclusivo do Datafolha, que utiliza uma escala de alinhamento político de 1 a 5, em que o degrau 1 representa o bolsonarismo puro, o degrau 3 os independentes e o degrau 5, o petismo convicto. O cruzamento revela que o estrago na candidatura de Flávio Bolsonaro concentrou-se no degrau 2, correspondente aos ‘bolsonaristas moderados’ ou eleitores inclinados à direita, mas que não compartilham do radicalismo militante.

Nesse grupo, que representa 5% do total do eleitorado nacional, o apoio a Flávio Bolsonaro despencou de impressionantes 53% para 40% em poucos dias. Esse estrangulamento da candidatura oposicionista dá-se, em grande medida, pela fuga coordenada desses bolsonaristas moderados e do eleitorado independente de centro.

Repelidos pelas denúncias que envolvem o Banco Master e as visitas de Flávio a lobistas libertos da prisão, esses eleitores retiram de forma decidida o apoio à oposição, deixando a extrema-direita sitiada em seu núcleo ideológico mais radical.

Essa dinâmica de refluxo é explicada pelas primeiras fissuras e dúvidas no eleitorado considerado ultra-fiel. No degrau 1 do Datafolha (os bolsonaristas convictos, que representam 34% do eleitorado), as intenções de voto no senador também oscilaram negativamente de 82% para 77%.

O escândalo envolvendo Flávio Bolsonaro com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, coroado pela confissão pública do presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, que admitiu que o parlamentar visitou pessoalmente o lobista no dia em que este foi solto da prisão, cobrou um preço político devastador. Para uma classe média conservadora e um empresariado sulista que buscam estabilidade econômica e moralidade administrativa, o retorno das suspeitas de corrupção e tráfico de influência em favor de banqueiros sob investigação atuou como um forte repelente.

Ao mesmo tempo em que a direita extremista perde base em suas próprias franjas, o grande centro político e o eleitorado independente de centro iniciam um movimento gravitacional em direção ao governo federal. No Datafolha, a parcela de eleitores classificada como ‘não alinhados’ (degrau 3 da escala, representando 26% da amostra) abandonou Flávio Bolsonaro de forma contundente: a intenção de voto dele nesse estrato de independentes caiu de 24% para 19% no primeiro turno.

No cenário de segundo turno direto, há um empate técnico entre Lula (34%) e Flávio (38%) nesse grupo, revelando que a maioria dos independentes prefere anular ou está indecisa a se engajar na candidatura da oposição.

Essa massa cinzenta de independentes e moderados se inclina de forma muito mais nítida a favor de Lula quando observamos a estratificação por avaliação de governo. Entre os eleitores que avaliam o governo Lula como ‘regular’, que representa a definição clássica e sociológica do eleitor de centro flutuante, nada menos que 51% declaram voto no atual presidente em um eventual segundo turno, contra apenas 34% em Flávio Bolsonaro.

Lula também assumiu a liderança numérica entre os eleitores com Ensino Superior completo (47% a 40%), quebrando uma barreira histórica de antipetismo nessa classe instruída.

A quebra sociodemográfica detalhada pelo Datafolha elucida com precisão cirúrgica os pontos de força e fraqueza de cada projeto. Lula tem suas maiores vantagens consolidadas entre as mulheres (51% a 37% de Flávio no segundo turno), nas faixas etárias maduras de 45 a 59 anos (49% a 39%) e acima de 60 anos (51% a 42%), entre os eleitores que estudaram até o ensino fundamental (60% a 34%), na parcela com renda familiar de até dois salários mínimos (55% a 35%), na Região Nordeste (63% a 28%) e entre os católicos (51% a 38%).

Por outro lado, os redutos de resistência de Flávio Bolsonaro concentram-se nas faixas de renda familiar de 2 a 5 salários (50% a 40% de Lula), de 5 a 10 salários (56% a 33%) e acima de 10 salários mínimos, onde atinge sua maior vantagem (61% a 35%). O senador do PL também mantém a dianteira nas regiões Sul (50% a 36%), Norte/Centro-Oeste (50% a 40%) e entre os eleitores evangélicos, onde vence por 56% a 33%.

Contudo, por se tratar de nichos geograficamente e demograficamente limitados, essas vantagens não compensam a perda generalizada de apoio no eleitorado de massa feminino e de baixa renda.

Os cenários alternativos testados pelo Datafolha sepultam ainda mais as esperanças de uma ‘terceira via’ ou de uma recuperação fácil da oposição. Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) figuram como meros figurantes, oscilando entre 3% e 4% no primeiro turno e perdendo por margens de nove pontos para Lula nas simulações diretas de segundo turno (48% a 39% em ambos os casos).

Nem mesmo a substituição de Flávio por Michelle Bolsonaro surte efeito: a ex-primeira-dama pontua apenas 22% no primeiro turno estimulado contra 41% de Lula e, no confronto direto de segundo turno, perde por 48% a 43%, com uma rejeição de 31% que a impede de herdar integralmente o capital político do bolsonarismo original.

O diagnóstico final oferecido pelas estratificações do Datafolha em maio de 2026 é inequívoco. Diante de denúncias graves envolvendo o submundo do lobismo bancário e a incapacidade da oposição de oferecer uma alternativa viável e moderada, o eleitorado independente de centro e as franjas liberais da direita brasileira começaram a realizar uma migração pragmática de retorno à normalidade democrática.

Ao buscar a reeleição sustentado em uma economia controlada e no diálogo amplo, Lula não apenas mantém a resiliência de sua base histórica, mas expande sua influência sobre a zona cinzenta do eleitorado, deixando a extrema-direita sitiada em seu próprio radicalismo e isolada por seus próprios escândalos.

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Como o escândalo Volcaro e a atração do eleitorado de centro consolidam a vantagem de Lula https://www.ocafezinho.com/2026/05/25/como-o-escandalo-volcaro-e-a-atracao-do-eleitorado-independente-de-centro-consolidam-a-vantagem-de-lula/ https://www.ocafezinho.com/2026/05/25/como-o-escandalo-volcaro-e-a-atracao-do-eleitorado-independente-de-centro-consolidam-a-vantagem-de-lula/#comments Tue, 26 May 2026 02:10:19 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=251463 13 Comentários 🔥]]> A terceira rodada da pesquisa nacional BTG Nexus, divulgada neste dia 25 de maio de 2026, traz uma série de dados reveladores sobre o cenário eleitoral e a avaliação de governo. O ponto mais interessante e estratégico do levantamento é o comportamento do eleitorado independente: o expressivo contingente de 26% de não polarizados na política brasileira, que começa a inclinar de forma nítida e consistente na direção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Este movimento, somado ao derretimento do teto de Flávio Bolsonaro em meio ao escândalo Volcaro, redefine a dinâmica da pré-campanha muito mais cedo do que se viu em pleitos anteriores.

Historicamente, a política brasileira se define na conquista da faixa moderada. E, neste momento, várias análises convergem para um diagnóstico claro: o centro político está, em grande medida, inserido e representado dentro do próprio governo Lula, sob o comando de figuras de peso como a ministra Simone Tebet e o vice-presidente Geraldo Alckmin. O assentamento paulatino das opiniões sobre a economia e os rumos da administração pública tem funcionado como uma ponte segura para que esse terço de eleitores independentes se aproxime do governo de forma orgânica — repetindo a aliança ampla que garantiu a vitória de 2022, mas agora com um arranque precoce e muita força.

Em contrapartida, as candidaturas que tentavam construir uma espécie de ‘terceira via’ ou ‘direita alternativa’ continuam figurando como meras cartas fora do baralho. Nomes como Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Renan Santos revelam-se meros coadjuvantes, detendo intenções de voto marginais que variam entre 3% e 5% no primeiro turno estimulado. Ao longo da pré-campanha, a forte tendência gravitacional da polarização direta deve desidratar esses projetos por completo. Por esse motivo, é crucial prestar atenção nas simulações diretas de segundo turno.

Os números de potencial de voto são categóricos. O potencial de voto consolidado de Lula (eleitores que afirmam ser ele ‘o único em quem votaria’) subiu de 34% em abril para 37% em maio. Simultaneamente, a rejeição ao presidente recuou de 48% para 47%. No campo oposto, Flávio Bolsonaro faz o caminho inverso: sua rejeição subiu dois pontos, atingindo a barreira psicológica de 50%, enquanto seu potencial de voto consolidado oscilou negativamente para 26%. No gráfico de potencial de voto, Lula se mostra hoje muito superior a qualquer adversário.

Esse desgaste se reflete de forma direta no principal cenário de segundo turno testado. Se o pleito fosse hoje, Lula venceria Flávio Bolsonaro por 47% a 43% — abrindo uma vantagem clara de quatro pontos percentuais que supera a margem de erro, superando o cenário de empate técnico (46% a 45%) visto na rodada anterior de abril.

A quebra sociodemográfica do segundo turno elucida de forma ainda mais cristalina onde reside a força de cada projeto. Entre as mulheres, a vantagem de Lula é esmagadora: o presidente tem 54% das intenções de voto contra apenas 35% de Flávio Bolsonaro. Lula também mantém sua supremacia histórica entre os eleitores mais pobres (56% de apoio na faixa de renda de até 1 salário mínimo) e entre a terceira idade (onde atinge 51% de aprovação entre os eleitores com mais de 60 anos, contra apenas 38% de desaprovação).

Porém, um dos recortes mais emblemáticos e surpreendentes desta pesquisa dá-se na escolaridade. No eleitorado com Ensino Superior completo — um segmento que historicamente tendeu a votar com forte viés antipetista —, Lula aparece com 47% das intenções de voto no segundo turno contra 46% de Flávio Bolsonaro. O empate técnico nesse segmento indica que o presidente recuperou de forma notável o voto instruído. Esse eleitorado, caracterizado por sua independência e posições liberais clássicas, está se descolando do radicalismo da extrema-direita e convergindo para o centro pragmático liderado por Lula.

Ademais, a sustentabilidade da candidatura de Lula repousa sobre uma base altamente mobilizada e leal. Entre os eleitores que votaram no presidente em 2022, impressionantes 92% declaram que aprovam o trabalho de seu governo atualmente. O presidente conta ainda com uma aprovação geral de 47% contra 48% de desaprovação — um saldo de apenas 1 ponto negativo que, na atual conjuntura nacional e internacional de forte polarização, indica um patamar de resiliência formidável e uma melhora gradativa de um ponto percentual em relação à rodada anterior.

O retrato que a pesquisa BTG Nexus entrega em maio de 2026, portanto, não é o de um país estagnado no ódio simétrico, mas sim o de uma lenta e firme migração do eleitorado independente e moderado de centro na direção da estabilidade governamental, enquanto a oposição de extrema-direita começa a pagar o preço eleitoral de seus escândalos de corrupção e das denúncias no submundo do lobismo brasiliense.

 

Clique aqui para baixar íntegra da pesquisa.

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O jacaré vermelho volta a atacar https://www.ocafezinho.com/2026/05/22/o-jacare-vermelho-volta-a-atacar/ https://www.ocafezinho.com/2026/05/22/o-jacare-vermelho-volta-a-atacar/#comments Fri, 22 May 2026 21:10:50 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=250449 369 Comentários 🔥]]> O Brasil tem, segundo balanço divulgado pelo Tribunal Superior Eleitoral em maio, mais de 158 milhões de eleitoras e eleitores aptos a votar nas eleições presidenciais deste ano. No cenário de primeiro turno divulgado hoje pelo Datafolha e publicado pela Folha de S.Paulo, os 40% atribuídos a Lula correspondem a aproximadamente 63,2 milhões de votos potenciais.

Flávio Bolsonaro, com 31%, teria cerca de 49 milhões de votos potenciais. A diferença entre os dois, de nove pontos percentuais, equivale a aproximadamente 14,2 milhões de eleitores.

A boca do jacaré começou a se abrir.

A soma de todos os demais candidatos, votos em branco, nulos, nenhum e indecisos chega a 29%, ou cerca de 45,8 milhões de eleitores. Ou seja, Lula aparece isolado na liderança, com vantagem superior ao conjunto formado pelo pelotão intermediário, brancos, nulos e indecisos.

A nova pesquisa Datafolha foi publicada nesta sexta-feira, 22 de maio, pela Folha de S.Paulo. O levantamento foi realizado presencialmente com 2.004 pessoas de 16 anos ou mais, em 139 municípios, nos dias 20 e 21 de maio.

A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.

No principal cenário de primeiro turno, sem Michelle Bolsonaro na disputa, Lula marca 40%, contra 31% de Flávio Bolsonaro. Na rodada anterior, de 13 de maio, a distância entre os dois era de apenas três pontos.

A mudança em uma semana é relevante: Flávio caiu quatro pontos, enquanto Lula subiu dois. Com isso, a vantagem petista passou de três para nove pontos percentuais.

Ronaldo Caiado aparece com 4%. Romeu Zema, Renan Santos e Samara Martins têm 3% cada.

Augusto Cury marca 2%. Aldo Rebelo, Cabo Daciolo e Rui Costa Pimenta aparecem com 1% cada.

Hertz Dias não pontua. Brancos, nulos ou nenhum somam 9%, e os que não sabem também são 3%.

O dado mais relevante da rodada é o recuo de Flávio Bolsonaro. O senador havia registrado 35% em abril e mantido o mesmo percentual em 13 de maio, mas agora aparece com 31%.

Lula, por sua vez, estava em 39% em abril, oscilou para 38% na pesquisa anterior e chegou agora a 40%. O resultado interrompe, ao menos nesta fotografia, a aproximação de Flávio em relação ao presidente.

No segundo turno, Lula também aparece à frente. O presidente marca 47%, contra 43% de Flávio Bolsonaro.

Considerando o universo de 158 milhões de eleitores aptos, isso equivale a cerca de 74,3 milhões de votos potenciais para Lula e 67,9 milhões para Flávio. A diferença de quatro pontos corresponde a aproximadamente 6,3 milhões de eleitores.

Na rodada anterior, de 13 de maio, os dois estavam empatados em 45%. Esse percentual equivalia a cerca de 71,1 milhões de votos potenciais para cada um, sempre considerando o eleitorado total apto e sem descontar abstenções.

A série do segundo turno mostra uma disputa que vinha se estreitando desde o fim de 2025. Lula tinha 51% em dezembro, caiu para 46% em março, chegou a 45% em abril e repetiu esse percentual em 13 de maio.

Flávio fez o movimento inverso nesse período. Saiu de 36% em dezembro, subiu para 43% em março, chegou a 46% em abril e empatou com Lula em 45% na pesquisa anterior.

Na nova rodada, porém, a curva se inverteu. Lula voltou a 47%, enquanto Flávio recuou para 43%.

A pesquisa ocorre após a repercussão do caso “Dark Horse”, revelado pelo Intercept Brasil, envolvendo a campanha de Flávio Bolsonaro, o deputado federal Mario Frias e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O episódio gira em torno da tentativa de financiar a cinebiografia de Jair Bolsonaro, prevista para ser lançada em meio ao ciclo eleitoral.

Segundo as reportagens publicadas sobre o caso, Flávio buscou apoio de Vorcaro para o filme em valores milionários. Parte das apurações aponta repasses já identificados e tratativas sobre cifras bem mais altas, ainda sob disputa política e investigação jornalística.

O caso também envolve suspeitas sobre o uso indireto de dinheiro público. A produtora ligada ao filme recebeu mais de R$ 100 milhões da Prefeitura de São Paulo para instalar pontos de Wi-Fi em comunidades de baixa renda, mas há questionamentos sobre a quantidade efetivamente entregue em relação ao que havia sido prometido.

Outra frente envolve emendas parlamentares destinadas por deputados bolsonaristas a entidades e empresas ligadas ao entorno da produção. O STF também passou a cobrar explicações sobre a destinação de recursos e sobre a viagem internacional de Mario Frias, produtor-executivo de “Dark Horse”, ao Bahrein e aos Estados Unidos.

O trecho mais constrangedor da crise veio com a divulgação das conversas e áudios. Em uma das mensagens, Flávio trata Vorcaro em tom de intimidade e escreve: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente”.

A frase pegou mal porque contrastou com as explicações posteriores do senador. Primeiro, Flávio tentou reduzir o vínculo com Vorcaro; depois, diante das mensagens e áudios, ficou evidente que a relação era bem mais próxima do que a versão inicial sugeria.

O próprio Flávio Bolsonaro confirmou depois que esteve pessoalmente na casa de Vorcaro quando o banqueiro estava em prisão domiciliar. Segundo ele, a visita teria ocorrido para “pôr um ponto final” nas tratativas sobre o filme, explicação que abriu nova rodada de questionamentos.

Também entrou no radar a viagem de Mario Frias ao Bahrein. No campo das suspeitas políticas, a ida ao país passou a ser associada por críticos à pergunta sobre o destino de recursos ainda não esclarecidos, embora não haja confirmação pública de que dinheiro do projeto tenha sido movimentado no exterior.

O desgaste aparece na pesquisa. Segundo a Folha, 64% dos entrevistados disseram ter ouvido falar do caso “Dark Horse”, e o mesmo percentual avaliou que Flávio Bolsonaro agiu mal no episódio.

A reportagem registra que o levantamento anterior havia sido feito em parte antes de o caso ganhar maior repercussão pública. A nova rodada, por sua vez, foi realizada já com o episódio amplamente conhecido pelo eleitorado.

O Datafolha também testou Michelle Bolsonaro como possível alternativa da direita. No cenário de segundo turno contra Lula, ela aparece com 43%, enquanto o presidente marca 48%.

No primeiro turno, porém, Michelle tem desempenho inferior ao de Flávio. Ela aparece com 22%, contra 41% de Lula.

Como diria o Henfil, tem uma esperança despontando no horizonte!

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Haddad empata entre mulheres em São Paulo https://www.ocafezinho.com/2026/05/22/haddad-empata-entre-mulheres-em-sao-paulo/ https://www.ocafezinho.com/2026/05/22/haddad-empata-entre-mulheres-em-sao-paulo/#comments Fri, 22 May 2026 03:26:55 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=250222 13 Comentários 🔥]]> A pesquisa Paraná Pesquisas divulgada nesta quinta-feira no Estadão derruba a leitura preguiçosa de que a eleição paulista já estaria decidida. Entre as mulheres, Fernando Haddad praticamente empata com Tarcísio de Freitas no primeiro turno.
São 39,9% para o governador e 37,8% para o ministro da Fazenda, uma diferença de apenas 2,1 pontos, abaixo da margem de erro de 2,5 pontos do levantamento.

No cenário de segundo turno o quadro feminino também está apertado. Tarcísio tem 44,7% e Haddad, 43,0%, igualmente empate técnico.


As mulheres são maioria do eleitorado paulista, com 18,22 milhões de eleitoras, 53% do total.

E São Paulo não é um estado qualquer, é o maior colégio eleitoral do país. São 34,4 milhões de eleitores, quase um quarto de todo o eleitorado brasileiro.

O segmento em que Haddad já empata é o maior e mais estratégico de toda a disputa nacional. Quem vence entre as mulheres de São Paulo larga com vantagem decisiva.

Aplicados ao eleitorado feminino, os 37,8% de Haddad equivalem a cerca de 6,9 milhões de eleitoras, contra 7,3 milhões de Tarcísio.

No conjunto do estado, os 33,5% de Haddad no primeiro turno representam algo perto de 11,5 milhões de eleitores, projetados sobre o eleitorado total. Em 2022, o petista fez 8,34 milhões de votos no primeiro turno e 10,9 milhões no segundo. Haddad parte agora de um piso que já flerta com o teto que alcançou há quatro anos.

Os desafios de Haddad, no entanto, serão enormes. A aprovação de Tarcísio é alta, com 70,9% entre os homens e 58,6% entre as mulheres, e sustenta a sua dianteira.

A avaliação positiva do governo soma 48,6%, contra 22,5% de negativa. No agregado o governador lidera o primeiro turno com folga, 47,3% a 33,5%, e a pesquisa chega a sugerir chance de vitória já na primeira rodada.
A vantagem de Tarcísio se concentra quase inteira no eleitorado masculino. Entre os homens ele abre 55,6% a 28,7% no primeiro turno e 61,8% a 31,4% no segundo.
É o voto masculino que segura a liderança do governador. Entre as mulheres, repita-se, a eleição está em aberto.

Vai dar trabalho, no estado e na articulação nacional. Mas a frente ampla democrática tem chance concreta em São Paulo, e os números de hoje provam isso.

Pela força de Haddad entre as mulheres e pela recuperação recente do governo federal, Lula pode ter desempenho competitivo no estado em 2026. São Paulo virou eleitorado dividido, não eleitorado entregue.

O dado mais animador para o campo de Lula está no Senado. São Paulo elege dois senadores em 2026, e as duas vagas hoje estão com nomes do governo.

Marina Silva lidera com 36,6% e Simone Tebet vem logo atrás, com 34,3%, empatadas dentro da margem. As duas superam com folga os nomes do bolsonarismo, como Guilherme Derrite, com 25,1%, e Ricardo Salles, com 18,7%.
Se a eleição fosse hoje, o campo democrático faria as duas cadeiras paulistas no Senado. É uma base de sustentação que vale tanto para a corrida estadual quanto para a presidencial.

Clique aqui para baixar a pesquisa na íntegra.

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Atlas Intel traz Flavio em queda livre após áudio com Vorcaro https://www.ocafezinho.com/2026/05/19/atlas-intel-traz-flavio-em-queda-livre-apos-audio-com-vorcaro/ https://www.ocafezinho.com/2026/05/19/atlas-intel-traz-flavio-em-queda-livre-apos-audio-com-vorcaro/#comments Tue, 19 May 2026 16:20:04 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=249136 31 Comentários 🔥]]> Os áudios em que Flávio Bolsonaro pede dinheiro a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para custear o filme Dark Horse sobre seu pai, vazados pela Intercept Brasil, produziram um efeito devastador no eleitorado brasileiro. A primeira pesquisa nacional realizada após o escândalo — Atlas Intel/Bloomberg, divulgada em maio de 2026 — quantifica o estrago: a candidatura do senador encolheu no 1º e no 2º turno, e a reação negativa ao episódio atinge mais de 60% do eleitorado.

No 2º turno contra Lula, Flávio caiu de 47,8% em abril para 41,8% em maio — uma queda de seis pontos percentuais em apenas um mês, justamente aquele em que o áudio veio a público. Lula, no mesmo intervalo, subiu de 47,8% para 48,9%, abrindo a maior vantagem do período: 7,1 pontos percentuais de diferença. Em abril, os dois estavam tecnicamente empatados; em maio, o cenário é outro.

 

 

No 1º turno, o tombo foi ainda mais severo. Flávio bateu seu pico em março, com 40,1%, e despencou para 34,3% em maio — perda de quase seis pontos em apenas dois meses. Lula, no mesmo período, oscilou pouco e voltou ao patamar dos 47%. A diferença entre os dois agora é de mais de doze pontos percentuais no 1º turno.

 

 

Mais de 60% do Brasil ficou menos disposto a votar em Flávio

O dado mais revelador da pesquisa Atlas Intel/Bloomberg, porém, não está nas intenções de voto, mas na pergunta sobre o impacto direto do episódio: “Após tomar conhecimento das conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, você ficou mais ou menos disposto a votar nele para presidente?

Quando se somam as três respostas negativas — “já não votaria nele de jeito nenhum” (47%), “muito menos disposto” (9,7%) e “menos disposto” (3,7%) —, chega-se a um indicador composto de 60,3% de reação negativa. Ou seja, três em cada cinco brasileiros declararam abertamente que ficaram mais distantes da candidatura de Flávio Bolsonaro depois das revelações.

 

 

Apenas 17,4% afirmaram o oposto — que ficaram mais dispostos a votar nele —, e 21,1% disseram que o episódio não afetou sua disposição. O saldo é categoricamente negativo, e o desproporcionalmente alto índice de “já não votaria de jeito nenhum” mostra que não se trata de um movimento mole, oscilante: é rejeição consolidada.

Por dentro do eleitorado de Flávio: a base aguentou, o teto desabou

A leitura mais importante, do ponto de vista político-eleitoral, não é, porém, o impacto no eleitorado adversário — que já rejeitava Flávio em massa antes do áudio. O que importa é entender o que aconteceu dentro do eleitorado potencial do senador: justamente os segmentos onde ele tinha mais base e mais espaço de crescimento. E aqui a pesquisa traz um paradoxo que estrutura toda a leitura política do momento.

A base ideológica e religiosa do bolsonarismo aguentou. Entre os eleitores que votaram em Jair Bolsonaro no 2º turno de 2022, apenas 20,4% declararam reação negativa aos áudios — quase quarenta pontos abaixo da média Brasil. Entre evangélicos, o indicador é de 43,5% — também abaixo da média. Na faixa de 35 a 44 anos, núcleo etário historicamente bolsonarista, fica em 51%. Em termos práticos, a fidelidade ideológica e religiosa do bolsonarismo raiz sobreviveu ao escândalo: o voto duro continua disponível.

 

 

Mas o teto eleitoral de Flávio desabou. É aqui que a pesquisa traz o achado mais grave para a candidatura. Entre os eleitores com renda familiar acima de R$ 10 mil, o indicador de reação negativa chega a 72,9% — treze pontos percentuais acima da média Brasil. Em pesquisas anteriores do Quaest e do próprio Atlas, esta era exatamente a faixa onde Flávio era mais competitivo no 2º turno: chegava a 58% de intenção de voto contra Lula. Era nesse segmento que ele construiria a vantagem necessária para vencer uma eleição nacional. Após os áudios, mais de sete em cada dez eleitores dessa faixa estão menos dispostos a votar nele.

 

 

Na faixa adulto-jovem dos 25 a 34 anos, outro território de expansão potencial do bolsonarismo, o indicador é de 64,9% — também acima da média. O Flávio, em síntese, manteve a base e perdeu o teto.

O eleitor disponível virou parede

O dado talvez mais dramático para o futuro político do senador está no comportamento dos chamados swing voters — aqueles eleitores que historicamente não estão ancorados em nenhum polo e que decidem segundo turno: quem votou branco, nulo, ou simplesmente não votou em 2022. São eles que, em qualquer eleição apertada, determinam o resultado.

 

 

Pois entre quem votou em branco ou nulo em 2022, a reação negativa ao áudio chega a 86,9%. Entre quem não foi votar em 2022, atinge 75,3%. Em termos comparativos: nos territórios que Flávio mais precisaria conquistar para vencer Lula no 2º turno, o impacto do escândalo foi praticamente o mesmo que entre os eleitores de Lula. A porta foi fechada.

A leitura é direta: o áudio do Banco Master não derrubou apenas a popularidade momentânea do senador. Ele consolidou uma imagem de continuidade tóxica do bolsonarismo — não como projeto político, mas como prática familiar — exatamente entre os eleitores que poderiam ser convertidos.

A força preservada de Lula

Do lado oposto da disputa, o presidente Lula chega a maio de 2026 em situação claramente mais favorável do que há alguns meses. A aprovação binária registra 47,4% aprovam contra 51,3% desaprovam, em recuperação leve frente a abril (46% × 53%). Na avaliação do governo, Ótimo/Bom está em 42,9%, contra 48,4% de Ruim/Péssimo — também ligeiramente melhor que o índice de fevereiro.

O quadro não é de euforia. É de estabilização, e isso, depois de quase um ano de desgaste, já é em si um sinal importante. A série temporal da pesquisa mostra que a aprovação binária de Lula despencou de 51% em janeiro de 2024 para 45% em abril de 2025, e desde então oscila num corredor estável em torno de 46–47%. A última leitura é a melhor desde fevereiro.

O presidente mantém bases sólidas e identificáveis: os mais velhos (56,1% de aprovação entre os de 60 anos ou mais; 54,6% na faixa de 45 a 59), os católicos (52,7%), os agnósticos e ateus (73,2%), as mulheres (49,9%), os nordestinos (54,8% de aprovação), o ensino superior (53%), os eleitores de renda mais baixa (49,4% até R$ 2 mil) e — dado especialmente relevante neste momento — também a faixa de renda mais alta, acima de R$ 10 mil: 56,1% de aprovação.

Esta característica do lulismo em 2026 — ter apoio forte tanto na base da pirâmide social quanto no topo — é uma das chaves para entender por que ele se sustenta enquanto Flávio derrete. A classe alta, que reagiu pior que a média ao escândalo Vorcaro, é o mesmo segmento que aprova majoritariamente o governo Lula. Há uma elite econômica que, sem nenhum entusiasmo petista, prefere a estabilidade institucional do atual governo ao retorno da família Bolsonaro ao Palácio do Planalto.

Os desafios da reeleição também estão mapeados, e devem ser tratados sem complacência. A juventude (16 a 24 anos) segue refratária (apenas 29,9% de aprovação); os evangélicos consolidam o bloco mais resistente (25,1%); o ensino médio segue como faixa intermediária ainda hostil (41,3%); e o Sul (37,3%) e o Centro-Oeste (31,5%) reproduzem padrões de oposição já conhecidos. São territórios a serem trabalhados — não com pirotecnia, mas com presença, política pública e comunicação que enfrente a desinformação.

Dois projetos, dois Brasis

Os áudios do Banco Master não devem ser lidos como acidente isolado de percurso. Eles emergem num contexto em que escândalos de corrupção do governo Bolsonaro estão sendo desvelados em série: a operação fraudulenta do próprio Banco Master, consolidado no quadriênio bolsonarista, e a chamada fraude do INSS, igualmente consolidada naquele governo, vêm a público com mais clareza a cada semana.

O contraste de projetos políticos, hoje, é cristalino. De um lado, o bolsonarismo — o projeto que produziu a convocação humilhante de embaixadores, a tentativa de golpe de 8 de janeiro, o descrédito das urnas eletrônicas, a baixaria diária no Twitter e no cercadinho, o xingamento sistemático de jornalistas, a tentativa de desmantelar instituições do Estado, as manifestações descumprindo a lei, a fraude do cartão de vacinação, e agora os esquemas financeiros e previdenciários que começam a emergir. Quatro anos de anomia institucional e barulho permanente.

Do outro lado, o governo Lula — com todos os seus problemas, suas tensões internas, sua dificuldade de comunicação e suas escolhas econômicas debatíveis — entregou estabilidade: respeito às instituições, previsibilidade jurídica, política econômica funcional, retomada da imagem internacional do país. Um Brasil de alívio, depois de quatro anos de tensão permanente. Não é entusiasmo: é normalidade. Mas a normalidade, em um país que esteve à beira do colapso democrático, é em si um valor político imenso — e a pesquisa Atlas mostra que parte significativa do eleitorado já reconhece isso.

A tarefa da frente democrática

A pesquisa Atlas Intel/Bloomberg desenha, portanto, uma janela de oportunidade clara para o campo democrático. E a tarefa principal, a partir de agora, é manter acesa a chama da indignação popular sobre o que esses áudios representam. Não como hostilização partidária — como vigilância cívica.

O caso Vorcaro precisa ser rigorosamente investigado. O uso do dinheiro pedido por Flávio Bolsonaro para custear o filme Dark Horse — produto de propaganda política da família — deve ser apurado em todos os seus desdobramentos: a origem dos recursos, os intermediários, as eventuais contrapartidas oferecidas ao Banco Master, a relação entre o pleito do senador e o destino institucional do próprio banco. Não pode haver impunidade, nem silêncio cúmplice, nem normalização do que a pesquisa mostra que três em cada cinco brasileiros já consideraram inaceitável.

Para o presidente Lula e seu campo, a leitura tática é igualmente clara. Há agora espaço político para consolidar a vantagem — espaço que não havia há três meses. E esse espaço deve ser usado para três coisas concretas:

Primeiro, construir melhor as alianças para 2026. A janela aberta permite negociar com mais força e clareza programática; é hora de definir compromissos, não de protelar definições.

Segundo, iniciar uma comunicação mais assertiva sobre o que já foi feito. A pesquisa mostra que parte do eleitorado simplesmente não reconhece as entregas do governo. Uma prestação de contas direta, com números e com nomes, dirigida especialmente aos segmentos onde a aprovação é mais frágil — a juventude, o ensino médio, o Sul — é tarefa urgente.

Terceiro, e talvez o mais importante: abrir a discussão pública sobre o que o Brasil deseja para os próximos quatro anos. Que país queremos construir? Que projeto de desenvolvimento? Que política industrial? Que reforma tributária? Que política externa para a transição multipolar? Que sociedade do trabalho na era da inteligência artificial? Não basta administrar o presente — é preciso oferecer horizonte.

Lula tem, neste momento, a chance de reconquistar parte do eleitorado oferecendo o que o bolsonarismo nunca conseguiu oferecer: esperança, sonho, desenvolvimento. Um projeto positivo para o Brasil. Não a recusa do passado, mas a construção do futuro.

O efeito devastador dos áudios sobre Flávio Bolsonaro abriu essa janela. Cabe ao campo democrático mantê-la aberta — e fazer da indignação de hoje a esperança de amanhã.

Leia a íntegra da pesquisa aqui.

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Ciro se lança candidato ao governo do Ceará lambendo as botas do bolsonarismo https://www.ocafezinho.com/2026/05/19/ciro-se-lanca-candidato-ao-governo-do-ceara-lambendo-as-botas-do-bolsonarismo/ https://www.ocafezinho.com/2026/05/19/ciro-se-lanca-candidato-ao-governo-do-ceara-lambendo-as-botas-do-bolsonarismo/#comments Tue, 19 May 2026 07:10:14 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=248982 23 Comentários 🔥]]> “Meu irmão, você tá querendo ser preso? Vai começar aqui? O cara tá fazendo o símbolo do Comando Vermelho ali. Prende ele.”

Ciro Gomes apontou o dedo para um apoiador na plateia e mandou prendê-lo. Estava no meio do discurso de lançamento de sua pré-candidatura ao governo do Ceará, no sábado, 16 de maio, em Fortaleza.

O apoiador estava apenas fazendo um C com a mão, gesto que a campanha de Ciro em 2022 havia tentado viralizar como resposta ao “L” dos eleitores de Lula. Depois de alguns segundos de perplexidade, em que as pessoas sorriam e pareciam acreditar tratar-se de uma espécie de brincadeira, percebeu-se que Ciro estava falando sério.

Então sua própria mulher lhe cochichou algo ao ouvido, depois lhe deu um tapinha nas costas, com olhar do tipo “que isso, meu amor, menos”.

Houve em seguida algumas risadas nervosas no palco. Todos tentaram disfarçar o constrangimento.

Possivelmente para justificar o surto meio louco meio autoritário como excesso de zelo contra o crime, Ciro subiu ainda mais a voz e gritou. “Comando Vermelho, olha isso aqui, vai pra cadeia! Vai pra cadeia!”

O caso seria apenas ridículo se não fosse perigoso, pois a cena poderia ter facilmente descambado para uma agressão física a uma pessoa inocente.

O ex-governador apareceu rodeado pela nata da ultradireita cearense. No palco estavam André Fernandes, deputado federal e presidente do PL no Ceará, e o pai dele, pastor Alcides Fernandes, indicado pelo PL para o Senado na chapa.

Junto deles, Capitão Wagner, do União Brasil, escolhido como o outro candidato a senador, além do vereador ultrarracionário Inspetor Alberto, do PL.

Em 2020, Inspetor Alberto havia sido processado por Ciro, que pedia R$ 50 mil de indenização após ser chamado em vídeos públicos de “drogueiro”, “chorão” e “homem do nariz nervoso”. Em fevereiro deste ano, Ciro retirou os processos. Agora é seu aliado.

O discurso foi agressivo e monotemático, concentrado quase exclusivamente em segurança pública. Aparentemente, Ciro quer se autopromover como o Bukele cearense.

Para não deixar dúvidas sobre seu compromisso com o ideário bolsonarista, declarou que seus dois candidatos ao Senado teriam apenas duas tarefas: endurecer as leis e “colocar um freio nesse lado apodrecido do Supremo Tribunal Federal”.

“Não é mais possível o Brasil ficar calado, amedrontado, diante de tanto abuso que está acontecendo lá.”

Na coletiva de imprensa subsequente ao evento, Ciro foi questionado sobre os áudios em que Flávio Bolsonaro pediu dinheiro ao dono do Banco Master para financiar filme sobre Jair Bolsonaro. A reação de Ciro foi atacar a jornalista que fez a pergunta, insinuando que ela fazia “jogo do PT”.

Na verdade, porém, não se trata de um Ciro muito diferente do de 2022. Só que, na eleição presidencial, ainda tentava disfarçar o namoro com a ultradireita golpista. Hoje desfila a seu lado com orgulhoso, enquanto manda prender seus próprios apoiadores.

Em 2022, embora tentasse se vender como terceira via de centro, ele já havia descambado para uma postura emocional extremamente agressiva, reacionária e antidemocrática, agredindo jornalistas e pessoas comuns que ousassem questioná-lo sobre suas opções.

Por fim, passou a atacar os próprios apoiadores históricos. Acusou Caetano Veloso, que havia anunciado voto em Lula, de ter mudado de posição por interesse financeiro.

Gregório Duvivier, humorista do Porta dos Fundos e hoje um dos apresentadores do podcast Calma Urgente, ao lado de Alessandra Orofino e Bruno Torturra, também foi atacado publicamente, assim como tantos outros artistas que se manifestavam em favor de Lula.

A diferença é que agora Ciro abandonou a fachada de terceira via, de alternativa à polarização, e mergulhou de cabeça no bolsonarismo mais doentio, violento e corrupto.

Quem te viu, quem te vê.

Assista aos dois vídeos abaixo.

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https://www.ocafezinho.com/2026/05/19/ciro-se-lanca-candidato-ao-governo-do-ceara-lambendo-as-botas-do-bolsonarismo/feed/ 23
A renovação da esquerda já começou https://www.ocafezinho.com/2026/05/18/a-renovacao-da-esquerda-ja-comecou/ https://www.ocafezinho.com/2026/05/18/a-renovacao-da-esquerda-ja-comecou/#comments Mon, 18 May 2026 05:39:43 +0000 https://www.ocafezinho.com/?p=248553 20 Comentários 🔥]]> Uma das críticas regularmente feitas a Lula, ao PT e à esquerda brasileira é que esse campo político não estaria se renovando.

A preocupação é legítima. A esquerda precisa mesmo acelerar sua renovação, abrir mais espaço para jovens lideranças, disputar linguagem, território e redes. Mas talvez fosse saudável que essa crítica olhasse menos para impressões cristalizadas e mais para o que efetivamente acontece no Brasil.

A renovação existe. Talvez não tão ampla quanto deveria, nem com a velocidade necessária diante da ofensiva da extrema direita nas redes, nas igrejas, nas escolas e nas periferias. Mas está aí — nos mandatos populares espalhados pelo país, nas câmaras municipais, nas assembleias, no Parlamento Federal, nos movimentos sociais e em novas experiências administrativas.

João Campos, por exemplo, tornou-se prefeito do Recife aos 27 anos, o mais jovem da história da capital pernambucana.

No Rio de Janeiro, a renovação tem nome, rosto, território e movimento social. Maíra do MST, vereadora do PT, tem 30 anos, nasceu e foi criada em Jacarepaguá e chegou à Câmara Municipal do Rio como expressão de uma geração formada na interseção entre movimento estudantil, luta popular, feminismo, reforma agrária e combate à fome.

Eleita em 2024 com 14.667 votos, Maíra ficou em 44º lugar entre os 51 vereadores eleitos do Rio e é a terceira mais votada da bancada do PT, que elegeu quatro parlamentares — o mesmo número do PSOL. Somados os partidos de esquerda na Câmara, são apenas 11 vereadores em 51, num parlamento dominado pela base de Eduardo Paes (PSD, 16 cadeiras) e pelo PL (7). A chegada de Maíra representa também a entrada do MST numa nova etapa de atuação política urbana. O movimento já havia mostrado força no estado com a eleição de Marina do MST para a Assembleia Legislativa em 2022, com cerca de 46 mil votos.

A eleição de Maíra faz parte de uma estratégia mais ampla do MST. Em 2022, o movimento lançou pela primeira vez candidaturas coordenadas nacionalmente — 15 nomes em 12 estados, com seis eleitos para o Congresso e para as assembleias legislativas, o melhor resultado em quase quatro décadas. Em 2024, nas municipais, a aposta cresceu: 600 candidaturas em 367 municípios de 22 estados, com 133 eleitos — 23 prefeitos e vice-prefeitos e 110 vereadores. No Rio, além de Maíra, o MST elegeu Washington Quaquá (PT) prefeito de Maricá.

Maíra recebeu O Cafezinho em seu gabinete para uma conversa sobre sua história, seus projetos, o Brasil, a juventude e o papel dos movimentos sociais num momento em que a democracia brasileira volta a ser testada.

Sua trajetória é orgânica. Filha de militantes petistas, cresceu acompanhando lutas territoriais em Jacarepaguá e se formou politicamente no Levante Popular da Juventude, no movimento estudantil e no MST. É historiadora pela UERJ e pesquisa os movimentos políticos anteriores à ditadura militar, com foco na reforma agrária.

Maíra ajuda a desmontar a caricatura de que o MST seria um movimento distante da vida urbana. Durante a pandemia, segundo ela, o MST ampliou sua presença no trabalho urbano com ações de solidariedade, entrega de marmitas, cozinhas populares e o projeto Periferia Viva. Foi nesse período que a conexão entre campo e cidade ganhou ainda mais força: reforma agrária, alimentação saudável, agroecologia, agricultura urbana e combate à fome passaram a aparecer como partes de uma mesma luta.

No Rio, essa síntese tem peso especial. Maíra lembra que, durante a campanha, teve acesso ao Mapa da Fome da cidade, que apontava 2 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar no município. Esse dado se tornou um dos eixos centrais de seu mandato.

Na Câmara Municipal, Maíra conseguiu participar da criação de uma Comissão Permanente de Segurança Alimentar. Antes, o tema aparecia de forma mais limitada em frentes parlamentares, com duração menor. A diferença é política e institucional: uma frente pode desaparecer com o tempo, uma comissão permanente coloca o combate à fome dentro da rotina da Câmara.

“Uma Comissão Permanente de Segurança Alimentar coloca o debate do combate à fome como parte do cotidiano dessa casa, com Maíra do MST ou sem Maíra do MST.”

Maíra não fala como alguém que caiu de paraquedas numa eleição. Fala como expressão de uma caminhada coletiva.

“O nosso mandato não é pensado apenas na figura de uma pessoa, mas na figura de um projeto político.”

Esse projeto envolve MST, PT, Levante Popular da Juventude, Movimento Brasil Popular, juventudes petistas, movimentos de moradia e organizações populares da cidade.

Outro eixo forte da entrevista é sua análise sobre a juventude. Maíra reconhece um problema real: setores da juventude, especialmente homens jovens, têm sido capturados pela extrema direita. Ela tenta entender o processo histórico.

Segundo Maíra, a geração que hoje começa a votar cresceu sob os efeitos do golpe contra Dilma, do governo Temer, do bolsonarismo, da precarização do trabalho, do sucateamento das universidades e do enfraquecimento das políticas públicas para jovens.

“Houve um desmonte do Estado que afetou essa juventude e tirou a capacidade de se pensar num futuro de possibilidades.”

A juventude não foi capturada pela direita porque nasceu conservadora. Foi empurrada para um mundo sem direitos, sem estabilidade e sem horizonte coletivo. A extrema direita soube explorar esse vazio — vendeu a ideia de que a saída é individual, que o trabalho sem direitos é liberdade, que a precarização é empreendedorismo, que o ódio é coragem.

Maíra chama atenção para o papel das Big Techs nesse processo. Para ela, a internet se tornou um espaço de manutenção de valores masculinistas e de disseminação de fake news por meio de linguagens joviais.

“Enquanto a gente não regulamentar o poder dessas Big Techs, a gente vai continuar tendo esse problema de acesso à informação manipulada através das fake news.”

A vereadora também aponta uma saída. A esquerda precisa recuperar a esperança da juventude com políticas públicas concretas: educação pública, trabalho com direitos, combate à jornada 6×1, Tarifa Zero, acesso à universidade, cultura, lazer e retomada do papel da escola como espaço de sociabilidade.

Uma proposta apresentada por ela na entrevista tem força especial: tarifa zero no transporte público para estudantes nos dias do Enem e do vestibular da UERJ. A ideia é simples e poderosa — se o jovem não tem dinheiro para a passagem, o direito formal à educação se transforma em ficção.

“Parte dos jovens não consegue chegar aos locais de prova porque simplesmente não tem o dinheiro da passagem.”

Não se combate a extrema direita apenas com discursos. Combate-se também garantindo que um jovem pobre consiga fazer uma prova, entrar numa universidade, circular pela cidade e enxergar algum futuro para além da tela do celular.

Na parte final da entrevista, Maíra fala sobre 2026. Para ela, a próxima eleição será novamente decisiva — não porque a esquerda deseje viver em clima permanente de emergência democrática, mas porque a extrema direita ainda ameaça as instituições, a memória do país e o próprio pacto democrático.

Maíra rejeita a ideia abstrata de “superar a polarização”:

“Como é que supera a polarização se as forças políticas do Brasil ainda estão polarizadas? Na polarização a gente tem um lado, que é o lado do antifascismo, que é o lado da democracia, que é o lado de quem respeita as instituições.”

A polarização brasileira não é uma briga estética entre dois extremos equivalentes. Ela expressa uma disputa concreta entre um campo que, com todas as suas contradições, atua dentro da democracia, e outro que flertou abertamente com golpe, violência política e desrespeito às instituições.

No Rio, Maíra defende a eleição de Benedita da Silva para o Senado, afirmando que Benedita carrega “quase que a história da democracia no Brasil pós-ditadura”. Ao mesmo tempo, reconhece as contradições da frente ampla no estado. Sobre Eduardo Paes, diz ter muitas diferenças com seu projeto de cidade, que classifica como neoliberal. Ainda assim, vê a candidatura apoiada pelo PT como parte de uma frente necessária para impedir o avanço da extrema direita no governo estadual.

“A eleição estadual do Governo do Estado vai ser uma eleição que é democracia versus barbárie.”

Há renovação. Ela está nos movimentos sociais que decidiram disputar o Parlamento, em jovens mulheres que saem da militância estudantil e chegam às câmaras municipais, em mandatos que falam de fome, transporte, universidade, Big Techs, reforma agrária, democracia e juventude dentro de uma mesma visão de país.

Maíra do MST é parte dessa renovação. Não a única, nem uma exceção isolada — mas um exemplo expressivo de uma esquerda que tenta se reconstruir sem abandonar sua memória histórica. No caso dela, a luta pela terra encontra a cidade, a reforma agrária encontra a segurança alimentar, o MST encontra a Câmara Municipal do Rio. E a juventude deixa de ser apenas objeto de preocupação eleitoral para se tornar sujeito político de uma nova etapa da esquerda brasileira.

 

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